1 2 Mosteiros Cistercienses II Congresso Internacional Cister TOMO II História 3 Título: Cister. Tomo II – História Coordenação: José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho Concepção e arranjo da capa: Gonçalo Fernandes Colecção: História & Memória – 7 © AMA - Associação dos Amigos do Mosteiro de Alcobaça Apoios: Câmara Municipal de Alcobaça Cooperativa Agrícola de Alcobaça © para a produção Hora de Ler, Unipessoal Lda. Urbanização Vale da Cabrita Rua Dr. Arnaldo Cardoso e Cunha, 37 - r/c Esq. 2410-270 LEIRIA - PORTUGAL e-mail:
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Le " testament " d'Alain de Flandre, moine de Clairvaux, abbé de Larrivour et évêque d'Auxerre (1182) ARNAUD BAUDIN 33 Reformas e observâncias na Ordem de Cister JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS 53 Poder e território nos coutos de alcobaça LEONEL FADIGAS 65 Das religiosas que "foi Deus servido levar para si…" – o contributo dos obituários de Lorvão para a reconstituição das suas últimas comunidades monásticas AIRES GOMES FERNANDES 83 A Livraria do Mosteiro de Alcobaça entre 1810 e 1833 SAUL ANTÓNIO GOMES 111 Aproximación al proceso de formación de un dominio monástico femenino en Asturias. El monasterio cisterciense de Gúa (Somiedo, Asturias) ANA LOCHÉ GONZÁLEZ 137 Les catalogues d'abbayes et la chronologie de l'expansion cistercienne dans l'ouest de l'Europe (XIIe-XIIIe siècles) ALEXIS GRÉLOIS 153 Nuevos documentos del archivo del monasterio de Santa María de Belmonte, Asturias (ss XIV-XVI) Estudio y edición CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ 163 7 Igreja de Santa Maria-a-Velha: Notas de investigação sobre os primórdios de Cister em Alcobaça ANA MARGARIDA MARTINHO 185 Noviços do Mosteiro de São João de Tarouca 1692-1763 – da tomada do hábito à profissão para monge LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA 195 O mosteiro de Celas, Alenquer e Santa Maria Rotunda MARIA DO ROSÁRIO BARBOSA MORUJÃO e INÊS SOFIA LOURENÇO OLAIA 227 As rendas eclesiásticas no fenómeno do barroco nacional. Bens e recursos AURÉLIO DE OLIVEIRA 245 Párocos constitucionais e párocos resistentes ao regime liberal em terras de Cister (1821-1822) JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA 257 Los libros forales del monasterio de Nuestra Señora de Belmonte (Asturias, España): siglos XVI-XIX GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ 275 Espacialidade cisterciense feminina: boticas e a arte de curar – Lisboa, Évora e Portalegre (Portugal) MARÍZIA PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO e MARIA FILOMENA MOURATO MONTEIRO 293 Congregações cistercienses: modelos e objectivos RUI RASQUILHO 319 Perfis de Abades Perpétuos,Abades Trienais e frades regressados ao Alto Minho após a extinção das ordens religiosas HENRIQUE RODRIGUES 329 Moreruela en la época de los Reyes Católicos: renacimiento de un monasterio ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ 361 Les voyages et les relations de l'abbé de Morimond avec la Péninsule ibérique au moyen âge BENOIT ROUZEAU 383 O (pseudo)arquivo pessoal de Frei Bernardo de Brito na Biblioteca Nacional de Portugal CARLOS GUARDADO DA SILVA 421 8 História Fachada do Mosteiro de Alcobaça. Foto Alvão 9 10 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE* O Mosteiro de Santa Maria de Salzedas teve, desde a sua fundação, diferentes privilégios concedidos pelos monarcas. Mas o que irá ser objeto de maior controvérsia, ao longo da História deste Mosteiro será o que foi concedido em 1164 por “D. Mendo Bispo de Lamego, em acordo com o cabido da Sé de Lamego, o rei D. Afonso Henriques, e o Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, abdica da jurisdição episcopal e dos seus direitos nos territórios do mosteiro de Salzedas (fr. c. Tarouca)”1. É sobre ele que nos vamos debruçar neste trabalho. A 13 de abril de 1152, D. Afonso Henriques couta Argeriz pelos seus limites a D. Teresa Afonso autorizando-a a vender ou doar este Couto a quem ela entender2; em junho de 1155, D. Afonso Henriques autoriza D. Teresa Afonso a transferir o Couto de Argeriz, pelos seus limites, ao Mosteiro de Salzeda3 e, em 1163, faz doação ao Abade João Nunes da jurisdição e direitos reais que possuía no referido Couto do Mosteiro.4 Logo na concessão do Couto de Argeriz aos monges por D. Teresa Afonso, em 29 de maio de 1156, altura em que o abade João Nunes faz juramento de introduzir a observância beneditina, e a ordem monástica cisterciense, atendendo ao pedido de D. Teresa Afonso, do rei e da rainha, possibilitada pela anterior autorização da transferência do mesmo Couto ao Mosteiro da Salzeda5 por D. Afonso Henriques, em junho de 1155, este Mosteiro fica na posse de um território que lhe dá um poder fundiário considerável. * Associação de Valorização e Defesa do Património do Vale do Douro SARAIVA, Anísio – A Sé de Lamego na primeira metade do séc. XIV (1296-1349), Magno Editores, 2003, p. 519 ALMEIDA FERNANDES, A. de, – Os primeiros Documentos de Santa Maria de Salzedas, Guimarães, 1985, p. 96 3 Ibidem, p. 131 4 REIS, Fr. Baltazar dos – Livro da Fundação do Mosteiro de Salzedas, Lisboa 1934, pp. 54, 69 5 REIS, Fr. Baltazar dos – Breve relação da Fundação e Antiguidade do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, Lisboa, 19367, pp.26-29 1 2 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 11-25 11 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE A 25 de julho de 1159, a doadora outorga a carta libertatis6ao Mosteiro, com o consentimento de seus filhos, netos e do rei. Fica, assim, o Mosteiro, o seu couto e outras doações de bens que esta venha a fazer, cum omnibus acquisitionibus suis sive gananciis quas interius vel exterius acquisivi7, libertos de padroado laico, o que mostra que, desde o seu início, esteve sempre este Mosteiro liberto de qualquer padroado. A janeiro de 1161, D. Afonso Henriques isenta de direitos reais o Couto de Argeriz, especificando minuciosamente os limites do couto e, ao mesmo tempo, a igreja de S. Martinho de Gaia, confirmando esta na posse do Mosteiro. O poder económico dado pela extensão do Couto de Argeriz alia-se ao poder das suas jurisdições que lhe são conferidas e pela cedência da parte do poder eclesiástico que lhe é cedido pelo Bispo de Lamego, D. Mendo, que, em março de 1164, renuncia da Jurisdição Episcopal a que teria direito neste Mosteiro e nos lugares do Couto de Argeriz, convertendo, desta forma, toda esta área no Isento do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, desde então independente espiritualmente do Bispo de Lamego e da Diocese. No mesmo ano, o referido Bispo pede ao Papa a confirmação deste ato. O Papa Inocêncio III faz a respetiva confirmação através de uma bula concedida a 12 de novembro de 1209, dada no Concílio de Latrão8. 1164-março “D. Mendo Bispo de Lamego, em acordo com o cabido da Sé de Lamego, o rei D. Afonso Henriques, e o arcebispo de Braga, D. João Peculiar, abdica da jurisdição episcopal e dos seus direitos nos territórios do Mosteiro de Salzedas (fr.c.Tarouca) recebendo do rei em compensação a igreja e Couto de Bagaúste (fr. Fontelo, c. Armamar), e de D. Teresa Afonso dois casais em Vila de Rei (fr. Sé, c.Lamego).” “Ea propter ego Menendus Dei gratia Lamecensis ecclesie episcopus una cum consensu canonicorum ejusdem ecclesie consensu etiam Alfonsi excelentissimi Portugalensium regis … juri meo quod habeo in ecclesia de Salzedas renuncio et eandem ecclesiam ab omni debito Lamecensis Sedis absolvo et liberam com toto cauto suo esse concede…” Confirmação do Papa Inocêncio III 1209, novembro, 12, Latrão. Bula Religiosam vitam eligentibus “do papa Inocêncio III dirigida ao abade e monges do Mosteiro de Salzedas (fr., c. Tarouca), a determinar que estes observem perpetuamente a regra de Cister, que toma debaixo da protecção apostólica com todos os bens, e a confirmar-lhe todos os direitos e privilégios” ALMEIDA FERNANDES, A. de – Os primeiros Documentos de Santa Maria de Salzedas, Guimarães, 1985, p.161 7 Ibidem, pp. 205-206 8 REIS, Fr. Baltazar dos – Livro da Fundação do Mosteiro de Santa Maria da Salzeda, Lisboa, 1934, p. 25 6 12 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES “… sub Beati Petri et nostra proteccione suscipimus et presenti sripti privilegio communimus … perpetuis ibidem temporalibus inviolabiliter observetur... quasque possesiones quecumque bona que idem monasterium … possidet aut in futurum concessione pontificium …”9 Sobre estes documentos e o seu conteúdo vai gerar-se uma polémica que durará até à extinção deste Mosteiro sobre a jurisdição Ordinária e a Jurisdição Episcopal do Mosteiro na pessoa dos seus Abades e monges. D. Mendo demitiu todos os direitos episcopais no couto deste Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e recebeu em troca a igreja e o Couto de Bagaúste e dois casais em Vila de Rei. Esta concessão do Bispo D. Mendo, numa época em que o povoamento do reino e a introdução da ordem de Cister em Portugal eram de grande importância, vai ser o pomo de discórdia entre o Bispado de Lamego e este Mosteiro durante quase toda a sua existência. Dentro do Couto de Argeriz, as jurisdições que se aplicavam eram as do Mosteiro e não as do reino e o poder do Bispo de Lamego não se aplicava nem ao Mosteiro nem ao Couto, este era o entendimento do Abade e monges de Santa Maria de Salzedas. Ainda assim o entendia em 1307 o Bispo de Lamego D. Diogo, que reconheceu os direitos e jurisdições deste Mosteiro e os validou. Após este reconhecimento e confirmação, nunca mais houve um entendimento completo sobre as primitivas demissões de D. Mendo da parte do Bispado que sempre tentou fazer valer a posição de que uma coisa eram os direitos episcopais (bens materiais – as rendas), a que, sem grande contestação, o Mosteiro teria direito, outra era a jurisdição episcopal (assuntos espirituais – as almas), que pertencia exclusivamente aos Bispos10. O Mosteiro nunca abdicou delas e envidou todos os esforços e influências, ao seu alcance, para as manter até ao seu encerramento. O sucessor de D. Diogo, no bispado de Lamego, D. Rodrigo de Oliveira, pôs em causa as jurisdições que os monges de Santa Maria de Salzedas afirmavam ter sido concedidas por D. Mendo. Neste contexto, em 27 de julho de 1314, é apresentada, em Lamego, ao Bispo D. Rodrigo de Oliveira por Fr. André, celeireiro do Mosteiro, a carta de D. Mendo e a bula que coloca o Mosteiro sob a proteção pontifícia e a direta obediência ao Papa. A questão resolveu-se através de um breve do Papa João XXII em 1319, que confirmou ao Mosteiro os seus direitos. Após várias demandas, o Bispo pouco conseguiu dos seus intentos: em 1357, o abade de Salzedas só cedeu no que tocava às causas matrimoniais e sacrilégios, cedência esta que logo é anulada, em 1359, pela troca da Igreja de Britiande e de dois casais em Ferreiros de Tendais.11 O acordo foi confirmado SARAIVA, Anísio – A Sé de Lamego na primeira metade do séc. XIV (1296-1349), Magno Editores, 2003, p. 519 VITERBO, Joaquim de Santa Rosa – Elucidário das palavras, Termos e Frases, ed. Critica por Mário Fiúza, Porto, Livraria Civilização Editora, 1983, vol. I. p. 141-142 11 GONÇALVES DA COSTA, Manuel – História da Cidade e Bispado de Lamego, Lamego,1977, vol. I p. 163 9 10 13 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE pela Sé Apostólica, mas os monges de Santa Maria de Salzedas exigiram a inclusão de uma cláusula que, caso os Bispos de Lamego ou os Cónegos voltassem a pôr em causa as jurisdições que o Mosteiro afirmava e justificava ter, os bens cedidos voltariam à posse deste Mosteiro. A 9 de junho de 1372, D. Frei Salvado, Bispo de Lamego reconhece aos Abades das Salzedas a Jurisdição Episcopal nos limites do seu couto12. Durante os séculos XIV, XV e início do XVI, o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas vai ter uma relação privilegiada e gozar da proteção dos Senhores do Couto de Leomil, os Coutinhos, os quais foram também mantendo diversos conflitos com a diocese de Lamego, chegando mesmo a ser ameaçados pelo Bispo de Lamego de interdição da cidade e alguns dos membros mais importantes da linhagem foram mesmo excomungados13; devido aos cargos que esta linhagem foi ocupando ao longo deste período e à privilegiada e próxima relação que usufruíam junto dos monarcas da dinastia de Avis, foram muitos e variados os abusos que foram cometendo no exercício dos seus múltiplos cargos na Beira e no Reino – Senhores do Couto de Leomil, Meirinhos-mores do rei, Meirinhos-mores na Beira, Alcaide de Lamego, Trancoso, Marechal do reino, Conselheiros do Rei, Condes de Marialva, Marqueses de Marialva, Fidalgos da Casa Real, entre muitos outros. Os Coutinhos efetivaram com o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas vários escambos. Ao analisarmos estes escambos, efetuados em 1393, 1410, 1412, entre Gonçalo Vasques Coutinho e este Mosteiro, são evidentes as preocupações relativas a uma maior eficácia, tendo como objetivo uma maior produtividade e melhor administração, através da reorganização de alguns espaços favoráveis a ambos. Em troca das fintas de Armamar, que passam a ser do Mosteiro, este dá diversos terrenos na área de Trancoso, Guarda, Viseu e outras localidades. A ligação entre o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e os Coutinhos, nesta época, vai muito além dos acordos fundiários e económicos referidos. A igreja deste Mosteiro foi o local escolhido para o descanso eterno, por alguns dos seus mais importantes membros. Podemos dizer que foi o panteão dos Coutinhos: D. Beatriz Gonçalves de Moura, em 1418, no caso desta fazendo-se mesmo transportar o seu corpo de Lisboa para este Mosteiro, como refere a crónica de D Pedro de Menezes14; D. Vasco Coutinho, 1.º Conde de Marialva, em 1450 e D. Maria de Souza, sua mulher, falecida em 1472; D. João Coutinho, conde de Marialva, em 1471, morto em Arzila e, provavelmente, muitos outros, como refere Fr. Baltazar dos Reis. Não nos ficaram descrições pormenorizadas destes acontecimentos, mas as lápides tumulares ainda hoje lá se encontram, o que nos faz concluir da importância e conside12 VITERBO, Joaquim de Santa Rosa – Elucidário das palavras, Termos e Frases, ed. Critica por Mário Fiúza, Porto, Livraria Civilização Editora, 1983, vol I, p. 142 13 OLIVEIRA, Luís Filipe – A Casa dos Coutinhos Linhagem, Espaço e Poder(1360-1452), Patrimónia Histórica, Cascais, 1999, p.87 14 Ibidem, p. 42 14 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES ração dada pelos monges de Santa Maria de Salzedas a esta família, tendo mantido as sepulturas, e as orações a que se tinham obrigado. Com a maioria dos seus outros protetores e doadores foram negligentes, não cumprindo com as obrigações assumidas pelos bens de alma que receberam, chegando mesmo a destruir a maior parte das sepulturas à sua guarda, que tinham prometido preservar. Relativamente a este assunto, refere Fr. Baltazar dos Reis: “Em esta Igreja estavão muitas sepulturas de pessoas nobres E fora dela, as quais a maior parte desfizerão os Abbades biennais para despejarem a Igreja, somente deixarão duas dos Coutinhos Condes q forão de Marialva”.15 E segue transcrevendo as inscrições tumulares relativas a estes Senhores: “Aqui jaz o mui nobre E Esclarecido, Dom Vasco Coutinho Marichal de Portugal E primeiro Conde de Marialva, fallreceo na Era de mil quatrocentos E sinquoenta. Tem esta sepultura outro letreiro que diz: Aqui jaz amui nobre E virtuosa Donna Maria de Sousa molher que foi de do Conde de Marialv, Dom Vasco Coutuinho Marichal de Portugal faleceo na Era de mil E quatrocentos setenta E dous. Estaa outra Spultura de Dom João Coutinho que morreu na tomada de Arzilla diz o letreiro: Quem lápis hic clauditest Dommus Joannes Coutinho Comes de Marialva clarissimo qui in vigrssimo secundo suae aetatis anno in clade Arzilae, quam inclitae memoriae Alfonsus quintus ano Dni Mills.mo quadrigentess.mo septuages.mo primo, vi.et armis ocupauit, inter arepta et illata vulnera, in Mesquita, quae Mater Mariae Virgini Cristi dicata est gloriose interjt.”16 Esta relação de proximidade explica-se porque esta família tinha o seu couto em Leomil, próximo do Couto do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Anos mais tarde, esta ligação ainda se mantém, uma vez que D Francisco Coutinho, 4.º Conde de Marialva, vai ordenar no seu testamento, em 1520, uma capela com lâmpada no Mosteiro de Salzedas, embora tenha disposto como seu lugar de sepultura o Mosteiro de Santo António de Ferreirim,17 mandado construir por ele na terra conquistada aos mouros pelos seus avós, da qual, na verdade, se tinham apropriado anos antes os seus antepassados “da capela a que pertencia a torre e a quinta de Ferreirim por volta de 1431, com o apoio tácito dos abades de Tarouca e Salzedas”.18 Em 1526, D. Francisco Coutinho, 4.º conde e último Marquês de Marialva, entra em litígio com o Bispo e cónegos da Diocese de Lamego e pretende nomear como seu repreREIS, Fr. Baltazar dos – Breve relação da Fundação e Antiguidade do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, Lisboa, 1936, p. 21 16 REIS, Fr. Baltazar dos – Breve relação da Fundação e Antiguidade do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, Lisboa, 1936, p. 21 17 OLIVEIRA, Luís Filipe – A Casa dos Coutinhos Linhagem, Espaço e Poder (1360-1452), Patrimónia Histórica, Cascais, 1999, p. 52 18 Ibidem, p. 75 15 15 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE Tumulo D. Vasco Coutinho 1450 Salzedas Tumulo D. Joao Coutinho 1471 Salzedas 16 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES Tumulo D. Maria de Sousa 1472 sentante o Bispo de Beblião, Fr. Brás, antigo abade de Salzedas, que, por várias vezes, se tinha deslocado a Roma a tratar de assuntos relacionados com os direitos deste Mosteiro. Tendo em consideração esta relação entre o Mosteiro e os Coutinhos, não podemos deixar de referir a construção da torre da Ucanha, no tempo do Abade D. Fernando, em 1465, que, embora pareça ser uma fortificação militar, não se encontra para a sua construção nenhuma justificação de defesa militar na conjuntura político – militar da época. Está, sim, à entrada do Couto de Santa Maria de Salzedas, precisamente no acesso que ligava este couto a Lamego, na via que ligava Lamego a Trancoso, que passava por terras do Couto de Salzedas. A semelhança da Torre da Ucanha com a Torre dos Coutinhos em Ferreirim, a cerca de quatro quilómetros de distância, é evidente; a Torre de Ferreirim era um bem devoluto do qual os Coutinhos se tinham apropriado em 1431, com o apoio do abade de Santa Maria de Salzedas, como acima referimos. Na tradição popular, património imaterial local, a explicação da população, ainda hoje é: a torre servia para, se o Bispo de Lamego quisesse entrar no Couto do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, o Abade do Mosteiro estaria a recebê-lo sempre por cima … Construir uma torre com as características arquitetónicas da Torre da Ucanha19 para defender o couto de “nada” ou como refere Almeida Fernandes “se destinasse a depósito ALBUQUERQUE, Amélia, VAZ, João L. Inês – A Ponte e a Torre da Ucanha em Leite de Vasconcelos e na atualidade, O Arqueólogo Português, Série IV, 26, 2008, p. 281-298 19 17 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE ou celeiro das cobranças não monetárias da portagem”20.Uma torre com aquelas dimensões e monumentalidade para guardar cereais? Afiguram-se-nos as duas hipóteses inusitadas. Se articularmos as relações dos Coutinhos à época, já condes de Marialva, com o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e os conflitos de ambos com o Bispado e Mitra de Lamego parece-nos mais óbvio que esta construção tenha sido a demonstração e ostentação do poder temporal e espiritual do Mosteiro com o beneplácito dos seus importantes protetores, também eles detentores de uma Torre na vizinha Ferreirim, graças ao apoio do abade de Salzedas. Torre de Ferreirim Torre da Ucanha Em meados do século XVII, o tema das jurisdições volta a ser levantado e contestado pelo Bispo de Lamego.21 “os abades foram continuando a exercer “in sollidum” a jurisdição ordinária episcopal em o dito Mosteiro e todo o seu território, passando cartas demissórias aos naturais do seu “Isento”. ALMEIDA FERNANDES, A. de – As Dez Freguesias do Concelho de Tarouca (História e Toponímia), Camara Municipal de Tarouca, Braga, 1995 21 GONÇALVES DA COSTA, Manuel – História do Bispado e Cidade de Lamego, Lamego, 1984, vol. IV, p. 527 20 18 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES Esta obra m andou fazer Dõfernãdo abade DaSalzed a ….. …… Xristo …… EradominiM CCCCLXV Torre da Ucanha Edicula (Transcrição à direita) Continuavam, também, no domínio espiritual a comportarem-se como Bispos dentro dos limites do seu couto. Esta situação foi-se mantendo, provavelmente, porque os Bispos de Lamego, durante os séculos XV e XVI, foram mudando com frequência e estiveram ausentes durante a maior parte do período em que exerceram funções devido a muitos outros cargos que desempenhavam. Em 1680, o Bispo de Lamego, D. Fr. Luís da Silva Teles, 1677-1685, vai contestar o poder que os abades cistercienses de Santa Maria de Salzedas afirmavam ter direito, argumentando a sua contestação com as disposições do Concílio de Trento; assim, a 24 de junho do referido ano, publica um edital onde afirma ter decidido visitar todas as igrejas do Isento de Salzedas como delegado da Sé Apostólica, na forma prescrita pelo Concílio de Trento. Referia, ainda, o prelado que os abades não tinham autonomia para passar revarendas a não ser a favor dos seus religiosos; só os Bispos detinham esse poder, como tal, o edital referia que todos os que quisessem ter acesso às ordens sacras só as podiam ter por seu intermédio, pois só ele tinha poder para o fazer por força das disposições do Concílio de Trento, reafirmadas pelos Papas Pio IV e Gregório XIII. O Abade de Salzedas, Frei Gregório Pina, reage a este Edital e a 12 de julho do mesmo ano através de uma Carta Pública dirigida aos seus súbditos, negando ao Bispo de Lamego qualquer jurisdição ordinária na área do Isento do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e proíbe-os, sob excomunhão maior, sejam eles seculares ou eclesiásticos, de acatarem o conteúdo do Edital do Bispo ou de recorrerem a ele, afirmando que possuía documentos que lhe conferiam esse direito há mais de quinhentos anos Depois de várias consultas ao seu antecessor, Dom Luís de Sousa que, por meio de duas cartas lhe dá respostas pouco claras, na medida em que, se por um lado o aconselha a não levantar problemas, tal como os anteriores Bispos de Lamego, por outro lado, afirma que, durante o seu mandato como Bispo de Lamego, foi um dos assuntos que 19 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE “mais me oprimiu, uma vez que os monges argumentaram sempre que desde Dom Mendo detinham esses privilégios mas não mostravam os documentos”.22 Foram feitas consultas a mestres da Universidade de Coimbra e ao Superior Geral, Frei Luis Coutinho, esmoler e ao rei, afirmando sempre o Bispo de Lamego que não queria causar violência nem o confronto, queria, sim, exercer os seus direitos pelos poderes que tinha e, com base neles, entrar nas igrejas do Isento de Santa Maria de Salzedas, pois a sua jurisdição ordinária dava-lhe esse direito, quanto mais não fosse como Delegado da Sé Apostólica. A 2 de agosto de 1681, Dom Frei Luís, numa dissertação sobre o assunto desta disputa, diz que os abades nunca tiveram a transferência de bens espirituais e que no escambo feito no tempo do Bispo Dom Mendo, em 1164, só eram referidos os bens temporais, nunca a jurisdição espiritual. Chega mesmo a pôr em causa o referido documento de Dom Mendo; continua a dissertação com os argumentos que considerou necessários referir para sustentar a sua posição.23 Poucos dias depois, o mesmo Dom Frei Luís informa todos os interessados neste assunto que o Abade do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, D. Frei Sesisnando Baião, por ordem do desembargador do Paço, lhe enviou pelo provisor uma sentença de 1319, referente a uma demanda com a Mitra de Lamego, em que ficava claro que os lugares do Couto de Salzedas tinham total isenção da jurisdição dos Bispos de Lamego, a não ser nos assuntos de matrimónio e sacrilégios, competindo, nestes casos, a jurisdição exclusivamente à Mitra. D. Frei Luís mandou afixar editais nas portas das igrejas do couto e das igrejas vizinhas. Entretanto, a 30 de agosto deste ano de 1681, o Bispo de Lamego, numa pastoral, considera o diferendo resolvido com um acordo em que praticamente nada se altera em relação à situação inicial. Talvez não fosse do interesse do bispado ter de devolver a Salzedas os bens que constavam da cláusula de 1359! Na sequência desta decisão, os Abades do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas veem o seu poder reforçado e os seus direitos reconhecidos. Passados alguns anos, em 1709 o Abade Frei Henrique de Azevedo, jubilado em teologia, refere que tendo visitado a “sua diocese separada”, considera necessário reunir um sínodo para 21 de outubro de 1709 “na Sé Abacial do Isento do Real Mosteiro de Santa Maria de Salzedas”. Neste Sínodo Abacial reafirma a sua jurisdição ordinária, os privilégios do seu Mosteiro e todos os seus poderes, realizando-se todo o cerimonial do sínodo com um grande aparato, como se de um Bispo se tratasse.24 Uma certa competição entre a Diocese e o Mosteiro mantém-se e, quando no final do século XVII e ao longo do século XVIII, as grandes obras de reconstrução e ampliaGONÇALVES DA COSTA, Manuel – História do Bispado e Cidade de Lamego, Lamego, 1984, vol. IV, p. 527-528 23 Ibidem, p. 530 24 Ibidem, pp. 535-537 22 20 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES Salzedas Claustro Se de Lamego edificio a esquerda da Fachada 21 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE ção deste Mosteiro se iniciam, e a igreja é completamente revestida interiormente de uma nova roupagem, ao gosto da época, o mesmo acontece com a Sé episcopal de Lamego e, neste contexto, deparamo-nos com algumas semelhanças nos novos edificados: o claustro do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, construído nos finais do século XVII e inícios do século XVIII, com janelões de frontões triangulares, muito semelhantes aos do edifício à esquerda da fachada principal da Sé; antes de 1770 é encomendado o cadeiral da Sé e, como refere Robert Smith, é da mesma época e muito semelhante ao do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas; o altar- mor, no caso da Sé de Lamego, tem o retábulo constituído por um painel da autoria de André Gonçalves, provavelmente de 175325, cuja temática é a Assunção de Nossa Senhora. Cerca de dez anos mais tarde, Pascoal Parente realiza uma tapeçaria, de grande dimensão, sobre a mesma temática e de desenho semelhante, assinada e datada “Paschalis Parente fecit 1768”26, para o altar mor da Igreja do Altar mor Salzedas tapeçaria Altar mor Sé de Lamego CARDOSO, Pedro – Retábulos da Diocese de Lamego, Diocese de Lamego, 2017 ALBUQUERQUE, Maria Amélia – Santa Maria de Salzedas, Espaço e Poder,Disertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2003, edição policopiada, p. 31 25 26 22 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES Altar mor Salzedas assinatura de Pascoal Parente na tapeçaria Mosteiro de Santa Maria de Salzedas; o altar- mor já estava concluído, a tela é posterior, enrolava ou desenrolava através de um mecanismo próprio, quando desenrolada cobria o trono do mesmo altar. Nesta mesma altura, Joaquim de Azevedo refere, na sua História do Bispado de Lamego, escrita na segunda metade do século XVIII, que “na Salzedas o titular da casa é nossa Senhora da Assumpção”27; o Mosteiro deixava, deste modo, de ter a evocação de Santa Maria de Salzedas e tinha passado à de Nossa Senhora da Assunção. Analisando estas semelhanças nestes dois edifícios, e não descurando estarem os dois a serem remodelados de acordo com o que era a visão arquitetónica da época, no século XVIII evidencia-se uma espécie de competição entre estes dois núcleos de poder tão próximos, em que o Mosteiro nunca abdicou dos direitos que afirmava ter e o Bispado nunca os reconheceu e sempre os reclamou, mas sem sucesso. Vamos transcrever algumas das inúmeras referências que Joaquim de Azevedo, na sua obra sobre o Bispado de Lamego, faz sobre as jurisdições do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas: O Bispo D. Mendo “Foi grande bemfeitor dos monges de Cister, discipulos de S. Bernardo, aos quaes favoreceu com especiaes graças e privilegios nos mosteiros de S. João de Tarouca e Salzedas, da sua jurisdicção. A estes isentou da sujeição ao Bispo, ao qual por direito commum são todos os regulares sujeitos, e eram em seu tempo os Cistercienses, pois só no seculo dezeseis elegeram Geral em Alcobaça, reinando D. João III em Portugal, pelo qual ficaram os religiosos isentos dos Bispos, mas não os seculares, que vivem em seus mosteiros e coutos.”28 AZEVEDO, Joaquim de – História Ecclesiastica da Cidade e Bispado de Lamego …e continuada e annotada por um conego da sé de lamego, Porto, 1877. p. 301 28 Ibidem, pp.33-34 27 23 MARIA AMÉLIA ALBUQUERQUE “o cura [de Salzedas] ..., é posto pelo abbade do mosteiro, como os da Ucanha, Villa Chã de Cangueiros, Simbres e Granja Nova, em cujas freguezias pretende exercitar jurisdicção ordinaria, mas não mostra outra mais que a isenção dos frades e da igreja do mosteiro na doação que tem, se é verdadeira, do Bispo de Lamego D. Mendo, dada antes de haver monges em Salzedas, sem ser firmada pelo Papa, …Consultada a Santa Sé Apostolica se podiam os abbades d’este mosteiro de Tarouca e de S. Pedro das Aguias exercitar em suas freguezias a jurisdicção ordinaria, foi a resposta que se abstivessem; o que elles repugnam, sem outro direito mais que o uso, ou abuso em que estão, que não pôde prejudicar ao Prelado sagrado, em cujo territorio existem, e que tem sua jurisdicção de ordem e direito divino.”29 “Depois D. Braz foi sete vezes a Roma sobre dúvidas e liberdades de seu mosteiro, e da ultima veio feito Bispo de Biblion: talvez procurasse a confirmação do isento, que fundam na doação do Bispo D. Mendo, que sempre foi contestado, sem o poder fazer reconhecido em Roma, e agora Bispo em partes, ou titular com nova força governaria as cinco freguezias de que consta …”30 Joaquim de Azevedo concorda de forma clara com a posição defendida pelo bispado e nunca refere os acordos que, de boa ou má vontade, os Bispos de Lamego se viram forçados a aceitar, mantendo o Mosteiro as Jurisdições que afirmava ter e considerava legítimas. Os outros Mosteiros cistercienses que se situavam neste Bispado e bem próximos do das Salzedas: São João de Tarouca e S. Pedro das Águias seguem o seu exemplo e assumem a mesma posição nas igrejas dos seus coutos. A gestão destes conflitos foi sempre um problema para esta diocese onde existia uma forte presença da ordem de Cister. Em 1615, Frei Baltazar dos Reis descrevia-nos a opulência da sua igreja formosa com um “retábulo da Capella mor he dos melhores que se podem achar Em Espanha, tem vinte E hú painéis com figuras de vulto grandes”31 Frei António Brandão “achava as construções das Salzedas as coisas mais importantes de que qualquer se poderia orgulhar”32 Cerca de um século depois, e já com novas obras executadas, Souza Viterbo, este mais isento porque não pertence à ordem de Cister, refere, também, a este propósito: “A igreja é magnifica, como todo o edifício do Mosteiro riquíssimo, que terá trinta mil cruzados de renda.” 33 Ibidem pp.159-160 Ibidem pp. 299-302 31 REIS, Fr. Baltazar dos – Breve relação da Fundação e Antiguidade do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, Lisboa, 1936, p. 20 32 GONÇALVES DA COSTA, Manuel – História do Bispadp e Cidade de Lamego, Lamego, 1984, vol. IV, p. 542 33 VITERBO, Joaquim de Santa Rosa – Elucidário das palavras, Termos e Frases, ed. Crítica por Mário Fiúza, Porto, Livraria Civilização Editora, 1983, vol. I, pp. 141,142 29 30 24 MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SALZEDAS E DIOCESE DE LAMEGO – DIREITOS, JURISDIÇÕES E CONFRONTO DE PODERES “Ampliados os edificios, é hoje a igreja e mosteiro dos mais magestosos de todo o reino; tudo ahi respira grandeza e magnificencia.”34 Pela sua própria importância, dos seus protetores e pelas prerrogativas que sempre acreditaram ter, forçando os Bispos de Lamego, em diferentes épocas, a aceitar os seus direitos, o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas foi um importante poder local e uma referência incontornável na História da Ordem de Cister em Portugal. BIBLIOGRAFIA ALBUQUERQUE, Maria Amélia – Santa Maria de Salzedas, Espaço e Poder, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2003, edição policopiada ALBUQUERQUE, Amélia, VAZ, João L. Inês – A Ponte e a Torre da Ucanha em Leite de Vasconcelos e na atualidade, O Arqueólogo Português, Série IV, 26, 2008 ALMEIDA FERNANDES, A. De – Os primeiros Documentos de Santa Maria de Salzedas, Guimarães, 1985 ALMEIDA FERNANDES, A. De – As Dez Freguesias do Concelho de Tarouca (História e Toponímia), Camara Municipal de Tarouca, Braga, 1995 AZEVEDO, Joaquim de – História Ecclesiastica da Cidade e Bispado de Lamego …e continuada e annotada por um conego da sé de lamego, Porto, 1877 CARDOSO, Pedro – Retábulos da Diocese de Lamego, Diocese de Lamego, 2017 GONÇALVES DA COSTA, Manuel – História do Bispadp e Cidade de Lamego, Lamego, vol. I e IV OLIVEIRA, Luís Filipe – A Casa dos Coutinhos Linhagem, Espaço e Poder (1360-1452), Patrimónia Histórica, Cascais, 1999 REIS, Fr. Baltazar dos – Breve relação da Fundação e Antiguidade do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, Lisboa, 1936 REIS, Fr. Baltazar dos – Livro da Fundação do Mosteiro de Salzedas, Lisboa, 1934 SARAIVA, Anísio – A Sé de Lamego na primeira metade do séc. XIV (1296-1349), Magno Editores, 2003 VITERBO, Joaquim de Santa Rosa – Elucidário das palavras, Termos e Frases, ed. Critica por Mário Fiúza, Porto, Livraria Civilização Editora, 1983, vol. I. 34 AZEVEDO, Joaquim de - História Ecclesiastica da Cidade e Bispado de Lamego …e continuada e annotada por um conego da sé de lamego, Porto, 1877, p 160 25 26 O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA NOS SEUS INÍCIOS PEDRO GOMES BARBOSA * Com esta comunicação não pretendo ser nem original, pela originalidade, nem provocador, no sentido habitual deste termo. Provocador, sim, mas no intuito de provocar reflexão e debate sobre alguns aspectos que me têm incomodado, em termos históricos. E são essas notas que quero aqui deixar. A primeira reflexão tem que ver com a data da doação. Porquê este tema, sabendo nós que a carta enviada por Afonso Henriques ao abade de Claraval, S. Bernardo, o Doutor Melífluo, existe e é bem conhecida de todos, datando de 1153, ano da morte do Santo. O que aqui chamou a minha atenção foi o facto de os autores franceses, com a excepção de Dom Maur Cocheril, apontarem como data da fundação, o ano de 1148. O mesmo acontecendo com o sítio I Cistercensi (https://www.cistercensi.info/abbazie/ monasteri.php). O saudoso Dom Maur Cocheril aponta 1153, embora, no seu Routier des Abbayes Cisterciennes du Portugal, a páginas 227, refira que alguns investigadores aceitavam a presença de cistercienses na região alcobacense em 1152. Portanto, o reconhecimento do local da doação para se inteirarem das condições para a instalação do futuro mosteiro. Mas talvez mesmo anteriormente, já que os monges de coro que viriam ocupar o local, em nome de Claraval, deveriam encontrar, à sua chegada, um oratório, um refeitório, e instalações para os monges, pelo menos. Claro que estas instalações, e outras de apoio, seriam provisórias, e feitas, muito provavelmente, com materiais perecíveis. A referência ao ano de 1148 (chegando-se mesmo a apontar o dia 2 de fevereiro) estará apoiada em algum documento, ou é apenas tradição registada nos anais de Cister ou Claraval? Para ter a certeza, necessitaria de pesquisar no Arquivo Departamental de Dijon, onde se concentra a maior parte da documentação cisterciense, o que até hoje não consegui fazer. Este aspecto não é de somenos. O dia 2 de Fevereiro, pode ser apenas uma data-referência, já que é o dia da festa da Candelária, importante na Idade Média, e ligada à figura da Mãe de Deus, de especial devoção de S. Bernardo. Se existe, na reali* Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Centro de Estudos Geográficos – Instituto de Geografia e Ordenamento do Território.
[email protected]. Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 27-32 27 PEDRO GOMES BARBOSA dade, um documento de 1148, este indicaria que a tradição de doação a S. Bernardo, por parte do nosso primeiro rei, do território alcobacense, foi uma realidade. É claro que existe uma tradição, perpetuada provavelmente no claustro, de que esta doação tinha que ver com as conquistas de 1147, por parte de Afonso Henriques. Veremos isso a seguir. Até agora, o que fiz, espero, foi abrir o apetite a quem quiser e puder ir a Dijon consultar a documentação cisterciense, ou mesmo a Troyes. Para confirmar ou não a existência de um documento onde se baseariam os historiadores franceses. Passemos, agora, às razões da doação. É comum aceitar-se que a doação foi feita tendo em vista a intercessão do Santo na altura da reconquista de Santarém. E que o Rei terá dito, no cimo da serra de “Albardos”, Alvados, que se Deus lhe permitisse, por intermédio das orações de S. Bernardo, conquistar a cidade, daria ao Abade e a Claraval toda a terra que se via dali até ao mar. E que não era nenhuma, pois desse sítio não se avista o mar. Piedosa intenção, mas que terá tido como causa, não a conquista de Santarém, mas a de Lisboa, com o apoio dos cruzados, que não aportaram, por acaso, neste cantinho lusitano, mas vieram propositadamente para auxiliar Afonso Henriques, o que foi conseguido por acção de S. Bernardo, e provavelmente do papa Eugénio III. Mas não me irei alongar neste problema, que tratei em outros trabalhos1 E, a propósito desta expedição dos cruzados, lemos na carta enviada por Ranulfo de Glanville, o antes designado por Osberno: (Seguindo a tradução do Professor Aires do Nascimento2) “… e depois o castelo de Leiria, sobranceiro ao rio que divide o bispado de Lisboa do de Coimbra. Depois, há uma floresta que na língua da terra tem o nome de Alcobaça (o texto latino refere o nome de Alchubez, sendo aceite que se trata de Alcobaça), e em torno dela estende-se um vasto ermo até ao castelo de Sintra que dista de Lisboa oito molhas.” Esta passagem levanta algumas interrogações. Não quanto ao limite das dioceses, que tinha obviamente uma intenção clara, como bem viu o Professor Aires do Nascimento. Refiro-me, evidentemente, à menção a Alcobaça, e ao que vem a seguir. Vejamos. É estranho a referência a “uma floresta chamada Alcobaça”, no meio de uma terra deserta. Na realidade, esta terra seria mais “deserta” entre Leiria e o chamado rio de Alcobaça, que neste caso seria o rio Alcoa. Nessa região havia já uma vasta floresta, que detectamos ainda em documentação alcobacense do século XIII3, e que confinava com a zona hoje de Valado dos Frades, no concelho da Pederneira, e com o Monte Sião, actualmente Monte de S. Bartolomeu. Note-se, de passagem, que o Monte Sião nos Sobretudo em Pedro Gomes Barbosa, A Conquista de Lisboa. 1147. A Cidade Reconquistada aos Mouros, Lisboa, 2004. 2 Aires A do Nascimento (tradução e notas), A Conquista de Lisboa aos Mouros. Relato de um Cruzado, Lisboa, 2000. 3 Ver Pedro Gomes Barbosa, Povoamento e Estrutura Agrícola na Estremadura Central, Lisboa, INIC, 1992, especialmente páginas 29-32. 1 28 O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA NOS SEUS INÍCIOS remete para referências bíblicas e para a Terra Santa das ordens monástico-militares, e S. Bartolomeu, nome que terá sido adoptado, provavelmente, pelos monges para designar esse monte de forma estranha e, poderemos talvez dizer que, para o homem medieval, “numinoso”, esse santo, como dizia, é aquele que foi escolhido para figurar nas laterais do túmulo de D. Pedro, no Mosteiro de Alcobaça. Mas, continuando. Parece estranho que uma floresta levasse o nome de uma povoação que iria nascer no seu centro. Isso, se acreditarmos que essa terra estaria erma. Que estava fortemente florestada, não tenho dúvidas, o que é demonstrado pela fito-toponímia, e pela documentação mais antiga4. O mesmo acontecia com a região que lhe estava imediatamente a sul, a de Óbidos, pouco povoada, e onde encontramos topónimos como Osseira e Usseira, clara referência à existência de ursos quando, depois da Reconquista (e insisto em designar este movimento por Reconquista) foram criadas estas povoações, eventualmente por povoadores galegos. E a região que designamos por Alcobaça, e cujo território constituiu o chamado Couto do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça? Aqui, colocam-se várias questões. A primeira (não pela sua importância, mas tinha que começar por algum lado) é a do próprio nome. Este topónimo, que não deriva da junção de Alcoa e Baça, designaria uma pequena povoação, talvez já em estado de quase abandono, mas lugar ideal para instalar o Mosteiro. A primeira instalação na Chiqueda, a ter existido, apenas provaria a necessidade de os primeiros monges afastarem os (talvez poucos) habitantes que ainda aí se encontrassem. Porque o castelo já existiria, como tentei provar no meu estudo “Notas sobre o Castelo de Alcobaça”5, e de feitura bastante arcaica, muito certamente pré-islâmico. E embora, em princípio, estivesse desactivado, estaria em boas condições de ocupação. Penso que o castelo, de dimensões grosseiramente 20 por 40 metros, faria parte de um dispositivo antigo, que protegia as duas reentrâncias, as chamadas “lagoas”, em conjunto com as outras “torres”, de dimensões semelhantes, as cujos restos ainda hoje podem ser observados. Portanto, teria sido a “povoação central” a dar nome à floresta, e não o contrário. A existência de vários topónimos de origem islâmica (não ouso dizer árabe) demonstra um povoamento na região. Ataíja, Almofala, Alvorninha ou Alfeizerão são exemplos. É certo que, à semelhança do território vizinho de Óbidos, muitíssimo mais vasto que o actual concelho, a região teria um povoamento escasso, e concentrado, como demonstra a distribuição toponímica, e o mapa das terras reconquistadas de Rui de Azevedo6. Pedro Gomes Barbosa, op. cit., páginas 107-111 Pedro Gomes Barbosa, Documentos, Lugares e Homens. Estudos de História Medieval, Lisboa, Cosmos, 1991, páginas 59-73. 6 “Período de Formação Territorial: Expansão pela Conquista e Consolidação pelo Povoamento. As Terras Doadas. Agentes Colonizadores” em António Baião, Hernâni Cidade e Manuel Múrias (direcção), História da Expansão Portuguesa no Mundo, volume I, Lisboa, 1937, páginas 7-64. 4 5 29 PEDRO GOMES BARBOSA Como refere Georges Duby7, as terras ocupadas pelos mosteiros cistercienses eram muitas vezes povoadas, mas os monges “negociavam” a transferência dessas povoações para mais longe do lugar de implantação dos edifícios monásticos, mas não necessariamente para fora das suas extensas propriedades, já que necessitariam de mão-de-obra, no sentido de valorizar economicamente as suas terras, e que o recurso exclusivo a conversos não satisfazia. Se isto é verdade, pertenceriam as povoações periféricas ao Couto de Alcobaça? Algumas pertenceriam, as que estavam mais no seu interior, outras não, eventualmente as mais periféricas. Aljubarrota não estaria, certamente, dentro do Couto. Daí a existência de duas freguesias na mesma povoação. Estou a falar em termos históricos, e do facto de, nos primeiros documentos sobre essa zona, e respeitantes ao cartório do Mosteiro, não aparecer menção dessa aldeia. Mas a aquisição de propriedades, pelo Mosteiro, vem demonstrar a vontade dos cistercienses em expandir o Couto para leste. Tal como o fizeram para sul, desviando o curso da ribeira de Salir, limite da doação de Afonso Henriques. Aos poucos foram absorvendo Salir do Mato, Barrantes (fundada, eventualmente por esse João Barrantes, que nos aparece, na documentação, a deter propriedades nesse lugar), e outras terras limítrofes. Um caso à parte é o da Pederneira que, até meados do século XIII, era concelho, como se demonstra em documentos régios, e que foi sendo absorvido, pouco a pouco, pelo Mosteiro. Primeiro, pela concessão do padroado da igreja-colegiada (então) de S. Pedro, como convinha a uma vila de pescadores, e depois a posse do relego e, finalmente, a integração do concelho, não sem uma grande resistência dos seus habitantes e representantes. O concelho ocupava, grosso modo, o território do actual concelho da Nazaré, e era um concelho rico, capaz de sustentar uma colegiada. Daí a cobiça de Santa Maria de Alcobaça. A que se juntava o facto de, na parte norte do Couto, ser o único verdadeiro porto marítimo. E a Ataíja, topónimo de origem muçulmana, como referi acima, e que nos aparece na documentação, muitas vezes, como Taixa ou Taija. Na realidade, em árabe, muitas vazes o artigo “al” troca o “l” pela consoante da palavra seguinte, quando esta começa por “r”, “s”, “t” ou “z”. O documento de doação de Afonso Henriques, refere, a dado passo; “… transit per Taigiam”, sem mais, o que parece, com forte possibilidade, referir-se a uma povoação. O que a carta não diz, é se a referida Taigia, eventual povoação, ficava dentro ou fora do Couto, já que “passar por” indica uma fronteira, mas não a sua posição em relação a ela. E, já agora, Cós. Certo é que a actual Cós ficava dentro dos limites do Couto. Ela é referida como “Qod”, aparentado com Alcouce, por exemplo, palavra que significa “pequeno lugar sagrado” (indicação genérica para uma palavra árabe), e num documento dos inícios do século XII é referido pelo seu equivalente latino: Monasterium. O mesmo Entre outras: L’Économie Rurale et la Vie des Campagnes dans l’Occident Médiévale, 2 volumes, Paris, Champs-Flammarion, 1977; Saint Bernard et l’Art Cistercien, Paris, ChampsFlammarion, 1979. 7 30 O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA NOS SEUS INÍCIOS não se passa com a Póvoa de Cós, esse, sim, lugar bem habitado, seja-me permitida a expressão, claramente fora do circuito. É nesse lugar que, primeiramente, se vai estabelecer a casa das Donas de Cós, mudando mais tarde para a localização actual. E é nessa Póvoa que se situa a granja doada ao Mosteiro, concretamente à sua livraria, para que se possam fazer livros, por um particular. Em 1227 o papa Gregório IX, na carta de protecção de bens do Mosteiro, refere na zona de Cós duas granjas: “Cos maior et minor”. Portanto, a região estava habitada, e não erma, como refere o cruzado, por razões que facilmente se compreendem. Se não tivesse vivalma, resolvia-se a questão da possibilidade de pertença à recém-criada diocese de Lisboa. Mas os desafios entre as duas dioceses certamente que continuariam, para mais, quando o papa não reconheceu o pedido de ligação da diocese de Lisboa à arquidiocese de Braga, ficando Lisboa dependente de Compostela, o que, nesta fase de formação e afirmação do Reino, poderia ser perigoso. O problema vai ser resolvido, parcialmente, pela doação falsa de 11838 que, para além de precisar melhor os limites da doação de 1153, também “legalizava” as “alterações” que, entretanto, tinham sido efectuadas pelos monges. Por vezes um “falso” consegue dar-nos informações que os “autênticos” não conseguem. Pelo menos quanto à intenção com que foi feito o documento. Penso que o Couto de Alcobaça, embora se encontrasse numa região não densamente povoada, embora não erma, como escreveu o cruzado, e certamente que não até Sintra, já que encontramos Torres Vedras e o seu envolvimento humano, era região com muitas zonas postas em produção, sobretudo nas colinas suaves, sendo a zona próxima de Turquel, até ao sopé da Serra, dedicada sobretudo à criação de gado. Portanto, os monges não tiveram o trabalho de arrotear terra erma, mas sim outros, talvez mais importantes: aumentar as zonas agrícolas, mas defendendo um equilíbrio entre estas e as áreas florestais, fonte de riqueza; drenagem de algumas zonas pantanosas, mas não de outras, sobretudo na zona sul do seu território, para desenvolver uma outra importante actividade económica, ligada às zonas húmidas; e, finalmente, e talvez o mais importante de tudo, o ordenamento do território e da sua exploração agropecuária, retirando da terra o melhor rendimento pela escolha dos produtos a explorar. Penso que uma prova do que foi dito é a carta de privilégios dada por Fernando II de Leão aos cistercienses de Alcobaça, em 1178, ou seja, apenas vinte e cinco anos depois da carta de doação de Afonso Henriques. Nela se isenta os monges, ou os seus representantes, de todos os pagamentos (portagens, peagens, taxas alfandegárias), quando fossem comerciar no reino de Leão. Ou seja, haveria já a capacidade de o Mosteiro entrar na senda de um comércio (pelo menos) transfronteiriço. Para vender, trocar ou comprar. Mas qualquer uma das actividades necessitava de produtos para comerciar, e igualmente de cabedal para organizar estas idas ao reino vizinho. Penso que estas viagens não se fariam por terra, mas sim por mar, eventualmente partindo da Pederneira, apesar de ainda não ser parte do Couto, ou mais dificilmente, de Alfeizerão. 8 CR, Alcobaça, Documentos Régios, m. 1, n.º 5. 31 PEDRO GOMES BARBOSA Como referi, estas notas são apenas interrogações para investigação mais aprofundada, com revisão de algumas ideias, de informações de Cronistas do Mosteiro, que muitas vezes não queriam mentir, mas, como dizia Cocheril, aceitavam acriticamente tradições que circulavam no claustro, e ainda para uma releitura de alguns dos documentos existentes no enorme fundo alcobacense da Torre do Tombo e da Biblioteca Nacional, que se salvaram, apesar da voragem do tempo e (serei aqui brando) da inconsciência dos Homens. 32 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE, MOINE DE CLAIRVAUX, ABBÉ DE LARRIVOUR ET ÉVÊQUE D’AUXERRE (1182) ARNAUD BAUDIN* Les testaments médiévaux constituent une source du plus grand intérêt pour les historiens et les historiens du droit. Relativement nombreux à partir du XIIIe siècle et bien plus encore dans les deux derniers siècles du Moyen Âge, ils livrent des renseignements tout à fait exceptionnels sur le comportement des individus face à la mort. Pièce maîtresse du droit successoral romain, le testament, dont la pratique a perduré dans les royaumes romano-barbares, connaît une longue phase de déclin, aussi bien dans la forme que dans le fond, à partir du VIIIe et jusque dans le courant du XIIe siècle, au profit de la donation pieuse pro anima en faveur d’un établissement ecclésiastique1. Pour autant, l’emploi du mot testamentum demeura pour désigner ces donations post obitum qui s’étaient substitués aux testaments et qui ne contenaient généralement qu’une unique libéralité pieuse en faveur d’une église ou d’un monastère en échange de la * Docteur de l'Université de Paris 1 Panthéon-Sorbonne, membre associé du Laboratoire de Médiévistique Occidentale de Paris (LAMOP-UMR 8589) et directeur adjoint des Archives et du Patrimoine de l'Aube. Je remercie chaleureusement Jean-Luc Chassel pour les échanges érudits qui ont alimenté la préparation de cet article, ainsi que Jean-Vincent Jourd'heuil pour sa relecture et ses précieuses remarques. Josiane Barbier rappelle que l’enquête lexicographique a montré qu’un acte qualifié de testamentum au Moyen Âge n’est pas nécessairement un testament. Le mot change de sens entre le VIe et le IXe siècle pour désigner une donation ou une simple charte dont la forme diplomatique n’est plus celle de la tradition juridique romaine (J. Barbier, « Testaments et pratique testamentaire dans le royaume franc (VIe-VIIIe siècles) », dans Sauver son âme et se perpétuer. Transmission du patrimoine et mémoire au haut Moyen Âge, F. Bougard, C. La Rocca et R. Le Jan (éd.), Rome, 2005, p. 7-79 [En ligne : https://books.openedition.org/ efr/2270?lang=fr#notes ; consulté le 16.08.2018]. Sur la question de la donation pro anima, lire également : Eliana Magnani, « Du don aux églises au don pour le salut de l’âme en Occident (IVe-XIe siècle) : le paradigme eucharistique », Bulletin du centre d’études médiévales d’Auxerre | BUCEMA [En ligne], Hors-série n.° 2 | 2008, http:// cem.revues.org/9932 ; consulté le 16.08.2018). 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 33-51 33 ARNAUD BAUDIN sépulture et de la fondation d’un anniversaire. Cette pratique, qui a concerné l’ensemble des strates de la société médiévale, a laissé une documentation moins abondante au sein de la sphère ecclésiastique, les deperdita rendant plus rares les testaments épiscopaux et plus exceptionnels encore les testaments monastiques, même si l’on pense bien évidemment au plus célèbre d’entre eux, celui que l’abbé Suger fit mettre par écrit en 11372. Le testament d’Alain de Flandre relève de cette catégorie. Conservé dans le chartrier de Larrivour aux Archives de l’Aube (ill. 1), édité dans la Gallia christiana, ainsi que dans la Patrologie latine, ce texte n’a, en-dehors de rares mentions, jamais été étudié, en dépit de son caractère remarquable : d’une part parce qu’il concerne un évêque du milieu du XIIe siècle, que ce prélat a d’abord été un moine puis un abbé cistercien, et que les historiens de l’ordre de Cîteaux le connaissent comme l’auteur de la Vita secunda sancti Bernardi. Natif des Flandres, Alain est sans doute issu d’un milieu aisé, peut-être un cadet de la petite ou moyenne chevalerie, une origine sociale suffisante pour lui permettre d’entreprendre des études dans une école Ill. 1. Testament de Alain, autrefois évêque d'Auxerre et cathédrale, d’acquérir une prépremier abbé de Larrivour (1182). Arch. dép. Aube, 4 H 53, bende et finalement de devenir n.° 12. © Département de l'Aube, Noël Mazières. écolâtre de la collégiale Saint-Pierre de Lille3. Capturé par saint Bernard, il entre à Clairvaux en 1131, prend la tête de la colonie qui fonde l’abbaye de Larrivour, au diocèse de Troyes, en 1140, avant d’être élu au siège épiscopal d’Auxerre en 1152. Il appartient à cette génération, étudiée Arch. nat., K 22, n° 9/7 – AE/II/145 (17 juin 1137). Jean Lebeuf suppose une origine lilloise sur la base d’une confusion avec Alain de Lille (Mémoires concernant l’histoire civile et ecclésiastique d’Auxerre et de son ancien diocèse, t. 1, Auxerre-Paris, 1848, p. 319), tandis que Robert Trilhe le donne plus sûrement originaire de Reninge dans la province belge actuelle de 2 3 34 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE notamment par Anselme Dimier, René Crozet ou Marcel Pacaut, de moines blancs, le plus souvent disciples directs de Bernard, appelés aux plus hautes fonctions ecclésiastiques4. Comme nombre d’entre eux – on songe à Pierre de Tarentaise ou Geoffroi de La Roche-Vanneau –, Alain résigne sa charge en 1167 et retourne à Clairvaux pour y finir ses jours. Âgé sans doute d’environ 75 ans, il prépare son salut. Ce document inédit édité en annexe soulève un certain nombre de questions autour d’une même problématique, celle du statut conservé au seuil de sa vie par ce haut dignitaire ecclésiastique issu du monachisme cistercien, prélat régulier puis séculier, au regard, notamment, du droit canon et des statuts de l’ordre de Cîteaux. 1. L’abbaye de Larrivour, de sa fondation à l’année 1182 La fondation de l’abbaye de Larrivour, entre 1137 et 11405, s’inscrit dans le prolongement de la réforme du chapitre séculier Saint-Loup de Troyes, où la discipline s’était relâchée. Cette réforme, souhaitée par le comte de Champagne Thibaud II, en lien avec l’évêque de Troyes Hatton et Bernard de Clairvaux, se concrétise en 1135 par l’établissement à Saint-Loup de chanoines réguliers vivant selon la règle de saint Augustin. Deux années plus tard, en 1137, les chanoines concèdent aux cisterciens une terre pour la création d’un monastère dans la filiation de Clairvaux (dioc. Langres). Pour l’abbé Guitier de Saint-Loup, auteur d’une chronique en 1181, le lien est réel entre les deux événements et constitue un moment important de l’histoire de son monastère6. D’autant que les trois principaux protagonistes de la réforme de Saint-Loup sont à nouveau réunis : Hatton, l’évêque du diocèse où est fondée Larrivour (1122-1145), Bernard, l’abbé du monastère d’où partira la colonie (1115-1153), et Thibaud, le seigneur féodal (1125-1152). Les trois hommes, animés par un même souci de transformation de la société, se Flandre-Occidentale (article « Alain de Flandre » dans Dictionnaire d’histoire et de géographie ecclésiastiques, t. 1, Paris, 1912, col. 1296-1298). D’autres références sont données dans la notice de Laurent Veyssière (« Le personnel de l’abbaye de Clairvaux au XIIe siècle », Cîteaux, Commentarii cistercienses, t. 51, 2000, n° 9, p. 32). Voir aussi Michel Sot (dir.), Les gestes des évêques d’Auxerre, 3 t., Paris, 2002-2009, t. 2, 2006, p. 106-109. 4 Anselme Dimier, « Les évêques cisterciens au XIIe siècle », dans Mélanges Anselme Dimier, Benoît Chauvin (éd.), Pupillin, 1983, t. 1, vol. 2, p. 529-532 ; René Crozet, « L’épiscopat de France et l’ordre de Cîteaux au XIIe siècle », Cahiers de civilisation médiévale, 18e année (n.° 71-72), juillet-décembre 1975, p. 263-268 [En ligne : https://www.persee.fr/doc/ccmed_0007-9731_1975_num_18_71_2012 ; consulté le 19 juillet 2018] ; Marcel Pacaut, « Les évêque cisterciens et l’expansion de l’ordre de Cîteaux en France au XIIe siècle », dans Françoise Bériac et alii (dir.), Les prélats, l’Église et la société (XIe-XVe siècles). Hommage à Bernard Guillemain, Bordeaux, 1994, p. 41-47. 5 Au sujet des origines et des premiers temps de l’abbaye de Larrivour, voir : A. Baudin, « Larrivour, trentième fille de Clairvaux. Origines et constitution du temporel (v. 1137/1140-v. 1235) », Mémoires de la Société académique de l’Aube, t. CXXXIX, 2015, p. 441-466. 6 Guitier, abbé de Saint-Loup, Mémoires sur les origines de l’abbaye [avant 1181], Charles Lalore (éd.), dans Cartulaire de l’abbaye de Saint-Loup de Troyes, Paris, 1875, n.° 1, p. 4-5. 35 ARNAUD BAUDIN connaissent depuis longtemps. Ce sont notamment eux qui, en janvier 1129, valident la naissance à Troyes de l’ordre du Temple en lui attribuant une règle de vie. Le don initial des chanoines de Saint-Loup concerne un lieu appelé Buxis avec toutes ses dépendances, placé sur l’axe commercial reliant Bar-sur-Aube à Troyes dont elle est distante de 17 km. La colonie, conduite par Alain de Flandre, s’installe sur la rive droite de la Barse – Ripatorium, littéralement « de l’autre côté de la rive » –, à côté du village de Lusigny7, au cœur du massif de la forêt d’Orient8. Des dons complémentaires sont effectués par les autres propriétaires de la terre, ecclésiastiques, seigneurs, chevaliers et paysans aisés, qui participent à la structuration du premier domaine permettant l’agrégation d’un ensemble cohérent9. L’arrivée des moines blancs à Larrivour, le 9 avril 114010, prend place dans le contexte de forte expansion de la filiation claravallienne depuis une décennie. Mais, tandis que Clairvaux se développe progressivement de plus en plus loin de ses bases, l’opportunité d’un territoire vierge de toute présence monastique aux portes de Troyes constitue un excellent point d’ancrage. Avec Larrivour, Bernard de Clairvaux réalise la fondation la plus proche de l’abbaye-mère à cette date11, la neuvième de l’année 114012. Rapidement, grâce aux donations des seigneurs des environs (Chappes, Vendeuvre, Payns, Villehardouin)13, l’abbaye se constitue, sous les abbatiats d’Alain et de son successeur Hardouin, un patrimoine important et diversifié, organisé en 1182 autour d’un réseau de 9 granges sur les 11 que le monastère possédera au moment de son extension maximale dans les premières décennies du XIIIe siècle (ill. 2)14. La localisation de 8 de Lusigny-sur-Barse, Aube, arr. Troyes, c. Vendeuvre-sur-Barse. A. Baudin, « Larrivour, trentième fille de Clairvaux… », p. 447. 9 Ibid., p. 447-448. 10 Gallia Christiana in provincias ecclesiasticas distributa, Paris, 1771, t. 12 : provinces de Sens et Tarentaise, col. 260-261 ; Leopold Janauschek, Originum Cisterciensium : in quo, praemissis congregationum domiciliis adjectisque tabulis chronologico-genealogicis, veterum abbatiarum a monachis habitatarum fundationes ad fidem antiquissimorum fontium primus descripsit, t. I, Vienne, 1877, p. 152 ; Frédéric Van der Meer, Atlas de l’ordre cistercien, Paris-Bruxelles, 1965. 11 Les abbayes de Boulancourt (Haute-Marne, c. Wassy, cne Longeville-sur-la-Laines ; diocèse de Troyes) et de Longuay (Haute-Marne, c. Châteauvillain, cne Arc-en-Barrois ; diocèse de Langres) furent fondées en 1149 par saint Bernard à 43 et 32 km de Clairvaux. Celle de Mores (Aube, c. Bar-sur-Seine, cne Celles-surOurce ; diocèse de Langres) fut fondée un avant sa mort à 33 km au sud-ouest de Clairvaux. Autre établissement cistercien dans le diocèse de Troyes, l’abbaye de Sellières (Aube, c. et cne Romilly-sur-Seine) qui fut installée en 1167 dans la filiation de Pontigny. 12 En 1140 furent également fondées, depuis Clairvaux, les abbayes de Chézery et de Clairmarais (France), de Newbottle et de Whitland (Angleterre), de Tarouca (Portugal), de Casamari, Sambucina et de Tre Fontane (Italie). 13 Chappes, Aube, arr. Troyes, c. Bar-sur-Seine ; Payns, Aube, arr. Troyes, c. Saint-Lyé ; Vendeuvre-surBarse, Aube, arr. Bar-sur-Aube, ch.-l. c. ; Villehardouin, Aube, arr. Troyes, c. Brienne-le-Château, cne Vald’Auzon. 14 Au sujet de l’implantation et du développement des granges de Larrivour, voir : A. Baudin, « Larrivour, trentième fille de Clairvaux… », p. 448-460. 7 8 36 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE Ill. 2. Le titre figure sur la carte. ces fermes est conforme aux statuts de l’ordre de Cîteaux fixant à 11 km, puis une journée de marche, la distance les séparant du monastère. Seule celle de Don-l’Évêque, à Marcilly, est située à plus de 50 km, de l’autre côté de Troyes. Un autre élément mérite attention : 6 granges sont localisées au nord du monastère, dans le massif de la forêt d’Orient, dans une zone alors libre de toute concurrence potentielle mais qui verra l’arrivée en force des Templiers et des Hospitaliers dans le premier tiers du XIIIe siècle. Les biens concédés sont donc principalement composés de terres, de bois, voire de quelques vignes et de maisons. L’abbaye reçoit aussi de très nombreuses rentes en espèces à percevoir sur des champs, des vignes, des maisons ou des moulins, ainsi que des dîmes dont la possession est elle aussi contraire aux premiers statuts cisterciens, avant que le pape Innocent II n’en exempte totalement Clairvaux et sa filiation en 1132. Un premier temporel qui traduit une économie assez classique au regard de la géographie de cette zone, faite principalement de céréaliculture, de sylviculture, de pastoralisme et de viticulture. 2. Le testament Premier abbé de Larrivour, Alain est recommandé par saint Bernard au pape Eugène III et au roi Louis VII pour le siège épiscopal d’Auxerre auquel il est élu le 30 37 ARNAUD BAUDIN novembre 1152, en remplacement d’un autre cistercien célèbre, Hugues de Mâcon, fondateur de Pontigny15. Alain occupe le siège d’Auxerre durant 15 ans avant de résigner sa charge16 et de se retirer à Clairvaux où il s’attèle, aux environs de 1167-1171, à la rédaction de la Vita secunda sancti Bernardi17. Il s’implique également, de manière occasionnelle, dans les affaires de son ancien monastère. Son nom apparaît ainsi à deux reprises dans des actes de l’évêque de Troyes et du comte de Champagne de 1174 et 1175 notifiant des accords intervenus entre Larrivour et l’abbaye bénédictine de Montiéramey18 ou le seigneur de Chappes19 et pour lesquels son arbitrage est sollicité. Ill. 3. Alain, autrefois évêque d'Auxerre, notifie le don fait à Son autorité est également requil'abbaye de Larrivour, par Renaud, curé de Droupt, des vignes se, entre 1167 et 1185, pour notiqu'il possédait à Thennelières (sans date). Arch. dép. Aube, fier sous son sceau un don de 4 H 53, n.° 8. © Département de l'Aube, Noël Mazières. vignes fait à Larrivour par le curé Abbé M. Terre, « L’élection à l’évêché d’Auxerre du successeur du bienheureux Hugues de Mâcon », dans Mélanges saint Bernard. XXIVe Congrès de l’Association bourguignonne des sociétés savantes (Dijon, 1953), Dijon, 1954, p. 116-119. Sur cette question, lire également : M. Pacaut, Louis VII et les élections épiscopales dans le royaume de France, Paris, 1957. 16 Il sera remplacé par Guillaume de Toucy (1167-1181). 17 Secunda vita sancti Bernardi abbatis, auctore seu compilatore Alano, quondam episcopo Autissiodorensis (BHL 1232 ; P.L. 185, 469-524). Voir la thèse consacrée en 1960 par Adrian Hendrik Bredero à la Vita prima (Études sur la Vita prima de saint Bernard, Rome, Editiones Cistercienses, 1960). Alain est également l’auteur d’une série de lettres au roi Louis VII (André Duchesne, Historiae Francorum Scriptores, 4 (1641), 642-3, l. 213, 214, 215, 219 et 222). 18 Aube, arr. Troyes, c. Vendeuvre-sur-Barse. Abbaye bénédictine fondée en 837 (Saint-Pierre). Henri le Libéral, comte de Troyes, confirme l’arbitrage rendu par Alain, ancien évêque d’Auxerre, Gaucher et Renaud, cellériers de Clairvaux, frère Nicolas, moine de Montiéramey, assistés de Girard, abbé de Montier-la-Celle, Guitier, abbé de Saint-Loup de Troyes, Jean de Possesse, moine de Clairvaux, et Garnier, seigneur de Traînel, entre les abbayes de Larrivour et de Montiéramey à propos d’une terre sise sur la Morge du côté de Larrivour (1174). Arch. dép. Aube, 4 H 238 (copie au cartulaire de Larrivour : 4 H 1, fol. 30r-30v). 19 Notification par Mathieu, évêque de Troyes, d’un accord conclu devant Alain, ancien évêque d’Auxerre, et Guiard de Clérey, entre l’abbaye de Larrivour et Clarembaud [III] de Chappes ; Clarembaud, approuvé par ses fils Clarembaud [IV], Guillaume et Gautier, jure de séparer la tenure de Beaumont du bois de Dosches [1174-1175]. Arch. dép. Aube, 4 H 43, n° 4 (cartulaire : 4 H 1, fol. 14v). Au sujet des seigneurs de Chappes : Édouard de Saint-Phalle, « Les seigneurs de Chappes aux XIe et XIIe siècles », Mémoires de la Société académique de l’Aube, t. CXXXI, 2007, p. 31-65. 15 38 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE de Droupt20 (ill. 3)21. Enfin, en 1182, soit une quinzaine d’années après sa résignation, le prélat accomplit un ensemble de donations pro anima en faveur son ancien monastère. Le document sur parchemin, conservé en original dans le chartrier de l’abbaye22, est également connu par une copie qui fut portée au cartulaire de Larrivour dans les années 1220-123023, au sein du premier chapitre rassemblant les titres généraux du monastère (ill. 4). La suscription, qui décline l’identité de l’auteur de l’acte, Ill. 4. Copie du testament d'Alain de Flandre dans le cartulaire Hardouin, abbé de Larrivour et de Larrivour (vers 1220-1230). Arch. dép. Aube, 4 H 1, successeur direct d’Alain, indique fol. 7-7v. © Département de l'Aube. que ce dernier s’est démis de tout ce qu’il possédait encore : « À cause de cela, moi, Hardouin, abbé de Larrivour, j’ai laissé pour le présent et le futur cette note écrite que le cher et vénérable seigneur A[lain], ancien évêque d’Auxerre, a déposé par son testament (testamentum) par notre main afin qu’il ne lui reste plus rien des biens qu’il possédait encore. » (cf. annexe, l. 2-3). Suit le dispositif et la nature des biens donnés à Larrivour. Des terres tout d’abord, à savoir quatre charruées de terre dans le bois de Dosches reposant sur la grange de Vaudemanche (l. 4-8)24, une vigne sur la grange de Vallièvre (l. 11-12)25, située en face du Droupt-Saint-Basle, Aube, arr. Nogent-sur-Seine, c. Creney-près-Troyes. Arch. dép. Aube, 4 H 53, n° 8. 22 Arch. dép. Aube, sous-série 4 H (Répertoire numérique par Gustave Duhem, 29 p.). 23 Au sujet du chartrier de Larrivour et du contexte de sa cartularisation, voir : A. Baudin, « Conserver la mémoire dans la filiation de Clairvaux : usages et pratiques archivistiques dans cinq abbayes de Champagne (XIIe-XVIe siècle) », dans Les pratiques de l’écrit dans les abbayes cisterciennes (XIIe-milieu du XVIe s.). Produire, échanger, contrôler, conserver. Actes du colloque international de Troyes et de Clairvaux (28-30 octobre 2015), A. Baudin et L. Morelle (éd.), Paris, 2016, p. 185-210. Voir également le manuscrit de Louis Le Clert, conservé à la Médiathèque de Troyes Champagne Métropole et destiné à l’édition d’une monographie sur l’abbaye de Larrivour et sans doute aussi à l’édition du cartulaire (ms. 3195 : Notice sur l’abbaye de Larrivour, 386 fol.). 24 Vaudemanche (grangiam vie Dominiche) : cette grange, liée à une donation des seigneurs de Chappes dans le bois de Dosches, est attestée dans les années 1145-1152. Située à 3,5 km au nord de l’abbaye, l’exploitation semble davantage spécialisée dans la céréaliculture (A. Baudin, « Larrivour, trentième fille de Clairvaux… », p. 453-454). 25 Vallièvre (grangiam de Walleura ou de Galievre) : il s’agit de la grange de l’abbaye, située en face de la porterie mais jamais qualifiée comme telle. Les renseignements à son sujet sont peu nombreux. Une pancarte de l’évêque de Troyes Hatton des années 1139-1141 détaille les différents donateurs ou vendeurs des terres qui aboutissent à la constitution de la « terre de la ferme de Valièvre ». En 1161, le comte Henri le Libéral (1152-1181) donne à Larrivour le ban de la Barse, pour la pêche, depuis le gué de Vallièvre (a vado Walourie) 20 21 39 ARNAUD BAUDIN monastère, et 5 arpents de vigne qu’il avait acquis sur la côte de Thennelières (l. 12-14). La donation prévoit également que les moines de Larrivour pourront prendre tous les ans une livre de pain blanc provenant de la récolte de froment de la grange de Vaudemanche à l’occasion de chacune des grandes fêtes liturgiques, à la fête de saint Bernard26 et pour l’anniversaire d’Alain (l. 8-11). Enfin, la donation est complétée par celle de 7 calices et de tous ses livres tant claustraux qu’ecclésiastiques, spécifiant qu’aucun de ces livres et de ces calices ne soit emporté en-dehors de Larrivour (l. 14-16). Le document se poursuit par la disposition relative au choix du lieu de sépulture, à savoir près de saint Bernard à l’intérieur de l’église abbatiale de Clairvaux (l. 18-20)27. Ce choix est concédé malgré lui par l’abbé Hardouin : « Comme nous avons autorisé avec peine d’être séparé de l’affection d’un père si aimant, nous abandonnons à contrecœur sa sépulture, comme il le souhaite, de manière à ce que son âme et son cœur puissent être ensevelis près de saint Bernard pour qu’il ressuscite avec lui (…) » ; il se justifie pleinement pour quelqu’un qui a été recruté par Bernard, qui a vécu longtemps auprès de lui, qui a participé pleinement à son procès en canonisation et qui, comme de nombreux autres compagnons des premiers temps du monastère, désire attendre la résurrection auprès du saint. Larrivour, qui certes abrite déjà la tombe de l’évêque de Troyes Hatton, mort en 114528, ne peut dès lors rivaliser, quand bien même il s’agit de son premier abbé29. jusqu’à l’orée de La Forestele. La ferme possède dès l’origine un moulin à eau sur la Barse (molendino de Bussi), dont subsistent des vestiges de l’époque moderne, moulin donné à l’abbaye par une fratrie originaire de Lusigny (A. Baudin, « Larrivour, trentième fille de Clairvaux… », p. 450). 26 Bernard meurt le 20 août 1153 (Pierre Aubé, Saint Bernard de Clairvaux, Paris, 2003, p. 631-640). 27 Bernard est inhumé le 22 août 1153 devant le maître-autel de l’église abbatiale de Clairvaux II alors en construction, aux côtés de son ami Malachie Ua Morghair, archevêque irlandais d’Armagh, mort à Clairvaux cinq ans auparavant. Canonisé en 1174, le corps de l’abbé fondateur de Clairvaux est alors transporté provisoirement, avec celui de Malachie, dans une chapelle à l’extrémité sud du transept méridional, où se trouve la porte de communication avec le cloître. En 1178, les deux corps sont de nouveau déplacés, cette fois derrière le maître-autel, du côté de l’Évangile, et celui de saint Bernard installé dans un tombeau-autel (Chrysogonus Waddell, « Le culte et les reliques de saint Bernard de Clairvaux », dans Saint Bernard et le monde cistercien. Catalogue d’exposition (Conciergerie de Paris, 18 décembre 1990-28 février 1991), Léon Pressouyre et Terryl N. Kinder (dir.), Paris, 1990, p. 140-147 ; Alexandra Gajewski, « Burial, cult and construction of the abbey church of Clairvaux (Clairvaux III) », Cîteaux. Commentarii Cistercienses, t. 56, 2005, p. 47-84). 28 Hatton fut inhumé dans la salle capitulaire et, à sa suite, la plupart des abbés et prieurs du monastère (L. Le Clert, op. cit., fol. 76). 29 Un évêque cistercien est généralement inhumé dans l’abbaye où il fit profession ou dans celle dont il fut éventuellement l’abbé. Sur cette question, lire l’article à paraître de Jean-Vincent Jourd’heuil, « Pourquoi les évêques sont-ils enterrés chez les Cisterciens ? Le cas de la province de Reims (1100-1500) », dans La voix des morts. Actes du 7e colloque international de l’abbaye des Dunes (Coxyde, 21-23 octobre 2015), étude par ailleurs publiée en néerlandais : « Waarom werden bisschoppen begraven in cisterciënzerabdijen ? Een studie van de kerkprovincie Reims (1100-1500) », Novi Monasterii, Jaarboek Abdijmuseum Ten Duinen, Gand, t. 15, p.169-176. 40 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE Enfin, le texte s’achève par la fondation de l’anniversaire d’Alain à Larrivour, un obit présenté comme relevant d’une initiative de la communauté cistercienne en remerciement des biens donnés (l. 22-27) : tout d’abord pour chaque jour de l’année qui suivra le décès d’Alain, il est prévu que les prêtres réciteront 5 messes, les clercs 2 psaumes et les laïcs 300 Notre Père et que, chaque jour dans l’année qui suivra son décès, des messes seront célébrées spécialement à son intention ; puis pour l’anniversaire proprement dit, une messe sera dite ce jour-là au monastère, les prêtres accompliront en sa mémoire l’office divin, tandis que les clercs réciteront 50 psaumes et les laïcs 100 Notre Père. Quels sont les biens concédés par Alain ? Des calices tout d’abord, acquis du temps de son épiscopat, dont la qualité n’est pas décrite, et qui furent sans doute conservés dans le trésor du monastère jusqu’à leur envoi à l’Hôtel de la monnaie de Paris au cours des premières années de la Révolution. Des livres ensuite, dont le prélat interdit qu’ils soient emportés en-dehors de l’abbaye. Il ne subsiste aucun inventaire de la bibliothèque de Larrivour renseignant le nombre et la nature des manuscrits offerts et sur cette distinction apportée entre livres « claustraux » (évangiles, missels, psautiers) et « livres ecclésiastiques », notion un peu vague destinée à éliminer la possession d’une littérature profane et rassemblant sans doute des livres de théologie, de droit canon, d’annales ecclésiastiques, etc. Au cours de leur passage à Larrivour, au XVIIIe siècle, Dom Martène et Dom Guyton visitent la bibliothèque du monastère. Assez modeste, celle-ci se situe alors dans le cabinet du prieur30; il en subsiste trois manuscrits conservés dans les bibliothèques de Montpellier (Vitae Sanctorum)31, Paris (Hugo de Sancto Victore ; Guillelmus de Albaripa ; Gaufridus de Altacumba)32 et Troyes (Cassianus, Collationes Patrum)33. Toujours selon Dom Guyton34, Alain avait donné en 1182 à l’abbaye de Clairvaux un Décret de Gratien. La possession de cette œuvre majeure du droit canon Voyage littéraire de deux bénédictins de la Congrégation de Saint-Maur, 1717. Bibl. univ. Montpellier, Méd. 22. L’ex-libris du XIIe siècle porte simplement la référence d’appartenance à l’abbaye de Larrivour (« Liber beatae Mariae de Rippatorio » ; Anne Bondéelle-Souchier, Bibliothèques cisterciennes dans la France médiévale. Répertoire des abbayes d’hommes, Paris, 1991, p. 173). 32 Bibl. nat. Fr., ms. lat. 3011 (En ligne : https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b9076534m/f1.image ; consulté le 10.08.2018). Ce manuscrit contient, outre divers fragments du XIIIe siècle, des œuvres de Hugues de Saint-Victor, mort en 1141 (Adnotationes elucidatoriae in Pentateuchum), de Guillaume d’Auberive, mort vers 1180 (Epistola ad Stephanum monachum de sacramento quadragenarii ; De Sacramentis numerorum a ternario usque ad duodenarium), et de Geoffroy d’Auxerre, dit aussi de Hautecombe dont il fut abbé de 1176 à 1188, un des auteurs de la Vita prima sancti Bernardi (De Creatione perfectorum et sacramento ; De Sacramentis numerorum). Si l’ex-libris du XIIIe siècle confirme l’origine du manuscrit (« Liber sancte Marie de Ripatorio », fol. 85), celui-ci ne peut avoir appartenu en l’état à Alain de Flandre en raison de la datation tardive de la plupart des œuvres qui le composent [1101-1300]. A. Bondéelle-Souchier, op. cit. 33 Médiathèque de Troyes Champagne Métropole, Ms. 265 (En ligne : https://portail.mediatheque.grandtroyes.fr/iguana/www.main.cls?surl=search&p=*#recordId=2.560&srchDb=2,3 ; consulté le 13.08.2018). L’ex-libris du XIIe siècle porte lui aussi la référence d’appartenance à Larrivour (« Liber sancte Marie de Ripatorio », fol. 103v ; A. Bondéelle-Souchier, op. cit.). 34 Voyage littéraire en Champagne, 1744-1749, p. 72. 30 31 41 ARNAUD BAUDIN des années 1140 atteste sa diffusion rapide dans les milieux ecclésiastiques et donne à voir la figure d’un administrateur, successivement en charge d’un monastère puis d’un diocèse, qui se doit, à ce titre, de posséder des capacités juridiques. Mais Alain dispose sans doute aussi de nombreuses autres compétences, en théologie notamment, acquises du temps où il était chanoine et écolâtre de Lille. Sans oublier son appétence pour les œuvres littéraires et l’hagiographie dont témoignera bientôt sa participation à l’équipe en charge de la rédaction de la Vita de Bernard. Ce don de calices et de livres appartient à une pratique remontant au haut Moyen Âge d’abbés ou de hauts dignitaires ecclésiastiques dotant leur monastère ou leur église d’objets liturgiques en tout genre, à l’image de Riculf, évêque d’Elne, léguant en 915 au trésor de sa cathédrale des pièces d’orfèvrerie et des livres. Éric Palazzo a montré qu’il s’agissait pour le donateur de construire tout à la fois la mémoire de son église et la sienne propre35. Un geste connu d’Alain, désireux de fonder l’identité de Larrivour et de perpétuer la mémoire de son abbatiat et de ses libéralités : ses calices et ses livres seront montrés aux visiteurs et sortis du trésor pour célébrer la messe à l’occasion des fêtes principales du calendrier liturgique ou des offices célébrées pour son anniversaire. Reste la question des terres et des vignes assises sur deux granges de Larrivour, à Vaudemanche et Vallièvre dont rien n’est dit de la manière dont elles entrèrent en possession de l’évêque. Il est inconcevable que celui-ci ait pu en faire l’acquisition pendant son abbatiat, sous peine d’entrer en contradiction avec le vœu de pauvreté et les principes de l’Ordre. Il faut donc considérer qu’Alain les acheta soit du temps de son épiscopat, soit plus certainement après sa résignation, au gré des opportunités ou en sollicitant directement le propriétaire qui, dans la zone du bois de Dosches pouvait encore être à cette date un membre du lignage de Chappes et, dans celle de la grange de l’abbaye à Vallièvre, l’abbaye bénédictine de Montiéramey. Quant à la cession assez considérable de 5 arpents de vignes (env. 17 ha)36 sur la colline de Thennelières, elle semble faire écho à la donation à Larrivour par Renaud, le curé de Droupt, de vignes, elles aussi situées à Thennelières, notifiée par Alain en personne, en présence de Hardouin, abbé de Larrivour, du prieur Jean, du portier Joscelin et de frère Raoul. Ce don, qui interpelle au regard de la nature, de la quantité et de la localisation des biens concédés, laisse apparaître en arrière-plan une affaire négociée par Alain pour susciter la libéralité du curé en échange de la compensation, en numéraire, du rachat de ces 5 arpents. Si cette hypothèse est 35 Éric Palazzo, « Arts somptuaires et liturgie. Le testament de l’évêque d’Elne, Riculf (915) », dans Retour aux sources : textes, études et documents d’histoire médiévale offerts à Michel Parisse, Sylvain Gougenheim, Monique Goullet, Odile Kammerer et al. (éd.), Paris, 2004, p. 711-717, notamment aux p. 715-716. 36 Calcul effectué sur la base de 34 ares l’arpent (Jean-Claude Hocquet (éd.), La diversité locale des poids et mesures dans l’ancienne France, Actes du IIe congrès international du comité français de métrologie historique, Paris, 1996 (Cahiers de métrologie, t. 14-15). À titre de comparaison, Clairvaux possède plus de 230 ha de vignes au XIIIe siècle produisant de 6 à 7 000 hl de vin (Robert Fossier, « La puissance économique de l’abbaye de Clairvaux au XIIIe siècle », dans Histoire de Clairvaux. Actes du colloque de Bar-sur-Aube/ Abbaye de Clairvaux (22-23 juin 1990), Bar-sur-Aube, 1991 (réimp. 2015), p. 73-83, à la p. 79). 42 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE admissible, il faut dès lors rapprocher la temporalité des deux actes, en proposant de dater la donation de Renaud de cette même année 1182, voire même une mise par écrit simultanée comme peut le laisser croire non seulement la graphie de ces deux documents et, bien plus encore, la tonalité de la cire des empreintes sigillaires. Alain prépara donc soigneusement la fondation de son anniversaire. En réalité, un tel souci n’est pas exceptionnel mais rarement clairement documenté avant la fin du Moyen Âge37. Un exemple contemporain retient ici particulièrement l’attention. Il s’agit du don fait à Larrivour, entre 1145 et 1152, c’est-à-dire du temps de l’abbatiat d’Alain, en présence de l’abbé de Clairvaux et du comte de Champagne, par Henri de Carinthie (1145-1169), d’un domaine situé entre Somme-Fontaine et Marcilly38 que l’évêque de Troyes a acquis d’un certain Hugues du Hayer. Cette donation sera à l’origine de la grange bien nommée de Don-l’Évêque (grangiam doni episcopi), située à 50 km à l’ouest de l’abbaye, de l’autre côté de Troyes39. J’ai eu l’occasion, dans une étude consacrée aux sceaux des évêques de Troyes, de supposer les liens qu’entretenait Alain de Flandre avec son évêque40. Tous deux cisterciens et proches de saint Bernard, les deux hommes se connaissent bien. Henri de Carinthie est entré vers 1123 à Morimond avant de prendre la tête de la colonie partie fonder, en 1133, l’abbaye lorraine de Villers-Betnach. Appartenant certes à deux rameaux distincts de l’Ordre, Henri et Alain ont sans doute fréquenté ensemble les réunions du chapitre général qui se tiennent depuis 1119. Leur relation est devenue plus étroite après l’élection d’Henri sur le siège épiscopal de Troyes en 1145, celui-ci multipliant les notifications sous son sceau des privilèges et libéralités en faveur de Larrivour. L’importante donation du domaine de Don-l’Évêque, bientôt à l’origine d’une grange, paraît révéler un exemple identique de préparation d’anniversaire par un évêque cistercien bientôt reproduit par Alain. Henri de Carinthie sera inhumé en 1169 à l’intérieur de l’église abbatiale de Boulancourt, une autre abbaye cistercienne de la filiation de Clairvaux, rattachée à l’Ordre en 1150 et située au nord-est de la forêt d’Orient en Champagne, où il dut fonder un obit, comme peut-être aussi à Villers-Betnach et auprès du chapitre cathédral de Troyes41. Ainsi, en 1435, le curé de Saint-Lyé, près de Troyes, achète des terres à un de ses paroissiens qu’il donne en 1466 au chapitre cathédral de Troyes pour la fondation de son anniversaire (Arch. dép. Aube, G 3289). Sur cette question, voir : Vincent Tabbagh, « Le rythme des messes pro remedio animæ dans les fondations de la fin du Moyen Âge », La misura, Micrologus (19), 2011, p. 383-401. 38 Marcilly-le-Hayer, Aube, arr. Nogent-sur-Seine, c. Saint-Lyé ; Somme-Fontaine, Aube, arr. Nogent-surSeine, c. Saint-Lyé, cne Saint-Lupien. 39 Aube, c. Saint-Lyé, cne Saint-Lupien. Cette grange sera vendue, en 1479, aux moines de Vauluisant (Arch. dép. Yonne, H 772-773). A. Baudin, « Larrivour, trentième fille de Clairvaux… », p. 456. 40 A. Baudin, « Les sceaux des évêques de Troyes au Moyen Âge. Regards sur quelques pratiques diplomatiques et iconographiques », Mémoires de la Société académique de l’Aube, t. CXL, 2016, p. 453-512, notamment p. 472-473 et n° 4, p. 482-483. 41 Patrick Corbet, « Recherches sur l’épiscopat d’Henri de Carinthie, évêque de Troyes (1145-1169) », Mémoires de la Société académique de l’Aube, t. CXXXVIII, 2014, p. 9-18 ; Id., « Henri de Carinthie, fils de prince, moine cistercien et évêque de Troyes (1146-1169) : ses liens avec l’abbaye de Morimond », dans Morimond 1117-2017 : 37 43 ARNAUD BAUDIN 3. Le signet d’Alain de Flandre La charte, mise en forme par le scriptorium de Larrivour, est validée par deux sceaux de cire brun-rouge sur lanières de cuir, annoncés dans la formule de corroboration : « (…) et pour que tout ce qui a été dit et mis par écrit ici ne périsse dans les temps à venir, nous le plaçons sous la menace de l’anathème et pour cela nous commandons qu’il soit renforcé par l’impression de notre sceau et l’apposition de son anneau. » (l. 20-21). À gauche se trouve l’empreinte du sceau du bénéficiaire de l’acte, le premier sceau commun de l’abbé et de l’abbaye de Larrivour, en usage au plus tôt depuis la fin des années 1170, inconnu de l’abbatiat d’Alain. Il figure le père supérieur assis, en habits liturgiques, tenant une crosse de la main droite, et un livre de la main gauche (SIGILLVM ABBATIS DE RIPATORIO)42. À droite se trouve la marque du sceau d’Alain de Flandre, une empreinte obtenue par l’apposition d’un anneau sigillaire dont le chaton octogonal, monté haut comme le prouve l’absence de marque des épaules, est serti d’une pierre (ill. 5). La légende est gravée sur une bande de métal courbée recouvrant légèrement une intaille ovale mesurant 16 × 14 mm et figurant Mercure ou un petit génie ailé43. Elle précise le prénom du sigillant et sa qualité : + ALANI AUT[IS(siodorensis) E]PISC(copi), soit, « Alain, évêque d’Auxerre » (ill. 6)44. Cette bague, qui a d’abord été perçue comme le plus ancien type connu d’un sceau de moine en Fran- Ill. 5. Signet d'Alain de Flandre. Empreinte du testament (1182). Arch. dép. Aube, 4 H 53, n.° 12. © Département de l'Aube, Noël Mazières. Ill. 6. Dessin du signet d'Alain de Flandre par Louis Le Clert (fin du XIXe siècle). © Troyes Champagne Métropole. approche pluridisciplinaire d’un réseau monastique. Actes du colloque international des 900 ans de la fondation de l’abbaye de Morimond (Langres-Chaumont, 31 août-2 septembre 2017), à paraître. 42 Le chapitre général de 1200 rappelle que l’abbé ne fait qu’un avec sa communauté et qu’aucun monastère ne peut avoir son sceau propre, distinct de celui de l’abbé. Ce sceau unique doit être un sceau de fonction de l’abbé non nominatif. (A. Baudin, « Sceller à Clairvaux et dans sa filiation champenoise du XIIe au XVe siècle », dans Clairvaux. L’aventure cistercienne, A. Baudin, Nicolas Dohrmann et L. Veyssière (dir.) Paris, 2015, p. 172-183, à la p. 176). Sur cette question, voir Emmanuel Rousseau, Les sceaux des cinq premières maisons de l’ordre de Cîteaux (1098-1516), thèse de l’École nationale des chartes, 1996. 43 Louis le Clert croit identifier Mercure dans le personnage de cette intaille (op. cit., fol. 329). Je crois plutôt qu’il s’agit d’un génie ailé. 44 La lecture de cette légende est impossible à l’œil nu à partir des seules empreintes conservées. Elle a été facilitée par le moulage de la collection constituée par Auguste Coulon à partir des sceaux de Champagne (Arch. nat., sc/Ch 1519) et du dessin réalisé par Louis Le Clert dans son étude manuscrite sur Larrivour (op. cit., fol. 329). 44 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE ce45, est qualifiée à la fois de sigillum dans l’acte de notification du don fait à l’abbaye de Larrivour par le curé de Droupt, et d’annulus dans le testament d’Alain. Il ne s’agit pas ici de l’anneau épiscopal au sens strict, encore que de rares exemples sont attestés pour cet usage en contre-sceau du grand sceau épiscopal, en particulier avec Ulger, évêque d’Angers entre 1125 et 1149, et peut-être avec Henri de Blois, évêque de Winchester de 1129 à 117146. Plus certainement, ce sceau est le signet personnel de l’évêque d’Auxerre, celui qu’il réserve à la validation de ses affaires privées et notamment au scellement de sa correspondance. Peutêtre en use-t-il en certaines occasions pour contre-sceller son grand sceau épiscopal, encore que cette pratique n’est pas documentée par la seule empreinte de celui-ci conservée aux Archives départementales de l’Yonne, le représentant debout de face, coiffé de la mitre, bénissant de la main droite et tenant la crosse de la main gauche (ill. 7)47. Des exemples de signets épiscopaux à intaille et apposés en contre-sceaux sont donnés à la même époque par l’archevêque de Rouen, Hugues d’Amiens (1130-1164), et Guillaume-aux-Blanches-Mains, frère du comte de Troyes Henri Ier le Libéral, archevêque de Sens (1168-1176), puis de Reims (1176-1202)48. À la suite d’Ernest Babelon, Jean-Luc Chassel imagine que la fréquence des intailles parmi les tout premiers contresceaux s’explique par le fait qu’ils venaient d’anneaux Ill. 7. Moulage du grand sceau sigillaires, marquant l’intervention personnelle du sigil- d'Alain de Flandre comme évêque lant49. Le goût pour les gemmes antiques, qui n’a jamais d'Auxerre d'après une empreinte de véritablement disparu depuis la renaissance carolin- 1163. Arch. nat., sc/D 6475 et sc/B 919. © Archives nationales, Pôle Images. Caroline Simonet, « Les sceaux de moines. Un premier état des lieux (France, XIIe-XVe siècle) », Revue française d’héraldique et de sigillographie – Études en ligne, 2017-3, décembre 2017, 13 p., notamment p. 7 [En ligne : http://sfhs-rfhs.fr/wp-content/PDF/articles/RFHS_W_2017_003.pdf; consulté le 15.08.2018]. 46 A. Baudin, Emblématique et pouvoir en Champagne. Les sceaux des comtes de Champagne et de leur entourage (fin XIe-début XIVe siècle), Langres, 2012, p. 175-178 et n° 42-42bis. 47 Arch. dép. Yonne, H 1206, n° 3 (1163). Dans le champ, entourant l’évêque, les lettres ALA/NUS. Légende entre deux filets : + SIGILLUM AUTISIODORENSIS EPISCOPI [En ligne : https://archivesenligne.yonne.fr/ archive/fonds/FRAD089_00000001; http://www.sigilla.org/fr/sgdb/sceau-type/3934 ; consulté le 15.08.2018]. Arch. nat., sc/D 6475 et sc/B 919. 48 A. Baudin, Emblématique et pouvoir en Champagne, p. 178-182 et nos 39-39bis et 40-40bis. 49 J.-L. Chassel, « De la diplomatique à la glyptique : notes sur l’usage des intailles sigillaires au Moyen Âge », dans Retour aux sources, op. cit., p. 43-53. Les études sur l’utilisation des intailles en sigillographie s’appuient sur l’important travail de recension de Germain Demay (G. Demay, « Des pierres gravées employées dans les sceaux du Moyen Âge », publié en préface de l’Inventaire des sceaux de l’Artois, Paris, 1877). Si les ouvrages sur l’histoire de la glyptique antique et médiévale demeurent incontournables (E. Babelon, Histoire de la gravure sur gemmes en France, depuis les origines jusqu’à l’époque contemporaine, Paris, 45 45 ARNAUD BAUDIN gienne, est un véritable phénomène de mode dans les sceaux de la haute aristocratie entre le dernier tiers du XIIe et la première moitié du XIIIe siècle, en particulier à la cour de Champagne50. Et peu importe que l’image gravée dans la pierre soit un thème païen. Pour l’homme du Moyen Âge, fût-il un ecclésiastique, la beauté d’une pierre, les vertus thérapeutiques ou prophylactiques qu’elle tire de la nature et que les traités lapidaires recensent, sont bien plus essentielles que le thème y figurant. À cela s’ajoute parfois une interprétation allégorique secondaire, la présence de la gemme augmentant probablement, dans l’esprit du sigillant, la capacité de protection du contre-sceau contre les faussaires. Inscrite au revers, la pierre précieuse joue le rôle d’une sécurité technique supplémentaire soulignant l’intervention personnelle du propriétaire de la matrice. Par ailleurs, la figure païenne est dans bien des cas tout simplement réappropriée par la culture médiévale et regardée comme l’image d’un saint ou comme symbole chrétien51. Il est ainsi possible d’imaginer que la Vénus du signet de l’archevêque Guillaume-aux-Blanches-Mains fut réutilisée comme une image de la Vierge et que le génie – ou le Mercure – du signet d’Alain de Flandre peut avoir été perçu par son propriétaire comme la représentation d’un ange. Loin des usages de l’ordre de Cîteaux, les habitudes de l’ancien abbé de Larrivour sont, comme pour sa pratique testamentaire, bien davantage celles d’un évêque résignataire, membre du haut clergé, revenu vivre ses derniers jours près de saint Bernard, que celles d’un moine cistercien auquel les statuts interdisent toute capacité juridique et donc tout usage individuel d’un moyen d’authentification. En résidence à Clairvaux, Alain de Flandre agit donc toujours selon le droit ecclésiastique général qui permet à un prélat ayant résigné sa charge de continuer à valider sous son sceau des actes l’engageant personnellement. *** De retour à Clairvaux en 1167, Alain s’installe dans la cellule de saint Bernard, selon le Livre des sépultures de l’abbaye52, comme l’a fait le premier prieur de Clairvaux 1902 ; H. Guiraud, Intailles et camées romains, Paris, 1996), les travaux de Jean-Luc Chassel (op. cit.), de Laurent Macé (« L’intaille et le sceau : la question du modèle dans la pratique sigillaire médiévale », Les Cahiers de Saint-Michel de Cuxa, n° 37, 2006, p. 211-220) et de Martin Henig (« The Re-use and Copying of Ancient Intaglios set in Medieval Personal Seals, mainly found in England : An aspect of the Renaissance of the 12th Century », dans Good Impressions. Image and Authority in Medieval Seals, N. Adams, J. Cherry et J. Robinson (éd.), Londres, 2008, p. 25-34) définissent les bases des travaux sur cette question. 50 A. Baudin, « Les intailles dans les sceaux de la maison de Blois-Champagne aux XIIe et XIIIe siècles : raffinement des élites et phénomène de mode », dans Les sceaux, sources de l’histoire médiévale en Champagne (Actes des tables rondes de Troyes et de Reims, 2003-2004), J.-L. Chassel (dir.), Paris, Société française d’héraldique et de sigillographie, 2007, p. 117-123 ; Id., Emblématique et pouvoir en Champagne, p. 115-125. 51 A. Baudin, Emblématique et pouvoir en Champagne, p. 180-181. 52 Liber sepulchrorum Clarevallis, Charles Lalore (éd.) dans Le trésor de Clairvaux du XIIe au XVIIIe siècle, Troyes, 1875, p. 183-217, ici aux p. 196-197 (édition de la dernière version de 1680) ; Pierre Piétresson de 46 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE Geoffroi de La Roche-Vanneau après la résignation de sa charge d’évêque de Langres53. Située sur le site primitif de l’abbaye, à 400 mètres du monastère de Clairvaux II, c’est ici qu’Alain a vécu les premières années de son monacat. C’est là qu’il meurt, en 1185 ou 1186, le 14 octobre selon l’Obituaire de Clairvaux, soit trois ou quatre années après la mise par écrit de ses libéralités en faveur de Larrivour54. Selon sa volonté, il est inhumé dans l’abbatiale de Clairvaux, versus chorum, devant l’autel de tous les saints, à la droite de Geoffroi de la Roche-Vanneau55. Sa donation pro anima n’est sans doute qu’une partie de l’expression des dernières volontés d’un prélat soucieux de faire son salut. En 1166, deux actes de celui qui est encore évêque d’Auxerre en faveur du chapitre cathédral et de l’abbaye Saint-Germain portent la trace de la fondation d’un anniversaire au sein de ces deux établissements56. Peut-être le chapitre cathédral de Troyes bénéficia-t-il aussi de la fondation d’un obit, tout comme l’abbaye de Clairvaux qui reçoit justement, en cette même année 1182, un volume du Décret de Gratien ; on songe aussi aux actes de charité pour les pauvres, à la porterie de Larrivour ou de Clairvaux, absents de ce document57. La mise par écrit de ses dernières volontés, quinze années après la renonciation de sa charge épiscopale, interroge doublement, d’un point de vue spirituel et juridique. Car, si c’est le sentiment de l’imminence de son trépas qui le conduit alors à renoncer à ses Saint-Aubin, « Le livre des sépultures. Chronique inédite des abbés de Clairvaux (1114-1678) », Revue Mabillon, vol. 19 (1929), p. 303-323. 53 Premier abbé de Fontenay (1118-1126), prieur de Clairvaux (1126-1138), Geoffroi est imposé par saint Bernard sur le siège épiscopal de Langres en 1138 (Giles Constable, « The Disputed Election at Langres in 1138 », Traditio, vol. 13, 1957, p. 119-152 ; Hubert Flammarion, « Saint Bernard et le diocèse de Langres », Mémoires de l’Académie des Sciences, Arts et Belles-Lettres de Dijon, t. 140, Dijon, 2006, p. 303-322). Il résigne sa charge en 1162 et se retire à Clairvaux où il meurt le 8 novembre 1166 (L. Veyssière, « Le personnel de l’abbaye de Clairvaux… », p. 57). 54 La date de décès d’Alain fait controverse. J. Lebeuf, sur la base de ce testament, pense qu’il mourut peu après sa rédaction en 1182 (op. cit., p. 329). R. Trilhe avance plutôt l’année 1185-1186 (op. cit., col. 1298). Obituaire de Clairvaux d’après le B.M. Troyes Ms. 1093, Charles Lalore (éd.) dans Le trésor de Clairvaux du XIIe au XVIIIe siècle, Troyes, 1875, p. 180. 55 Liber sepulchrorum Clarevallis, op. cit., n° 21, p. 196-197. J. Lebeuf lit encore l’épitaphe du tombeau d’Alain, en partie effacée, en 1730 : Hic jacet d(omi)n(u)s Alanus I, abbas Ripatorii deinceps Autissiod(orensis) ep(iscopus), obiit anno […] (op. cit., p. 329). 56 En 1166, Alain, voulant que soit célébré son anniversaire dans l’église cathédrale d’Auxerre (ut post decessum meum singulis annis anniversarium meum faciant), réunit l’office de la prévôté au corps du chapitre cathédral, et ce après la mort du titulaire (Maximilien Quantin, dir., Cartulaire général de l’Yonne, vol. 2, Auxerre, 1860, n° CLXV, p. 183-184. Également cité par J. Lebeuf, op. cit., p. 327). La même année, il rapporte qu’il a confirmé à l’abbaye Saint-Germain d’Auxerre le droit de patronage sur l’église SaintLoup et qu’il lui a donné 100 sous de rente sur cette église pour fonder son anniversaire (centum solidos pro anniversario nostro faciendo ; M. Quantin, op. cit., vol. 2, n° CLXVI, p. 184-185). 57 Il n’existe pas de trace d’une donation pro anima d’Alain de Flandre, ni en faveur du chapitre cathédral de Troyes (Auguste Longnon, dir., Obituaires de la province de Sens, t. 4 : Diocèses de Meaux et de Troyes, Paris, 1923), ni en faveur de Clairvaux (L. Veyssière, Recueil des chartes de l’abbaye de Clairvaux au XIIe siècle, Paris, 2004). 47 ARNAUD BAUDIN dernières richesses terrestres, cette attitude n’est-elle pas en contradiction à la fois avec le chapitre 33 de la Règle et l’ensemble des textes normatifs cisterciens ? Quant à la possession d’un signet personnel lui conférant le droit de tester à titre privé en vertu du droit ecclésiastique général, ne le place-t-elle pas dans une position spécifique, à la fois dans et en-dehors de la communauté claravallienne ? Devant le nombre de plus en plus grand d’évêques choisis au sein de l’Ordre, devant aussi la contradiction où se trouvent ces hommes qui ont d’abord fait le choix de vivre en retrait du monde, le chapitre général de 1134 spécifie que ceux-ci doivent garder les coutumes de tout profès quant aux jeûnes, au vêtement (port de la coule et du scapulaire ou bien d’un manteau de vile étoffe ou de brebis) et la récitation de l’office cistercien, ce qui revient à dire en creux qu’ils demeurent tenus par leurs vœux et soumis aux observances et à l’autorité de l’Ordre. Or, dans le cas présent, Alain montre qu’il est propriétaire de biens, qu’il peut en acheter de nouveaux et qu’il peut en disposer, toutes choses interdites à un moine, et alors que l’abbé de Clairvaux, qui n’intervient pas dans cette affaire, ne semble pas avoir autorité sur Alain. Est-ce donc parce qu’il ne respecte pas les décisions capitulaires qu’il demeure en-dehors de la clôture entre 1167 et 1182 ou bénéficie-t-il d’un statut privilégié réservé à un évêque ayant résigné et autorisé à vivre en ermite en attendant la mort à l’intérieur de cet espace quasi sacré qu’est devenue la cellule de saint Bernard ? Selon la réglementation canonique, la résignation au siège et à la dignité n’efface pas la puissance du sacre qui a fait d’Alain un haut dignitaire ecclésiastique ; du point de vue du droit, Alain conserve le caractère épiscopal que lui a conféré le sacre et, à ce titre, sa pleine capacité juridique58. L’exemple offert par ce document montre néanmoins les premiers évêques cisterciens, mais aussi l’Ordre dans son ensemble, face à un dilemme : comment faire son salut tout en respectant ses engagements ? L’absence de scandale, dans le cas d’Alain de Flandre comme dans celui d’Henri de Carinthie, laisse deviner une pratique plutôt partagée. Reste que c’est dépouillé de ses derniers biens terrestres qu’Alain put rendre son dernier souffle, dans le respect du protocole funéraire prévu59, comme en témoignent toutes les sépultures des anciens évêques cisterciens inhumés à Clairvaux60. Allongé à même le La « mort civile » du moine ne s’applique plus à Alain qui a reçu la consécration épiscopale et qui ne peut être considéré comme un simple religieux. En effet, sa renonciation au siège d’Auxerre n’efface pas les effets perpétuels du sacrement de l’ordre qui, selon le droit canon, ne peut être annulé ni conféré pour un temps limité (« Juravit Dominus et non poenitebit eum tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech », psaume 110), ce que rappelle la titulature utilisée dans l’acte de notification du curé de Droupt (« Ego A., quondam Autisiod(orensis) qualiscunque sacerdos (…) ». Arch. dép. Aube, 4 H 53, n° 8 ; ill. 3). Sur cette question, voir l’article « Évêques » du Dictionnaire de droit canonique contenant tous les termes du droit canonique, R. Naz (dir.), t. 5, Paris, 1953, p. 569-589. 59 Les Ecclesiastica officia cisterciens du XIIe siècle ne disent rien sur ce protocole funéraire (Danièle Choisselet et Placide Vernet (éd.), Les Ecclesiastica officia cisterciens du XIIe siècle. Texte latin selon les manuscrits édités de Trente 1711, Ljubljana 31 et Dijon 114, version française, annexe liturgique, notes, index et tables, Reiningue, 1989, p. 269-291). 60 Les moines-évêques cisterciens inhumés dans l’église abbatiale de Clairvaux ont été enterrés humblement, éventuellement avec une seule crosse en bois et leur anneau. Ce que confirme la découverte en 1751 de six 58 48 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE sol, simplement vêtu de la coule blanche de l’Ordre avec sans doute pour seul insigne son anneau sigillaire, il peut désormais rejoindre saint Bernard et, au-delà, l’ensemble de la communauté claravallienne qui l’a précédée. ANNEXE Hardouin, abbé de Larrivour, fait connaître sous son sceau le testament d’Alain, ancien évêque d’Auxerre. Celui-ci donne à l’abbaye de Larrivour : quatre charruées de terre dans le bois de Dosches, reposant sur la grange de Vaudemanche ; une vigne sur la grange de Vallièvre ; 5 arpents de vigne sur la côte de Thennelières ; sept calices et l’ensemble de ses livres claustraux et ecclésiastiques. Il demande à être inhumé à Clairvaux près de saint Bernard et fonde son anniversaire à Larrivour. Alain appose son anneau à ses dernières volontés (1182). A. Original sur parchemin (196 × 196 mm ; repli : 15 mm), Arch. dép. Aube, 4 H 53, n° 12. Scellé de deux sceaux de cire brun-rouge sur double queue de parchemin. 1/2 : sceau commun de l’abbé et de l’abbaye de Larrivour [1178-1247]. En navette (28 × 23 mm). Abbé assis sur un siège en X, tenant la crosse de la main droite et un livre fermé de la main gauche. Légende entre deux filets : + SIGILLVM ABBATIS DE RIPATORIO. Arch. nat., sc/Ch 2702 ; 2/2 : signet d’Alain de Flandre [1182]. Octogonal (18 × 16 mm). Intaille ovale (16 × 14 mm) figurant Mercure ou un génie ailé coiffé du pétase. Légende : + ALANI AUT[IS(siodorensis) E]PISC(copi). Arch. nat., sc/Ch 1519. B. Cartulaire, 4 H 1, n° XXXV, fol. 7-7v (De sedis abbatie). Notes dorsales : D’une écriture de la fin du XIIe siècle : « Abbatie. Testamentum domini Alani, quo(n)dam Autisiodorensis episcopi » ; d’une main du XVe siècle, en rouge : « X. XLVIIa ». D’une main du XVIIe siècle : « Pour Vaudemanche Thenelières. 1182. tombes lors du changement des pavés devant la chapelle de tous les saints où était justement inhumé Alain de Flandre (L. Veyssière, « La tombe découverte à l’abbaye de Clairvaux en 1820 est-elle celle de Guillaume de Joinville, archevêque de Reims († 1226) ? », Bibliothèque de l’École des chartes, t. 164, janvier-juin 2006, p.5-41, aux p. 20-25). Voir aussi : A. Gajewski, op. cit., p. 47-84. Cette pratique n’est pas propre à Clairvaux. Amédée de Hauterive, abbé d’Hautecombe (1139-1145) puis évêque de Lausanne (1145-1159), est enterré dans sa cathédrale avec une crosse en bois, un calice en étain et son anneau en or (Elzbieta Dabrowska, « Le rite funéraire propre à l’ordre de Cîteaux. Son développement, sa réception, ses filiations », dans Unanimité et diversité cisterciennes. Filiations, réseaux, relectures du XIIe au XVIIe siècle. Actes du colloque du CERCOR (Dijon, 1998), Saint-Étienne, 2000, p. 223-231, à la p. 225). Sur cette question, lire également l’étude à paraître de Jean-Vincent Jourd’heuil, « Pourquoi les évêques sont-ils enterrés chez les Cisterciens ?... », op. cit. 49 ARNAUD BAUDIN Titres pour des terres de Vaudemanche, pour la vigne de Valièvre et cinq arpans sur la montagne de Thenelière que nous at donné Alanus par son testament. » Éditions : Gallia Christiana nova, t. XII, c. 136 ; MIGNE, Patrologie latine, t. CCI, c. 1389-1392 ; Nicolas CAMUSAT, Promptuarium sacrarum antiquitatum Tricasinae diocesis, Troyes, 1610, fol. 321-322. Indiq. : Louis LE CLERT, MTCM, ms. 3195, p. 174 ; A. BAUDIN, N. DOHRMANN et L. VEYSSIÈRE (dir.), Clairvaux. L’aventure cistercienne, Paris, Somogy-Éditions d’Art, 2015, p. 175-176 et fig. 95-95bis ; A. BAUDIN, Inventaire sigillographique du chartrier de l’abbaye de Larrivour (sous-série 4H), Direction des Archives et du Patrimoine de l’Aube, 2013, p. 204-205. Quod de consilio et voluntate capituli nostri factum et confirmatum est, ut nullatenus infirmetur, fidei committimus 1/ litterarum, ut certum habeant et ratum posteri quod exaratum est in presenti. Ea propter ego H[arduinus] (1), dictus abbas de Ripatorio (2), ad 2/ presentium et posterorum noticiam scriptum relinquo quod dilectus ac venerabilis dominus A[lanus] (3), quondam Autisiodorensis episcopus (4), ne 3/ quid de bonis que habere videbatur remaneret intestatum, sic suum per manum nostram disposuit testamentum. In primitis de gran-4/-gia, que Viadomange (5) dicitur, ordinatum est et statutum ut possessionum suarum termini ab ea nullatenus transferantur ; sed eas ut 5/ in presenti possidet, perpetuo grangia remanens perpetuo possidebit. Quod si aliquando acciderit ut infra nemus Doschie (6) suos 6/ potuerit terminos dilatare, ita ut iuxta se quatuor carrucatas terre habeat, tunc earum termini terrarum que extra rivum 7/ de Germont (7) continentur ad voluntatem abbatis et fratrum sanioris consilii poterunt transportari. Dabitur etiam singulis annis 8/ per singulas sollemnitates, quibus fratres conveniunt ad audiendum verbum Dei, et in festivitate sancti Bernardi (8) et in anniversario 9/ ejusdem A[lani] de frumento ejusdem grangie libra panis albi per singulos : et si, urgente temporum neccessitate, aliqua earumdem 10/ sollemnitatum transfertur, aut sermo dimittitur, hujus tunc dispositio statuti nullatenus dimittetur. De vinea vero de Walie-11/-vre (9) dictum est et conscriptum, quod tota usui conventus deputabitur, et ne pro cultura ejus cellararii gravarentur, quinque ar-12/-pencia vinearum, que in monte de Teneleriis (10) continentur, que sibi emerat idem, eisdem assignavit, ut fructum quem 13/ inde reciperent, ad ejusdem cultum vinee resignarent. Dedit nobis pretera septem calices, et omnes libros suos tam 14/ claustrales quam ecclesisticos, statuens et percipiendo disponens, ut de libris et calicibus nullus extra Ripatorium efferatur, 15/ aut quomodolibet asportetur. Hoc autem totum factum est hac ratione et consilio ut si apud Claravallem (11) in sepulcro pa-16/-trum suorum fuerit tumulatus, totum quod de libris dictum est ratum permanebit et stabile, sinautem totum cassabitur, nec ratum nec 17/ stabile permanebit. Quod verbum, licet molestum haberemus, ut pote tanti patris absentiam non amantes, 18/ tamen quoniam res ei erat pro anima, et cordi sibi erat ab antiquo sancto Bernardo consepeliri, ut simul resurgeret, licet 50 UN ÉVÊQUE CISTERCIEN DU XIIE SIÈCLE FACE À LA MORT. LE « TESTAMENT » D’ALAIN DE FLANDRE inuiti 19/ sepulturam concessimus ut rogavit, et omnia hec ut dicta sunt et conscripta, ne processu temporum deperirent, sub a-20/-nathematis prohibuimus interminatione, et sic nostri sigilli impressione et sui apositione anuli iussimus roborari. 21/ Veruntamen quam nichil maius debetur homini, quam ut dilectionis affectus qui viventi est exhibitus, mor-22/ -tuo non negetur, presenti scripto adicientes statuimus, ut eum ex hoc mundo transierit, sacerdotes 23/ quinque missas, clerici duo psalteria, et laici ter centum Pater noster exolvent et singulis diebus ejusdem anni 24/ quo ab hac vita decessent sacra missarum actio pro eo specialiter exolvetur. In anniversario autem 25/ ejus sic agetur, missa pro eo dicetur in conventu singulis annis, divinum officium ea die pro eo celebrabunt 26/ sacerdotes, clerici quinquaginta psalmos, et laici centum Pater noster exolvent. 27/ Actum anno incarnati Verbi millesimo centesimo octogesimo secunda. (1) Hardouin, deuxième abbé de Larrivour (1152-1189). (2) Larrivour (abbaye cistercienne), Clairvaux (1140). Aube, c. Vendeuvre-sur-Barse, cne Lusigny-sur-Barse. (3) Alain de Flandre. Abbé de Larrivour (1140-1152) et évêque d’Auxerre (1152-1167). (4) Auxerre (évêché, province ecclésiastique de Sens). Yonne, chef-lieu de département. (5) Vaudemanche (grange de Larrivour). Aube, c. Brienne-le-Château, cne Géraudot. (6) Dosches (bois). Aube, arr. Troyes, c. Brienne-le-Château. (7) Germont (ruisseau). Aube, c. Vendeuvre-sur-Barse, cne Lusigny-sur-Barse. (8) Bernard de Fontaine. Abbé fondateur de Clairvaux (1115-1153), canonisé en 1174. (9) Vallièvre (grange de Larrivour). Aube, c. Vendeuvre-sur-Barse, cne Lusigny-sur-Barse. (10) Thennelières. Aube, arr. Troyes, c. Vendeuvre-sur-Barse. (11) Clairvaux (abbaye cistercienne), Cîteaux (1115). Aube, arr. et c. Bar-sur-Aube, cne Ville-sous-La Ferté. 51 52 REFORMAS E OBSERVÂNCIAS NA ORDEM DE CISTER JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS* Eram oriundos do cenobitismo beneditino os monges que, no final do século XI, com afã reformador e reagindo à relaxação da observância monástica, fundaram o Novo Mosteiro1 que se iria converter no embrião da Ordem Cisterciense. Procuravam esses monges um local afastado do Mundo, onde pudessem seguir estritamente os preceitos da regra de S. Bento, num ambiente de pobreza e simplicidade, manifestado numa alimentação frugal, nas mais rústicas vestes brancas, no trabalho manual e numa liturgia sem pompa. Estariam certamente muito longe de pensar que estavam a lançar as raízes de um extraordinário movimento de renovação monástica e espiritual que iria ter uma profunda influência na Cristandade medieval e cujo rasto se estenderia por mil anos. A adesão aos princípios de Cister e a expansão da Ordem foram desde logo imparáveis, em especial devido à influência de Bernardo de Fontaine, o futuro S. Bernardo, que se juntou aos primeiros cistercienses ainda antes da aprovação dos textos legislativos fundamentais que iriam configurar definitivamente a Ordem. Na Carta Caritatis, documento cimeiro da legislação monástica, a novel Ordem Cisterciense estabeleceu um original sistema de organização assente no apoio mútuo entre abadias. Seguindo um esquema de fundações em que cada abadia poderia fundar novas abadias, as quais se tornavam suas abadias filhas e sobre as quais manteria poderes de correcção e deveres de ajuda, traduzidos em visitações periódicas e prestação de cuidados espirituais, e as quais, por sua vez, poderiam fundar outras abadias, tornandose, assim, abadias mães das novas casas, Cister iria criar em pouco tempo uma imensa rede de mosteiros. À cabeça de toda esta hierarquia monástica estava o Capítulo Geral, reunião de abades em que se estreitavam os laços fraternais e de entreajuda entre os mosteiros, dentro de um espírito de caridade, se debatiam regulamentos e observâncias, se resolviam questões disciplinares e se arbitravam conflitos. * Professor Coordenador do Instituto Politécnico de Tomar. Presidente da Associação Portuguesa de Cister. A designação de “Novo Mosteiro” (Novum Monasterium) foi adoptada nos primeiros tempos de vida de Cister. É a que consta no Privilégio Romano do Papa Pascoal II, no Exordium Parvum e na Carta de Caridade. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 53-63 53 JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS O Capítulo Geral deveria aprovar as novas fundações e as afiliações, isto é, as adesões à Ordem Cisterciense de mosteiros já existentes com outras observâncias, afiliações que se sucederam em grande número por todo o século XII. Em 1153, à data da morte de S. Bernardo, existiam 350 mosteiros cistercienses, em 1200 eram 530 e em 1300 havia cerca de 700 mosteiros espalhados por toda a Europa. Data ainda da primeira metade do século XII, nos primórdios da Nacionalidade, a presença de Cister em Portugal. Algumas comunidades monásticas já existentes adoptaram a observância cisterciense e em meados do século foi fundada a Abadia de Alcobaça, o mais importante cenóbio cisterciense em Portugal. Os séculos XII e XIII foram a época gloriosa da Ordem de Cister, da qual nos foram legados testemunhos materiais de valor inestimável, como os maravilhosos edifícios monásticos ditos de arquitectura cisterciense. São dessa época a maioria dos cenóbios fundados em Portugal, quase todos no norte do país. O monaquismo cisterciense feminino foi introduzido em Portugal, em Lorvão, Celas e Arouca, por iniciativa das Santas Princesas, filhas de D. Sancho I. No século XIV, com o Cisma que dividiu a Igreja ocidental, a discórdia brotou entre os cistercienses. Embora sujeitos a um Capitulo Geral, os mosteiros eram autónomos e dividiram-se nesta altura na obediência aos papas de Roma e de Avinhão. Assim se iniciou um longo período de decadência, agravado pelo flagelo dos abades comendatários, pela relaxação dos costumes e pelas divisões nacionais. Paralelamente, surgiram apelos à regeneração e intentos de reforma. Dentro de uma lógica nacional, e portanto contra a legislação primordial dos cistercienses, surgem as congregações independentes de mosteiros associados juridicamente entre si. A Congregação de Castela (1425)2, a Congregação italiana de S. Bernardo (1496)3 e já no século XVI, em 1567, a Congregação de Alcobaça – esta como reacção à aspiração da Congregação de Castela a anexar os mosteiros portugueses –, deram corpo às tendências separatistas que se impuseram aos capítulos gerais. Nascida sob o impulso do reformador Martín de Vargas, antigo monge jerónimo, que em 1425 obteve do Papa Martinho V, do qual havia sido confessor, apoio para um projecto de observância mais austera (bula Pia supplicum vota). Martín de Vargas começou por fundar o mosteiro reformado de Monte Sion (1427) e, paulatinamente, foi estendendo a sua influência, erigindo novos mosteiros e recebendo na sua órbita de reforma antigas abadias cistercienses. Manteve durante muitos anos um aceso conflito com o Capítulo Geral da Ordem que, em 1445, pouco antes da sua morte, lançou sobre ele todos os anátemas (pluries et multipliciter excomunicatum, gravatum et reagravatum) como conspirador, ordenando o seu encarceramento invocato auxilio brachii saecularis. 3 Erecta por Alexandre VI a rogo do Duque de Milão, Luís Maria Sforza, juntava os cistercienses da Toscana e da Lombardia. A bula Plantatus in agro (de 23 de Dezembro de 1496), dotava a nova congregação de uma organização independente, com Capítulo Geral, Visitadores e Definidores, o que não foi aceite pelo governo central da Ordem. Perante os protestos vigorosos, Alexandre VI revogou a bula e em 1500, por decisão do Capítulo, deu-se a reconciliação e união dos mosteiros italianos com a cabeça da Ordem. Em 1511, Júlio II reconstituiu a congregação com bases um pouco diferentes (bula Ex patrenae charitatis, de 24 de Março de 1511). 2 54 REFORMAS E OBSERVÂNCIAS NA ORDEM DE CISTER O século XVI, com a Reforma e as guerras da religião, foi desastroso para a Ordem de Cister. Em alguns anos foram destruídos e secularizados centenas de mosteiros e em toda a centúria não houve uma única nova fundação. Por outro lado, as Ordenações de 1570, que procuravam promover a observância dos decretos tridentinos, introduziram na vida cisterciense uma atenuação da austeridade primitiva4. Mas seria o século XVII que teria uma importância decisiva na renovação espiritual de Cister. Foi a partir desta altura que começaram a surgir os movimentos reformadores que iriam convulsionar e dividir a Ordem e, com o tempo, forjar a actual organização da família cisterciense. Pela sua importância, vamos deter-nos um pouco mais sobre estes acontecimentos. Em 1601 teve lugar em Cister um capítulo geral que ficaria conhecido na História da Ordem pelo “Grande Capítulo”, não só pelo elevado número de participantes (mais de mil, entre abades, priores, religiosos…) mas também pelo número, extensão e importância dos documentos elaborados (uma verdadeira “suma” de observâncias e usos cistercienses)5. Este capítulo geral realizou-se num contexto – os decretos do concílio de Trento, as cisões no seio da Ordem pelo estabelecimento das congregações independentes e a adesão a alguns intentos de maior austeridade monástica praticados em alguns mosteiros – que convidava a uma reforma geral da Ordem. E foi, de facto, o espólio documental saído deste capítulo de 1601 que lançaria as raízes do decisivo movimento reformador da “Estrita Observância”. Sem esperar que os Superiores da Ordem estabelecessem um programa comum, logo alguns monges aderiram ao espírito reformador “com promessa e resolução constante de observar a letra da regra de S. Bento conforme aos Estatutos, Constituições e Decretos dos nossos Capítulos Gerais, sem ter em conta as dispensas, privilégios e mitigações arrancadas aos Soberanos Pontífices por Superiores relaxados”6. Os primeiros reformadores actuaram pelo exemplo e pelo proselitismo dentro dos seus mosteiO Concílio de Trento aprovou um conjunto de normas referentes à disciplina canónica de monges e regulares. A pedido do abade de Cister, o abade de Claraval, cardeal Jerónimo de Souchière, publicou em Abril de 1570 uma lista de Ordenações que reformavam os costumes cistercienses de acordo com as normativas aprovadas no concílio. 5 Estes documentos contemplavam todas as matérias que regulavam a vida dos monges e dos mosteiros. São 35 capítulos (dos votos; da obediência; da propriedade; da castidade; da celebração das missas; da igreja; das procissões; dos exercícios espirituais; da confissão; da culpa leve e de outras penas e censuras da Ordem; do capítulo; do claustro; do refeitório; das esmolas; da enfermaria; dos lugares regulares; das fundações, sepulturas e aniversários; dos abades; dos privilégios da Ordem; dos empregados; dos priores; dos religiosos sacerdotes; dos irmãos professos; dos sermões, leituras e outros estudos; dos hábitos; dos noviços; das religiosas; dos irmãos conversos; dos fugitivos e irmãos que devem ser trasladados; dos sacerdotes; dos contratos, vendas e compras; das visitas regulares), que enchem 52 páginas na obra de Joseph-Marie Canivez, Statuta Capitulorum Generalium Ordinis Cisterciensis ab anno 1116 ad annum 1786. 6 Intenções expressas por escrito por professos reformadores, Documento de 6 de Maio de 1606. Citado por P. Ulrich, La Reforme des Monastéres Cisterciens français au XVII siècle, 1956. 4 55 JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS ros, procurando ganhar adeptos para uma observância mais austera. Numa primeira fase, coexistiram dentro de alguns mosteiros dois grupos de monges, os “antigos” e os “reformados”. Em Claraval, cujo abade Dionísio Largentier foi um dos primeiros entusiastas da reforma, toda a comunidade cooperava nas actividades monásticas, mas antigos e reformados comiam em diferentes refeitórios – nesta altura, o principal ponto de litígio era a “abstinência perpétua”7 – e dormiam em dormitórios distintos. Mas esta coexistência pacífica não podia durar por muito tempo e os reformados lutaram pelo seu reconhecimento oficial. Em 1623, o abade de Cister chegou mesmo a permitir a erecção de uma congregação de mosteiros reformados da filiação de Claraval, com observâncias próprias, uma decisão temerária que equivalia a constituir uma segunda ordem dentro da Ordem de Cister. Divididos entre o louvor das observâncias dos reformados e a inquietação pela divisão interna suscitada pela diversidade de observâncias, os padres do Capítulo Geral de 1623 optaram pela prudência e exigiram ao abade de Cister a revogação das suas decisões. Seguiu-se um longo período de querelas entre antigos e reformados, ou seja, entre a Comum e a Estrita Observância, que ficaria conhecido pela “guerra das observâncias” e que duraria 40 anos. Os palcos dessa guerra foram as eleições para as cabeças das principais abadias8 e as câmaras do Papa, do rei ou de altos dignitários políticos e eclesiásticos9, onde as duas correntes se digladiaram num jogo de influências que levaria mesmo o Cardeal Richelieu à cadeira abacial de Cister nos últimos tempos da sua vida10. Seria o Papa Alexandre VII, através da bula In Suprema, de 1666, que tomaria uma posição firme no sentido de terminar com as dissidências entre as observâncias e de restabelecer a unidade da Ordem de Cister. Embora a bula suprimisse de facto a autonomia da Estrita Observância, era-lhe favorável em muitos aspectos. De facto, a reforma era elogiada e reconhecida pela autoridade apostólica e os monges reformados não apareciam como cismáticos, mas sim como membros de igual direito da família cisterciense. Para além disso, Alexandre VII equiparava o peso das duas observâncias na cabeça da Os reformados eram mesmo chamados comummente “Patres de Abstinentia”. Nas abadias de Cister (em 1625) e de Claraval (em 1626) foram eleitos abades anti-reformadores em eleições disputadas contra candidatos reformadores. Em 1629, o abade de Cister é confrontado com um duro documento, apresentado por 32 monges reformadores, que o acusavam de precipitar a Ordem numa total ruína “por causa da sua negligência” e de governar o mosteiro danosamente, rodeando-se de servidores “muitos dos quais inúteis, como o pintor, o bordador e o carpinteiro que resultam dispendiosos, havendo em casa não poucos conversos hábeis e industriosos…”. 9 Foi muito importante neste período o papel do Cardeal de La Rochefoucauld, protector da Ordem Cisterciense. Em 1634, La Rochefoucauld fez publicar o seu “Projecto de sentença para o restabelecimento da Observância Regular na Ordem de Cister e motivos para o dito restabelecimento”, no qual tomava decisões claramente favoráveis aos reformados e que incendiou os ânimos dentro da Ordem. 10 O Cardeal Richelieu foi chamado à contenda pelos adversários da reforma, que recorreram a ele contra os decretos do Cardeal de La Rochefoucaud. No entanto, Richelieu tomaria o partido da Estrita Observância e os religiosos de Cister elegeram-no abade em 19 de Novembro de 1635, obrigando o anterior abade a apresentar a demissão. 7 8 56 REFORMAS E OBSERVÂNCIAS NA ORDEM DE CISTER Ordem, ao atribuir dez definidores a ambas, uma repartição que não reflectia a maior dimensão real da Comum Observância. Esta representação, estipulada pelo Papa com as melhores intenções pacificadoras, iria ser, ironicamente, o rastilho que iria incendiar de novo as lutas internas quando tudo parecia apontar para um rumo de concórdia. No Capítulo Geral de 1672, a Comum Observância, apoiada num breve de Clemente IX11, tentou impor uma nova repartição dos definidores que os mosteiros da Estrita Observância não aceitaram e o Capítulo Geral acabou em ruptura. Este infeliz conclave foi ainda palco da revolta dos quatro Primeiros Padres, isto é, dos abades das quatro abadias filhas de Cister12, contra o abade de Cister. Foi o rebentar de uma questão latente deste o início da reforma da Estrita Observância e que ressuscitava uma questão antiga do século XIII que se encontrava adormecida desde então. No direito cisterciense primitivo, os abades das primeiras filiações de Cister não gozavam de direitos especiais. A Carta de Caridade reconhecia apenas dois poderes: o dos abades do Capítulo Geral sobre toda a Ordem e o do Padre Abade Imediato dobre as abadias filhas. No entanto, uma bula de Alexandre III, de 1163, introduziu uma relevante inovação, ao encarregar os quatro primeiros abades, isto é, os abades de La Ferté, Pontigny, Claraval e Morimond, de efectuar a visita regular de Cister. Esta disposição viria a causar desentendimentos entre o abade de Cister e os outros quatro abades, só sendo restabelecida a harmonia no século XIII por intersecção da Santa Sé. A paz prevaleceria até ao desencadear da reforma da Estrita Observância, em relação à qual as diferentes opções em disputa viriam a desenterrar as velhas rivalidades há muito esquecidas. Ao Capítulo Geral de 1672 seguiram-se contendas e processos de vária ordem, recursos para a justiça civil, apelos ao Papa, excomunhões13… As feridas eram agora mais graves e a Ordem de Cister iria permanecer como uma chaga aberta até à Revolução francesa. Durante o movimento da Estrita Observância, o abade de La Trappe, Armand de Rancé, distinguiu-se como uma das principais vozes dos reformadores. Rancé, que primeiro foi um abade comendatário mundano, sofreu uma genuína conversão que o levou a professar solenemente e, depois, a tomar posse da sua abadia de La Trappe na qualidade de abade regular. A reforma que veio a obrar no seu mosteiro viria a ter um alcance muitíssimo superior ao da Estrita Observância. Enquanto neste último caso o que estava em causa eram alguns preceitos da observância regular e, principalmente, a abstinência perpétua de alguns alimentos, a reforma de Rancé propunha voltar aos valores essenciais do monaquismo. Inspirando-se nos Padres do Deserto e nos primeiros Padres de No Capítulo Geral de 1667, a Congregação da Alta-Alemanha, da Comum Observância, havia contestado algumas determinações da bula In Suprema, de Alexandre VII. O sucessor desse papa, Clemente IX, admitiu esses protestos e deu-lhes parcialmente satisfação num breve de 20 de Dezembro de 1667. 12 As abadias de La Ferté (1113), Pontigny (1114), Claraval (1115) e Morimond (1115). 13 O abade de Cister lançou a excomunhão sobre o abade de Claraval porque ao pretender visitar este mosteiro na Vigília de Natal de 1674 viu a entrada ser-lhe negada. 11 57 JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS Cister, o abade de La Trappe instaurou a observância rigorosa do silêncio e restaurou a prática do trabalho manual, num ambiente de austeridade e penitência há muito esquecido nos mosteiros cistercienses. Esta reforma da Trapa14, cujo espírito e normas a situavam à margem quer da Estrita Observância quer da Comum Observância, veio a ser definitivamente aprovada pela Santa Sé (breves de 1677 e 1678). Embora mantendo a dependência de Cister, passou a reger-se por constituições particulares15. A austeridade monástica da Trapa viria a ser fonte de sedução e muitos mosteiros cistercienses, quer masculinos quer femininos, se reformaram segundo o seu modelo, embora sem constituir uma congregação trapense. No século XVIII, a discórdia entre as observâncias, as rivalidades e as lutas de poder continuaram a caracterizar as reuniões magnas da Ordem. Entre 1699 e 1787, realizaram-se apenas cinco capítulos gerais e a autoridade suprema da Ordem pareceu concentrar-se, senão de direito, de facto, no abade de Cister e no Definitório. Tudo se passava muito longe da Regra de S. Bento e do espírito primitivo de Cister. No final do Antigo Regime, o relaxamento dos costumes tinha afastado muitos mosteiros dos ideais de pobreza e afastamento do mundo. As ordens religiosas, em especial as contemplativas, eram ricas e possuidoras de vastos patrimónios. Por isto, e também porque a vida monástica não se enquadrava nos ideais do Iluminismo setecentista e no espírito secularista da Revolução francesa, os bens dos mosteiros tornaram-se apetecíveis a Estados com as finanças esgotadas. Assim, no final do século XVIII, em França, os monges foram secularizados, as ordens religiosas extintas e os seus bens confiscados16. O mesmo sucederia depois em outros países europeus, onde triunfaram as ideias iluministas e liberais. Ao percorrermos a história da Ordem de Cister é notória a sua centralidade francesa. Foi-o na sua fundação e primeiros passos, no século XII, nas reformas do século XVII e viria a ser na reorganização operada no século XIX. As perseguições da Revolução francesa foram, pois, um golpe contundente no coração de Cister. Neste período, em que os ecos revolucionários penetraram mesmo os muros de alguns mosteiros e levaram alguns monges à apostasia17, houve outros que mostraram Adopta-se comummente em português a designação de “Trapa” aplicada à reforma iniciada no mosteiro francês de La Trappe. 15 Após a sua aprovação, houve tentativas de unificar a reforma da Trapa com a Estrita Observância. Uma assembleia de superiores “abstinentes”, reunida no Colégio de S. Bernardo de Paris, sob a presidência de Juan Petit, abade de Cister, pretendeu unificar as disciplinas das duas reformas. Este desiderato foi abortado pela forte oposição de Charles de Bentzeradt, abade de Orval, introdutor da reforma da Trapa no seu mosteiro. 16 Em 2 de Novembro de 1789, a Assembleia Nacional decidiu que os bens do Rei e da Igreja passassem à disposição da Nação. No mês seguinte, a Assembleia decidiu a venda imediata dos bens da Coroa e de alguns domínios eclesiásticos. A partir de Julho de 1790, todos os bens da Igreja estavam à venda, com excepção (provisória) dos edifícios dos colégios e dos hospitais. 17 “Como todos nós somos zelosos partidários da Revolução actual, não esperamos mais do que o primeiro sinal para emigrar desta casa…”, de uma carta do prior da abadia cisterciense de Preuilly. J. Salmon, “Morimond, les derniers jours de l’Abbaye”. 14 58 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA uma heróica fidelidade aos seus votos monásticos. Foi o caso de Agustín de Lestrange e dos monges da abadia de La Trappe, os quais, em 1791, empreenderam o caminho do exílio, sendo acolhidos no cantão suíço de Friburgo. Aí, numa antiga Cartuxa desabitada, fundaram o mosteiro de Valsainte, onde seguiram uma observância regular de grande austeridade que cumpria regulamentos próprios18 e com os quais procuravam retornar aos antigos costumes de Cister. Um religioso que visitou Valsainte em 1792 escreveu: “O seu género de vida é extraordinário. Por exemplo: no Inverno não têm estufa ou lareira: no mais intenso do Verão, empapados de suor não querem limpar as gotas com o lenço, não espantam as moscas ou as abelhas e não têm a liberdade de se refrescar com umas gotas de água; no coro não se sentam nem se apoiam; trabalham durante cinco ou seis horas por dia; cantam no coro ou rezam de joelhos durante mais de sete horas todos os dias, doze nos domingos e dias festivos e mais de doze nas festas mais solenes; dormem sobre uma tábua e têm por almofada um saco de palha, etc…”19. A pobreza extrema e a observância rigorosíssima viriam, paradoxalmente, a traduzir-se num grande número de vocações e, em poucos anos, num conjunto importante de novas fundações. Quando em 1798, forçada a abandonar temporariamente a Suiça perante a invasão napoleónica, a Comunidade de Valsainte encontrava-se à cabeça de uma verdadeira congregação de vários mosteiros. Alguns documentos coetâneos referem-se a Valsainte como abadia da Ordem de Cister e da Congregação de Nossa Senhora da Trapa. Quando, no início do século XIX, existiram condições de restaurar a Ordem em França, foram os cistercienses-trapenses de D. Agustín de Lestrange que tomaram esta missão entre mãos. Em 1815, com a queda definitiva do Império, os monges de Valsainte regressaram a França, ocupando três abadias entretanto resgatadas, entre elas La Trappe20. Mas o rigor dos seus regulamentos originou a discórdia entre os trapenses, tendo alguns dos mosteiros optado pelo regresso às constituições de Rancé. Deste modo, os trapenses viram-se divididos em duas observâncias desde a sua restauração em França. Nessa altura, pode dizer-se que a Ordem de Cister como entidade jurídica tinha deixado de existir, ao carecer da autoridade suprema da casa-mãe e de toda a organizaRéglements de la Maison-Dieu, editados em Friburgo, em 1794. Excerto de um escrito de D. Moreaux, religioso de Lucelle, onde relata uma visita ao mosteiro de Valsainte, 1792. 20 Os primeiros passos para a restauração de Cister em França foram dados por D. Eugénio de Laprade, abade de Darfeld, logo após a abdicação de Napoleão em Fontainebleau, em 11 de Abril de 1814. No mês de Agosto desse ano, obteve de Luís XVIII autorização para o regresso. Uma carta de Dezembro de 1814 mostra que D. Eugénio tinha conseguido resgatar a abadia de La Trappe, mas por um sentimento de deferência tinha decidido cedê-la a D. Agustín de Lestrange, como o mais antigo abade da Reforma. As diligências de D. Agustín para adquirir a abadia são, no entanto, interrompidas pelo regresso de Napoleão. Só após a derrota definitiva do Império em Waterloo, em 18 de Junho de 1815, lhe foi possível concluir a compra de La Trappe. 18 19 59 JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS ção central. Em 1791, todas as 228 casas que os cistercienses detinham em França foram suprimidas. O mesmo aconteceu aos mosteiros dos países ocupados pelas tropas imperiais: Bélgica, Itália, Alemanha, Espanha (onde José Bonaparte decretou a supressão das ordens religiosas em Agosto de 1809). Apenas os países que escaparam à invasão de Napoleão puderam conservar, pelo menos durante algum tempo, as suas antigas abadias. Foi o caso da Sicília, da Sardenha, da Áustria e de Portugal (onde a ocupação napoleónica foi muito breve). Mas o amplo movimento de secularização que abalou toda a Europa no século XIX não terminaria com a queda de Napoleão. Em Portugal, onde o abade de Alcobaça presidia à congregação portuguesa, o punho de Joaquim António de Aguiar, o “mata-frades”, decretou em 1834 a liquidação das ordens monásticas masculinas e a desamortização dos seus bens. As monjas professas, autorizadas a finalizar os seus dias na paz dos claustros, manteriam viva a presença cisterciense até finais do século XIX. Antes, já o Marquês de Pombal havia sido o precursor das perseguições religiosas, tendo decretado em 1775 a extinção de dez mosteiros cistercienses. Em Espanha, os mosteiros cistercienses dividiam-se em duas grandes congregações: a Congregação de Aragão-Catalunha-Navarra, unida à Ordem, e a Congregação de Castela, há muito independente. Ambas tinham vivido um período fluorescente no século XVIII, sendo que, em 1793, só a Congregação de Castela contava com cerca de mil religiosos21. Restabelecido no trono Fernando VII em 1813, ainda antes de definitivamente derrotados os franceses, os monges puderam regressar aos seus mosteiros, embora por pouco tempo22. Em 1835, com a chamada desamortização de Mendizábal, os liberais espanhóis seguiram o exemplo português e suprimiram os mosteiros masculinos. Mas ao mesmo tempo que as guerras liberais tinham conduzido à extinção das ordens religiosas na Península Ibérica, a derrota de Napoleão tinha proporcionado condições para alguma reorganização da Ordem de Cister e para a tentativa de restauração do seu governo central. Em 1814, o Papa Pio VII restaurou a abadia de Casamari, que seria o embrião da futura Congregação Italiana de S. Bernardo, fundada em 1820. Esta congregação viria a incluir os mosteiros dos Estados Pontifícios, antes agrupados na congregação chamada Província Romana, e os mosteiros do centro de Itália e do reino de Nápoles. Dada a decapitação da Ordem, Pio VII viria a conferir os direitos e privilégios de Abade Geral da Ordem Cisterciense ao Presidente da Congregação Italiana de S. Bernardo, o qual passou a usar o título de Presidente Geral da Ordem de Cister, com o direito de confirmação dos abades eleitos. Entretanto, em vários países europeus, os mosteiros cistercienses foram-se unindo em províncias ou congregações nacionais sob a égide de Vigários Gerais ou Superiores 21 22 Segundo Fr. Roberto Muñiz, “Biblioteca cisterciense española”, Burgos, 1793. Em 1820, com a subida ao poder dos liberais, voltaram as perseguições religiosas. 60 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA de congregação. Tratava-se de um sistema que nada tinha a ver com a antiga disciplina de filiação com o Padre Imediato com todos os direitos sobre as casas filiais. Nesta altura, as congregações de Portugal e Espanha conservavam ainda a antiga organização. O abade de Alcobaça era o Presidente da Congregação de Alcobaça, o abade de Poblet era Vigário Geral da Congregação de Aragão e o chefe da Congregação de Castela usava o título de Abade Geral. Já vimos que desde a restauração de Cister em França, por eles levada a cabo, os trapenses se encontravam divididos em duas observâncias. O caso preocupava a Santa Sé, a qual nomeou um visitador geral para estudar a situação e apresentar propostas com vista ao estabelecimento de uma uniformidade de governo. Assim, em 1834, o Papa Gregório XVI decretou a reunião de todos os mosteiros trapenses de França numa só Congregação Cisterciense de Nossa Senhora da Trapa23, que seria governada pelo abade de La Trappe24. Toda a congregação devia seguir a Regra de S. Bento e as Constituições do abade Rancé, estas com pequenas alterações, esquecendo-se definitivamente os regulamentos de Valsainte, os quais se afastavam dos costumes de Cister. Porém, o decreto de união estipulava que “quanto aos jejuns, orações e ofício divino, seguir-se-á, ou a Regra de S. Bento ou as Constituições do abade Rancé, segundo o costume adoptado por cada mosteiro”. É evidente que esta liberdade outorgada aos mosteiros foi um fermento de discórdia, multiplicando-se as discussões e conflitos entre monges defensores das duas orientações e tornando-se difíceis as relações entre os mosteiros nos capítulos gerais. A ideia da separação foi ganhando adeptos e, em 1847, o Papa Pio IX restabeleceu as duas observâncias distintas em duas congregações25, que passaram a chamar-se Antiga Reforma de Nª Senhora da Trapa, com as Constituições do abade Rancé e governada por um Vigário Geral eleito em Capítulo Geral, e a Nova Reforma de Nª Senhora da Trapa, que abraçou a Regra de S. Bento e os Usos primitivos de Cister e que tinha como Vigário Geral o abade de La Trappe. Como chefe supremo das duas congregações ficou o Presidente Geral da Ordem de Cister, figura jurídica criada no Capítulo de 1820 na sequência da restauração da Ordem por Pio IX, como se viu anteriormente. Ambas as congregações se desenvolveram e fizeram numerosas fundações. A Antiga Reforma dividir-se-ia em duas congregações – França e Bélgica – cada uma com o seu Vigário Geral. Congregatio Monachorum Cisterciensium Beatae Mariae de Trappa, decreto de 1 de Outubro de 1834. Este decreto de 1834 só reunia os mosteiros de França. Os da Bélgica – Westmalle e S. Sixto – foram autorizados a formar uma congregação em que o abade de Westmalle seria o Vigário Geral (decreto de 22 de Abril de 1836). 25 O decreto Licet Monachi, de 25 de Fevereiro de 1847, estipula que os trapenses fiquem divididos em duas congregações, ambas da Ordem de Cister, utraque erit monachorum Cisterciensium congregatio. Os termos do decreto são os seguintes: “Ainda que a união das duas congregações pareceu inicialmente desejável, no entanto, vista a excitação dos ânimos, todos julgamos conveniente empregar os meios mais aptos para manter a paz e conservar a união dos espíritos, sem ter em conta o que anteriormente se tinha considerado mais apropriado”. 23 24 61 JOSÉ ALBUQUERQUE CARREIRAS Em 1869, o Presidente Geral da Ordem de Cister convocou os mosteiros da Comum Observância da Bélgica, da Áustria e de Itália para um Capítulo Geral, em Roma, excluindo da convocatória os abades dos mosteiros trapenses. Mesmo assim, foram tomadas decisões que marginalizavam as congregações de N.ª Senhora da Trapa da cabeça da Ordem, restaurando o título de Abade Geral, ao qual apenas podiam aspirar os abades da Comum Observância e reservando para os chefes das congregações trapenses o título de Vigário Geral. Começou, então, a germinar entre os trapenses a ideia de que a cisão de 1847 tinha sido um erro e, em 1878, as três congregações de N.ª Senhora da Trapa apresentaram à Santa Sé um projecto de união das duas observâncias, sob a égide de um próprio e único Abade Geral. A questão era delicada, pois este projecto de união de todos os trapenses pressupunha, ao mesmo tempo, que estes se separassem completa e definitivamente da Ordem de Cister. A Santa Sé nomeou um procurador para estudar o assunto, o qual emitiu um parecer claramente negativo26. Considerando que o Presidente Geral da Ordem de Cister exercia uma autoridade puramente simbólica sobre as congregações trapenses, não interferindo na sua vida regular, e que todos os cistercienses eram guiados pelos mesmos ideais, o procurador considerou injustificada a separação. Ao mesmo tempo, aceitou a união dos trapenses numa única congregação, mas sob o comando de um comum Vigário Geral dependente do Presidente Geral da Ordem de Cister. Tudo acabaria por ficar na mesma, mas o projecto não seria entretanto esquecido. Em 1891, por ocasião do oitavo centenário de S. Bernardo, realizaram-se grandes festividades em Dijon, para as quais foram convidados todos os cistercienses. Estiveram presentes 82 mosteiros reformados, mas os abades da Comum Observância não compareceram. No ano anterior, tinha-se realizado um Capítulo Geral da Ordem de Cister, para o qual os trapenses não tinham sido chamados, sendo ignorados como parte integrante da Ordem. Nenhum destes comportamentos contribuía, naturalmente, para a concórdia entre os cistercienses e a ideia da fusão de todos os trapenses voltou a ser estudada em Roma. Por iniciativa do próprio Papa Leão XIII27, todos os abades, priores e superiores das congregações trapenses de Sept Fons (França) e Westmalle (Bélgica), da congregação de Nª Senhora da Trapa (então chefiada pelo abade de Melleray) e da congregação de Casamari foram convocados para um capítulo plenário, com vista à fusão das congregações e à unificação das observâncias com base na Regra de S. Bento, na Carta de Caridade e nos Usos de Cister. Estava aberto o caminho para a constituição de uma nova ordem, o que viria de facto a acontecer. Com excepção da congregação de Casamari, que preferiu manter a independência, as três mais importantes congregações aceitaram unir-se numa nova congregação, que se chamaria Ordem dos Cistercienses Reformados de N.ª Senhora da Trapa e que teria um 26 27 P. Raymond Bianchi, Relatório de 16 de Maio de 1879. Decreto de 20 de Julho de 1892. 62 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA Abade Geral próprio. Dom Sebastien Wyart, abade de Sept-Fons, foi eleito primeiro Abade Geral da nova Ordem. Todas as decisões deste capítulo fundacional foram ratificadas pelo Papa Leão XIII, num breve publicado em 17 de Março de 1893. No final desse ano reuniu em Sept-Fons o primeiro capítulo geral dos cistercienses reformados e em 1894 foram promulgadas as suas Constituições. Em 1896, a nova Ordem consegue o oportuno e simbólico resgate da abadia de Cister, adquirindo-a com a contribuição de uma benfeitora. No virar do século, pela Constituição Apostólica Haud mediocri sane, de 30 de Julho de 1902, o Papa concede à nova Ordem o título de Ordem Cisterciense Reformada ou Ordem Cisterciense da Estrita Observância. Estava assim consumada a divisão dos cistercienses, que subsiste ainda hoje. A Ordem de Cister deixava de constituir uma unidade jurídica a partir de 1892, com a fundação de uma nova ordem que agrupou os mosteiros reformados trapenses. Na actualidade, a Família Cisterciense (é assim que podemos chamar ao universo dos mosteiros e monges cistercienses) integra, para lá de algumas congregações femininas autónomas (a mais importante das quais é a Congregação Cisterciense de S. Bernardo, dita de Las Huelgas28), duas grandes ordens multinacionais: a Ordem Cisterciense, também dita da Comum Observância, que aceita juntar à vida contemplativa actividades pastorais de vário tipo e na qual os mosteiros se agrupam em congregações independentes; e a Ordem Cisterciense da Estrita Observância, herdeira da reforma trapense e que, fiel aos padres fundadores, é uma ordem monástica de vida exclusivamente contemplativa que está estruturada com respeito às normas da legislação primitiva medieval cisterciense. Mais de nove séculos após a fundação do mosteiro de Citeaux, a Ordem de Cister continua bem viva nos nossos dias, mas não como uma ordem monástica unitária. A observância seguida hoje nos mosteiros que conformam o universo monástico cisterciense está adaptada aos tempos modernos, mas nesses cenóbios continua gravada indelevelmente a memória do Cister medieval das origens. As outras duas congregações femininas autónomas são a Ordem das Cistercienses Bernardinas de Esquermes e as Irmãs Bernardinas de Oudennarde. 28 63 64 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA LEONEL FADIGAS* O território afirma-se, pela sua natureza de produto humano, como uma expressão dos poderes que nele se organizam e que determinam tanto a sua formatação como o modo como ocorre a sua apropriação e uso. Nele se estabelecem complexos sistemas de relações entre os homens e o meio onde vivem e as circunstâncias que determinam os graus de liberdade no uso e na apropriação dos rendimentos que propicia. A organização social que daqui resulta é uma condição e uma marca de como o território se constrói e estrutura. Os territórios delimitam-se, formatam-se, alargam-se e estruturam-se de acordo com as necessidades das comunidades que os habitam, ou que a eles chegam por descoberta, invasão ou conquista, e do maior ou menor poder que sobre eles exercem as elites dominantes. Por estas razões, o território comporta-se e assume-se, a cada momento, como um suporte de vida e de atividades económicas, como um registo da organização social, das relações de poder, dos níveis de desenvolvimento económico e das tecnologias disponíveis. A história da ocupação humana dos territórios não é, no entanto, linear, nem acompanha, mecanicamente, os ciclos da evolução social nem a adaptação, de quem o ocupa e utiliza, às diferentes condições do meio. A ocupação e a apropriação de um território aconteceram sempre no final de uma peregrinação, como se ali tivesse terminado a dispersão humana pela variedade de habitats disponíveis. Mas os tempos e as circunstâncias foram condicionando, a cada instante, este processo, muito especialmente quando aconteceram mudanças na sua posse e nas elites dominantes. A leitura do território é, por estas razões, um instrumento para a compreensão do modo como ocorreu a sua organização e evolução, como se estabeleceu, manteve e evoluiu a sua organização social, económica e política, de quais foram as diversas políticas de ordenamento e de uso do território, mesmo quando estas não corresponderam a documentos para isso expressamente elaborados. Mas mesmo neste caso elas existiram, * URBinLAB-Laboratório de Urbanismo e Dinâmicas Territoriais. CIAUD/Faculdade de Arquitetura, Universidade de Lisboa. Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 65-81 65 LEONEL FADIGAS pela prática, os costumes e a adaptação às características de cada sítio e região e ao que estes poderiam oferecer a quem deles tomava posse ou a continuava. Ler o território corresponde ao ler de uma história feita de marcas, umas mais visíveis do que outras, que na geografia, na paisagem e na memória se prolongam ao longo dos tempos, configurando e moldando o território ocupado. Mesmo quando as populações que o ocupam se vão substituindo, persistem sempre as marcas deixadas por cada uma das populações ocupantes que se foram sucedendo. Neste quadro, o território dos Coutos de Alcobaça é uma mostra clara de como um poder constante, sempre presente e atento, o moldou, tanto de um ponto de vista formal e estrutural como de identidade. Realidade a que não são estranhas as evidências de um comportamento feudal de inspiração francesa que as circunstâncias particulares da doação feitas aos monges de cistercienses permitiram. A organização social medieval, distinguindo bem os privilégios de uns e os encargos e as submissões de outros, assentava na herança romana e goda, expressando uma forte relação com a posse efetiva da terra e, muito especialmente, com as rendas e tributos que propiciava. De facto, o período medieval, na sequência da desagregação do poder romano e do seu controlo territorial, trouxe consigo novas oportunidades de reorganização territorial a partir da fragmentação de poder que se seguiu à dissolução do poder romano e ao surgimento dos novos poderes que se instalaram nos espaços localizados relativamente autonomizados. A chegada dos visigodos, vindos da Gália, ao território peninsular, e a consolidação da sua instalação a partir de 427, encontrou um território ocupado por populações romanizadas, população romana residual que se havia mantido na Península e, porventura, militares romanos licenciados que se juntaram aos exércitos visigodos. Uma realidade que, após a decadência urbana e a desagregação da administração imperial, fez emergir uma ruralidade sobre a qual assentou e se reforçou o poder visigodo. Como escreveu o professor Pedro Barbosa, “o conjunto da população germânica, como acontecia noutras zonas, constituía uma minoria militar organizada e poderosa, mas encontrava-se rodeada por uma população muito maior de origem romana” 1. A matriz territorial e administrativa romana ajustou-se, por ser suficientemente forte, a esta nova realidade política, permitindo que os novos ocupantes tivessem podido assentar nela as traves mestras da sua estruturação territorial e administrativa. O que muito contribuiu para a construção de uma progressiva identidade territorial onde se ancorou, séculos mais tarde, a configuração do território de que se fez Portugal. Nas áreas rurais e no esqueleto organizativo dos núcleos urbanos, a matriz cadastral romana, apesar da degradação da complexa rede de interligações territoriais e da fragmentação da unidade territorial e política que se construíra ao longo de cerca de mais de BARBOSA, Pedro Gomes – O reino visigodo peninsular. In: Pedro Gomes Barbosa; José António Godinho Miranda. Marcas de poder. Moedas visigodas em território português, Lisboa, Banco de Portugal, 2006, pp. 14. 1 66 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA cinco séculos, manteve-se. De facto, “a mudança de posse de muitas propriedades nesse período, acompanhando a mudança das elites dominantes e da ordem estabelecida, afetou, naturalmente, o padrão de organização dos campos agrícolas”2, ainda que, em muitos casos, a substituição das elites tenha significado, apenas, a mudança dos donos das terras, mas não a sua dimensão e limites, circunstância que permitiu a sua persistência como unidade territorial até épocas posteriores. Naturalmente, em circunstâncias de convulsão social e política, as guerras e as invasões, instalando períodos longos de instabilidade e insegurança, com destruição e saques de pequenas e grandes povoações, levou à fuga das populações ou à sua redução à servidão ou à escravatura, circunstâncias que determinaram, nalgumas regiões, a sua desertificação e o abandono das terras cultivadas. A concentração de grandes extensões de terras nas mãos de um número reduzido de novos proprietários consolidou e ampliou a dimensão de muitas das grandes propriedades existentes, retomando, também nas que tinham sido abandonadas, a atividade agrícola. O que contribuiu para a estruturação do território agrícola, especialmente no centro e sul peninsular, em moldes ainda hoje muito presentes e reconhecíveis. Os visigodos, apesar de já cristianizados, trouxeram consigo formas de poder que romperam com a tradição civilista romana, marcada pela subordinação do poder militar ao poder civil. A nobreza visigoda, que na guerra ganhara o poder que a legitimava, acrescentou-o com o poder económico que a posse das terras conquistadas garantia. Isto tornou possível que, com a desagregação da administração romana e a dissolução da cadeia de comando da sua organização militar, ou do que dela restava, os grandes proprietários organizassem, em muitos casos, forças militares privativas constituídas pelas gentes sob o seu domínio. As funções que hoje entendemos como “funções de Estado”, isto é, a cunhagem de moeda, a administração da justiça e a recolha dos impostos, diluíram-se, por isso, passando a ser exercidas, de forma difusa e desigual, pelos novos senhores, proprietários quase sempre, os guerreiros mais importantes que, na terra conquista e por eles tomada, eram o poder de facto. Esta transição entre o poder romano, ou o que dele restava, processou-se, assim, com vicissitudes várias e muitas crises, até à estabilização do poder visigodo. Mas não podemos esquecer um facto importante. Os territórios peninsulares aos quais chegaram os visigodos já eram dominantemente católicos. Isto facilitou o seu contacto com os povos locais, passados os tempos iniciais de guerras e de saques, porque eles próprios professavam o cristianismo, na versão ariana que se expandira no Império romano e que, durante muito tempo, ali se mantivera até que o catolicismo se assumiu como a fórmula cristã dominante. A conversão, em 589, do rei Recaredo ao catolicismo unificou a prática religiosa, tornando mais forte a coesão social, fazendo emergir uma nova realidade política e uma 2 FADIGAS, Leonel – Território e poder – o uso, as políticas e o ordenamento, Lisboa, Edições Sílabo, 2017, pp. 73. 67 LEONEL FADIGAS administração territorial, progressivamente assente no poder temporal dos bispos que, em parte, substituiu o poder dos guerreiros que marcara os primeiros tempos da presença visigoda. O prestígio dos bispos, e a influência que passaram a ter, transformou-os no centro do poder, acabando estes por assumir funções até aí públicas, na administração do território e da justiça. O catolicismo passou a ter, a partir de então, para além do seu papel religioso, um papel político e social com que reforçou a sua influência sobre as populações. Os bispos acabaram por assumir, neste processo, a herança da administração territorial, em muitos casos entregue a “representantes das últimas famílias de notáveis” (…) ou a alguns magistrados herdados do Baixo Império”3. A religião passou a funcionar, assim, como fonte de poder e cimento de agregação comunitária, modelando a organização social e a solidificação da nova ordem social, política e administrativa. Um novo mundo social e político que formatou, a partir da matriz romana, o território sobre o qual se exercia o poder visigodo. Importa, no entanto, referir que esta realidade não se distribuía de forma igual sobre o território da faixa peninsular ocidental que veio a ser Portugal. A presença e a influência da religião católica nos territórios acima do Tejo, mais cristianizados e mais densamente ocupados, fez-se sentir sempre de forma mais intensa que a sul, com menos população e onde a cristianização não estava tão consolidada. Uma realidade que se prolongou até aos tempos da reconquista. A consolidação do catolicismo como religião dominante permitiu, e ajuda a explicar, a sedimentação do modelo visigodo de organização administrativa assente na herança romana, ainda que, como escreveu José Mattoso, “apesar de todos os indícios de romanização dos visigodos e do inegável esforço de muitos dos seus reis para manter ou restaurar tais estruturas, – o que explica parcialmente a lentidão com que elas se foram extinguindo –, não foi possível mantê-las”4. Isto porque, apesar dos sinais ainda presentes, a herança romana teve de se ajustar aos novos tempos que os visigodos traziam consigo. No entanto, as unidades territoriais, de cuja agregação se moldou o reino visigodo, mantiveram a resiliência suficiente que permitiu a continuidade da sua formatação territorial até à ocupação muçulmana. Na sociedade visigoda, o poder organizava-se a partir de dois centros: de um lado, as instituições religiosas e o poder a elas associado; de outro, os senhores das terras, guerreiros e garantes da segurança face aos invasores, muitas vezes ativos combatentes entre si, ou, até mesmo, altos dignitários religiosos. Esta repartição de poder, com ascendência do poder religioso na conformação da organização social e na sua legitimação, tinha, na posse da terra, a condição básica da sua existência. LEGUAY, Jean-Pierre (1993) – O “Portugal” germânico. In: A. H. de Oliveira Marques (coord.). Portugal - das invasões germânicas à “reconquista”, Lisboa, Editorial Presença, 1993, pp. 32. 4 MATTOSO, José – A época sueva e visigótica. In: José Matoso (coord.). História de Portugal, vol. 1 Antes de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992, pp. 337. 3 68 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA A ocupação muçulmana na Península, quando ocorreu, a partir de 711, não introduziu mudanças na organização social e territorial, tendo em consideração o modo como ocorreu o seu início, em consequência da disputa entre Áquila e Rodrigo para a sucessão do rei Vitiza, falecido em 710. As relações entre os muçulmanos recém-chegados, em apoio a Áquila, e as elites visigodas, quanto à posse da terra, variaram conforme o posicionamento destas relativamente aos apoios concedidos aos dois oponentes em contenda. De facto, tudo parece indicar que, sendo os apoiantes de Rodrigo visigodos do sul peninsular, tenham sido as suas propriedades as que mais sofreram os efeitos dos saques e do confisco por parte dos muçulmanos; o que não terá acontecido tão intensamente nos territórios a norte do Tejo. Sabemos hoje que, de facto, nos territórios dominados pelos apoiantes de Áquila, onde foi mais fácil a capitulação dos nobres visigodos, a posse de grande parte das terras, e até mesmo algum poder territorial acompanhado de algumas funções administrativas, se tenha mantida nas suas mãos. Santiago Macias mostra isto muito ao claramente ao referir que, “são diferentes as situações a norte e a sul do Tejo e que aos acordos do tipo do de Tudmir5, feitos para as regiões de Coimbra e de Santarém, se contrapôs uma realidade marcada por uma presença mais «militarizada» (o que não terá excluído acordos cujos contornos desconhecemos) em regiões como a de Beja”6. Isto não aconteceu, no entanto, sem contrapartidas. A manutenção das propriedades na posse dos antigos proprietários visigodos implicou o pagamento de tributos e a sua sujeição ao novo poder islâmico, com o que a ocupação muçulmana se foi fazendo através de um regime de vassalagem próximo do feudal. As terras confiscadas pelos muçulmanos eram posteriormente repartidas entre eles, de acordo com um fracionamento que tinha a ver com o seu estatuto social e militar, o que motivou a fragmentação de grandes propriedades e um refazer dos padrões de ocupação do solo, até porque um quinto daquelas terras permaneciam públicas. Apesar disso, a dimensão das propriedades podia variar, ao longo do tempo, por aquisição e junção de parcelas ou por venda de parte da sua extensão. A posse da terra, no entanto, não implicou que todos os novos proprietários, até porque alguns deles eram guerreiros, se tenham convertido em agricultores; em consequência, os regimes de arrendamento e de parceria eram frequentes por um número fixo de anos, recebendo o dono da propriedade, em pagamento, uma parte, por vezes significativa, da produção obtida. O professor Borges Coelho dá-nos conta deste processo de apropriação das terras visigodas pelos muçulmanos ao referir que ela não aconteceu de modo uniforme em todo a extensão do território, tendo em conta as relações estabelecidas com a nobreza O Pacto de Tudmir ou Pacto de Teodomiro foi um pacto de capitulação, assinado a 5 de abril de 713, entre Abd al-Aziz ibn Muça (filho de Muça ibn Noçáir) e o governador da província de Orihuela, Teodomiro, Este pacto reconhecia a soberania islâmica em Espanha, a entrega das cidades de Orihuela, Alicante, Valencia, Lorca e Elche, e o pagamento de um tributo, em troca da paz e da liberdade de culto, mantendo Teodomiro autonomia política no governo da sua região. 6 MACIAS, Santiago – Islamização no território de Beja – reflexões para um debate. Análise Social, XXXIX (173), 2005, pp. 813. 5 69 LEONEL FADIGAS visigoda e a maior ou menor presença muçulmanos vindos do norte de África. Fazendo fé num relato feito já do século XI, por um muçulmano de Silves, ibn Mozaine, reproduzido pelo professor Borges Coelho, da partilha das terras visigodas, um quinto dos saques e das terras ficava na posse do Tesouro muçulmano e destinava-se a ser colonizado, através de arrendamento ou aforamento pela população local, conforme nele se relata: “mas deixou os outros cativos que estavam no quinto, especialmente camponeses e meninos, adscritos às terras do quinto, a fim de que o cultivassem e dessem o terço dos seus produtos ao Tesouro público. Estes eram as gentes das planícies e chamou-se-lhes quinteiros: e a seus filhos, os filhos dos quinteiros”7. Nas terras onde a presença muçulmana era mais reduzida, “aos cristãos que estavam em lugares inacessíveis e nos montes elevados, Muça ibn Noçáir deixou-lhes os seus bens e os uso da sua religião, mediante o pagamento de um tributo, ficando donos de uma parte dos seus bens na terra do Norte”8. O modelo de exploração do solo definido no período romano, e que persistiu no período visigodo, ainda se mantinha dominante neste novo contexto social e político, apesar de, porventura, a intensidade da exploração e a relação com o coberto vegetal, por alterações do regime de pastoreio ou de uma maior necessidade de madeira, possam ter sofrido alterações. Mas às técnicas agrícolas tradicionais outras foram acrescentadas, especialmente no domínio do uso da água e no alargamento das culturas regadas e da horticultura. A modelação territorial foi-se fazendo, assim, neste período, mantendo o padrão agroflorestal pré-existente que as variações na posse e na dimensão das propriedades, quando tal ocorreu, não alterou significativamente. A dimensão da presença muçulmana, mesmo com a vinda de colonos do norte de África, do Egito, da Síria e do Iémen, não era suficiente para uma efetiva cobertura do território peninsular ocupado. O que ajuda a explicar porque a posse da terra ficou, em muitas extensões e circunstâncias, nas mãos dos antigos senhores, limitando-se a presença muçulmana, especialmente a dos contingentes militares, ao controlo de posições estratégicas e a funções administrativas. Por isso a ocupação muçulmana não constituiu fator de grandes de ruturas na organização social e territorial, mantendo-se, no ocidente peninsular, as matrizes territoriais e sociais do mundo visigodo cristianizado, marca da convivência e dos equilíbrios estabelecidos entre as populações locais, as suas elites e o poder islâmico. Com a reconquista cristã dos territórios sob domínio muçulmano emergiu um novo modo de relação dos diferentes poderes com o território, poderes esses que, assentes nos senhores da guerra, traduziram também uma fragmentação do que antes era um poder centralizado e forte, no período visigodo e muçulmano, mesmo com alguns períodos de fragilidade. Esta mudança resultou do facto de, com o avanço dos exércitos cristãos, BORGES COELHO, António (1972) – Portugal na Espanha Árabe, Vol. I, Lisboa, Seara Nova, 1972, pp. 157-158. 8 BORGES COELHO, António – Portugal na Espanha Árabe, Vol. I, Lisboa, Seara Nova, 1972, pp. 158. 7 70 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA muitos deles forças dependentes de um nobre mais do que de um rei, se encontrarem estes perante uma vacatura de poder e uma ausência de estruturas administrativas que permitiram a sua substituição integral. A emergência do feudalismo que acompanhou os primeiros tempos da reconquista, especialmente no ocidente peninsular, veio mostrar como as relações entre as estruturas de poder e a organização do Estado se traduzem em formas de uso do território que se organizam consoante a dimensão de cada território e a intensidade e a força do poder que nele se exerce. Para isso concorreu a debilidade das monarquias europeias e a insegurança criada pelos ataques de que eram alvo por parte dos vikings e dos povos do centro e leste da Europa, a qual facilitou a fragmentação do território em pequenos territórios governados e tutelados pelos chefes guerreiros que, em cada um deles, criava como que um pequeno reino quase autónomo relativamente ao poder real. A incapacidade das monarquias de exercer sobre eles o seu poder permitiu que muitos nobres e grandes proprietários se apropriassem de funções de poder público que até aí pertenciam ao rei que com eles tinham de negociar tanto a repartição do poder como das riquezas. O feudalismo, como sistema de organização política e social, assentava numa relação de subordinação ao poder real, mantendo cada senhor das terras e da guerra a autonomia que a dimensão do seu poder lhe permitia. O que criava uma hierarquia mais ou menos rígida na qual “uma classe de guerreiros especializados – os senhores –, subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos de dependência, domina uma massa campesina que explora a terra e lhes fornece com que viver”9. A delegação de poderes do rei nos senhores de terras para, aparentemente, em seu nome as administrar, passava por um controlo real muito reduzido, acabando o benefício hereditário que era concedido aos nobres por se traduzir numa fragmentação territorial que teve consequências na organização do território. Esta delegação de poderes na nobreza, com a correspondente entrega de terra à sua guarda e exploração, delimitou e consolidou as fronteiras dos territórios que, de forma variável e com intensidade diversa, ficavam, assim, fora da intervenção direta do poder real. No território peninsular, a substituição do poder muçulmano pelo cristão nos territórios reconquistados fez-se no quadro habitual da sucessão de poder decorrente do aproveitamento das vantagens oferecidas pelas vitórias militares. A consolidação dos novos poderes sobre cada uma das frações territoriais reconquistadas assentou no reforço do poder dos que delas vieram a tomar posse, por presúria ou por doação régia, através do recebimento de tributos e de benefícios, a troco da proteção das populações que nelas viviam. Uma proteção nalguns casos feita com maior exploração das populações residentes. Nas terras onde a presença muçulmana no conjunto da população era menos efetiva, e o poder assentava numa estrutura social moldada pelo catolicismo, hierarquicamente organizada, a consolidação do poder dos chefes guerreiros e a sua autonomia teve o suporte da hierarquia religiosa que dele também beneficiou. A nobreza fundada nos fei9 LE GOFF, Jacques – A civilização do Ocidente medieval, Vol. 2, Lisboa, Estampa, 1984, pp. 29. 71 LEONEL FADIGAS tos de guerra ganhou, com isso, o espaço necessário para manter e consolidar os domínios e privilégios que a posse da terra lhes conferia. O que aconteceu também com as ordens religiosas e militares que vieram a ser detentoras de extensas terras reconquistadas e dos privilégios associados. O abandono de terras e de povoações nas zonas de fronteira onde as lutas da reconquista eram mais frequentes e intensas, e o poder dos senhores da terra mais frágil, tornava-as alvo de ataques e da presúria que se tornou uma forma corrente da sua tomada, posse e ocupação. Não havendo quem, com poder hierarquicamente superior, delineasse a repartição das terras conquistadas, o poder dos senhores da guerra que se fizeram nobres decidia, por si, aquela apropriação. Mesmo quando os poderes municipais embrionários resistiam a esta tomada de poder, que punha em causa os (poucos) direitos dos povos para se autogovernarem no seu dia a dia. Nas terras mais a sul, onde a reconquista ainda se não havia totalmente instalado, a cultura moçárabe cresceu e desenvolveu-se, pelo quadro social que criou e pela coesão que a mescla cultural permitiu, através de um poder territorial ajustado a modelos de vida comunitária livres da pressão do poder quase absoluto dos senhores da guerra e das autoridades religiosas. Isto ajudou, no processo da reconquista cristã, a estruturar a sociedade e o território num quadro menos permeável às influências do feudalismo que os francos disseminavam e se consolidava nos territórios do norte cristão, onde o poder senhorial limitava e condicionava o poder dos reis que com ele tinha de negociar políticas e privilégios. Nos territórios de fronteira, entre o Mondego e o Tejo, onde a cultura moçárabe se havia implantado e desenvolvido, assumindo forte expressão e influência, a população moçárabe foi a matriz de organização social e de administração territorial do espaço geográfico a pouco e pouco reconquistado. O que levou Alexandre Herculano, de acordo com José Mattoso, a considerar “os moçárabes como a camada étnica que assegurou a continuidade cultural entre a época romana e a medieval: seriam eles os guardiões dos costumes municipais, do direito romano, da língua e da mentalidade latinas”10. Nos territórios de fronteira onde o poder municipal ainda tinha expressão, o poder militar e administrativo era, quase sempre, exercido coletivamente por cavaleiros vilões, sem a participação dos nobres. O rei relacionava-se com os concelhos, como escreve José Mattoso, “de forma ainda mais direta ainda do que nos senhorios, porque o rei se considerava então como seu senhor ‘direto’ e, portanto, como fonte do direito público e vigilante do seu exercício, enquanto nos senhorios não podia intervir porque os seus detentores exerciam os poderes estatais como se emanassem da sua própria autoridade”11. O que representava uma forma de resistência real ao poder concedido aos nobres, fazendo com que MATTOSO, José – Os concelhos. In: José Matoso (coord.). História de Portugal, vol. 2 – A monarquia feudal (1096-1480), Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, pp. 212. 11 MATTOSO, José – “A formação da nacionalidade no espaço ibérico”, In MATTOSO, José (coord.), História de Portugal, vol. 2 – A monarquia feudal (1096-1480), Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, pp.12. 10 72 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA os concelhos e a sua organização municipal tivessem sido um anteparo que sustinha as tentativas da nobreza para assumir um papel feudal de controlo do território e das populações. Mas isto acontecia apenas onde a presença populacional o permitia e as instituições concelhias, ainda que rudimentares, tinham alguma expressão. Aliás D. Afonso Henriques, no quadro da reconquista a que se impôs, pelas razões conhecidas que aqui não importa desenvolver, sempre exerceu o seu poder de uma forma centralizada que não só não era compatível com o feudalismo, mesmo que incipiente, dos territórios cristãos que haviam formado o Condado Portucalense, como era necessário para poder ser ele o verdadeiro e único condutor da guerra contra os muçulmanos do sul. Travando, com isso, o poder dos senhores das terras que, tendo ajudado o conde D. Henrique, seu pai, exigiam cada vez mais poder como compensação do seu esforço por não haver outros meios para os compensar. Como escreveu Manuel Vieira Natividade, o conde D. Henrique “não possuía tesouros para pagar aos companheiros e homens de armas que o tinham arrancado à sujeição de seu sogro e que o acompanharam nas vicissitudes da conquista; e, daqui a necessidade de dividir com eles as terras conquistadas”12, o que, por um lado garantia a recompensa pelo esforço de guerra, mas, por outro, significa a aceitação de uma repartição de poder. Nesta fase inicial do reino de Portugal os concelhos representaram um modelo de administração territorial que muito contribuiu para a estruturação do território onde a ação do rei, como senhor das terras, através dos forais que dele emanavam, mantinha e consagrava, princípios comuns em toda a extensão territorial do reino. Com exceção dos territórios menos povoados, ou praticamente ermos, doados a ordens militares e religiosas, e não a senhores da guerra, e onde os poderes daquelas tinham alguma autonomia face ao rei. Mas como se encaixa isto tudo no caso concreto dos territórios a sul de Leiria, no momento da reconquista, que alguns relatos dão como relativamente despovoados, mas que outros, de forma fundada, consideram ter uma presença humana e uma atividade agrícola que que garantiu a sobrevivência da estrutura social e cadastral que permitiu o seu posterior aproveitamento pelos monges de Cister? A questão do despovoamento, ou ermamento das terras que vieram a constituir os Coutos de Alcobaça tem hoje importância para melhor se compreender como, no final do século XII, se reaproveitaram as estruturas territoriais e funcionais herdadas dos ciclos históricos anteriores. Sendo certo que as recomendações da Ordem Cisterciense indicavam que a instalação de uma nova comunidade se fizesse afastada dos aglomerados populacionais, num local onde fosse possível a comunhão com a natureza, Maur Cocheril refere que “é quase certo que os camponeses muçulmanos fugiram diante dos guerreiros cristãos (…) mas poderiam ter restado alguns”13. No entanto, Frei Fortunato de S. Boaventura, preNATIVIDADE, M. Vieira – Mosteiro e coutos de Alcobaça. Alguns capítulos extraídos dos manuscritos inéditos do autor publicados no centenário do seu nascimento, Alcobaça, Tipografia Alcobacense, 1960, pp. 59. 13 COCHERIL, Maur – Routier des abbayes cisterciennes au Portugal, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1978, pp. 227. 12 73 LEONEL FADIGAS tendendo sobrevalorizar o papel dos monges cistercienses na recuperação dos territórios em causa, – num momento em que, a seguir à revolução liberal de 1820, se começava a questionar o papel e os privilégios das ordens religiosas – defende o despovoamento e o abandono das terras como uma realidade que permitiu aos monges de Cister refazer e restruturar o território, mostrando, assim, o seu papel determinante na valorização de tão extenso território. Contraria, assim, Frei António Brandão, ao escrever: “não disfarçarei que tenho contra mim o testemunho do Cronista-Mor Fr. António Brandão; e como tratarei de o refutar segundo o meu princípio ‘magica amica veritas’ importa aduzir as suas palavras formais”14 que a seguir transcreve. Como se verifica pela transcrição, Frei António Brandão, assume claramente que o ermanento das terras dos Coutos de Alcobaça não existiu, pelo menos na dimensão que muitas vezes se lhe quer dar. Frei António Brandão, conforme a referida transcrição, afirma que “todas estas terras, e outras muitas eram já habitadas em aquele tempo, porque a terra posto que menos povoada então, que no presente, não estava de todo erma, como alguns imaginam, e a mesma razão o persuade pois os Mouros, que tinham feito assento por estas partes, haviam de cultivar, e habitar pelo menos as mais abundantes (..) e em a doação das terras de Alcobaça feita por ElRei D. Afonso a S. Bernardo (…) se nomeia já Aljubarrota (…) Pederneira, Salir e outros lugares”15. O mesmo, aliás, refere o padre José Agostinho de Macedo no parecer sobre a obra de Frei de Fortunato de S. Boaventura ao referir a ação dos “ cistercienses do Mosteiro de Alcobaça, cristianiazando, para me explicar assim, toda a Província da Estremadura, ocupada pelos Mouros, que muito particularmente enchiam, o que hoje se chamam Coutos de Alcobaça”16. Neste sentido, também o professor Pedro Barbosa ao afirmar que as “antigas igrejas paroquiais, que com toda a probabilidade existiriam antes do estabelecimento dos bernardos terão continuado a existir atè à grande reforma paroquial de 1296”17 A reconquista cristã veio encontrar, a sul de Leiria, um território com uma população porventura rarefeita, sem enquadramento institucional, nem estruturas de poder. O poder dos monges de Santa Cruz de Coimbra não se estendia para sul de Leiria, pelo que S. BOAVENTURA, Frei Fortunato de – Historia chronologica, e critica da Real Abbadia de Alcobaça, da congregação cisterciense de Portugal, para servir de continuação à Alcobaça Illustrada do Chronista Mor Frei Manoel dos Sanctos, Lisboa, Imprensa Regia, 1827, pp. 31. 15 BRANDÃO, Frei António – Terceira parte da Monarchia Lusitana, Lisboa, Mosteiro de S. Bernardo, 1632, pp. 185. 16 S. BOAVENTURA, Frei Fortunato de – Historia chronologica, e critica da Real Abbadia de Alcobaça, da congregação cisterciense de Portugal, para servir de continuação à Alcobaça Illustrada do Chronista Mor Frei Manoel dos Sanctos, Lisboa, Imprensa Regia, 1827, pp. VI. 17 BARBOSA, Pedro Gomes – “A chegada dos monges de Cister”. In BARBOSA, Pedro Gomes; MOREIRA, Maria da Luz, Seiva Sagrada – a agricultura na região de Alcobaça. Notas históricas, Alcobaça, Associação dos Agricultores da Região de Alcobaça, 2006, pp. 54. 14 74 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA estas terras ficaram disponíveis para que o novo poder cristão as usasse sem restrições nem compromissos. Com pouca população e sem um poder que sobre elas reivindicasse a sua posse, tornaram-se por isso um património que a Coroa tomou inicialmente para si para mais tarde dele dispor. Este território, limitado a norte pelas terras de Leiria, que os monges de Santa Cruz dominavam, a nascente pela serra dos Candeeiros, a poente pelo mar e a sul pelas terras do termo de Óbidos, constituía, à época, uma extensão territorial na qual ainda permaneciam marcas e padrões de ocupação que mostravam uma continuada presença e ação humanas. O que permitiu, mais tarde, que nele se instalasse um modelo novo e alternativo de uso e organização do território, aproveitando e tirando partido das infraestruturas existentes, da população que ali se mantivera e das grandes propriedades, bem como dos assentamentos urbanos, ainda que de pequena dimensão, que haviam sobrevivido. Deste modo a doação destas terras, os Coutos de Alcobaça, com uma dimensão e limites próximos dos do atual concelho de Alcobaça, por D. Afonso Henriques e sua mulher D. Mafalda, em 1153, a “D. Bernardo Abade do mosteiro de Claraval e a vossos irmãos” representou a instalação não apenas de um comunidade monástica mas também de um novo modelo de ocupação do território ao qual se ajustava uma forma diferente e nova de exercício do poder sobre as terras, os recursos e as gentes que nelas habitavam ou às quais se acolhiam. Nos Coutos de Alcobaça os abades do Mosteiro detinham o poder secular de administrar o território, o que faziam como coisa sua, libertos da jurisdição régia, segundo um modelo próximo do feudalismo europeu a que a origem francesa dos primeiros monges provavelmente não será estranha. Nas terras dos Coutos, o abade do Mosteiro de Alcobaça era senhor das terras e, como tal, concedia cartas de povoação e aforamento, com os seus privilégios e os deveres a observar pelos moradores, nas quais se estabeleciam as regras de posse e uso das terras entregues a novos povoadores, as rendas e tributos a pagar ao Mosteiro e outras questões gerais e particulares ao seu cultivo; nomeadamente as que diziam respeito ao tempo necessário para que os povoadores passassem a dispor das terras como proprietários. Nos Coutos de Alcobaça o poder régio esteve praticamente ausente até ao final do século XV, sendo “o único privilégio palpável dos habitantes das vilas, herdades e casais dos coutos de Alcobaça (…) o de normalmente serem dispensados de integrarem as hostes militares ou as tripulações dos navios do rei”, sabendo-se “não terem integrado as hostes que lutaram em Aljubarrota em 1385 ou navegado para a conquista de Ceuta em agosto de 1415”18. Estas cartas de povoamento e aforamento, dadas pelo Abade do Mosteiro de Alcobaça, não eram, por isso, constitutivas de municípios, regulando apenas o uso das terras e o RASQUILHO, Rui – Peregrinação na memória - datas e notas à volta de Cister, Leiria, Textiverso, 2015, pp. 121. 18 75 LEONEL FADIGAS regime de dependência dos moradores e povoadores que trabalhavam a terra relativamente o Mosteiro. O que correspondia a um padrão diferente do que acontecia, mais a sul, nas terras doadas às ordens militares, onde a base de organização territorial era a constituição de municípios. Isto apesar de, progressivamente, “alguns deles, sobretudo Aljubarrota, terem vindo a tornar-se em núcleos municipais muito relevantes e influentes em matéria de exercício de poderes autárquicos e de reivindicação de direitos administrativos e judiciais junto do poderoso senhorio abacial”19. O Mosteiro de Alcobaça mantinha, assim, uma autonomia relativamente ao poder real e uma exclusiva obediência à ordem de Cister. Isto levou, em muitos casos, a abusos de poder sobre as populações do Coutos que regularmente se queixavam ao rei destes desmandos. Para justificação do seu poder, sempre que inquiridos sobre ele pelo poder real, era feita, na maioria dos casos, como refere Vieira Natividade, “e a exemplo do que haviam feito outros senhores de terras, existiam pretensos documentos, concebidos entre sonhos de ofuscante grandeza, e pacientemente elaborados na funda solidão do claustro para depois surgirem à luz com o cunho de completa e absoluta autenticidade”20. O século XIV, de grande riqueza, é também, neste quadro, um período em que muito se fez sentir “nos Coutos de Alcobaça, o peso e as consequências de um modelo senhorial feudal de apropriação e uso das terras e de subjugação violenta das populações sujeitas a uma servidão efetiva , a pesar das disposições contidas nas cartas de povoação e na Carta de Caridade por que se regiam o cistercienses”21 A partir da crise dinástica de 1383-1385, o Mosteiro de Alcobaça viu reforçados os seus poderes e regalias em virtude do seu comprometimento e o apoio dado ao Mestre de Avis durante o abaciado de D. João de Ornelas, e às recompensas daí decorrentes após a sua subida ao trono. As contradições que o reinado de D. João I trouxe consigo, construindo os alicerces de um Estado, mais que um reino, manifestaram-se na sua aliança com o povo e a nova nobreza, que buscava mais poderes e privilégios, contra a velha nobreza que apoiara Castela. Do que resultou que a “Igreja, pelos seus mais altos representantes e com a pretensão de colocar o reino sob a tutela clerical, opôs obstáculos em Portugal à unificação do Estado”22 e, no caso dos territórios dos Coutos de Alcobaça, as populações continuavam asfixiadas num modelo social e económico que fazia delas servas e servidoras da grande entidade que era o Mosteiro de Alcobaça. GOMES, Saul António – Os forais manuelinos dos concelhos dos coutos de Alcobaça, In MADURO, António Maduro; BARBOSA, Pedro Gomes; RASQUILHO, Rui (coords.). Cadernos de Estudos Leirienses 10, Leiria, Textiverso, 2016, pp. 104. 20 NATIVIDADE, M. Vieira – Mosteiro e coutos de Alcobaça. Alguns capítulos extraídos dos manuscritos inéditos do autor publicados no centenário do seu nascimento, Alcobaça, Tipografia Alcobacense, 1960, pp. 31. 21 FADIGAS, Leonel – Território e poder – o uso, as políticas e o ordenamento, Lisboa, Edições Sílabo, 2017, pp. 105. 22 CORTESÃO, Jaime – Os factores democráticos na formação de Portugal (2ª ed.), Lisboa, Portugália Editora, 1966, pp.127. 19 76 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA A importância social da nobreza e o seu poder acentuaram-se pelo seu enriquecimento, em resultado das rendas que as terras concedidas lhes propiciavam, as quais, ao deixar de entrar no tesouro régio contribuíam para o enfraquecimento do poder real. Um exemplo disso foi a importância que foi ganhando a Casa de Bragança, a ponto de equiparar, se não superar, o património régio, a partir das doações feitas a D. Nuno Álvares Pereira que, por tal facto, se tornou senhor de quase metade de Portugal. Também os monges de Alcobaça se aproveitaram da fragilidade do poder real para obterem novos privilégios e reforçarem o seu poder sobre os territórios que dominavam e as terras de que eram proprietários. Neste contexto ao abade foi atribuído o título de Fronteiro-mor dos Coutos, cargo que o obrigava a ter gente de armas para seu serviço e defesa do reino, reforçando o seu papel senhorial e dando expressão à dimensão temporal do Mosteiro de Alcobaça que se acrescentou à sua dimensão espiritual, porventura ultrapassando-a. O abade de Alcobaça passou, assim, a deslocar-se acompanhado de homens de armas, mostrando e afirmando, com isso, o seu poder, e, naturalmente, intimidando as populações do Coutos a mais trabalho, mais servidão e mais rendas. Como escreve Vieira Natividade, “quando saía, era com a ameaça desse cortejo de montantes, com o terror da prisão nos frios e negros subterrâneos do seu castelo, que ele impunha aos súbditos do mosteiro as mais caprichosas fantasias e exigia os mais inesperados trabalhos, as mais dolorosas servidões e os mais penosos trabalhos”23. Esta afirmação de poder temporal gerou conflitos continuados com as populações que levaram a queixas ao rei por este tratamento como as que foram levadas às cortes de Santarém e que mereceram acolhimento do rei, que ali declarou que o Mosteiro era seu. No entanto, esta afirmação pouco ou nada representou na defesa das populações dos Coutos pois, segundo Manuel Vieira Natividade, “havia a maior transigência para com o clero, e especialmente para com os nobres; e muito mais enérgica e alterosa era a voz dos fidalgos que a queixa dos humildes procuradores do povo”24. A fragilidade do poder do rei face ao poder da nobreza, que ele criara, estimulara e de que dependia, não lhe permitia exercer em plenitude a sua autoridade sobre a totalidade do reino, ainda que essa fosse a sua vontade. Até porque, com escreveu Jaime Cortesão, “no decurso de todo o século XIV (…) ressalta a impressão flagrante de que os monarcas se julgam já suficientemente fortes para lhes desatender as arrogantes pretensões, reprimir-lhes os desmandos e, uma vez por outra, sujeitá-los às sansões da lei comum”25. NATIVIDADE, M. Vieira – Mosteiro e coutos de Alcobaça. Alguns capítulos extraídos dos manuscritos inéditos do autor publicados no centenário do seu nascimento, Alcobaça, Tipografia Alcobacense, 1960, pp. 39. 24 NATIVIDADE, M. Vieira – Mosteiro e coutos de Alcobaça. Alguns capítulos extraídos dos manuscritos inéditos do autor publicados no centenário do seu nascimento, Alcobaça, Tipografia Alcobacense, 1960, pp. 39. 25 CORTESÃO, Jaime – Os factores democráticos na formação de Portugal (2ª ed.), Lisboa, Portugália Editora, 1966, pp. 127. 23 77 LEONEL FADIGAS A necessidade de reforço do poder como condição de consolidação do reino como entidade coletiva, unificada e coerente, capaz de defrontar os desafios internos e externos numa afirmação de força credível face a todas a ameaças, veio progressivamente a afirmar-se no quadro das relações com a nobreza e os grandes senhores dominiais, como era o caso do Mosteiro de Alcobaça. Exemplo disso foi a instituição, por D. Afonso V, em 1475, do regime comendatário para o cargo de abade do Mosteiro de Alcobaça, através do qual se procedeu à substituição do sistema eleitoral de designação do abade, passando o mesmo a ser de nomeação régia. Esta intervenção do rei na gestão do Mosteiro e do seu património acompanhou o movimento de centralização do poder real, como aconteceu com D. João II e com D. Manuel I, de que emanaram os princípios que deram origem, mais tarde ao Estado moderno. A dimensão territorial sobre a qual se estendia o poder da Abadia cisterciense e o seu vasto património dava-lhe uma dimensão e o poder que daí resultava, com o que terminou o regime de autonomia interna do cenóbio alcobacense e a sua independência face ao poder real. A concessão de foral às vilas dos Coutos por D. Manuel I ao ser ele, e não o abade, a fazê-lo, em 1514, é mais um sinal da centralização do poder real, mas também da importância que para este tinha a dimensão económica dos Coutos, as suas rendas e património. A outorga de cartas de foral, substituindo as anteriores cartas de povoamento significou uma progressiva afirmação de algum poder dos municípios e a sua autonomia face ao Mosteiro, na regulação do uso e da posse do território e do modo de vida em sociedade. Esta outorga de cartas de foral traduziu a relação direta do rei com as populações, assumindo um poder até aí dos abades cistercienses que não o aceitaram sem reação. Como o mostra o facto do abade comendatário, D. Jorge de Melo, se ter recusado a receber a “cópia dos forais de todas as vilas, pois considerava que neles havia 12 cláusulas que afrontavam a autoridade do Mosteiro”26. Esta reação de confronto com o poder real terá constituído a última manifestação evidente de autonomia do Mosteiro e uma das razões para que D. Manuel I nomeasse, em 1519, o seu filho infante D. Afonso, então com 10 anos de idade, para abade comendatário e, por a morte deste, em 1540, viesse a nomear para o cargo, dois anos mais tarde, o seu outro filho, o cardeal D. Henrique que foi arcebispo de Braga, de Évora e de Lisboa, Inquisidor Geral e regente e rei de Portugal. Ainda que com reticências por parte da Cúria Romana. A nomeação dos infantes para o cargo de abades comendatários fez regressar à esfera do poder real um território e um património extenso que, pela sua dimensão e importância, funcionou como fator de consolidação e estruturação de um país e um espaço articulador de usos, funções e de poder. Num momento em que o património do Mosteiro de Alcobaça se estendia dos Coutos de Alcobaça à região oeste, ao Ribatejo e ao Alentejo e a um conjunto vasto de propriedades urbanas em Lisboa. 26 RASQUILHO, Rui – Peregrinação na memória – datas e notas à volta de Cister, Leiria, Textiverso, 2015, pp. 133. 78 PODER E TERRITÓRIO NOS COUTOS DE ALCOBAÇA Tudo isto contribuiu para que o poder temporal do Mosteiro, assente em propriedades, rendas e privilégios suplantasse em muito a sua importância religiosa mesmo quando os seus abades, a partir da instituição do regime comendatário, em 1475, passaram a ser figuras destacadas da hierarquia católica. O crescimento e a expansão do poder da Abadia de Alcobaça decorreram, assim, assentes, numa dimensão patrimonial que se prolongou pelos séculos seguintes. Com naturais adaptações ao fluir da evolução histórica e social e a uma maior influência do poder régio, especialmente ao longo do século XVIII. O surgimento do liberalismo, com o questionar do papel central da religião católica e do seu papel hierárquico na vida social e política, acompanhou as transformações económicas e sociais que, com os primórdios da industrialização, geraram a emergência da burguesia como grupo social progressivamente dominante. Neste contexto, a extinção do modelo social hierarquizado, clero, nobreza e povo, que colocava este num estatuto de servidão permanente, tal como decorreu da aprovação da Constituição de 1822, no seguimento da revolução liberal de 1820, representou um sobressalto que abalou o poder que Abadia de Alcobaça detinha sobre o território e as suas populações. Não é estranho, por isso, o modo como a Abadia recebeu, em grande festa, a visita do rei absolutista D. Miguel I, em 1830, após um período de grande turbulência social e conflitos entre os monges cistercienses e a população que lutava para se libertar dos pesados tributos a que estava, então, submetida. O apoio dos monges ao absolutismo miguelista acentuou as convulsões sociais e a animosidade da população contra eles, em consequência do que, quando a guerra civil entre absolutistas apoiantes de D. Miguel e liberais, apoiantes de seu irmão D. Pedro IV, se aproximava do fim e se caminhava para a vitória destes, acabaram por abandonar o definitivamente o Mosteiro, em outubro de 1833. Antes do final da guerra e da publicação do decreto de extinção das ordens religiosas em maio de 1834. A saída dos monges cistercienses do Mosteiro de Alcobaça significou o fim de uma instituição secular, cujo poder e riqueza assentavam na posse de terras e nas rendas e nos tributos que recebia, mas também o princípio de uma outra história, feita de novas relações de poder especialmente após a venda a particulares do seu património fundiário. A venda das propriedades do Mosteiro a particulares, que se seguiu, abriu caminho a uma transformação da realidade agrícola e económica, ao surgimento de grandes casas agrícolas e a uma dinamização da produção agrícola cujas consequências se fizeram sentir na própria organização urbana da vila de Alcobaça e nas principais sedes de freguesia. No entanto, como noutras circunstâncias e momentos históricos, a estrutura territorial, o cadastro e o padrão de uso da terra não sofreram modificações significativas. A matriz identitária do território, cuja constituição remonta ao período romano, persiste, assim, como um legado que nem o tempo nem as circunstâncias históricas nem os processos sociais alteraram, até hoje. 79 LEONEL FADIGAS Em conclusão, Os Coutos de Alcobaça constituem um dos exemplos mais significativos do modo como o exercício do poder determina a estruturação territorial e a formatação das unidades que formatam e dão consistência aos padrões de ocupação do solo e à matriz cultural unificadora dos povos que habitam e usam o território, de forma continuada, ao longo dos ciclos históricos. A concentração de poder no Abade do Mosteiro revela uma lógica de relação com o território que, de certa forma, contribuiu para a construção de uma identidade territorial que lhe deu consistência e que, ainda hoje, é reconhecível. Este poder fez com que nunca se tivesse fragmentado a unidade territorial dos Coutos de Alcobaça, mantendo-se e desenvolvendo-se uma identidade que permanece até hoje. Mesmo quando ainda se identificam, no concelho de Alcobaça que, com o da Nazaré, ocupa praticamente o antigo território dos Coutos de Alcobaça, as áreas que só mais tarde o vieram a integrar. Como é o caso da zona norte do concelho de Alcobaça que, ao contrário do território inicial dos Coutos, integrado no patriarcado de Lisboa, ainda pertence à diocese de Leiria. BIBLIOGRAFIA: BARBOSA, Pedro Gomes – “O reino visigodo peninsular”, In BARBOSA Pedro Gomes Barbosa; MIRANDA, José António Godinho, coords, Marcas de poder. Moedas visigodas em território português, Lisboa, Banco de Portugal, Lisboa, 2006, pp. 9-64. BARBOSA, Pedro Gomes – “A chegada dos monges de Cister”, In BARBOSA, Pedro Gomes; MOREIRA, Maria da Luz, Seiva Sagrada – a agricultura na região de Alcobaça. Notas históricas, Alcobaça, Associação dos Agricultores da Região de Alcobaça, 2006, pp. 43-56. BORGES COELHO, António – Portugal na Espanha Árabe, Vol. I, Lisboa, Seara Nova, 1972. 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Maria Henriqueta que, curiosamente, viria a falecer no mosteiro de Celas e não no de Lorvão1. Esta religiosa tinha diversos problemas de saúde, tendo pedido autorização para sair do mosteiro, conseguindo licença favorável, por despacho de 11 de Maio de 1831, para se ausentar da clausura, acabando por revogar essa mesma licença a 31 de Outubro por um período de mais seis meses, findo o qual tentou obter nova prorrogação, que lhe foi recusada, sendo que a situação encontrada para que prosseguisse os seus tratamentos de forma eficiente, foi o seu ingresso no mosteiro de Celas2. Aliás, os motivos de saúde, são aqueles que mais levam à quebra da clausura. Como bem observa Ana Margarida Silva, as religiosas entravam muito cedo nas instituições monásticas deparando-se com poucas comodidades e com condições físicas dos edifícios muito adversas, sobretudo ao nível do frio e da humidade 3 situação que se aplica, na plenitude, a Lorvão. * Centro de História da Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 2. IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 4. Desconhecemos o motivo mas a religiosa D. Maria Máxima Correia, do mosteiro de Lorvão, também esteve, devidamente autorizada, no mosteiro de Celas, regressando à instituição lorvanense no dia 6 de Maio de 1834, acompanhada por um religioso de Santo António dos Olivais (cf. IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 7vº). Verifica-se, curiosamente, nesta mesma altura, uma situação inversa, com D. Gertrudes, religiosa de Santa Maria de Celas a recolher-se em Lorvão no dia 5 de Maio de 1834 (cf. IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 7vº). 3 SILVA, Ana Margarida Dias da – “Sair da clausura: único remédio para a salvação”, in Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, XXV, 2012, p.199. 1 2 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 83-109 83 AIRES GOMES FERNANDES Nos registos de óbito surgem, normalmente, alguns elementos biográficos das respetivas religiosas, e são poucos os casos em que não se referem as maleitas. Um exemplo é o caso de Madre Dona Maria de Belém Borges, no mosteiro desde os 9 anos de idade, e a quem as doenças inviabilizaram que pudesse acompanhar o Coro, tinha ataques nervosos e acabou por falecer devido a uma “doença de catarral” 4. D. Micaela Máxima sofria de moléstia crónica5, o mesmo sucedendo com a religiosa Maria Augusta da Silva, situação que a impedia de participar no Coro6. Por sua vez, D. Auta José de Abreu padecia de muitas moléstias, o que a obrigava a estar quase sempre de cama7, enquanto D. Teresa Umbelina não resistiria às suas doenças e sucumbiria relativamente nova, ou pelo menos ainda “n’huma idade que pormetia dilatados annos” 8. Também D. Josefa da Encarnação foi atacada por moléstias interiores que nem os médicos conheciam9. Havia ainda quem, por opção pessoal, como é o caso da Madre D. Maria Máxima de Vasconcelos, procurasse uma vida ascética e de mortificação, socorrendo-se de poucos alimentos e de baixo valor nutricional ao ponto de os médicos lhe confirmarem que assim não poderia sobreviver10. Já a Madre Inês Benedita sofria de “muitas faltas de respiração mas pouco se queixava”11. E se muitas padecem e fazem do sofrimento abnegação para si e para aquelas que as rodeiam, outras são obrigadas, ou pelo menos aconselhadas a procurar ajuda médica e terapêuticas extra-muros, situação em que incorreu D. Delfina Deodata Correia que, a 25 de Agosto de 1832, saiu do mosteiro de Lorvão, com licença de meio ano, na companhia de José da Silva Pereira, tesoureiro desse mesmo mosteiro, para ir “ás Caldas de S. Gemil para ali haver tomar os banhos sulfureos”12. No ano seguinte é novamente autorizada a sair do mosteiro, desta feita apenas durante um mês, sendo que a 13 de Julho de 1833 ausentou-se de Lorvão “D. Delfina Adeodata Corrêa em directura a Villa Nova, freguesia de Penacova para o fim de estar em casa do Reverendo thesoureiro Jose da Silva Pereira por espaço de um mes com o fim de dar seos paseios de cavallo e tomar ares visto não vai para os banhos do mar”13. A religiosa acabaria por conseguir prorrogar consecutivamente a licença respeitante a esta ausência por um período total de dez meses14. Independentemente destes tratamentos terem ou IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 6vº. O historial clínico desta religiosa começa também bem cedo tendo-se, inclusivamente, ausentado do mosteiro, em 1815, por motivos de saúde (cf. SILVA, Ana Margarida Dias da – “Sair da clausura: único remédio para a salvação”, … p. 199. 5 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 19. 6 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 19vº. 7 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 3. 8 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 5vº. 9 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 6. 10 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 14vº. 11 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 16vº. 12 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 6. 13 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 6vº. 14 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 7. 4 84 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS não produzido o devido efeito, o certo é que esta religiosa apresentava um quadro clínico complexo e “por cauza das suas molestias a mandarao os medicos usar fora da clauzura de remedios por cuja cauza sahio a tomalos”, no entanto o seu estado de saúde não melhoraria e acabaria paralítica, vindo a falecer fora do mosteiro, em 1856, em Penacova15. Também a Madre D. Ana Albina Correia de Vasconcelos saiu do Real mosteiro de Lorvão a 8 de Julho de 1830 “com licença de seis meses concedidos pelo Excelentíssimo Reverendo em virtude de hum Breve Appostolico por mor dos remedios que lhe são aplicados pelos Facultativos” 16. Num outro campo encontram-se as doenças de foro psíquico como sucedeu com D. Joaquina Cândida que, pouco tempo depois de ter professado, perdeu o juízo e assim se manteve nesse estado durante cerca de trinta anos, “apezar de fazer todos os remedios dentro e fora do mosteiro” 17. A saída do mosteiro implicava, além da devida autorização, alguém que se responsabilizasse e acompanhasse as religiosas desde a sua saída até ao seu regresso. Existem, no entanto, situações em que as religiosas não regressaram no período previsto como acontece, em finais de 1830, com a Madre Maria Isabel de Morais18, ou no início do ano seguinte com D. Joaquina Madalena de Bourbon e a sua irmã, D. Ana Rita Xavier de Bourbon, levando a que a abadessa comunicasse à comunidade, a 13 de Fevereiro de 1831, que estas religiosas se achavam “egreças sem licença” e dando inicio a todo o processo eclesiástico, ordenando ao juiz para que desse instruções ao pároco da localidade em que elas se encontravam, para este lhes não ministrar quaisquer sacramentos e as considerar excomungadas19. A situação acabaria por se resolver com o regresso das religiosas ao mosteiro, a 19 de Março de 1831, acompanhadas por um irmão e com absolvição eclesiástica. E se a clausura nem sempre era devidamente valorizada, havia planos para a extinguir de vez. A primeira machadada vem com o decreto de 9 de Agosto de 1833, que proibia a profissão de novas religiosas e extinguia os mosteiros femininos com comunidades inferiores a 12 religiosas20. E se neste particular Lorvão ainda conseguia manter-se de pé, o golpe final seria dado no ano seguinte, é que em 1834, no âmbito da “Reforma geral eclesiástica” empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 17vº. IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 2vº. 17 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 319, fl. 169. 18 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 3. 19 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 324, fl. 3vº. 20 SILVA, António Martins da – “Extinção das Ordens Religiosas”, in AZEVEDO, Carlos Moreira de, direcção., Dicionário de História Religiosa de Portugal, Vol. II, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2000, p. 235. 15 16 85 AIRES GOMES FERNANDES respetivos bispos, até à morte da última freira, data em que seriam definitivamente encerrados21. Dava-se assim cumprimento às ideias liberais, àquelas ideias cuja génese viera de França, a mesma que invadira Portugal, a França e os franceses que no séc. XIX teimavam cruzar-se com Lorvão. A 5 de Novembro de 1808 tinha sido eleita abadessa, pela segunda vez, D. Ana Luísa de Vasconcelos Coutinho, “porem emfelizmente não pode gozar esta ventura com o sosego que dezijava porque no prrencipio do seu sigundo anno de governo emterarão os francezes neste Reino e se vio obrigada a sahir deste mosteiro e a ver a sua comonidade disperça por todo reino fogindo os enemigos” 22 Aquando da última invasão as religiosas abandonaram novamente o mosteiro, regressando apenas quando estavam criadas as mínimas condições de segurança, sendo que nessa altura, e numa primeira fase, o número concreto de professas que regressaram ao mosteiro era de 2523. Dos relatos que nos chegam apenas duas religiosas foram expostas ao contato com os franceses: D. Paula Micaela, já muito decrépita e D. Joaquina Cândida, demente, ambas refugiadas na vizinha localidade de São Mamede, e que foram apenas roubadas de bens próprios e dos de outras religiosas que aí tinham guardado alguns pertences, sobretudo mobílias. Estas duas religiosas também haveriam de retornar a Santa Maria de Lorvão, sendo que Dona Micaela de Sousa faleceu pouco tempo depois, logo a 26 de Janeiro de 181124. A mesma fortuna não teve D. Marina Vitória Sarmento que se refugiara com a família na vila de Esgueira, localidade onde viria a falecer a 21 de Janeiro de 1811 sendo o seu corpo sepultado na capela do mosteiro de Jesus de Aveiro25. Em concreto não sabemos quantas religiosas regressaram mas tudo indica que a comunidade deverá ter recuperado a generalidade das suas conventuais, que por esta altura deveria cifrar-se em pouco mais de meia centena de religiosas, número já algo distante daquele que Tomás Lino da Assunção aponta para o século XVIII, centúria durante a qual o número de professas nunca deverá ter baixado das oitenta26. O século XIX revela-se penoso no que à renovação da comunidade diz respeito e não se pode dissociar os factos políticos, sociais, militares e económicos que o país atravessa, com permanente instabilidade e notórias repercussões nas instituições religiosas. É inegável que Lorvão, à semelhança de muitos outros27, foi extremamente afetado SILVA, António Martins da – “Extinção das Ordens Religiosas”, in AZEVEDO, Carlos Moreira de, direcção., Dicionário de História Religiosa de Portugal, Vol. II, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2000, p.235. 22 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 309, sem numeração. 23 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 309, sem numeração. 24 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 319, fl. 137-137vº. 25 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 319, fl. 137-137vº. 26 D’ASSUMPÇÃO, T. Lino - As freiras de Lorvão (ensaio de monographia monastica), Coimbra, França Amado-Editor, 1899, p.163. 27 Veja-se, para o caso dos beneditinos, o estudo de OLIVEIRA, Paulo - A Congregação beneditina portu- 21 86 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS pelas invasões francesas, com evidentes reflexos populacionais e económicos. A cartorária D. Joana Delfina de Albuquerque dá-nos uma visão de tudo o que se passou no mosteiro ao longo do período em que decorreram as invasões francesas, e diz que uma das maiores mágoas que ficou no coração da abadessa D. Ana Luísa de Vasconcelos Coutinho, foi a de “se ver obrigada em parte a deminuir a ração das religiozas pelo grande abatimento que tiverão as rendas do mosteiro”, como consequência da guerra28. Os dados refletem, inequivocamente, a conturbação da época e a comprová-lo está o facto de, para o período que medeia entre 17 de Fevereiro de 1804 e 12 de Setembro de 1814, portanto no decurso temporal de mais de dez anos, onde se inserem, como sabemos, as invasões francesas, apenas ingressar uma religiosa em Lorvão: D. Antónia Mergulhão, que professa a 13 de Julho de 180929. Aliás, a partir desta altura e até ao último registo que integra o Livro das Profissões, datada de 24 de Setembro de 1820, respeitante a D. Maria Henriqueta dos Remédios Almeida30, entram para a comunidade monástica apenas oito novas religiosas. Desconhecemos a situação que se verifica entre 1820 e 1834 porque não temos dados, mas a avaliar pelas religiosas que integram o convento de Lorvão é crível que não tenha entrado ninguém, e a entrar, foi, seguramente, um número muito reduzido. Temos a indicação de uma religiosa nova em Lorvão, D. Ana Alexandrina, que viria a falecer em 1847, mas essa era proveniente do mosteiro de Tabosa31. Não conseguimos ainda averiguar a data em que terá vindo para Lorvão, sendo possível que tal tenha sucedido neste período embora também não seja de descartar a hipótese que tal tenha acontecido por volta de 1805, altura em que, face à deplorável situação económica do mosteiro de Tabosa, se pondera o encerramento da instituição, que só acabaria por sobreviver devido à ajuda de diversas outras instituições cistercienses que contribuem financeiramente para a sua subsistência através da “Arca da Caridade”32. É crível que por essa altura a comunidade tenha sido reduzida, de resto o Abade Geral da Congregação é aconselhado a não aceitar qualquer noviça no mosteiro, sendo certo que a situação desta casa de Cister se agravaria com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, altura em que as freiras que ainda aí se encontravam passaram a depender guesa no percurso para a extinção (1800-1834), Viseu, Palimage Editores, 2005, pp. 45-144. Também as cistercienses de Arouca foram obrigadas a abandonar o seu mosteiro (cf. ROCHA, Manuel Moreira da – A memória de um Mosteiro, Santa Maria de Arouca (Séculos XVII-XX): das construções e das Reconstruções, Porto, Edições Afrontamento, 2011, p. 283-284). 28 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 309, sem numeração. 29 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 318, fl. 185. 30 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 318, fl. 194. 31 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 4. O seu ingresso em Tabosa é posterior a 1760, uma vez que SANTOS, Maria Luísa Gil dos – O ciclo vivencial do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa, Câmara Municipal de Sernancelhe, 2002, p.92-119, identificou as 31 religiosas que se recolheram nesta casa cisterciense entre 1694 e 1760 e não menciona aí D. Ana Alexandrina. 32 SANTOS, Maria Luísa Gil dos - O ciclo vivencial do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa, Câmara Municipal de Sernancelhe, 2002, pp. 133-134. 87 AIRES GOMES FERNANDES exclusivamente de si e, surpreendentemente, ou não, apesar de diminuta, a comunidade foi perdurando, sendo que em 1844 encontravam-se aí 5 religiosas e uma pupila33. Ao confrontarmos o Livro das Profissões com os diversos Livros de óbitos conseguimos estabelecer com algum grau de segurança a população monástica desta instituição bem como perceber o tempo de vigência de cada uma das freiras em clausura, e neste aspeto concreto os dados acabam por revelar algumas surpresas. É que apesar de todos os condicionalismos o tempo médio que cada freira vive em Lorvão é de 54 anos, sendo que aqui estamos apenas a falar do tempo que medeia entre a data em que professam e a sua morte, não se contabilizando a altura de entrada no mosteiro, e eventual período como pupilas. Neste derradeiro século de funcionamento da instituição surgem-nos quatro religiosas com longevidade superior a 70 anos, nomeadamente D. Micaela Máxima Pinto Ferreira de Vasconcelos, D. Luísa Madalena de Sousa Tudela de Castilho, D. Maria Peregrina da Cunha e Melo e D. Josefa Aurélia Pinto Ferreira de Vasconcelos. Ao invés, a freira que regista um menor período de vida em Lorvão é D. Maria Henriqueta dos Remédios e Almeida que faleceu 16 anos após ter professado. Por exemplo, dos 40 assentos de óbito que se encontram no Livro 325, também conhecido por Obituário de 1836, justamente por se ocupar do registo dos falecimentos ocorridos a partir desse ano, todas as religiosas professaram até 1820, integrando assim, o seu nome, o Livro das Profissões. Podemos afirmar que Lorvão tinha, em 1834, pelo menos 47 religiosas, como se pode comprovar pelo quadro das páginas seguintes, sendo expectável que tal número possa subir para a meia centena. Naturalmente que a partir do momento em que não existe renovação da comunidade assiste-se à inevitável morte da instituição, sendo que por volta da década de 50 já só restavam cerca de 20 religiosas no mosteiro como bem observa Alexandre Herculano, por essa altura34. As fracas condições de habitabilidade, a falta de recursos financeiros, a alimentação desequilibrada e insuficiente eram, por si só, factores que poderiam ajudar à vertiginalização da comunidade para a sua extinção. Um testemunho coevo e impactante é-nos dado por Alexandre Herculano que, em 1853, em carta a António de Serpa Pimental, relata o quão desumana é a situação vivida neste mosteiro. Contemplemos então, através dos olhos do homem e do historiador: “Meu amigo. – Escrevo-lhe do fundo do estreito valle de Lorvão, defronte do mosteiro onde repousam as filhas de Sancho I; deste mosteiro melancholico e mal-assombrado como as montanhas abruptas que o rodeiam por todos os lados: escrevo-lhe com o coração aperta- SILVA, Célia Taborda – “A extinção dos mosteiros cistercienses no Douro”, in CARREIRAS, José Albuquerque, dir., Mosteiros Cistercienses: história, arte, espiritualidade e património, (Atas do Congresso Internacional), Tomo III, [organização] do Mosteiro de Alcobaça em colaboração com o Instituto Politécnico de Tomar, 3 volumes, Alcobaça, Jorlis – Edições e Publicações, 2013, p. 233. 34 HERCULANO, Alexandre – “As freiras de Lorvão”, in Opúsculos, Questões públicas, Tomo I, 2.ª ed., Lisboa, 1873, p. 197. 33 88 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS 89 AIRES GOMES FERNANDES 90 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS 91 AIRES GOMES FERNANDES 92 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS 93 AIRES GOMES FERNANDES do de dó e repassado de indignação. Descendo a examinar o archivo das pobres cistercienses, penetrei no claustro por ordem ecclesiastica. Lá dentro, nesses corredores humidos e sombrios, vi passar ao pé de mim muitos vultos, cujas faces eram pallidas, cujos cabellos eram brancos. Esses cabellos nem todos os destinguiu o decurso dos annos: a amargura embranqueceu os mais delles. Quasi todas essas faces tem-nas empallidecido a fome. Morrem aqui lentamente umas poucas de mulheress, fechadas n’uma tumba de pedra e ferro. […] Dir-se-hia que existe uma providência infernal para que não falte às freiras de Lorvão o restrictamente indispensavel para, lento e lento, se lhes irem os membros mirrando n’um longo expirar, debeis e senis. Imagine, meu amigo, uma noite de inverno, no fundo desta espécie de poço perdido no meio da turba de montes que o rodeiam: imagine dezoito ou vinte mulheres idosas, mettidas entre quatro paredes humidas e regeladas, sem agasalho, sem lume para se aquecerem, sem pão para se alimentarem, sem energia na alma, e sem forças no corpo, […] Há poucos dias passou-se em Lorvão uma scena tremenda. N’um accesso de desesperação, parte destas desgraçadas queriam tumultuariamente romper a clausura; queriam ir pedir pão pelas cercanias. Custou muito contê-las. Tinha-se apoderado dellas uma grande ambição; aspiravam à felicidade do mendigo, que póde appellar para a compixão humana; que póde fazer-se escutar de porta em porta. Era uma vantagem enorme que obtinham. A sua voz é demasiado fraca, e os muros de Lorvão demasiado espessos.”35 A própria documentação dá-nos conta, de forma mais ou menos direta das dificuldades que as religiosas viviam. No registo de óbito de Dona Elvira Clara de Andrade, cujo falecimento ocorreu a 20 de Maio de 1851, diz-se que ela padeceu bastantes necessidades em virtude de terem tirado aos mosteiros as rendas e dízimos, de tal modo que não tinha forma como sobreviver, vendo-se obrigada a vender alguns trastes que tinha para o seu sustento, vivendo também de esmolas36. O caminho era tortuoso e o fim inevitável, aguardava-se apenas o último suspiro de D. Luísa Madalena de Sousa Tudela de Castilho, mas 1887 estava já ali. Bibliografia BORGES, Nelson Correia - Arte monástica em Lorvão: sombras e realidade - das origens a 1737, 2 vols., Fundação Calouste Gulbenkian / FCT, 2002. D’ASSUMPÇÃO, T. Lino - As freiras de Lorvão (ensaio de monographia monastica), Coimbra, França Amado-Editor, 1899; HERCULANO, Alexandre – “As freiras de Lorvão”, in Opúsculos, Questões públicas, Tomo I, 2.ª ed., Lisboa, 1873, p.193-206; OLIVEIRA, Paulo - A Congregação beneditina portuguesa no percurso para a extinção (18001834), Viseu, Palimage Editores, 2005; HERCULANO, Alexandre – “As freiras de Lorvão”, in Opúsculos, Questões públicas, Tomo I, 2.ª ed., Lisboa, 1873, pp. 195-198. 36 IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325, fl. 10. 35 94 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS ROCHA, Manuel Moreira da - A memória de um Mosteiro, Santa Maria de Arouca (Séculos XVII-XX): das construções e das Reconstruções, Porto, Edições Afrontamento, 2011; SANTOS, Maria Luísa Gil dos - O ciclo vivencial do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa, Câmara Municipal de Sernancelhe, 2002; SILVA, António Martins da – “Extinção das Ordens Religiosas”, in AZEVEDO, Carlos Moreira de, direcção ., Dicionário de História Religiosa de Portugal, Vol. II, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2000, p.232-236; SILVA, Ana Margarida Dias da – “Sair da clausura: único remédio para a salvação”, in Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, XXV, 2012, p.195-213; SILVA, Célia Taborda – “A extinção dos mosteiros cistercienses no Douro”, in CARREIRAS, José Albuquerque, dir., Mosteiros Cistercienses: história, arte, espiritualidade e património, (Atas do Congresso Internacional), Tomo III, [organização] do Mosteiro de Alcobaça em colaboração com o Instituto Politécnico de Tomar, Alcobaça, Jorlis – Edições e Publicações, 2013, p.219-235. Apêndice Doc. 1 – Transcrição do Livro 325 de Santa Maria de Lorvão (Obituário de 1836) Fonte: IAN/TT – Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, Livro 325 Princepia este Livro no Anno de 1836 [f.1vº] [f.2] A Madre Dona Maria Henriqueta Aos 26 de Dezembro de 1836 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Maria Henriqueta dos Remedios e Almeida, filha de Manoel Joaquim de Almeida e de Dona Anna Joaquina do Carmo assistentes em a cidade de Lamego. Esta rellegioza foi para o mosteiro de Cellas ahonde morreu. A Madre Dona Bernarda Joaquina Aos 20 de Fevreiro de 1837 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Bernarda Joaquina de São Paio filha de António de Mello São Paio Pereira Pinto do Lago, e de sua molher Dona Caitanna Bernarda de Morais Sarmento, moradores na Espinhoza. A Madre Dona Luiza Xavier Aos 30 dias do mes de Março de 1837 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Luiza Xavier de Jazus(?) filha de Francisco Fernandes de Carvalho e de sua molher Tereza Maria do Sacramento asistente no lugar de São Miguel de Poiares.[/f.2] 95 AIRES GOMES FERNANDES [f.2vº] A Madre Dona Anna Barbora ex abbadessa Aos 8 dias do mes de Abril de 1837 foi Deus servido levar para si a A Madre Dona Anna Barbora de Faria Sequeira Brandão, filha de Joze Antonio da Costa e Sequeira e de sua molher Dona Tereza Xavier da Cunha Brandão e Castello Branco. Asistentes na sua quinta de Revelles. A Madre Dona Anna Magdallena Aos 5 dias do mes de Novembro de 1838 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Anna Magdallena do Amaral Botelho da Veiga, filha ligitima de Manoel Botelho da Veiga e de sua molher Dona Jozefa Roza Margarida do Valle, moradores na villa de Santa Comba Dão. A Madre Dona Jozefa Benedita Aos vinte dias do mes de Abril de 1839 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Jozefa Benedita de São Paio, filha de António de Mello São Paio Pereira Pinto do Lago, e de sua molher Dona Caitana Bernarda de Morais Sarmento, moradores na Espinhoza, hera esta rellegioza particular devota do Santissimo Sacramento sendo sua thizourera muitos annos e contrebuindo sempre com avultadas esmolas para o seu culto, pello que estará gozando o premio que Deus permete a quem o Serve.[/f.2vº] [f.3] A Madre Dona Auta Joze de Abreu Aos 23 de Maio de 1839 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Auta Joze de Abreu Ozorio Sarmento, filha de Francisco de Abreu Cardozo de Mello, e de Dona Maria Delfina Ozorio Sarmento e Vasconcelos, asistentes na villa de Fornos de Algodres. Morreu esta rellegioza no lugar de abadessa que estava exzercndo avia sinco annos menos hum mês, a cual tinha sido ileita na ocasião em que princepiou o governo de Nossa Rainha, a senhora Dona Maria da Glória. Padecia muitas mollestias pelas cuais se via obrigada a estar cuazi sempre na cama, hera muito callada e sofrida nos padesimentos que Deus lhe dava, piamente cremos que Deus lhe dará no Céo o premio da sua paciensia. A Madre Dona Luiza Rita Zuzarte Aos 2 dias de Maio de 1840 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Luiza Rita Zuzarte de Brito, filha de Francisco Alvares da Costa, sua maii Dona Anna Maria Zuzarte de Brito, moradores na villa de Pinheiro de Azere.[/f.3] [f.3vº] A Madre Dona Joana Maria Ferrás Foi Deus servido levar para si aos 22 de Setembro de 1840 a Madre Dona Joana Maria Ferrás, filha de Antonio Ferrás, e de Antonia Francisca, do lugar da Crugeira. Foi 96 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS sempre esta rellegioza de vida exzempellar e de muita caridade para com todas as doentes, asestindo sempre a todas, emquanto pode, foi muito penitente e austéra para comnsigo. Agora devemos crer que Deus hé justo háde premiar sua virtude, e a terá gozando da sua vizta e glória. A Madre Dona Anna Justina Aos 3 de Janeiro de 1841 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Anna Justina Castellino Manoel de Aboim, filha de Francisco Cóta Falcão de Morais Sarmento, e de Dona Maria Josefa Castellino de Freitas Manoel de Aboim. Asistentes em a villa de Torres Novas. A Madre Dona Maria Camdida37 Aos 18 de Março de 1843 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Maria Camdida, seu paii se chamava Joze Antonio da Costa Sequeira; e sua maii Dona Thereza Xavier da Cunha Brandão Castello Branco, assistentes na Quinta de Revelles.[/f.3vº] [f.4] A Madre Dona Antonia do Loreto Brandão Aos 8 de Novembro de 1846 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Antonia do Loreto de Figueiredo Brandão, filha de Pedro Madeira de Abreu, e de Dona Ignes Antonia Angellica Serrão de Avellar, moradores na sua Quinta da Costa. Foi sempre esta rellegioza de vida muito exzempellar, doutada de muito juízo e grande prudencia; finalizarão seus dias com huma mollestia de muito padecimento e dores terríveis, levando tudo com a maior paciencia e comformidade. Piamente devemos crer que Deus terá premiado sua virtude e paciencia. A Madre Dona Izabel Lodovina Aos 28 de Dezembro de 1846 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Izabel Lodovina, filha de João da Costa Cabral e Vasconcelos e de Dona Maria Arcamgella Angelér de Souza, assistentes na villa de Soure. Hera esta rellegioza muito instruída e de muito agrado para todas, doutada de muito bons custumes. Deus a tera gozando da sua vista. A Madre Dona Anna Allexamdrina No dia doze de Janeiro [de 1847] foi Deus servido levar para si a Madre Dona Anna Allexamdrina. Esta rellegioza héra profeça no mosteiro da Taboza, e foi para aqui mudaO registo de óbito referente a esta religiosa encontra-se também presente num outro Obituário de Lorvão (Livro 319, fl. 171vº), com ligeiras variações e que, por isso, deixamos também aqui a sua transcrição: “A Madre Dona Maria Candida: Aos 18 de Março de 1843 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Maria Candida de Sequeira e Amorim filha legitima de Joze Antonio da Costa e Sequeira e de sua molher Dona Tereza Xavier da Cunha Brandão Castello Branco, moradores na sua Quinta de Revelles.”[/f. 171vº]. 37 97 AIRES GOMES FERNANDES da por cauza da necessidade em que estava o seu mosteiro. Não sabemos os nomes de seus paiis por isso aqui se não asentão. Deus a tenha à sua vista. [/f.4] [f.4vº] A Madre Dona Costodia Camdida No dia 15 de Março de 1847 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Costodia Camdida Correia de Almeida estando no lugar de abadessa que ocupava á 7 annos e 4 meses. Deus terá premiado suas virtudes e paciencia. Seu pay se chamava Francisco Joze de Almeida Correia e Vasconcellos e sua molher Dona Anna Amgellica Correia e Figueiredo moradores no lugar de Parada, bispado de Vizeu. A Madre Dona Antonia Luiza Zuzarte Aos 12 dias de Maio de 1847 foi Deus servido chamar a si a Madre Antonia Luiza Zuzarte, filha de Francisco Alveres da Costa e da sua molher Dona Anna Maria Zuzarte de Britto, moradores na villa de Pinheiro de Azere. [/f.4vº] [f.5] A Madre Dona Thereza Umbelina No 1º de Dezembro de 1848 foi Deus servido chamar a si a muito religiosa senhora Dona Tereza Umbelina Correia de Proença, filha de Joze Luis Correia de Proença e Oliveira e Dona Joanna Maria de Souza Coelho assitentes na Quinta e freguesia de Esparis concelho de Coja bispado de Coimbra. Foi esta senhora a mais observante da Santa Regra e se consagrou a Deus com vocação tão verdadeira que quis viver por algum tempo sicular para conhecer as obrigações de que se incarregava que exzecutou com a maior exzação observando com discrissão e fervor todas as virtudes christans e da relegioza não tendo outra vontade mais que a dos seus prelados que nelles ouvia a vos de Deus para obedecer nas oficinas trabalhozas que elles lhe determinavam. Com a maior brandura docelidade e com huma caridade universal para todas as pessoas que se chegavam a ella pois não podia ver sem comoção o desvalido que a ella se chegava sem se compadeser da sua indigencia nas esmolas que então e depois lhe repartia; apesar das grandes fadigas nas trabalhozas ofecinas em que estava não deixava o Coro para onde voava como centro do seu descanso; forquentava os sacramentos as duas vezes na somana que estão estabelecidos mas com tal liberdade de spiritu que bem se deixava ver a inocencia daquela alma; mas Deus como anciozo já d’a possuir querendo-a unir a si a chamou ainda [/f.5] n’huma idade que pormetia dilatados annos porque as suas moléstias que padecia com intranhavel paciencia a fizeram secumbir deixando-nos a saudosa lembrança de perdermos tão amável companheira. Foi prelada – e pode-se dizer foi may – hum trienio com aceitação geral da comunidade e sendo segunda ves eleita não o completou porque as usas moléstias a obrigarão a despedirse nas maons do seu prelado ao que elle anuio e pasados poucos mezes de vida foi receber a Coroa que adequirio com os seus trabalhos pois este he o caminho seguro d’a alcansar. 98 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS A Madre Dona Jozefa Bernarda da Encarnação Aos 26 de Fevereiro de 1849 foi Deus servido chamar a si a Madre Dona Jozefa Bernarda da Encarnação, filha legitima de Joze Luis de Carvalho, e de sua mulher Anna Maria do Sacramento, moradores nno lugar de Villa Xá bispado de Coimbra. Foi esta relegioza exzemplarissima possuindo as virtudes que a fazião amavel a Deus e aos homens; era muito umilde, muito caridoza não só para os pobres mas para todos que se chegavão a ella aonde achavão hum coração aberto para as servir; ocupou muitas ofecinas trabalhozas e nestas tomava a si o serviso mais penozo das creadas para as aleviar [/ f.5vº] e não obstante este trabalho vinha correndo para o seu amavel Coro que ferquentava sem descanso servindo nelle como se fosse uma pupilinha; na sua boca não sse acchava murmuração mas sempre bom agrado alegria e pronptidão para servir a todos; era tão pontual na obediencia aos prelados que apenas lhe intimavão os preceitos, voava logo na sua exzecução; gozou sempre boa saude por alguns annos mas dipois com molestias intriores que nem os medicos conhecerião. Entrou a defecar e a sentir os membros lezos sem a elles se podeer servir e conhecendo a sua imposebelidade se despedio por ultima ves do seu amado Coro e recolhendose a sua cella em cinco dias intregou a alma a seu Creador o qual premiaria com abundancia a quem tanto dezempenhou os deveres do seu estado. A Madre Dona Maria de Belem Borges Aos 3 de Março de 1849 foi Deus servido chamar a si a Madre Dona Maria de Bellem Borges Tavares d’Azevedo, filha legitima de Miguel Borges Tavares d’Azevedo Gouveia e Castro, e de sua mulher Dona Maria Manoella Amalia d’Azevedo asistentes na villa de Oliveira do Conde, bispado de Vizeu. Esta relegioza entrou neste mosteiro [/ f.6] des idade de 9 annos aonde foi pupilla e na idade competente se dedicou a Deus no estado relegiozo; ferquentou o exzercicio do Coro emquanto as suas maleitas o permetirão; Como estas se augmentaram se vio obrigada a ter nelle moderação; padecia ataques nervozos na cabeça e corpo em tanta actividade que se expremia em dizer que so no Inferno se padecerião outras semilhantes; era dotada de muita discrepsão e talento, e falava sem adulação o que entendia – termos pouco achados nas creaturas – Exerceu algumas ofecinas apezar de ser dellas dispensada pella prenda de organista que foi uma singular professora, exzercendo esta prenda de graça e não d’obrigação; socorria a pobreza nas suas nesesi[da]des. Tinha huma particular devoção a Nossa Senhora e nella punha todas as suas esperanças e piamente devemos crer que ella lhe não faltaria na sua ultima ora que já atenuado seu corpo de forsas no seu muito padeser não podendo vencer a sua ultima doença de catarral ao septimo dia Deus a chamou a si ainda no meio d’huma idade que permetia dilatados annos o iria louvalo e cantar as suas infenitas mezericordias. [/f.6vº] A Madre Dona Ritta Izabel de Borbon Quis Deus darnos o golpe – que sempre será sentido – no falecimento da Madre Dona Rita Izabel de Bourbon <aos 20 de Outubro(?) de 1849> filha legitima de Francis99 AIRES GOMES FERNANDES co Xavier de Mendonça e de sua mulher D. Joanna Rita de Bourbon asistentes na villa do Sardoal bispado de Castello Branco perdendo nós a companhia d’hum anjo que com seu exzemplo nos incitava ao comprimento das nossas obrigaçõens; Foi esta relegioza a mais observante da Santa Regra e nas virtudes que ella nos recomenda; Entrou para este mosteiro em idade menor e aos annos competentes se consagrou ao seu Espozo Jezus a quem servio com a maior fedelidade; foi organista muzica e cantora quaize toda a sua vida mas sendo isto tão estimavel era mais o fervor desta Alma pois parecia um serafim abrazado sendo incansavel no Coro nos exzercicios spirituaes, na ferquencia dos Sacramentos, na asistencia ao Santissimo Sacramento, enfim não vivendo mais que para o seu Jesuz; tratava da capella de Nossa Senhora da Guia que está no dormitorio de sima e do Altar de Nossa Senhora dos Dezemparados na Tribuna de Santa Barbara com o maior zello e amor; levantandose alta madrugada para na sua oração se unir ao seu Deus mas como este já impaciente d’ajuntar ao coro dos Anjos lhe quizesse recompensar os seus trabalhos e virtudes de que nunca se apartou a chamou para si dandolhe huma doensa por espaso de dois [/f.7] mezes que sofreu com a maior conformidade nas aflisons e ancias que a molestia repentina de idropezia e outras mais lhe cauzavão; deixando-nos certeficadas que a medecina nada aproveitava quando Deus a queria para si e para a ajuntar a cantar com os Anjos os seus louvores e amando-o eternamente como piamente o devemos esperar porque são infenitas as suas mezericordias [/f.7vº]. Ainda não estava satisfeita a justisa de Deus provocada pellos nossos pecados na repetição de mortes ferquentes neste mosteiro de relegiozas em mediana idade as mais prestaveis de taleto merecimento e uteis em servisso da Relegião poque ultimamente nos roubou esta de quem vou a dar nota A Madre Dona Maria Joze Margulhão Aos 28 de Novembro de 1849 foi Deus servido chamar para si a Madre Dona Maria Joze Morgolhão filha legitima de João Bernardo Pinto Cohen Sa Morgolhão e de sua mulher Dona Julia Tereza Araujo Losena assistentes na villa de Nogoza bispado de Lamego. Entrou esta relegioza para este mosteiro em idade menor e tomando o habito de pupilla ate chegar á idade copetente para seu scrificio nos votos da sua profissão. Viveu alguns annos servindo sempre a Relegião no que lhe mandavão ferquentando o Coro, neste consolando os ouvidos com a sua linda vós que Deus lhe deu para o louvor; era muito compadecida com os pobres e os socorria quanto podia. Sahio do mosteiro para cuidar da sua saude aonde se demorou alguns annos, padesendo trabalhos contradisons e sempre aflissons; e a maior que sentia era não ter quem a acompanhase para o seu mosteiro porque distavão muitas legoas; ate que Deus ouvio as suas continuas rogativas aparesendolhe hum Anjo – para assim o dizer - que sem mais conhecimento della se pronpteficou a unir à sua petição e a acompanhar; e não são estes sucessos sem [/f.8] misterio pello que se vio adiante porque o regozijo, a satisfação, a vontade com que queria unirse a suas irmans, as grasas que dava a Deus por lhe ter feito este beneficio bem mostra que era predestinada porque pedindo a Deus quando estava fora que a trousesse ao seu mosteiro e dipois fizesse della o que quizesse, elle bem o comprio 100 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS porque em tres somanas que teve de vida para se gozar do bem que ella devia sentir no seu coração; concertando as suas cazas que o tempo tinha desmantelado no ultimo dia a acomeeteu hum pleuris que em cinco dias a arebatou das nossas vistas com a maior resignação, prezença de Spirtu e conformidade com a vontade de Deus dizendo não queria outra couza, pedindo confessor e os Sacramentos todos e acompanhando o padre (?) nas oraçons da Estrem’unção com o Amen no fim que ella mesma se ademirava e a nós todas que observamos esta morte pasmavamos de semilhante raridade nunca ou poucas vezes vista; Dipois destes acontecimentos bem piamente devemos comtemplala á vista de Deus gozando por toda a Eternidade hum bem que nem os olhos virão nem os ouvidos ouvirão o que Deus tem destinado para os que o temem e amão nesta vida [/f.8vº]. A Madre Dona Maria Peregrina da Cunha Aos 7 de Fevereiro de 1850 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Maria Peregrina da Cunha e Mello filha legitima de Jose Antonio de Figueiredo e Souza e de sua mulher Dona Dionizia Engracia da Cunha e Mello moradores no lugar de Taveiro bispado de Coimbra; foi esta relegioza desde menina sempre temente a Deus não querendo nunca aquelles intertens da puericia pois só tratava com Deus em contínuos e fervorozoz exzercicios de piedade rezas contínuas; padecia muito com os seus escrupullos e prizonns de conciecia por isso levava a sua vida amargurada mas como Deus a queria purificar não só por este fogo da tribulação mas pellas molestias as mais encomodas e aflegitivas que podia aver; estas sofria com a maior paciencia e rezignação não sendo posivel deixar por esta cauza o exzercicio do seu amavel Coro que tinha ferquentado toda a sua vida aonde achava a sua consolação, ofeciando nelle somanas e somanas sem ademetir descanso; foi exzata em todas as mais obrigaçons de relegioza, no silencio, umildade e caridade; era muito devota da Paixão de Nosso Senhor Jezus Christo e de Nossa Senhora da Soledade que está no claustoro quem hia rezar todos os Sabados o seu rozario, costume muito antigo neste mosteiro mas Deus como já impaciente de a premiar com a sua vista, a quis separar de nossa companhia para ir continuar os louvores que tinha impregado em toda a sua vida mortal, e cantar eternamente as suas mezericordias; gozando da sua amavel vista [/f.9]. A Madre Dona Elvira Clara de Andrade Aos 20 de Maio de 1851 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Elvira Clara d’Andrade e São Paio, filha legitima de Nuno Manoel Freire d’Andrade e São Payo, e de sua mulher Dona Maria Umbelina Teixeira de Carvalho moradores na cidade de Vizeu. Foi esta relegioza exzemplarisima nas obrigaçons e ofecinas que a obediencia a mandava exzercer; tinha hum engenho e habelidade particular mas pella sua umildade não ostentava della; vivia solitaria com o seu Deus e espozo entertendo o tempo em demosticar os pasarinhos e avezinhas que como se fosem racionaes estavão sogeitas à sua vos e maior parte do tempo que restava das suas obrigaçons o gastava na cultura das suas flores na cerca, vivendo só e na contemplação do Auctor de tantas maravilhas. Padeseu 101 AIRES GOMES FERNANDES bastantes nesesidades por que como tirarão aos mosteiros as rendas e dizimos não tinha com que pasar para o que vendeu alguns trastes que tinha para a sua parca sostentação e com esmollas que a Providencia lhe dava; atacou-a hum estepor que a deixou leza d’hum braso e da lingoa porque não tornou a dizer palavra alguma mais que gritar e xorar sem de modo algum se poder expremir, mas conhecia as pessoas beijando a mão das suas amigas e de quem a favorecia; assim pasou dois anos e meio que fazia dó e compaixão a quem a via, ate que Deus a chamou para premiar os seus trabalhos e virtudes christans e relegiozas que tinha praticado; deminuindo o seu Purgatorio – como piamente devemos crer – com o padecimento que tinha sofrido [/f.10]. A Madre Dona Anna Rita Xavier de Berbon Aos 27 de Outubro de 1851 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Anna Rita Xavier de Bourbon filha legitima de Francisco Xavier de Mendonça e de sua mulher Dona Joanna de Bourbon asistentes na villa do Sardoal Bispado de Castello Branco; Esta familia he muito destinta mas mais destinta pellas virtudes christans e de relegião de que vou a falar da dita relegioza; Esta entrou para o mosteiro da idade de nove annos conservandose sempre ate morrer com a inocencia daquella idade. Foi pupilla e na idade competente se consagrou ao seu Espozo Jezus Christo a quem servio com a maior pontualidade em todas as ofecinas que a obediencia lhe determinava. Foi muzica quaize toda a sua vida; organista, cantora, prioreza, mestre de novisas e finalmente em toda e qualquer parte que a mandava a obediencia; foi muito observante da Santa Regra; tinha hum coração limpo de toda a malicia e bem intencionado; era muito caridoza com os pobres e a todos, em particular e geral favorecia; tinha a sua caza aberta para favoreser a todos os nesesitados e bem o mostrou com um desvalida e estoporada creada em o sostento quotodiano com que a alimentava tendo aprovação de sua irmãa Prelada que para lá a conduzio; tratava da Capella da Assensão de Nosso Senhor Subir ao Ceo no claustrinho e de outra de Jezuz Maria Joze no claustro do silencio; e como faleceu sendo Sacristaa tendo tido o maior cuidado e disvello em reparação [/f.11] e concertar da Igreja este Senhor já anciozo d’a premiar e levar para a sua companhia a chamou quando ella mesmo se levantava pella manhãa para o Coro, atacando-a huma doensa mortal e afelegitiva que em sete dias terminou seus dias para ir gozar aonde piamente as devemos comtemplar. A Madre Dona Marianna Ipolita Pinto Aos 4 de Novembro de 1851 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Mariana Ipolita Pinto filha legitima de Joze Pinto Ferreira de Vasconcelos e de sua mulher Dona Tereza Marianna da Silva Brandão asistentes no lugar de Moufores Bispado de Coimbra; Esta relegioza entrou para este mosteiro antes de completar os sete annos de idade e como estava na companhia e tutella de huma irmãa, esta pelo seu zello e boa indule da menina a ducou e conservou sempre temente a Deus e sogeita à sua obediencia, e ella conseliava o amor desta sua irmãa e de todas suas companheiras não só nesta tenrra idade como dipois de religioza que aos annos competentes se consagrou a Nosso Senhor. 102 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS Seguio muitas ofecinas do mosteiro porque para todas tinha capacidade, amava a pax, era muito prudente e caridoza; tinha huma encantadora vós com que nos consolava no Coro, e agora a iria unir ao Coro dos Anjos onde piamente a devemos supor pella paciencia rezignação e sofrimento com que sofreu huma molestia [/f.11vº] que durante muitos annos no ultimo subio aos quilates de padecimento pois tendo hum cancer na lingoa este a embarasou muito tempo antes da sua morte a comer e a falar e algumas palavras que dezia erão tão balbuciantes que mal se podia entender porque ate parte da lingoa lhe cahio; e ella sempre sofrendo tudo com a maior paciencia que fazia interneser a quem a observava e como Deus he justo lhe deu neste mundo o seu Purgatorio e a devemos considerar à sua vista. Tinha por sua conta a Capella de Santo Antonio no claustrinho no capitulinho em que está São Braz e os Santos Reys no Claustro do Silencio e estes todos intercederião a Deus pella sua felecidade eterna que he o fim para que todos fomos creados [/f.12]. A Madre Dona Bernarda Leonor Sarmento Aos 25 de Janeiro de 1853 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Bernarda Leonor Sarmento filha de D. João Vellasques Sarmento d’Alarcão e de sua mulher Dona Maria de Mello Correia moradores no lugar do Hespinhal Bispado de Coimbra; Entrou esta menina de menor idade para este Real Mosteiro de Lorvão intregue ao cuidado de duas tias relegiozas as mais observantes e tementes a Deus aonde recebeu o habito de pupilla ate chegar à idade competente de se consagrar a Deus com os votos da relegião na qual foi exzatisima nas suas obrigaçons frquencia do Coro e ferquencia de Sacramentos e de todos os mais artigos que nos prescreve a nosa Santa Regra que trazia sempre em vista para a sua exzecução; tratava da Capella das Almas que está no claustrinho e se enpenhava nos seus cultos trabalhando em flores e mais obras para o seu ornato; assim como de Nossa Senhora das Dores de quem era devotisima e pedio lhe tivesem sempre acezas duas vellas ate levarem da mesma cella o corpo para o seultarem; padeseu molestias muito aflegitivas de spiritu e corpo que fazia compaixão a quem a observava mas cedendo ao convite de seu espozo que a chamava para si, para a premiar dipois de receber todos os sacramentos em seu juizo perfeito e asistencia do seu confesor podemos piamente crer foi gozar da vista de quem sempre amou e servio nesta vida mortal [/f.12vº]. A Madre Dona Anna Perpetua de Mello Aos 4 de Setembro de 1853 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Anna Perpetua de Mello filha legitima de Manoel Thomas da Silva e Mello e de sua mulher Dona Maria Engracia da Fonseca asistentes na cidade de Coimbra; Foi esta menina educada no Santo temor de Deus sendo a sua nascente caza hum edificante convento aonde só reinava o amor e serviso de Deus e como este Senhor a queria unir a si mais tocantemente a conduzio a este mosteiro aonde pasou toda a sua vida em o serviso amor e louvor de Deus. Logo que professou foi exzercer a ocupação de cantora pasando dos menores cargos ao de cantora mor e d’hi a prioreza na qual morreu; estas forão as 103 AIRES GOMES FERNANDES ocupaçons de toda a sua vida sempre vivendo n’huma alegria constante huma pax e afebelidade com todas que bem se deixava conheser quem exzestia no seu coração; ancioza sempre de receber Nosso Senhor Sacramentado os quais as Constituiçons determinão Domingos e Quintas feiras; os dias que mediavão para a repetição desta felicidade talvez lhe parsessem annos. Sempre foi continua na asistencia do Coro no qual er muito sabida e sabia cantoxão na maior perfeição, acabado este não acabava o seu dezejo de estar fazendo companhia ao seu Espozo Sacramentado aonde se demorava por muito tempo; era organista e ate Deus a dotou com o talento de Poeta fazendo imensas quadras a Nosso Senhor Jezus e às suas Santissimas Chagas e em dezagravo de Nosso Senhor Sacramentado, a tal unção tinhão as suas [/f.13] expressons que bem mostrava a quem pasva naquelle coração, mas como Deus a queria já de todo para si a chamou com huma molestia tão infadonha que não dava paso que não fose ajudada por outrem assim hia á Comunhão Coro e sempre tão conforme e rezignada e rizonha que a sua companhia se fazia apetecivel mas finalmente pagou o tributo da morte em idade que podia viver muitos e muitos annos porque Deus a queria para si e para nós o sentimento e saudade da sua falta que será sempre constante esperando que ella se lembre de nós no bem que piamente queremos ella está gozando [/f.13vº] A Madre Dona Joaquina Magdalena de Berbon Aos 15 de Outubro de 1852 foi Deus servindo levar para si a Ex.ma Senhora Dona Joaquina Magdalena de Bourbon, ex abbadessa filha legitima de Francisco Xavier de Mendonça e de sua mulher Dona Joanna de Bourbon asistentes na villa do Sardoal Bispado de Castello Branco bem conhecida familia pella sua nobreza e muito particularmente pellas suas aççons. Esta relegioza entrou neste mosteiro de idade d’outo annos tomando o habito de pupilla ata que chegou a competente de se consagrar a Deus com a profisão relegioza que dezempenhou sempre ate morrer com a maior exzepsão. A natureza a dotou com gentileza, cndura e afabalidade e prendas de que se fazia amavel; foi organista, cantora por muitos annos e abbadessa. Tinha a mais linda e encantadora vos; sabia muzica afundadamente e se via rodiada de descipullas a que impremia o seu estillo e gosto de muzica mas sendo estas tão aplaudidas do mundo não erão menores as da sua Alma porque foi sempre observantisima da nosa Regra; era sempre contínua no exzercicio do Coro; muito esmoler e compadecida das desvalidas, socorrendo ora huma ora outra; tratava da Capella de Nossa Senhora dos Passos e a guarneseu com cortinas e aseios que tem e o mesmo com a Capella de Nossa Senhora do Amparo que esta no claustro e do Senhor na baranda de Pilatos que está na claustra nova na qual fez muitas despezas para a concertar e ornar. Porem como somos mortais estamos sogeitos á morte e esta lhe quis Deus dar antecipandose com hum tomento de confuzão na cabesa e huma mouquise tão brava que lhe servia de grande tromento; ficou de cama 10 dias com hum pleuris [/f.14] sempre variada da cabesa estando sempre a dizer: - vamos para o coro; - Eu vou já. Aqui está como se conservão os bons costumes das vidas; pellos quais piamente devemos esperar que ella fose cantar os louvores de Deus sendo por elle recompensada dos trabalhos que padeseu. 104 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS A Madre Dona Maria Maxima de Almeida e Vasconcelos Aos 4 de Julho de 1854 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Maria Maxima d’Almeida e Vasconcelos filha legitima de Francisco Joze d’Almeida Correia de Vasconcelos e de sua mulher Dona Anna Angelica Correia de Figueiredo moradores no lugar de Parada Bispado de Vizeu. Esta relegioza compria com a maior exzesão o que as preladas lhe intimavão mas não podia ferquentar o Coro porque toda a sua vida foi devotissima que a não usar d’huma mortificação continua nas comidas não pasando de cozido e pão não podia subsestir o que os mesmos medicos confesavão, mas supria a falta d’asistencia do Coro com a paciencia e caridade que tinha com os pobres e dezamparados socorrendo-os quanto podia. Procurou os Sacramentos e tão conforme estava com a sua morte que com prezensa de spiritu mandou apronptar a sua mortalha – que ainda que a trazemos e sempre connosco – sempre consola a sua boa dispozisão. Tinha a seu cargo a Capella de Santa Maria Magdalena no claustro e devemos confiar que ella com os seus rógos para com Deus lhe alcansase a felicidade d’o ir gozar eternamente [/f.14vº]. A Madre Dona Antonia Jozoina Mergulhão Aos 2 de Fevereiro de 1855 foi Deus servido chamar para si a Madre Dona Antonia Jozuina Mergulhão filha legitima de João Bernardo Pinto Colensa Mergulhão e de sua mulher e de sua mulher Dona Julia Tereza Araujo Lusena asistentes na villa de Nogoza Bispado de Lamego. Entrou esta relegioza para este mosteiro em idade menor para pupilla ate chegar à idade competente para se consagrar a Deus com a profissão relegioza que sempre cumprio exzactamente ferquentando o Coro como nosa primeira obrigação exzercitando o ofício de cantora e muzica de que tinha linda vós. Estava em várias ofecinas e dipois ultimamente pella falta de relegiozas ocupando às duas e tres ocupaçons de que sofria muitas encomendas e como era doente estas se augmentarão a ponto de ficar de cama cinco mezes sempre gravemente em perigo mas com huma rezignação e paciencia que fazia pasmar; era muito amiga da pobreza condoida das desvalidas socorrendo-as com os socorros posiveis; tratava de muitas capellas e nisto se pode conheser a boa índole e coração devoto que a animava mas era chegada a sua ora e com repetição de sacramentos e dipois de repetidas dezoras(?) das últimas da vida deu a Alma a seu creador aonde piamente a devemos supor gozando desta felecidade [/f.15]. A Madre Dona Maria Ritta de Berbon Neste nosso Real Mosteiro de Santa Maria de Lorvão no 1º d’Agosto de 1855 foi Deus servido chamar para si a muito relegiozissima e a Ex.ma Senhora Dona Dona Maria Ritta de Bourbon, ex abbadessa filha legitima de Francisco Xavier de Mendonça e de sua mulher Dona Joanna de Bourbon prelada actual deste mosteiro tendo exzercido o lugar de abbadessa 8 annos. Bem conhecidas provas de que estas recordações eram merecidas ao seu merecimento e à uniforme união da comunidade que com alegria a tinhão por sua prelada. Era filha legitima de Francisco Xavier de Mendonça e de sua mulher Dona Joanna Rita de Bourbon familia bem conhecida pella sua nobreza; o seu 105 AIRES GOMES FERNANDES nascimento foi da villa do Sardoal Bispado de Castello Branco; foi conduzida por seus paiis para este mosteiro na idade propria para entrar no novesiado donde não foi precizo muito trabalho para a sua educação e aplicação para o ofício das suas obrigaçons relegiozas; e acabado o seu anno de aprovação se ligou a Jezus Christo seu espozo cuja degnidade recebeu com a maior satisfação; e com ella compria exzatamente as obrigaçons relegiozas na ferquencia do Coro na prenda de muzica de que tinha huma linda vós satisfazendo igualmente a todas as ofecinas em que a punha a obediencia com a maior asiudidade limpeza e amor – o que sempre será sentida a sua falta – e muito particularrmente no cargo d’abadessa pois como por latos juizos de Deus estando o mosteiro na maior indigencia ella acodia quanto lhe era possivel com os socorros que podia no publico e particular e com a afabelidade que Deus lhe deu chamava a si os pobres e nesesitados que secorria e tratava com caridade e muito agrado; mas como o mundo não merecia gozar a sua [/f.16] companhia foi delle arebatada para ir receber o premio das suas virtudes e entoar com os Anjos os louvores do Creador em que tanto se tinha exzercitado neste mundo e onde piamente a consideremos. A Madre Dona Ignes Benedita Aos vinte e sete de Dezembro de 1855 foi Deus servido levar para si a Madre Dona Ignes Benedita da Cunha e Mello. Filha legitima de Joze Antonio de Figueiredo e de sua mulher Dona Dionizia Engracia da Cunha e Mello moradores no lugar de Taveiro Bispado de Coimbra. Esta relegioza era hum exempelar no mosteiro. Compria com todas as obrigaçonis relegiozas com o maior fervor e alem destas sempre em continos exercicios, e novenas, jejuns rigorozicimos, comfiçonis e cumunhonis frecuentisimas e parecia sobrenatural o poder ella satisfazer a tantas coizas como satisfazia. De mãos hera perfeiticima e se empregou em bordar muito em bestidos para o culto devino. Foi cantora muzica e organista o que tudo sabia com a maior perfeição. Foi mestra de muitas meninas incinandoas a tocar. A sua ofecina foy sempre Coro e cantora mór. Padecia muitas faltas de respiração mas pouco se queixava fazia muitas obras de caridade, vezitava as doentes e as conçolava com a sua perzença e praticas e sendo já de idade de oitenta annos não deixava de praticar esta virtude e querendo Deus Nosso Sinhor premiada permetio que de huma queda bem piquena e sem fazer lezão particular se lhe originace a sua morte. Requereo os Sacramentos e com toda a rezignação intregou sua Alma ao seu Criador ao cual cremos como [/f.16vº] de fé que o estará louvando e gozando eternamente. A Madre Dona Maria da Piedade Aos 13 de Maio de 1856 foi Deus servido chamar a si a Madre Dona Maria da Piadade de Moraes Cide. Filha legitima de Ignacio Joze de Moraes Cide e de sua mulher Dona Thereza Maria de Moraes Anderade, asistentes na cidade do Porto. Esta relegioza pouco tempo pode seguir o Coro porque começou a padecer e por iço todo o tempo que viveo sempre esteve inpeçovelitada de poder comprir com as obrigaçonis 106 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS de relegioza comforme o custume. Tinha muita caridade e padeco alem de ataques nervozos tãobém travalhos grandes e por iço devemos supor que Deus a premearia de seus padecimentos [/f.17]. A Madre Dona Joaquina Peregrina Aos 18 de Maio de 1856 foy Deus servido chamar para si a Madre Dona Joaquina Peregrina Castelino Manoel de Aboim. Filha legítima de Francisco Côta Falcão de Moraes Sarmento e de Dona Maria Jozefa Castelino de Freitas Manoel de Aboim asistentes em a villa de Torres Novas. Esta relegioza hera dotada de todo o merecimento tinha grande talento e por iço se ecersitou em ofecinas da Ordem e a todas deu o milhor comprimento apezar de que tãobem era doentee emquanto pode nunca deixou as obrigaçonis de relegioza no que era muito exacta e por iço estará gozando o premio das suas virtudes. A Madre Dona Delfina Deudata Aos 4 de Agosto de 1856 foy Deus servido chamar para si a Madre foi Deus servido levar para si a Madre Dona Delfina Deudata Correia de Almeida. Filha legítima de Francisco Joze de Almeida Correia e Vasconcelos e sua molher Dona Anna Amgelica Correia e Figueiredo moradores no lugar de Parada Bispado de Vizeu. Esta relegioza por cauza das suas molestias a mandarao os medicos usar fora da clauzura de remedios por cuja cauza sahio a tomalos e como não milhorace com elles antes se comfirmou paralitica, depois de alguns annos de tanto padecer com a maior comformidade e rezegnação que fazia edeficar a quem a via. Faleceo em a vila de Penacova e lá mesmo foy interrado o seu corpo. Era dotada de muita caridade com os pobres, e por iço cremos que estava gozando o premio no Ceo do seu padecer e da sua caridade. [/f.17vº] A Madre Dona Jozefa Aurelia Aos 28 dias de Outubro de 1856 foi Deos servido chamar para si a Madre Dona Jozefa Aurelia Pinto Ferreira de Vasconcellos filha legitima de Joze Pinto Ferreira de Vasconcelos e de sua mulher Dona Tereza Marianna da Silva Brandão asistentes no lugar de Mogofores Bispado de Coimbra. Esta relegioza hera dotada de grande abelidade e muito boas inclinaçonis empregandoce no culto dos Santos e em fazer felores e aranjos para eles e em a festevidade do Natal de quem erra muito devota se pronteficava com o maior fervor no Nacimento do Menino Deos, perparando e mandando perparar o seu Perzepio para se ce selebrar este Misterio da Nossa Redenção e por iço cremos o estara gozando no Ceo e recebendo o premio dos serviços que neste mundo lhe fes e aos seus Santos, morreo em o seu perfeito joizo, e levou todos os Sacramentos. A Madre Dona Jozefa Emilia Aos tres de Outubro de 1858 foi Deos servido chamar para si a Madre Dona Jozefa Emilia Pinto Cabral Mergulhão. Filha de João Gomes e de sua mulher D. Thereza Marcelina Pinto Mergulhão naturais de villa Ceca Bispado de Lamego. Foi esta relegioza 107 AIRES GOMES FERNANDES munto ezemplar e esmoler e apezar de ocupar ofecinas da relegião sem seçar seguia as oras do Coro, tendo nele sempre oficios, emfim tendo o seu prazo chegado Deos a quis premiar das suas virtudes e piamente cremos e devemos supor que hiria cantar no Ceo os seus louvores. [/f.18]. A Madre Dona Maria Beneditta Aos 11 de Julho de 1859 foy Deos servido chamar para si a Madre Dona Maria Beneditta Correia de Proença. Filha de Joze Luis Correia de Proença e Oliveira e Dona Joanna Maria de Souza Coelho asistentes na Quinta e freguezia de Esparis concelho de Coja Bispado de Coimbra. Esta senhora relegioza foy sempre muito obcervante, edeficando a todas com o seu exemplo. Continuamente seguia o Coro. Sua lingua era sagrada pois se lhe não ovia palavra contra ningam, tinha grande caridade com os pobres e a virtude da obediencia emfim aos olhos do Mundo era huma justa. Morreo com todos os sacramentos e sua morte tão socegada que pareceo foy hum sono, deixandonos a nós o sentimento e saudade de tão boa compnhia para ir gozar o seu Criador e ser preemiada no Céo das suas virtudes e gozallo eternamente na sua gloria o que piamente o devemos sopor, gozando desta felecidade. A Madre Dona Anna Alvina Aos 16 de Dezembro de 1859 foy Deos servido chamar para si a Madre Dona Anna Alvina Correia de Almeida. Filha legítima de Francisco Joze de Almeida Correia e Vasconcellos e sua molher Dona Anna Emgelica Correia e Figueiredo moradores no lugar de Parada, Bispado de Vizeo. Esta relegioza cuaze toda a sua vida padeceo molestias cronicas, e as sofria com a maior comformidade e paciencia no que muito edeficava [/ f.18vº] e apezar de perto de sete annos ter perdido cuaze de todo a sua falla, pois pouco ó nada se intendia assim mesmo ocupava a ofecina de seleireira na cual era muito igual na repartição do que se dava as relegiozas e criadas que servião a Ordem assim mesmo hia algumas vezes ao Coro mas não o seguia pois não podia rezar o oficio devino com as mais relegiozas, hera muito compadecida dos pobres e os secorria com esmolas. Morreo com todos os Sacramentos e chegada a sua ora intergou sua Alma a Deos Nosso Sinhor na sua bemaventurada Gloria por toda a Eternidade. A Madre Dona Micaella Maxima A nove de Junho de 1861 foi Deos servido chamar para si a Madre Dona Micaella Maxima Pinto Ferreira de Vasconcelos. Filha legitima de Joze Pinto Ferreira de Vasconcelos e de sua mulher Dona Thereza Marianna da Silva Brandão asistentes no lugar de Mungofores Bispado de Coimbra. Esta relegioza tinha grande avelidade e juizo, mas padecia molestia cronica por iço não pudia exercitarce em servir ofecinas nem em seguir o Coro, sufria com comformidade a sua molestia. Morreo com todos os Sacramentos [/ f.19]. Devemos sopor estava gozando o premio do seu padecer na perzença de Deos Nosso Senhor 108 DAS RELIGIOSAS QUE "FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SI…" – O CONTRIBUTO DOS OBITUÁRIOS DE LORVÃO PARA A RECONSTITUIÇÃO DAS SUAS ÚLTIMAS COMUNIDADES MONÁSTICAS A Madre Dona Maria Augusta da Silva A vinte e dois de Janeiro de 1865 foi Deos servido chamar para si a Madre Dona Maria Augusta da Silva. Filha de Joze Joaquim da Silva e de sua mulher Dona Esperança Maria de Andrade naturaes da freguezia de Botão Bispado de Coimbra. Esta relegioza padecia molestia cronica e por iço não podia seguir o Coro por vida mas seguio quando podia e bastavalhe piquena milhoria para lá ir, hera dotada de bom coração tendo compaixão de quem padecia e de todos os pobrs uzando de dar esmolas a todas as peçoas nececitadas ora a humas ora a outras secorria muitas nececidades. Era muito umilde e virtuoza e muito devota de Nossa Senhora de Nazaré e ao pé dela esta sepultado o seu corpo pois que em vida lhe fazia tanta companhia, justo hera que fosse tãobem sepultado ao pé da sua capela e a vista das virtudes desta relegioza devemos sepor e acreditar que Deos e Nossa Senhor lhe darião o premio de gozar da sua vista e da sua gloria no Ceo por toda a eternidade. [/f.19vº] 109 110 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 SAUL ANTÓNIO GOMES* Entre os muitos elogios que o Mosteiro de Alcobaça recebeu ao longo dos séculos sobressaem os que respeitam às suas bibliotecas. Fr. Hierónimo Román, que visitou este magnificente mosteiro em meados de Quinhentos, afirma, na sua Historia del Religiosissimo y Real Monasterio de Alcobaça, que a livraria desta abadia se situava junto ao dormitório antigo, sala muito espaçosa, da qual se notava que albergara, noutro tempo, «gran libreria». Esta era, certamente, a biblioteca dos livros de mão, e alguns, poucos, impressos, que o citado cronista valoriza mas não sem lamentar que os manuscritos ali guardados lhe parecessem maltratados e a biblioteca desfalcada1. Da preciosa livraria alcobaciana, com as vicissitudes históricas a que a mesma esteve sujeita2, descrevendo-se, por 1775, 475 códices manuscritos3, seriam incorporados, na Biblioteca Nacional de Portugal, 456 códices, muitos deles medievos, outros muitos, também, manuscritos modernos, originais de monges desta abadia, todos eles demonstrando que Alcobaça foi lugar de oração mas também de estudos e de formação de intelectuais da Ordem4. * Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e CHSC Referência em Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Clavis Bibliothecarum. Catálogos e inventários de Livrarias de Instituições Religiosas em Portugal até 1834, Lisboa: Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, 2016, p. 424. 2 Rui Rasquilho, “As três bibliotecas do Mosteiro de Alcobaça”, in Cadernos de Estudos Leirienses, 5 (Setembro 2015), pp. 317-332; Idem, “A biblioteca”, 50 coisas de escrita vária alcobacense, Leiria, Ed. CEPAE, 2012, pp. 51-55. 3 Index Codicum Bibliothecae Alcobatiae, in quo non tantum codices recensentur sed etiam quot tractatus, epistolas, etcª, singuli codices contineant exponitur aliaque animadvertuntur notatu digna, Lisboa, Tipografia Real, 1775. 4 Vd. Inventário dos Códices Alcobacenses. Tomos I a VI, Lisboa, Biblioteca Nacional de Lisboa, 19301978. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 111-136 111 SAUL ANTÓNIO GOMES Na visitação feita ao mosteiro, em 1484, determinou-se que a «bibliotheca autem in armariis et aliis necessariis prout indeget reparetur»5, ou seja, que se deveria providenciar a reparação da estantaria e das mais coisas necessárias à salvaguarda do acervo. No inventário dos ornamentos e ourivesaria da sacristia do mosteiro, de 1510, nomeiam-se 14 volumes de ofícios litúrgicos6. Os livros do uso da liturgia monástica encontrar-se-iam em vários locais da abadia, fosse na sacristia, como se referiu, fosse no refeitório ou na noviciaria, entre outros pontos, não se contabilizando geralmente entre os títulos da livraria propriamente considerada. Em 1523, D. João III ordenava a Manuel Lopes, vedor das obras do Mosteiro de Alcobaça, que desse a Simão Dias, «carpinteiro e empreyteyro das obras da capentarya do mosteiro d’Allcobaça», 4.000 reais pelo acréscimo de 12 palmos que tinha levado a cabo na casa da Livraria do cenóbio7. Onde quer que fosse esta livraria, não parece ter-se certeza. Sabe-se que parte do arquivo corrente da abadia e o selo da chancelaria da comunidade, por 1527, se guardavam numa arca de várias chaves depositada na sacristia8. A 3 de junho de 1519, Mestre Fr. Jorge, abade de S. Paulo de Almaziva e prior reformador da comunidade de Alcobaça, escrevia ao rei informando-o de que: «o cartorio em que estam todalas doações e scripturas deste moesteiro andou at’agora muyto perdido e as chaves na maão de hum soo ora leygo ora frade e de pessoas pouco zelosas de bem que segundo fama e verdade alienaram muitas scripturas»9. Por volta de 1536, há notícia de Mestre João Alemão, imaginário e entalhador, ter fabricado umas «estantes com seus respaldos pera o cartorio em que hora estão os livros novos do tombo»10. O capítulo 47.º das Definições da Congregação Portuguesa da Ordem de Cister, publicadas em 1593, mas cujo normativo remonta à aprovação desta reforma congregacionista em 1551, confirmada pelo papa Pio V, em 1567, regulamenta as livrarias dos mosteiros bernardos portugueses11. Todas as casas da Congregação estavam obrigadas a ter livrarias públicas, adjetivo que consta do dito regulamento mas que se deve entender como abertas sobremodo às comunidades dos religiosos que vivem nessas casas. Sublinhe-se que esta condição, embora não inédita na história cisterciense, pois já as abadias medievais deveriam ter bibliotecas, muito embora boa parte dessas casas possuísse pouco mais do que os livros do ofício e missa, é intrínseca ao espírito reformador moderno pré e pós-tridentino das ordens regulares, em geral, e da cisterciense muito particularmente12. Saul António Gomes, Visitações a Mosteiros Cistercienses em Portugal. Séculos XV e XVI, Lisboa, IPPAR, 1998, p. 130. 6 Saul António gomes, Visitações..., p. 69. 7 Arquivo Nacional da Torre do Tombo (doravante referido por TT) – Corpo Cronológico, Parte 1, mç. 29, nº 60. 8 Saul António Gomes, Visitações..., p. 90. 9 TT – Corpo Cronológico, Parte 1, maço 24, doc. 86; Saul António Gomes, Visitações..., p. 32, nota 57. 10 Saul António Gomes, Visitações..., p. 47. 11 Este historial é significativamente avocado no prólogo e no capítulo primeiro das Diffiniçoens da Ordem de Cistel e Congregaçam de Nossa Senhora de Alcobaça, Lisboa, Oficina de António Álvares, 1593, fls. de abertura e 1. 12 Vd. José Mattoso, “Leituras cistercienses do século XV”, in Religião e Cultura na Idade Média Portugue5 112 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 Planta da Livraria de Alcobaça – Radius Bibliothecae Secundariae Regalis Archicoenobii Alcobacensi, de 1684 (BNP – cod.7382) sa, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, pp. 511-552; Maria Alegria Marques, “Bens de dois mosteiros cistercienses no séc. XV. Santa Maria de Seiça e Santa Maria de Bouro”, in Estudos sobre a Ordem de Cister em Portugal, Lisboa, Edições Colibri e Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998, pp. 275-308. 113 SAUL ANTÓNIO GOMES Nestas livrarias conventuais do Cister português, em finais de Quinhentos, deveriam existir livros «dos Doutores Theologos, o direyto cyvil & canonico, Biblia & glosa ordinaria, & todos os mais livros de faculdades que puderem ser avidos, pera o qual manda o capitulo a todos os prelados, comprem ao menos cada tres annos, trinta mil reis de livros.»13 Esta obrigação era absolutamente vinculativa. A primeira obra de cada abade eleito, no começo do seu triénio, deveria incidir justamente sobre a respetiva biblioteca conventual, determinando o Capítulo Geral que esta seria uma «casa clara & espassosa que sirva de livraria, onde estarão os livros que tiverem & comprarem pera a casa.»14 Enquanto a casa da livraria não estivesse feita, os livros seriam acomodados nalguma das celas da casa «em que estem com a reverencia & limpeza devida»15. O bibliotecário seria escolhido dentre os monges, que fosse «pessoa curiosa & entendida, que possa ter os tais livros, limpos & concertados e dar conta de todos elles.» Os livros de cantoria não integravam esta livraria, estando ao cuidado do cantor da abadia em «outra casa»16. Determinavam estas normas, ainda, que os livros que ficassem dos religiosos defuntos, latinos ou em linguagem, pertenceriam às livrarias das «casas onde foram filhos», não podendo ser tirados nem trocados, em nenhuma maneira, sob pena de excomunhão17. Fr. Manuel de Morais, eleito abade geral da Congregação em 1654, reformou e ampliou a biblioteca monástica alcobacense, passando esta a ocupar, citação: «todo o vão da nova cozinha, e tendo duas janellas com varandas para o Norte e terreiro da Celleiraria. A mesma espaçoza caza fez ornar o mesmo Reverendo com estante de pao santo, e numero[s] de bronze dourado, emblemas, quadros, pinturas, estatuas de marmore e outros asseios, applicando-lhe com approvação da communidade a renda do prazo da Canoeira, termo de Torres Vedras; dando muitas providencias para guarda e augmento da mesma Livraria, e alcançando hum breve de Alexandre 7º [1655-1667] que prohibe com penas graves a extracção dos livros da mesma Bibliotheca.»18 Fr. Manuel dos Santos, em meados do século XVIII, alude à Livraria Velha, onde se haviam guardado os preciosos livros de pergaminho, transferidos, em 1702, para um novo espaço, designado por aquele autor, como lugar da «Livraria manuscrita», com mais de 500 volumes naquele tempo. Havia, depois, a «Livraria commua», descrita também pelo ilustre cronista cisterciense como, citamos: «Casa nobilissima, pelo que contem, e pelo seu ornato; está para diante do Cartorio; e tem a porta tambem a mam esquerda no dormitorio antigo del Rey D. Affonso Henriques. (...) recebe a lux de duas portas, ou janelas rasgadas, que tem na parede do topo principal, o qual olha para o Norte; e por sima destas janellas Diffiniçoens..., fl. 52v. Diffiniçoens..., fls. 52v-53. 15 Diffiniçoens...,fl. 53. 16 Diffiniçoens..., fl. 53. 17 Diffiniçoens..., fl. 52v. 18 Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp. 444. 13 14 114 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 Livraria de Alcobaça, desenho de 1701 (BNP – cod-7412) 115 SAUL ANTÓNIO GOMES duas frestas tambem rasgadas com suas vidraças; e para fora das mesmas janellas, ou portas, huma varanda descuberta, a que sahem os que estudam a divertir-se.»19 O Pe. Carvalho da Costa, na sua Corografia Portuguesa, foi muito elogioso ao referir-se à biblioteca deste mosteiro: «A livraria he a casa aonde mais requintou a arte, & a grandeza, bem provida de livros de todas as faculdades; os quadros, pinturas, laminas, estantes, figuras de alabastro, tudo muyto para admirar; a Religião lhe tem consignado renda em cada hum anno para reforma, & augmento dos livros. A livraria, a que chamamos de mão, he a joya mais estimavel, porque consta toda dos Santos Padres, & Expositores antiquissimos, thesouro que hoje se nam pode conseguir a dispendio dos mayores cabedaes.»20 Estas mesmas palavras serviriam, também, ao Pe. Luís Cardoso, no seu Diccionario Geografico, publicado em 1747, para enaltecer as duas bibliotecas alcobacenses, a dos manuscritos e a comum21. Segundo Fr. Manuel de Figueiredo, bibliotecário e cronista da Congregação, em 1788, o abade geral Fr. Pedro de Mendonça, em 1750, ao mandar fazer a cozinha nova da abadia, «desfez a Casa da Livraria mudando os livros para as suas cellas, donde para reforma-las os mudou o Reverendissimo Fr. Antonio da Motta, que principiou a ser geral no 1º de Maio de 1783, para o lanço do claustro do Sr. Rey D. Diniz, que da parte do Norte confina com a Igreja, e neste lugar se conserva no fim do corrente anno de 1788.»22 Só depois desta data se deverá ter pensado na edificação de uma nova casa da livraria, neste mosteiro, cuja construção arrancará nos anos finais do século XVIII, decorrendo as suas obras ainda no primeiro quartel do século XIX23. Não dispomos, de momento, das datas precisas acerca do desempenho trienal dos monges-bibliotecário de Alcobaça. Fr. Manuel de Figueiredo, por 1788, reconstituiu uma lista dos respetivos nomes, pela ordem da sucessão destes oficiais, a partir do ano de 1656, a qual se expõe no seguinte quadro: Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp. 434-438: 435. P. António Carvalho da Costa, Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal..., Tomo III, Lisboa, Oficina Real Deslandesiana, 1712, p. 125. 21 Luiz Cardoso, Diccionario Geografico ou Noticia Historica de Todas as Cidades, Villas, Lugares e Aldeas, Rios, Ribeiras e Serras dos Reynos de Portugal e Algarve...., Tomo I, Lisboa, Regia Oficina Sylviana e da Academia Real, 1747, p. 179. 22 Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp. 444-445. 23 Vd. Rui Rasquilho, “As três bibliotecas do Mosteiro de Alcobaça”, in Cadernos de Estudos Leirienses, 5 (Setembro 2015), pp. 317-332. 19 20 116 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 Cumpria a estes monges bibliotecários responder pela boa administração da livraria e salvaguarda dos seus acervos. Em contexto de inícios ou fechos de mandatos, proceder-se-ia a inventários dos bens e respetivas contas de deve e haver. Por outro lado, sabe-se que foram elaborados, nalguns momentos, catálogos ou índices das existências na Livraria. Os catálogos que nos chegam, dos séculos XVII e XVIII, foram levados a cabo por monges cistercienses, posto que os seus nomes não coincidam, significativamente, com a lista dos bibliotecários alcobacenses antes exposta. Isso tem de significar, entre outros considerandos, que a complexidade destes trabalhos de descrição e catalogação bibliográficas exigiam pessoas com formação específica adequada, a qual não se encontraria entre os que foram sendo responsáveis pela livraria abacial. Deve-se a Fr. António de Araújo, filho do Mosteiro de Salzedas, a composição do Index e Sumario dos Livros que contem esta Livraria de Alcobaça, levada a cabo entre 1656 e 1679. Neste magnífico catálogo, não só se desenha e descreve a arquitetura e decoração do edifício, que diz ter sido ampliado e renovado pelo dom abade geral D. Fr. Manuel de Morais (1654-1657), como no-la representa na sua estrutura e orgânica intelectual: Sagradas Escrituras, autores de Teologia Especulativa, de Patrística, de Teologia Moral, Predicativos, de Direito Canónico, de Direito Civil, de Matemática, Geometria, 117 SAUL ANTÓNIO GOMES Medicina etc., Espirituais, Políticos, Poetas Latinos «Humani», de Filosofia e autores Históricos24. Esta era a biblioteca seguramente dos livros impressos e dos autores modernos, editados ou não, entre os quais se referem os monges alcobacenses Fr. António Brandão, Fr. Afonso da Cruz, abade da casa e autor de alguns tratados sobre a vida religiosa, Fr. António Soares de Albergaria e Fr. António da Castanheira, autor de ofícios do rito cisterciense escritos a pedido de D. Catarina Teixeira, abadessa de Odivelas, e editados em 1568. São arrolados, ainda no citado catálogo de Fr. António de Araújo, textos de outros monges portugueses, sobretudo quinhentistas, como os de um religioso alcobacense, cujo nome não é referido, autor de uma obra intitulada Meditações Espirituais, em dois volumes, de Fr. Bernardo de Brito, de Fr. Bernardino da Silva, prior da comunidade, defensor da Monarquia Lusitana contra Diogo de Paiva, de Fr. Crisóstomo da Visitação, procurador em Roma para os negócios da instauração da congregação lusitana, de Fr. Diogo de Castilho, enviado para a Flandres, autor de um Tratado acerca dos Imperadores dos Turcos, que dedicou a D. Manuel Cirne, embaixador, naquele país, de D. João III, impresso em Lovaina, no ano de 1535, de Fr. Francisco Brandão, de Fr. Francisco Machado, autor do Tratado da Verdade contra os Hebreus25 e de um Comentário aos Sete Salmos Penitenciais e de algumas hagiografias, de Fr. Guilherme da Paixão, abade de Alcobaça, autor de um Labirinto espiritual, que se guardava manuscrito nesta biblioteca, e de Fr. Gonçalo da Silva, prior alcobacense, tradutor da Vida de S. Bernardo, a pedido das monjas de Odivelas, impresso por mandado da rainha D. Catarina. Próximo deste catálogo de autores e obras, é o Radius bibliothecae secundariae regalis archicoenobii Alcobacensis, atribuível a Fr. Bento de São Bernardo ou a Fr. Luís de Faria, composto em 1684, ao qual devemos um esquema ou mapa da biblioteca alcobacense, casa da sabedoria e casa do espírito, a que não faltava um altar sob o ícone da «Bibliotheca», em que ficaram registos dos títulos de 3534 volumes, distribuídos por 197 estantes ou «capsellae» numeradas e, ainda, em outras 37 ordenadas alfabeticamente (A até Z e Aa até Rr)26. Data de 1701, a Aurea clavis reserans bibliophilacium hoc magnum Alcobatiae27, catálogo acrescido, em 1723, do Index dos livros manuscriptos que ha no Real Mosteiro de Alcobaça28. Os preciosos códices manuscritos foram alvo de descrição, publicada em Vd. Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp. 424-432. Tratar-se-á da obra Espelho de cristãos-novos e convertidos, redigida por 1541, e que não viria a ser impressa. Vd. R. Vainfas, “Deixai a Lei de Moisés”. Notas sobre o Espelho de cristãos novos (1541) de frei Francisco Machado”, in Gorensteins, L. e Carneiro, M. L. Tucci, Ensaios sobre a intolerância. Inquisição, marranismo e anti-semitismo (Homenagem a Anita Novinsky), S. Paulo, Humanitas: FFLCH/USP, 2002, pp. 241-263; José Pedro Paiva, Baluartes da fé e da disciplina: o enlace entre a Inquisição e os bispos em Portugal (1536-1750), Coimbra, Imprensa da Universidade, 2011, p. 369. 26 Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp. 432-433. 27 Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp. 433-434. 28 Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., pp, 438-439. 24 25 118 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 Rosto do Index e Summario dos Livros que contem esta Livraria de Alcobaça, de 1656 (BNP - cod-8388) 119 SAUL ANTÓNIO GOMES 177529, retomada e corrigida, pontualmente, pelo erudito Fr. Fortunato de S. Boaventura nas suas obras Historia Chronologica (1827)30 e Colecção de Inéditos Portugueses (1829)31. Em 1819, Fr. José do Amaral, bibliotecário, auxiliado por Bernardo Joaquim de Caria, da vila de Aljubarrota, concluía o Indice Alphabetico e Universal da Livraria do Real Mosteiro de Alcobaça em que se dá huma breve noticia de todos os Livros e os seos respetivos lugares32. Este índice alfabético, de 1819, impunha-se quer por se estar no momento de Pós-Invasões Francesas, quer, ainda, por coincidir certamente com a necessidade de dotar a nova casa da Livraria de Alcobaça de catálogo bibliográfico atualizado e adequado. Importa reproduzir, sobre este contexto, a informação de duas notas recolhidas nesta obra acerca da história, então recente, da biblioteca. A primeira diz: «1. Na ultima invasão pelo Marichal Francez Massena em 1810 sendo D. Abbade deste Mosteiro do Nosso Reverendisismo Padre Mestre Fr. Fernando Pimentel, eleito no 1º de Mayo desse mesmo anno, fugio esta communidade nos primeiros dias de Outubro para Lixboa, em dous hiattes que se havião prevenido no porto de S. Martinho. Nelles se fes embarcar parte da Coleção Bibliografica do Mosteiro de Alcobaça nos caxotes que se poderão aprontar para esse effeito. O arranjo e conducção destes caxotes foi como he de supor, tumultuoza e rapida. As pessoas encarregadas para empaccotar os livros, neste estado de confuzão e pressa, podião muito bem deichar por esta cauza, entre o resto da Livraria que ficou, e o exercito de Massena destruio, alguns tomos das obras, que embarcarão e lhe faltão hoje, porem.»33 Servia esta informação ao novo inventário a que se deveria proceder, por 1823, sendo bibliotecário Fr. Vicente de Jesus Cogominho. Anotou este, a 6 de fevereiro desse ano, no final do tomo segundo do inventário (fl. 427v), o seguinte: «Em virtude das instrucções que o Senhor Corregedor recebeu do Governo Executivo para proceder ao inventario desta Livraria, contrarubriquei este Index, que tem quatrocentas e vinte sete folhas, com o meo appellido Cogominho. (Ass.)». Nestas 427 folhas foram lançados os nomes dos autores e os títulos de 5740 volumes. Informações idênticas, mas de 26 de fevereiro, recolhem-se no fecho do tomo primeiro deste grande inventário: Index Codicum Bibliothecae Alcobatiae, in quo non tantum codices recensentur sed etiam quot tractatus, epistolas, etcª, singuli codices contineant exponitur aliaque animadvertuntur notatu digna, Lisboa, Tipografia Real, 1775. 30 Fr. Fortunato de S. Boaventura, Historia Chronologica e Critica da Real Abbadia de Alcobaça, da Congregação Cisterciense de Portugal, para servir de continuação À Alcobaça Illustrada do Chronista Mor Fr. Manoel dos Sanctos, Lisboa, Impressão Régia, 1827. 31 Fr. Fortunato de S. Boaventura, Colecção de Inéditos Portugueses dos Séculos XIV e XV, 3 tomos, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1829. [Nova edição facsimilada com estudo introdutório por José Marques, Porto, Universidade do Porto, 1988]. 32 TT - Mosteiro de Alcobaça, livros 277 e 278. 33 TT - Mosteiro de Alcobaça, livro 277, fl. 521v.. 29 120 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 «Em cumprimento das instrucçoes do Governo aprezentadas pello senhor corregedor desta commarca para o inventario dos moveis deste Mosteiro, contrarubriquei este Livro do Catalogo da Livraria, e lhe contei salvo erro, quinhentas e vinte e huma folhas, com a primeira, que vai em branco, e esta ultima lauda tambem em branco. E vão rubricadas com o meo sobrenome Cogominho. Alcobaça, 26 de fevereiro de 1823. (Ass.)» O corregedor da comarca, por seu lado averbou a informação: «Este livro denominado 1.º Tomo do Indice da Livraria de Alcobaça, que numerei e rubriquei com meu appellido – Pimentel – na forma do § 10 das Instruccoes de 25 de janeiro de 1823, contem escritas para o seu destino, quinhentas e vinte e huma folhas que ficão contrarubricadas e segundo a conta indicada á margem e somada a final designa existentes nove mil trezentos e treze volumes, e para constar fis este termo de enserramento. Alcobaça 3 de março de 1823. (Ass.) O Desembargador Corregedor da Comarca encarregado do inventario, Joaquim Manoel de Moraes da Mesquita Pimentel.» A estes 9313 livros somam-se os 5740 registados no tomo segundo do Índice, apontando para uma livraria alcobacense com um total de 15 053 volumes. Para sustento da livraria alcobacense, os monges retiravam receita das rendas, foros e direitos de um conjunto importante das terras, quintas e de alguns moinhos, caso dos da Castanheira, assim financiando satisfatoriamente os gastos com compra e manutenção de livros, periódicos, encadernações, ordenados dos contínuos ou criados e, ainda, com as obras que regularmente tinham de ser levadas a cabo no espaço da biblioteca ou nos seus gabinetes de leitura e sala de livros proibidos ou reservados. Até 1759, eram as rendas da Canoeira Velha que sustentavam as receitas da biblioteca deste mosteiro. Naquele ano, o geral Fr. Luís Pereira, com a anuência da comunidade, uniu à Livraria monástica os direitos da Quinta de S. Gião, no termo da Pederneira, e os dízimos da Quinta do Outeiro, no termo de Maiorga. Também os gerais Fr. Caetano de Sampaio (1762) e Fr. Nuno Leitão (1765), agregaram novos rendimentos à biblioteca, nomeadamente partes de pitanças e os foros da Quinta de S. Martinho e da Azenha da Mota da Torre. Fr. Manuel de Mendonça, geral da congregação alcobacense entre 1768 e 1777, aplicou, ainda, à livraria os direitos da Quinta de D. Elias, no termo de Alcobaça e Maiorga, e os foros dos Moinhos, da Azenha da Lagoa e Milhorados, no termo de Turquel, e os do Porto do Mouro, no termo de Santa Catarina34. Entre as despesas feitas pela abadia, no triénio de 1684-1687, em que foi geral Fr. Luís de Faria, arrolaram-se 71.800 réis com a livraria35. No triénio seguinte, foram adquiridos nove missais novos, por 31.120 réis36. Nas contas aprovadas em 1699, vem uma parcela de 15.000 réis gastos na compra de quarenta folhas de pergaminho, entregues a Luana Giurgevich e Henrique Leitão, Ob. cit., p. 445. TT - Mosteiro de Alcobaça, liv. 203, fl. 15v. 36 TT - Mosteiro de Alcobaça, liv. 203, fl. 31v. 34 35 121 SAUL ANTÓNIO GOMES Biblioteca Alcobaça, rosto da Aurea Clavis, de 1701 (BNP - cod-7412) 122 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 Fr. José da Conceição, para «hum livro para o coro»37. A encadernação de alguns livros para o coro e de outros para o cartório custou, por 1699-1702, 35.240 réis38. Em 1693, o Mosteiro obteve sentença favorável contra o Cabido da Sé do Funchal, reclamando a entrega da biblioteca e das lâminas que haviam pertencido a D. Gabriel de Almeida, falecido bispo daquela cidade, as quais o decesso prelado tinha legado à abadia alcobacense antes de subir ao sólio episcopal da Madeira39. Chegou até à atualidade um “Livro das Contas da Real Livraria do Mosteiro de Alcobaça”, para os anos entre 1811 e 183340. Trata-se do período final da história da comunidade cisterciense, desaparecida desta casa secular em 1833. As contas da biblioteca são anuais, muito embora os abades e bibliotecários-mores da casa servissem por triénios. O último abade do mosteiro foi Fr. Paulo Teixeira. Em 1831, o bibliotecáriomor de Alcobaça era Fr. Fernando Pimental. Para o ano de 1832-1833, todavia, o livro da receita e despesa da Livraria, que seguimos, não indica o nome do responsável pela casa dos livros (ver quadro seguinte). TT - Mosteiro de Alcobaça, liv. 203, fl. 84v. TT - Mosteiro de Alcobaça, liv. 203, fl. 96v. 39 TT - Cabido da Sé do Funchal, mç 11, nº 13. 40 Biblioteca Nacional de Portugal - Cod. 7353. (Muito agradeço ao Dr. Pedro Pinto ter-me dado a conhecer este manuscrito e as diligências que levou a cabo para a digitalização do mesmo, cujo custo suportei, ficando a respetiva digitalização disponível online no endereço da BNP: http://purl.pt/24965 ). 37 38 123 SAUL ANTÓNIO GOMES De um modo geral, o património avocado à Livraria do Mosteiro de Alcobaça, desde o século XVIII, como se viu, permitia saldos consideravelmente significativos, cobrindo as despesas correntes e autorizando, pelos saldos acumulados muito positivos, proceder-se a transferências financeiras dos recursos da biblioteca para outros setores carenciados dentro da abadia bernarda, como se pode verificar do quadro que aqui se publica. 124 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 De um modo geral, as receitas da Livraria advinham dos rendimentos de moinhos e azenhas distribuídos por Alfeizerão, Arieiro, Mata da Torre, Santa Catarina, Turquel e Castanheira, entre outros, bem como dos proventos gerados nas quintas de S. Martinho, da Ponte de Navias, do Outeiro, dos dízimos de Valbom, do Casal dos Brincanos, do Guifel, de S. Gião, da Aroeira e/ou Canoeira (Torres Vedras), da Castanheira e do armazém de S. Martinho. A Livraria auferia, ainda, de propinas das rendas de lugares e do julgado do couto como Aljubarrota, Santa Catarina, Alfeizerão, Famalicão, Selir do Mato, Pedreira, Alcobaça, Valado, Alvorninha, Cela, Évora, Maiorga, Turquel, Santarém e relego da Cela. Auferia, algumas vezes, de juros de empréstimos de dinheiro. Os rendimentos atingiam médias anuais de 500 a 600 mil réis, rondando por vezes um milhão de réis, o que permitiu, como se disse, acorrer às despesas de gestão corrente, e mesmo outras extraordinárias, da Livraria. A análise das despesas da Livraria de Alcobaça, para os anos de 1811/1812, sensivelmente, até 1833, permite reconstituir o historial de vida desta casa dos livros. As despesas distribuíam-se dominantemente por linhas como: (a) compra de livros novos ou em segunda mão, por vezes escolhidos de espólios, e assinaturas de periódicos, encadernação e restauro dos espécimes; (b) materiais de apoio às encadernações e restauros dos impressos (com aquisições frequentes de matéria-prima para o encadernador nomeadamente peles de carneira e de abecedários e livrinhos de ouro para o douramento das capas dos livros), e, ainda, a cobertura das despesas com correio, transportes e deslocações, e respetivos seguros, por causa da aquisição e transferência de livros e materiais de escrita (tintas, tinteiros, panos, papel, areias, penas, etc.) sobretudo de Lisboa e de Coimbra; (c) despesas com manutenção do mobiliário da biblioteca, materiais de limpeza e pequenos consertos, importando especialmente o salário pago ao contínuo ou criado da biblioteca, de seu nome João Alberto, ativo até ao ano de 1829, com direito a salário e a propinas quatro vezes por ano; (d) despesas, avultadas, aliás, com a impressão de livros, no caso, as obras de Fr. Fortunato de S. Boaventura, a Historia Chronologica, na Imprensa Régia, em Lisboa, em 1827, e a Colecção de Ineditos, na Imprensa da Universidade, em Coimbra, em 1829, por vezes, ainda, de boletins para os capítulos gerais; (e) despesas soltas com a aquisição de materiais como medalhas, moedas de ouro e de prata e cartografia para as coleções da Livraria; (f) despesas extraordinárias de construção civil na casa (caso de escadarias, gabinetes, lajeamentos, estuques, vidraças, do fabrico das estantes) e também nos imóveis das quintas da biblioteca; (f) despesas com a gestão do património anexo à Livraria. Estes e outros dados, poderão observar-se mais pormenorizadamente pela lista de despesas da Livraria, entre 1811 e 1833, que a seguir se publica. 125 SAUL ANTÓNIO GOMES 126 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 127 SAUL ANTÓNIO GOMES 128 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 129 SAUL ANTÓNIO GOMES 130 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 131 SAUL ANTÓNIO GOMES 132 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 133 SAUL ANTÓNIO GOMES 134 A LIVRARIA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA ENTRE 1810 E 1833 O rol das despesas feitas com a biblioteca alcobacense, no primeiro terço de Oitocentos, como se viu do quadro anterior, espelha os interesses culturais dos monges cistercienses de Alcobaça nesse tempo. Os monges apreciavam matérias teológicas e históricas, especialmente a história de Portugal, pontificando no seio da comunidade, aliás, a figura maior de escritor, historiador e erudito de Fr. Fortunato de S. Boaventura. Liam também, e com oferta abundante, periódicos, folhetos e folhinhas, alguns deles de carácter nitidamente político como a Besta Esfolada ou um panegírico de exaltação do rei D. Miguel ao trono, o Defensor dos Jesuítas, os Correios de Londres, Brasilienses e do Porto, as Gazetas Universal, de Lisboa, de Espanha e Portuguesa, compilando, também, os Diários das Cortes Constituintes e, posteriormente, do Governo. Títulos que dão nota dos tempos de mudança que se viviam naquela conjuntura de tão profundas transformações sociais e políticas no mundo e em Portugal. Um tempo de reconstrução após as Invasões de Napoleão, com uma recuperação até relativamente célere por parte das capacidades financeiras da Livraria, mas também um tempo de profundas mudanças políticas e institucionais em Portugal, como se referiu, que deixam marcas no seio da comunidade monástica. As subscrições de gazetas, jornais, folhas e folhinhas, como se referiu, é muito significativa da atenção com que os monges seguiam e se interessavam mesmo pelos acontecimentos políticos de uma nação que passava pela Revolução de 1820, depois pelo ciclo miguelista, aparentemente ben135 SAUL ANTÓNIO GOMES quisto no seio da abadia, e pelas lutas entre miguelistas e liberais que culminaram nos anos de 1832-1833, o momento do abandono, pelos religiosos, do secular mosteiro. Em 1833, a livraria de Alcobaça foi alvo de saque e de incorporação em instituições públicas nacionais. Livros da antiga biblioteca aparecerão, depois disso, em coleções particulares, como a do Dr. Fausto Figueiredo (1880-1950), adquirida pelo Banco de Portugal. Em 29 de novembro desse ano de 1833, determinava-se à Biblioteca Pública, em Lisboa, que acolhesse 28 caixotes de livros impressos e manuscritos provenientes de Alcobaça, embarcados para Lisboa no porto de Peniche. Em 6 de março de 1834, estes ou outros caixotes aguardavam embarque em S. Martinho do Porto. Com esses livros seguiram, ainda, 12 cartas ou mapas e 23 estampas. Em fiÚltima Livraria do Mosteiro de Alcobaça, gravura da obra de Vilhena nais do ano de 1835, o Barbosa, Monumentos de Portugal, Lisboa, 1886 administrador do concelho de Peniche, Veríssimo de Almeida Coelho, diligenciava para a entrega de outros quatro caixotes de livros e de três mapas, saídos de Alcobaça. As próprias estantes da antiga biblioteca foram desmontadas e enviadas para a Biblioteca Nacional de Lisboa, umas, e outras para a Biblioteca das Cortes ou da atual Assembleia da República41. BARATA, Paulo J. S. – Os Livros e o Liberalismo. Da livraria conventual à biblioteca pública. Uma alteração de paradigma. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2003, pp. 28-29. 41 136 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) ANA LOCHÉ GONZÁLEZ* Introducción El objetivo del presente trabajo es realizar una aproximación al estudio del dominio cisterciense del monasterio de Gúa, situado en el concejo de Somiedo (Principado de Asturias). En este sentido, ahondaremos en el análisis de su proceso de formación, desde la fundación en el siglo XII hasta el traslado de las monjas que lo habitaban a la villa de Avilés (Asturias) en 1553. Primeramente, debemos apuntar que si bien Santa María de Gúa fue el único monasterio femenino cisterciense emplazado en Asturias, su historia es, aun en la actualidad, poco conocida, principalmente por la pérdida de la mayoría de la documentación en dos incendios acaecidos en época medieval. A esto, se suma la desaparición del primitivo y abandonado asentamiento en Gúa, donde a día de hoy únicamente se conserva – muy transformada – la iglesia conventual que, al menos desde la Baja Edad Media, habría ejercido de parroquia y en cuyas funciones aun hoy se mantiene1. Al respecto, Martinez Vega ha apuntado que su presbiterio es el único elemento que aun recuerda la estructura medieval2. Estas circunstancias han supuesto el olvido y abandono por parte de la historia monástica asturiana de este cenobio, salvando * Universidad de Oviedo “Santa María de Gúa húsala apresentar la abadesa e convento de Gúa. Es capellán Fernan Martínez, benefiçiado Peley Alfonso. Ha de manso días de bues. De los diezmos lieva el çellero de la abadesa el terçio e el capellan el terçio el benefiçiado el otro terçio. Pagan una procuración. Riende esta capellanía mrs. E el benefiçio.” en FERNÁNDEZ CONDE, Francisco Javier – La iglesia de Asturias en la baja Edad Media. Estructuras económico- administrativas, Oviedo, 1987, pp. 173. 2 MARTÍNEZ VEGA, Andrés – Monasterios medievales de Asturias, Oviedo, 2011, pp. 135 y ss. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 137-151 137 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ obviamente algunas excepciones, como la que suponen los trabajos de fray María Damian Yañez Neira, a los cuales nos remitiremos a lo largo de este trabajo. Recorrido historiográfico, método y fuentes Así pues, las escasas investigaciones que han atendido a la historia medieval de esta institución, han supuesto que el grueso de estudios se concentren en el período moderno de esta3, si bien no es difícil encontrar noticias dispersas en algunas monografías de historia regional. Para nuestro trabajo utilizaremos como fuentes las copias que a finales del siglo XVIII realizaron Jovellanos y su secretario4, conservadas actualmente en la Biblioteca de la Real Academia de la Historia5. Además, en las últimas décadas un documento ha sido localizado en la colección de Belmonte6. Finalmente hemos extraído algunas noticias del archivo de la catedral de Oviedo7. Por todos es sabido, que el ilustrado gijonés recorrió gran parte de la Península en varios de sus viajes, los cuales aprovechaba para visitar aquellos archivos que encontraba en su camino; una gran mayoria de estos eran monásticos, aunque sabemos que tambien accedió a archivos catedralicios y municipales. Su afán por la ordenación y conservación de los documentos le llevó a realizar copias de cuanto pudo, además de recabar mucha información relevante, conservándose así a través de estas8. Por otra parte, contamos con las respectivas publicaciones del padre Damián Yáñez Neira, en las cuales se recoge la historia de este cenobio junto con el registro de documentos procedentes precisamente de la Colección Jovellanos de la RAH, así como otra documentacion procedente del Archivo Historico Nacional y del fondo del monasterio cisterciense de Nuestra Señora de Gradefes, situado en León. Breve situación geográfica al emplazamiento y tramo cronológico del estudio Como ya apuntaba Yáñez Neira en 1969, nuestro monasterio “recibió diversas denominaciones a través de los tiempos”9, entre ellas: San Bernardo de Gúa, Las Huelgas ABOL-BRASÓN, Manuel – “El archivo del Monasterio de las Huelgas Reales de Avilés (antes de Santa María La Real de Gúa, en Somiedo)” Memoria ecclesiae, n.º 7, 1995, pp. 235-250; UREÑA Y HEVIA, Justo – “Gúa - Las Huelgas de Avilés”, Monasterios Cistercienses del Principado de Asturias, ARMARIUM CISTERCIENSE 3, Oviedo, 1998, pp. 31-46. 4 JOVELLANOS, de Gaspar Melchor – Colección de Asturias, II, Madrid, 1948. Para nuestro trabajo manejaremos la publicación de BALLESTEROS GAIBROIS, Manuel (ed.) – Colección Asturias de Jovellanos, Tomo III. Madrid, 1949. 5 De aquí en adelante, nos referiremos a esta como RAH. 6 FERNÁNDEZ MIER, Margarita – Documentos del monasterio de Belmonte (siglos XIV-XV), Oviedo, 2001. 7 Op. Cit, “La iglesia de Asturias…”. 8 Sobre esta faceta del polígrafo ilustrado, inminentemente verá la luz el estudio FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – Jovellanos en los archivos: el patrimonio documental al servicio de la nación, en prensa. 9 YÁÑEZ NEIRA, María Damián – El monasterio cisterciense de las Huelgas de Avilés, Oviedo, 1969, p. 341. 3 138 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) de Avilés, Nuestra Señora de las Huelgas de Avilés, Bernardas de la Asunción de Avilés… De aquí en adelante, nos referiremos al cenobio como Santa María de Gúa, atendiendo a que nuestro margen cronológico tiene su final precisamente con su traslado a Avilés, donde asume la denominación de las Huelgas. Así, la localización geográfica del emplazamiento primitivo del monasterio de Santa María de Gúa se encontraría, en un primer momento, en la parroquia del mismo nombre del concejo de Somiedo, en el Principado de Asturias. Si bien el terreno accidentado y montañoso es algo común en las tierras asturianas, se acentúa quizá más en el caso de este monasterio. Llama la atención su difícil acceso aun en la actualidad, donde se debe recorrer un abrupto terreno a través de la cordillera Cantábrica hasta llegar a la capital del concejo somedano. Desde aquí pasados unos kilómetros, nos encontramos con la pequeña aldea de Gúa, cuya extensión apenas alcanza los veinticinco kilómetros cuadrados. Con respecto a esto, nos parece oportuno citar las líneas que Pascual Madoz dedicó a Gúa en su Diccionario: “Feligresía de la provincia y diócesis de Oviedo (12 leguas), partido judicial de Belmonte, ayuntamiento de Somiedo. SIT. en un estrecho valle formado por dos montañas muy elevadas al Este y Oeste del mismo. Reinan con más frecuencia los vientos norte y oeste: el clima es frío, y las enfermedades más comunes, hidropesía, reumas y cólicos. Tiene unas 77 casas distribuídas en el lugar de su nombre y en los de Caunedo, Llamardal y Laperal. Estos dos últimos pertenecen al de Caunedo, y no pueden habitarse más que en los meses de junio, julio, agosto y septiembre, por su grande elevación y excesivo frío en los 8 restantes. (…) Confina el término norte, coto de Buenamadre; Este Cuesta Alta (provincia de León); Sur, feligresía de Anguino; y Oeste con los de Villas de Vides…”10 Hablamos por tanto de una zona apartada, escabrosa y abatida por el clima, que cumple y lleva al extremo las condiciones que los monjes blancos exigían para la fundación de sus abadías11, a saber: que fuese un lugar yermo y apartado de las ciudades y sus gentes, que tuviera acceso a los recursos hídricos necesarios, donde las aguas fueran fácilmente captables (en las inmediaciones de Santa María de Gúa discurre el río Somiedo, a una distancia cercana de donde presumimos que pudo haberse situado el cenobio) y que sus tierras fueran fértiles, así como aptas para el cultivo12. Nos referiremos más adelante al coto concedido por Fernando II, el cual se destinará principalmente a la explotación ganadera. MADOZ, Pascual – Diccionario geográfico- estadístico- histórico de España y sus posesiones de Ultramar. Tomo VIII, Madrid, 1847, p. 600. 11 No obstante, todo apunta a que el monasterio de Gúa no sería cisterciense en sus primeros momentos, incorporándose a la observancia Bernarda en momentos más tardíos pues, como bien apuntó Manuel de Abol, no hay noticias de la vinculación del monasterio a la orden hasta el siglo XIV. En Op. Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas…”, pp. 242; nota 40. Sobre esto se hablará más adelante. 12 CAVERO DOMÍNGUEZ, Gregoria – “El esplendor del Císter en León (ss. XII-XIII)”, León, 2007, p. 28. 10 139 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ Por otra parte, en cuanto a los tramos cronológicos manejados en este trabajo, estos se sitúan desde el momento de la fundación del monasterio hasta el traslado de las monjas que en él residían a la villa de Avilés en 1553. En este periodo, como ya ha sido adelantado, es importante mencionar los dos incendios acaecidos en el cenobio, uno anterior a 1270, y un segundo que se produciría antes de 1306. Ambos redujeron a cenizas el edificio conventual y, con este, su archivo, donde se encontraban todos los documentos que desde el siglo XII contenían los bienes y derechos del monasterio. La cronología de los incendios nos la proporcionan las confirmaciones regias que se dieron a partir de estos, atendiendo a que las monjas, debido a la desaparición de toda su documentación, pidieron a los reyes que confirmaran los privilegios que sus antepasados les habían concedido. Sobre la fundación y la formación del dominio De su fundación conocemos escasos datos debido a la desaparición de la documentación original, conservándose en su mayoría copias de época moderna; según el Registro de documentos de Damián Yáñez, “algunos son del siglo XI y los más modernos del XV” y todos ellos fueron copiados por Jovellanos y su secretario, según la fecha visible al comienzo de la transcripción, el 1 de agosto de 179313. Así, con relación a la fundación del monasterio, Jovellanos realiza la siguiente co14 pia” : “Es de saber que este monasterio de Nuestra Señora La Real De las Huelgas de Avilés es fundación real Del Rey Don Alfonso el 7.º según dicen, el que lo fundó en el concejo de Somiedo…”15. A esto, añadimos las referencias al periodo fundacional que se encuentran en el Libro de Actas Hábitos, Profesiones y Dotes. Año 1722 hasta el año 1888, realizado por orden del Padre General Fray Joaquín de Ania, donde se atestigua que: “La primera fundación deste insigne y devoto Monasterio de Nuestra Señora de las Huelgas no se sabe de cierto por averse quemado el archivo; algunos de Babia y Somiedo dicen y es tradición que estuvo en Santibañez, presúmese fue fundación real del Señor Emperador Don Alonso el séptimo, quien le dio algunos lugares como el del Puerto y el de Caunedo y el de Gua, según el tumbo antiguo para que los vecinos de dichos lugares les labrasen las tierras y guardassen los ganados y cobrasen las rentas y por esso los libertó de tributos...”16 Vemos que la fundación del monasterio se atribuye a Alfonso VII, no obstante, ambas referencias dan lugar a interpretaciones dispares. El último fragmento pone de YÁÑEZ NEIRA, María Damián – Registro de documentos sobre el monasterio de las Huelgas de Avilés, Oviedo, 1972, p. 589. 14 Ibidem, p. 590. 15 Transcripción realizada por fray Damián Yáñez, que especifica su ubicación en el Códice 9-5924 del ARAH, fol. 160v. Publicada en Ibidem. 16 Op. Cit. “El monasterio cisterciense… “, p. 347. 13 140 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) manifiesto la posibilidad de que la fundación primitiva fuera obra de Alfonso VII en el lugar de Santibañez de Babia. Si bien será bajo su reinado cuando la reforma cisterciense se difunda por el solar hispano, en especial por los reinos de León y Castilla17, no podemos dejar de mencionar el hecho de que el monacato femenino tendrá que esperar dos décadas más para su éxito, no siendo hasta el siglo XIII cuando su existencia fuera aceptada por el Capítulo General18. El padre Yáñez alega al respecto que la afirmación del Libro de Actas no se fundamenta, atendiendo a la cronología del reinado de Alfonso VII, que abarca hasta 115719. Esto se une al hecho mencionado de la existencia posterior de las monjas cistercienses en la península con respecto a los monasterios masculinos, suponiendo así que no hubiese habido tiempo a una fundación anterior a Santa María de Gúa durante el reinado del monarca y afirmando que “lo único cierto es su antigüedad remota”20. Hasta hoy, las dudas sobre la fundación del cenobio no han sido resueltas por ningún especialista, ya sea por falta de interés como por falta de evidencias arqueológicas o documentales, pues de comprobarse, el monasterio de Santa María de Gúa podría situarse como la primera fundación femenina cisterciense en la península. Por otra parte, existe también la posibilidad de que el cenobio primitivo, situado en Santibañez, fuese de fundación nobiliaria. Manuel de Abol ha asentado la idea de que “el monasterio de Santa María de Gúa debió sus inicios a la piedad de la casa real y de las nobles estirpes de los Froilaiz y Pelaiz”, cuyo entorno patrimonial se desenvolvía precisamente en el espacio comarcano de las Babias, Teverga, Somiedo y Miranda21. Por otra parte, encontramos testimonio de este hecho también en la obra del padre Carvallo, título treinta y cinco, apartado IV: “Como el Rey Don Fernando fue bienhechor del Monasterio de Gúa”: “Fve el Rey Don Fernando gran bienhechor del Monasterio de Gua en Somiedo, que avian fundado los Fruelas, y Pelaezes, y le dotó de muchas rentas, dando grandes libertades a sus vasallos, y familias, y caseros, cuyos privilegios le quemaron con el Monasterio.”22 Lo cierto es que la creación de un monasterio como lugar de retiro de las mujeres de la familia es una práctica común, atendiendo a que el primitivo monacato asturleonés se debe, principalmente, a la iniciativa de familias poderosas23. Así pues, en sus inicios el monasterio podría haber estado bajo protección y patronazgo laico, hasta el traslado Op. Cit. “El císter femenino…”, p. 151. Ibidem 19 San Bernardo fallece en el año 1153. 20 Op. Cit.” El monasterio cisterciense…” p. 341. 21 Op. Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas …”, p. 241. 22 CARVALLO DE, Luis Ángel – Antigüedades, y cosas memorables del Principado de Asturias, Madrid, 1695, pp.345. 23 Op. Cit. “Monasterios medievales…”. pp. 14-20. 17 18 141 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ de las monjas a Gúa, momento en el que les es concedido el coto por Fernando II de León. Así, la posibilidad de que, en sus inicios, fuese un monasterio familiar para el retiro de las mujeres del linaje no es tan extraña, pero si imposible de comprobar con la documentación con la que contamos en la actualidad. Siendo la teoría más aceptada la fundación bajo el reinado de Fernando II de León, sucesor de Alfonso VII, quien además dotaría al monasterio con la jurisdicción de sus cotos. Concesión, situación y explotación del coto monástico La concesión del coto es otra cuestión que conocemos únicamente gracias al amplio regesto que Jovellanos elaboró en su lectura de una confirmación de Alfonso XI del privilegio original de Fernando II, quemado en uno de los incendios, y sucesivamente confirmado por los reyes posteriores entre los dos monarcas citados. Así, junto a su delimitación, nos aproximaremos a este espacio en base a la revisión de las escrituras particulares y otras concesiones y confirmaciones de los distintos monarcas. Entre los documentos recopilados por Yáñez Neira encontramos diversas tipologías: un total de veintiséis ventas, ocho donaciones, dos aforamientos, una partición de bienes; y, en cuanto a los privilegios regios, un total de tres: un privilegio de Sancho IV “confirmando otros privilegios anteriores de distintos reyes en favor de Santa María de Gúa”24, otro de su hijo Fernando IV concediendo “algunas exenciones y favores”25 y, un tercero, de el “rey don Fernando confirmando los privilegios de otros monarcas anteriores en favor del monasterio”26. En este último, apreciamos lo que suponemos un error en la transcripción realizada por Yáñez Neira, pues el documento, fechado el 1 de abril de 1337, es confirmado por Alfonso XI, hijo de Fernando IV y no por este. Para esta afirmación nos basamos, en primer lugar, a las fechas del reinado del monarca, el cual llega a su fin en el año 1312, con lo que no sería posible realizar dicha confirmación veinticinco años después. En segundo lugar, nos remitimos al cronista Justo Ureña y su trabajo “Gúa-Las Huelgas de Avilés”: “Pero el día 20 de abril de 1270 la abadesa y la comunidad alcanzaron de Alfonso X el Sabio el restablecimiento y la confirmación de los títulos de monasterio perdidos en el incendio (A.H.N. cod. 971, f.769). Y esta confirmación fue ratificada por Sancho IV el Bravo los días 4 de octubre y 4 de diciembre de 1286, más tarde por Fernando IV el 11 de julio de 1306, y por Alfonso XI el 12 de febrero de 1316, el 24 de abril de 1326 y el 1 de abril de 1337”27 Op. Cit. “Registro de documentos…”, Doc.22. Ibidem, Doc.30. 26 Ibidem, Doc. 34. 27 Op. Cit. “Gúa - Las Huelgas…”, pp. 31-32. Véase también Op.Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas…”, p. 242, nota 43. 24 25 142 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) Así, tenemos conocimiento de que las cancillerías de Fernando IV y su hijo Alfonso XI realizaron cartas a favor de Gúa, fechadas en los años 1306, 1316, 1326 y 133728. Aunque no se conserva entre los documentos del registro de Yáñez, sabemos que Alfonso X confirma en 1270 al monasterio la merced de su bisabuelo Fernando II de León29, por la que daba a las monjas el coto de Gúa, pues así lo dice el privilegio de su hijo Sancho IV. Este es, sin duda, uno de los documentos que más información puede aportar con respecto al coto del monasterio, pues realiza una enumeración de lugares que se encontrarían bajo la jurisdicción del mismo o, en su defecto, actuarían como frontera del coto: “El rey cometió a los jueces de Laciana la averiguación de estos hechos y ellos informaron haber visto privilegio de don Fernando concediendo el coto, por estos términos desde el lugar que llaman la piedra del Puerto que está en el campo pasado el reguero contra Babia que la dicen la piedra del Coto, fasta la otra piedra que llaman la piedra del coto que está en las tellas de valde yane y que este privilegio se les había quemado quando ardiera el monasterio.”30 Cuando leemos con atención este fragmento, observamos que muchos de los topónimos a los que hace referencia existen aun en la actualidad, pudiendo ser debido a su mencionada morfología rural, apartada, de gran altura y complicado acceso. Esto ha supuesto una ventaja para nuestras interpretaciones, pues la zona conserva una herencia medieval visible en la toponimia actual. Así, el lugar que llama “la piedra del Puerto” lo asociamos con El Puerto actual; por otra parte, “el reguero contra Babia” podría interpretarse como el rio Sil, el cual nace en la cordillera Cantábrica, cercano al pueblo de Torre de Babia, perteneciente a la comarca de Babia (León), que a su vez linda en su frontera oeste con la comarca de Laciana, mencionada en el documento en cuanto a la procedencia de los jueces. También el término “valde yane” podemos asociarlo con Valdecuebre, un topónimo que aun hoy pervive en la memoria de los lugareños. Por otra parte, nos detenemos también en el privilegio de Fernando IV fechado en 1306, por el que concede a Santa María de Gúa exenciones y favores: “El Rey Don Fernando por ruego de la reina Doña Constanza su muger, y por hacer bien a la Abadesa y convento de Santa María de Gúa que es entre Somiendo y Babia, habiéndole representado que eran pocas y pobres y que su monasterio fuera quemado dos veces, e perdieran sus privilegios o cartas, que los vasallos hombres que labraban sus tierras eran libres y quitos por ellos: el Rey para que rueguen a Dios por el, declara a los dichos vasallos y hombres del coto libres de todos los pechos e servicios e pedidos e de fonsado e de fonçadera et de yantares et de martiniega et de todos los otros derechos salvo de moneda forera…”31 Op. Cit. “El archivo del monasterio…”, Docs. 22, 30 y 34; Con respecto a la última fecha, véase Ibidem. Op. Cit. “Gúa - Las Huelgas …”, pp. 31-46. 30 Op. Cit. “Registro de documentos…”, Doc. 22. 31 Op. Cit, “Registro de documentos…”, Doc. 30. 28 29 143 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ El monasterio de Gúa y la nobleza local Ya hemos hablado sobre la posibilidad de que el cenobio fuera fundado por familias nobles antes de su traslado a Gúa, así como del problema de comprobación que existe al respecto, no habiendo documentación que pueda demostrar esta teoría. No obstante, pudiendo ser o no esto cierto, lo que sí podemos afirmar es que Santa María de Gúa tuvo relaciones con importantes linajes a lo largo de su historia, no solo en el momento de su fundación; un ejemplo de ello son los Pérez de Quiñones32. Esta familia, de extraordinario poder en la Baja Edad Media asturiana, figurará en la documentación del monasterio como forera del coto de Santibañez. Un documento fechado en 1481 establece el contrato de aforamiento por el cual la abadesa de Gúa, Teresa López, junto con la comunidad, da en foro y censo perpetuo a Velasco Pérez de Quiñones, de Pola de Godón, el lugar de Santibañez, lugar situado según el documento en Babia de Suso, estableciendo condiciones y pagos: “… monjas profesas y convento dan en foro y censo perpetuo a Velasco Perez de Quiñones vecino de la Pola de Gordón el lugar de Santivañes con sus términos, puertos, etc., que es en Babia de Suso, con su cargo de veinte carga de pan, mitad trigo y mitad centeno por la medida del concejo tercial e mas 15 raciones de cabritos y corderos vivos el pan por San Martín y las raciones por San Miguel” 33 Así, como ha afirmado Gregoria Cavero, “los cistercienses, más los monjes que las monjas, estuvieron también muy interesados en hacer coto sobre lugares de explotación de su patrimonio, allí donde a partir de donaciones o compraventas y permutas pudieron reunir parte de sus tierras, territorios o villas”34. Continuando la lectura vemos también como los Pérez de Quiñones figuran como protectores del cenobio35, hasta el punto de que miembros de esta familia eligieron el monasterio de Santa María de Gúa para enterrarse: “… todo en consideración a que sus avuelos y generaciones de donde venía dotaron con muchos bienes al monasterio y le honraron y ampararon y que muchos dellos se mandaron sepultar en él, y que también le habían tenido en renta y para que el dicho Velasco lo amparase igualmente”36 Otro ejemplo que encontramos será su vinculación con familias como los Miranda, comenderos de la propia jurisdicción del coto de Gúa y los Flórez, quienes señoreaban la Véase: ÁLVAREZ ÁLVAREZ, César — “Los Quiñones- Condes de Luna durante la Baja Edad Media”, Tierras de León: Revista de Diputación Provincial, León, 1981, pp. 45-60. 33 Op. Cit. “Registro de documentos…”, Doc. 40. 34 Op. Cit. “El Císter femenino…”, p. 164. 35 Op. Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas…”, p.244, véase nota 55. 36 Ibidem. 32 144 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) abadía ya en la primera mitad del siglo XVI, situando en la prelacía a doña Inés, hija de Álvaro Flórez de Miranda y doña Brazaida de Quiñones y Prado37. Esto tampoco será una práctica extraña, pues si bien conocemos pocos nombres de las monjas que habitaron Santa María de Gúa en los siglos medievales, la documentación más moderna habla de apellidos como Quiñones, Villalobos, Mendoza o Menéndez, alguno de ellos acompañando los nombres de importantes prioras y abadesas. De esta forma, cabe pensar que la procedencia aristocrática de las religiosas sería enormemente provechosa para el cenobio, tanto por la posible influencia, como por la cantidad de bienes fundiarios que fueron engrosando el patrimonio de la casa de Gúa mediante las adquisiciones que las propias monjas realizaban, así como por sus dotes de profesión. La importancia de Santa María de Gúa se evidenciaría en su vasto patrimonio, pues este no solo se extendía por los cotos concedidos por la voluntad regia o la generosidad nobiliaria si no que, como hemos apuntado, las propias monjas realizarán compraventas de bienes muebles e inmuebles, adquiriendo a título propio posesiones en lugares cercanos al cenobio, contribuyendo así a su patrimonio. En el caso de Gúa, la documentación transcrita por Jovellanos conserva evidencias de esta práctica, como una carta de venta fechada en 1298, en la cual “Alvar García y su mujer Mayor Suárez, vendieron a Elvira González, monja del monasterio de Gúa la heredad de Villaseca en término de Laciana” por un precio de trescientos maravedíes “de los dineros nuevos que el Rey Don Alonso mandó hacer a 16 dineros el maravedí”38. O los “muchos bienes” que compra otra de las religiosas, de nombre Elvira Menéndez en la Vega de los Viejos, lugar que conserva en la actualidad el mismo nombre y se sitúa en la parte baja de Meroy39. También aquí, esta misma monja realiza una compra de bienes a Martín Pérez, Alfonso Martínez y sus mujeres, quienes a su vez lo habían comprado con anterioridad a las hijas de Alfonso Peláez de Torre: “E por esta carta vos vendemos todas las cosas que dellas compramos segunt se en las dichas cartas contien, así heredamentos e techos e suelos e contrusios e prados, con todos sos derechos e entradas e salidas a monte e a villa quantos nos pertenesçen a pertenesçer deven a Monroy e en sos terminos por nome de la dicha compra vos las vendemos aiargidat por preçio que resçebimos de vos, convien a saber, trescientos e trinta mrs. de la moneda que el rey don Alfonso mando faser de a diez dineros novenes el maravedí”40 A estos ejemplos se le suman las ventas y donaciones realizadas al monasterio por los vecinos y habitantes de términos cercanos, las cuales también supusieron que el monasterio poseyera propiedades fuera del coto concedido por la monarquía. Prueba de Op. Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas…”, pp. 243-244. Ibidem, Doc. 28. 39 Op .Cit. “Registro de documentos…”, Doc. 39. 40 Op. Cit. “Registro de documentos…”, Doc.41. 37 38 145 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ ello es la donación de Gonzalo Rodríguez de Salienza con su mujer “de quanto heredamiento tenían en San Andrés de Veigas”41, fechada en febrero de 1348. El coto de Gúa en el Catastro del marqués de la Ensenada Con la información obtenida hasta ahora, nos es posible comparar el que presumimos fue el coto medieval, siguiendo la información de Jovellanos, con el que describe el Catastro de la Ensenada42. Este tiene su origen en el real decreto de 10 de octubre de 1749 de Fernando VI de Borbón, como primer paso para iniciar la reforma fiscal que sustituyera las rentas provinciales por una contribución Única. Su fin se constituyó en el conocimiento, registro y evaluación de los bienes, rentas y cargas de los titulares, así como sus familias, criados y dependientes. Estos contribuirían una vez modificado el sistema impositivo, con un pago único y anual, establecido según el porcentaje resultado de los bienes y rentas de cada uno. Así, la averiguación se realizó en dos niveles: uno individual con respecto a las personas físicas, y otro municipal. Esto supuso que desde 1750 hasta 1757 se generara una ingente base documental, constituida en la actualidad como una fuente de primer orden a la hora de estudiar la Corona de Castilla, pues consta de un minucioso detalle de los habitantes, propiedades territoriales, edificios, ganados, oficios, rentas y censos43. Entre toda esta información, la más valiosa de nuestro estudio es la que ofrece a nivel municipal de la población de Gúa, realizado mediante la cumplimentación de un interrogatorio de cuarenta preguntas, conocidas como las Respuestas Generales, a contestar por el concejo y los peritos del municipio o concejo en cuestión, siendo siempre las mismas para todas las localidades, relativas a aspectos variados de la población. En nuestro caso, el mayor interés reside sobre todo en las tres primeras respuestas contestadas por los vecinos de Gúa y Caunedo, atendiendo a las referencias a cerca de las características geográficas44. Así, a las dos primeras contestaron respectivamente, que la Ibidem, Doc. 35. Con respecto a San Andrés, también el Diccionario de Madoz habla sobre su situación: “Veigas (San Andrés)(1). SIT. entre peñascos y montes á orillas de un riachuelo que se une al de Puerto de Somiedo, y después al Pigüeña; el clima es frio, propenso á reumas, y los vientos más frecuentes los del Norte (…). La iglesia parroquial (San Andrés) está servida por un cura de ingreso y patronato laical. También hay 2 ermitas dedicadas a San Antonio de Pádua, y San Pedro Alcantara. Confina feligreses de Endriga, Valle del Ajo, Coto de Buena Madre, y la Pola. El terreno es de buena calidad en la parte cultivable, y en lo incluso ofrece leñas y pastos. Los caminos conducen hacia Castilla por el puerto de la Mesa (…); su estado malo é impraticables durante las nieves”. En MADOZ, Pascual – Diccionario Geográfico- EstadísticoHistórico de España y sus posesiones de Ultramar, (Asturias- Ed. Fascimil), Valladolid, 2010, p. 426. 42 Véase: CAMARERO BULLÓN, Carmen – “El Catastro de Ensenada, 1749-1759: diez años de intenso trabajo y 80.000 volúmenes manuscritos”, CT: Catastro, N.º 46, 2002, pp. 61-88. 43 Ibidem, pp.61 y ss. 44 Las preguntas son las que siguen: ¿Cómo se llama la población? ¿Es de realengo o señorío? ¿Qué términos ocupa dicho coto? 41 146 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) población se llama Coto de Gúa y que es un coto de realengo perteneciente a “su majestad que Dios guarde y a su Real Corona”45. En cuanto a la tercera pregunta, la respuesta es de tanta utilidad como el dibujo que la acompaña, pues los vecinos contestaron que el coto ocupaba lo siguiente, “de Levante a Poniente son tres quartos de Legua y del Norte al Sur una legua que circunferencia tres leguas y media, las que por su terreno tan quebrantado y peñascoso se necesita quince oras para andarse”46. A esto, añadimos la información que sigue sobre las confrontaciones del coto, “…y sus confrontaciones son al Oeste el Concejo de somiedo, por el Mediodia el concejo de Bavia de suso, y el de Lacíana, Reyno de León, y al Poniente dicho Concejo de somiedo, y Coto de Aquino y Perlines…”47. Dibujo del coto de Gúa en el Catastro de la Ensenada. Obtenida del Archivo General de Simancas, Catastro de la Ensenada, Respuestas Generales, libro 375, fol. 440r. A.G.S. Catastro de la Ensenada, Respuestas Generales, libro 375, fol. 440v. Ibidem 47 A.G.S. Catastro de la Ensenada, Respuestas Generales, libro 375, fol. 440r. 45 46 147 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ Esta información, es posible contrastarla con otra gran fuente de información, en especial geográfica y poblacional, otro Diccionario, realizado por Sebastián Miñano en 1826, apenas setenta años después de la realización del Catastro: “Linda por el norte con la Pola, por sur con término de la parroquia del puerto y escarpadas montañas que le separan del reino de León, por este con el coto de Buenamadre, y por oeste con el de Aquine y Perlunes; y ocupa su término 1 legua de norte a sur y tres cuartos de este a oeste. Los vecinos se hallan divididos en los lugares de Gua y Caunedo.”48 De nuevo aparecen términos aquí como el coto de Buenamadre que, si bien ya había sido mencionado en la documentación, no lo encontramos en el Catastro, tratándose de un término medieval que se conserva hasta nuestros días. Es, sin duda, una nominación poco común y que ha llamado nuestra atención desde un primer momento, ya que gracias al testimonio de los vecinos de Gúa sabemos que es un término aun reconocido y utilizado por aquellos que allí habitan, conservando su nombre medieval hasta la actualidad. A esto, únicamente podemos añadir las referencias que hace en su ya mencionada obra, Manuel de Abol, con respeto al coto de Buenamadre, quien en un principio lo asocia con doña Inés de Miranda, quien hubiera sido apodada de esta forma tras dejar atrás su vida “pecadora” y comenzar una vida de redención en el monasterio de Gúa. No obstante, el propio autor habla de la imposibilidad de este hecho ya que doña Inés moriría en Tineo en compañía de su hija49. Aun así, la tradición popular es abundante en tergiversaciones atendiendo a que, si bien no pudo ser esta mujer, con seguridad fue otra de las monjas la que dio el nombre a este coto. Conclusiones Con intención de concluir este trabajo, no podemos si no lamentar una vez más la pérdida de la valiosa documentación custodiada en el archivo de cenobio, la cual hubiera arrojado algo más de luz a su historia, en especial, a su fundación. Esta es sin duda nuestra más inquietante cuestión, si fue realizada por Alfonso VII o por su hijo es un hecho que, de no aparecer nuevos documentos relacionados, no se podrá afirmar con certeza. Por otro lado, esta falta documental no ha impedido una aproximación a la explotación del dominio territorial. Ya hemos visto como las monjas hacían entrega de sus bienes a importantes familias de la comarca, quienes las disfrutaban a cambio de un canon anual que satisfacían a las religiosas. Estas se sirvieron como figuras jurídicas de los contratos de foro, típicos del periodo. Algunos de estos foros eran a perpetuidad, como el ya citado MIÑANO, Sebastián – Diccionario geográfico-estadístico de España y Portugal, Madrid, 1826, Tomo IV, p. 416. 49 Op. Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas…”, p. 245. 48 148 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) que las religiosas hacen en 1481 a Velasco Pérez de Quiñones y por el que obtendrían una cuantiosa renta anual en pan, trigo, centeno y animales50. Como es habitual, también cedieron sus propiedades a clérigos como la que encontramos fechada en el año 1390 percibiendo a cambio la renta en centeno y vino51. Con esto, sobre el mapa actual y apoyándonos en la toponimia y los testimonios locales, ya se ha afirmado que la comunidad tendría consolidado su patrimonio en Somiedo, Teverga, Tineo, Luna, Paredes, Boñar, Babia y Laciana, disfrutado en su mayoría por las tres familias nobiliarias más importantes de la zona, los Miranda, los Quiñones y los Flórez52. Retomándonos en lo dicho anteriormente, en la actualidad no quedan restos identificables de lo que, en sus cuatro siglos de permanencia, fuera el antiguo monasterio de Santa María de Gúa53. Como ya apuntaba Justo Ureña en 1998, ni siquiera se puede imaginar la forma de la estructura conventual, abatida por el abandono y por el paso de los siglos54. Con respecto a esto, sobre el terreno se puede aún hoy observar una casa cercana a la iglesia conventual, donde podemos pensar, atendiendo a la situación espacial y a sus características arquitectónicas, que podría ser o haber formado parte del cenobio medieval. Fotografía tomada desde la iglesia conventual donde se aprecia la casa que puso haber formado parte del cenobio. Imagen de la autora ® Op. Cit. “Registro de documentos…”, Doc. 40. Ibidem, Doc. 38. 52 Op. Cit, “Monasterios medievales de Asturias”, pp. 136 53 Op. Cit. “El archivo del monasterio de las Huelgas…”, p. 236. 54 Op. Cit. “Gúa - Las Huelgas…”, p. 33. 50 51 149 ANA LOCHÉ GONZÁLEZ A esto sumamos la memoria de la toponimia menor de los habitantes de Gúa, quienes llaman a la vega situada detrás de esta casa “Trascalfraile”, nombre que podría hacer referencia al fraile cisterciense enviado a cobrar las rentas en la zona de Gúa cuando estas se hubieran trasladado a Avilés, desde donde continuaban controlando su coto y propiedades en la zona de Somiedo, a pesar de su lejanía. Pues si bien las religiosas abandonan este lugar en 1553, conservarán la jurisdicción de sus tierras de Gúa, Caunedo, Santibañez y coto de Buenamadre y, con ella, las rentas que estas ocasionaban. Prueba de ello son los repetidos procesos judiciales en reivindicación de unas tierras con las que las familias nobles de las que antes hablábamos intentaron aumentar sus patrimonios aprovechando, sin duda, la ausencia de las religiosas en la zona, así como su lejanía y difícil acceso al dominio55. De esta forma, creemos oportuno finalizar estas breves líneas recordando las palabras del monje Basilio Mendoza quien, ya en el siglo XVIII, refiriéndose al monasterio de Santa María de Gúa, afirmaba que “poco se puede decir como no sea el simple conocimiento de su existencia” 56. Bibliografía – ABOL-BRASÓN, Manuel —”El archivo del Monasterio de las Huelgas Reales de Avilés (antes de Santa María La Real de Gúa, en Somiedo)” Memoria Ecclesiae, Nº7, 1995, pp.235-250. – ÁLVAREZ ÁLVAREZ, César — “Los Quiñones- Condes de Luna durante la Baja Edad Media”, Tierras de León: Revista de Diputación Provincial, León, 1981, pp. 45-60. – BALLESTEROS GAIBROIS, Manuel (ed.)— Colección Asturias de Jovellanos, Tomo III. Madrid, 1949. – BAURY, Ghislain— “Fundar una abadía cisterciense femenina a mediados del siglo XIII. En torno a los inicios del Otero (1320-1252)”, Estudios Humanísticos. Historia, Nº13, 2014, pp. 9-34. – CAMARERO BULLÓN, Concepción — “El Catastro de Ensenada, 1749-1759: diez años de intenso trabajo y 80.000 volúmenes manuscritos”, CT: Catastro, Nº46, 2002, pp. 61-88. – CAVERO DOMÍNGUEZ, Gregoria— El esplendor del Císter en León (siglos XII-XIII), Madrid, 2007. – CAVERO DOMÍNGUEZ, Gregoria — “El císter femenino en los reinos de León y Castilla en los siglos XII y XIII”, en Mujeres en silencio: el monacato femenino en la España Medieval, Aguilar de Campoo, 2017, pp.151-183. – CARVALLO DE, Luis Alfonso—Antigüedades, y cosas memorables del Principado de Asturias, Madrid, 1695. – CARRACEDO FALAGAN, Carmen — “Aportación al estudio de los foros en Asturias durante la Edad Moderna: el ejemplo del monasterio de Gúa (Huelgas Reales de Avilés)”, Libro del I Congreso Jurídico de Asturias, Oviedo, 1987. pp.289-306. Ibidem, pp.36 y ss. Mendoza, Basilio – Synopsis, seu brevis notitia Monasteriorum Congregationis Hispanicae Cisterciensis, Castellae, Et Legiosis disctae, et alias S.Bernardi (Biblioteca de San Isidoro de Dueñas, ms. De 1753) en Ibidem, pp.31. 55 56 150 APROXIMACIÓN AL PROCESO DE FORMACIÓN DE UN DOMINIO MONÁSTICO FEMENINO EN ASTURIAS. EL MONASTERIO CISTERCIENSE DE GÚA (SOMIEDO, ASTURIAS) – FERNÁNDEZ CONDE, Francisco Javier — La iglesia de Asturias en la baja Edad Media. Estructuras económico- administrativas, Oviedo, 1987. – FERNÁNDEZ MIER, Margarita — Documentos del monasterio de Belmonte (siglos XIV-XV), Oviedo, 2001. – JOVELLANOS, de Gaspar Melchor — Colección de Asturias, II, Madrid, 1948. – MARTÍNEZ VEGA, Andrés —Monasterios medievales de Asturias, Oviedo, 2011. – MADOZ, Pascual — Diccionario Geográfico-estadístico-histórico de España y sus posesiones de ultramar, Tomo VIII, Madrid, 187. – MIÑANO, Sebastián — Diccionario geográfico- estadístico de España y Portugal, Tomo IV, Madrid, 1826. – PÉREZ-EMBID WAMBA, Javier — “El cister femenino en Castilla y León. La formación de los dominios (siglos XII-XIII)”, En la España medieval. Tomo V. Madrid, 1986, pp. 761-769. – UREÑA Y HEVIA, Justo — “Gúa- Las Huelgas de Avilés”, Monasterios Cistercienses del Principado de Asturias. ARMARIUM CISTERCIENSE 3, Oviedo, 1998, pp. 31-46. – YÁÑEZ NEIRA, María Damián– El monasterio cisterciense de las Huelgas de Avilés, B.I.D.E.A. 68, Oviedo, 1969, pp.342- 415. – YÁÑEZ NEIRA, María Damián— Registro de documentos sobre el monasterio de las Huelgas de Avilés, B.I.D.E.A, Nº77, Oviedo,1972, pp. 590- 628. – YÁÑEZ NEIRA, María Damián– El Real monasterio de las Huelgas de Avilés y la Congregación de Castilla, B.I.D.E.A. 75, Oviedo, 1972, pp. 14- 65. – YÁÑEZ NEIRA, María Damián– Movimiento demográfico en el Monasterio de Las Huelgas de Avilés, B.I.D.E.A. 82, Oviedo, 1974, pp.459-481. – YÁÑEZ NEIRA, María Damián– “Los cistercienses en León”, Tierras de León: Revista de la Diputación Provincial, Vol.20, Nº41, 1980, pp. 29-42. 151 152 LES CATALOGUES D’ABBAYES ET LA CHRONOLOGIE DE L’EXPANSION CISTERCIENNE DANS L’OUEST DE L’EUROPE (XIIe-XIIIe SIÈCLES) ALEXIS GRÉLOIS* Étant donné que les archives centrales de l’ordre cistercien ont disparu1, l’étude de l’expansion des moines blancs repose sur des sources limitées. Les premiers Exordes ne nomment que Cîteaux, la Charte de charité ne mentionne que les « premières filles »2 et le Grand Exorde ne cite en plus que quelques abbayes, surtout allemandes3 ; les vies de saints, les gesta d’abbés ou les histoires de monastères (comme la remarquable Historia fundationis de Byland et Jervaulx en Angleterre4) ne donnent qu’une vision partielle, locale et fragmentaire des phénomènes de fondation et d’affiliation5. Quant aux statuta des chapitres généraux, ils ne contiennent de décisions comportant des noms d’abbayes qu’à partir de la fin du XIIe siècle (et ils présentent de grandes lacunes pour certaines périodes)6. * Maître de conférences. Université de Rouen-Normandie, GRHis EA 3831. Comme l’avait noté MARILIER, Jean – Chartes et documents concernant l’abbaye de Cîteaux. Vol. 1. 1098-1182, Rome, Editiones cistercienses, 1961, pp.1-3. 2 Pour les « textes primitifs », on se référera désormais à l’édition de WADDELL, Chrysogonus – Narrative and Legislative Texts from Early Cîteaux, Brecht, Cîteaux-commentarii cistercienses, 1999. 3 CONRAD D’EBERBACH – Exordium magnum Cisterciense sive narratio de initio Cisterciensis Ordinis, éd. Griesser, Bruno, Rome, Editiones Cistercienses, 1961. 4 BURTON, Janet – The Foundation History of the Abbeys of Byland and Jervaulx, York, Borthwick Publications, 2006. 5 Citons deux exemples présentant de façon très précise la manière dont les communautés vécurent leur incorporation à l’ordre cistercien : l’Histoire de Notre-Dame de Fontaines-les-Blanches par Pérégrin (éditée par SALMON, André – Recueil de Chroniques de Touraine, Tours, Ladevèze, 1854, pp.257-291) et la Vie de Saint Étienne d’Obazine éditée par AUBRUN, Michel – Clermont-Ferrand, Institut d’Études du Massif Central, 1970. 6 CANIVEZ, Joseph-Marie – Statuta capitulorum generalium Ordinis Cisterciensis ab anno 1116 ad annum 1786, Louvain, Bibliothèque de la Revue d’histoire ecclésiastique, 1933-1941 ; pour la période antérieure à 1203, il est désormais indispensable de se référer à la nouvelle édition de WADDELL, Chrysogonus – 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 153-162 153 ALEXIS GRÉLOIS Pour avoir une vision d’ensemble de l’expansion de l’ordre, les historiens ont donc depuis longtemps recours aux catalogues d’abbayes7. La tabula abbatiarum consistait en une liste de monastères cisterciens masculins 8, rangés selon leur ancienneté. L’exemplaire officiel conservé à Cîteaux9 est perdu. La liste conservée la plus ancienne se trouve à la Bibliothèque royale de Bruxelles ; elle peut être datée de 1186 et provient probablement de l’abbaye d’Aulne (ancien diocèse de Liège)10. Il subsiste quelques rares autres catalogues des XIIe et XIIIe siècles11, sans doute tous issus de la Twelfth-Century Statutes from the Cistercian General Chapter, Brecht, Cîteaux-commentarii cistercienses, 2002. Sur le caractère lacunaire des statuta, je me permets de renvoyer à GRELOIS, Alexis – Tradition and Transmission : What Is the Significance of the Cistercian General Chapters’ Statutes ? (Twelfth to Fourteenth Centuries), Pansters, Krijn et Plunkett-Latimer, Abraham, éd., Shaping Stability. The Normation and Formation of Religious Life in the Middle Ages, Turnhout, Brepols, 2016, pp.205-216. 7 GRELOIS, Alexis – “Au-delà des catalogues : pour une étude à frais nouveaux de l’expansion cistercienne dans la France de l’Ouest”, in Annales de Bretagne et des pays de l’Ouest, 120/3, 2013, pp.171-187. 8 Pour les monastères féminins, on ne connaît que des listes tardives et incomplètes, à commencer par une insérée dans le manuscrit Vienne, Österreichische Nationalbibliothek, 4781 (signalée par JANAUSCHEK, Leopold – Originum Cisterciensium, vol. I, Vienne, A. Hoelder, 1877, p.XVII) et surtout deux répertoires de monastères soumis directement à Cîteaux et à Clairvaux contenus dans le manuscrit Düsseldorf, Universitätsund Landesbibliothek, C 32, fol.264-267v, édités par WINTER, Franz – Die Cistercienser des nordöstlichen Deutschlands. Ein Beitrag zur Kirchen- und Culturgeschichte des Deutschen Mittelalters, t. 2, Gotha, Friedrich Andreas Berthes, 1871, pp.175-185. Il est curieux de constater que les historiens des moniales cisterciennes n’ont pratiquement jamais eu recours à ces sources. 9 L’existence de cette liste officielle, alors confiée au chantre de Cîteaux, est attestée par plusieurs mentions dans les statuta : en 1217, le chapitre décida de la faire refaire en raison des incohérences contenues dans le manuscrit alors existant : Quia in tabula in qua notantur nomina abbatiarum videtur esse discordia in tempore abbatiarum, volumus ut nova et certa tabula fiat. Visitatores autem super hoc diligenter inquirant, et sequenti Capitulo certitudinem reddant cantori Cisterciensi (CANIVEZ – op. cit., t. 1, pp.482-483, n°76). Les visiteurs n’ayant visiblement pas donné satisfaction, le chapitre suivant fit appel aux supérieurs et aux abbés-pères des communautés : Præcipitur omnibus abbatibus ut abbatiarum suarum tam nomina quam ætates nec non et kalendas in sequenti Capitulo cantori Cistercii studeant declarare. Patres vero abbates qui præsentes sunt studeant hoc filiis suis absentibus in invicem prout melius potuerint indicare (ibid., pp.486, n°8). De fait, l’étude des listes conservées antérieures à cette révision révèle des incohérences, notamment des répétitions (FALMAGNE, Thomas – Un texte en contexte : les “Flores Paradisi” et le milieu culturel de Villers-enBrabant dans la première moitié du 13e siècle, Turnhout, Brepols, 2001, pp.125-126). Le chapitre de 1239 ordonna aux abbés de faire inscrire par le chantre les monastères nouvellement construits ou absents de la liste (CANIVEZ – op. cit., t.2, pp.204, n°11), ordre répété en 1270 (ibid., t.3, p.83, n°13). 10 Bruxelles, Bibliothèque Royale Albert Ier, 3868 (catalogue II 1059), fol.127-134v. Sur la datation de ce manuscrit, voir GRELOIS – art. cit., p.175. Deux exemplaires tronqués de la même liste se trouvent dans les manuscrits Malines, Aartsbisdom, I.1.1, fol.1-2 (manquent les fondations antérieures à 1129) et Laon, Bibliothèque municipale, 217, fol.2r (manquent les fondations antérieures à 1173 et les dates). 11 Deux listes de 1190 (complétée ultérieurement jusqu’en 1234) et de 1247 conservées à la British Library ont été éditées par BIRCH, Walter de Gray – “On the Date of Foundation Ascribed to the Cistercian Abbeys in Great Britain”, in Journal of the British Archaeological Association, 26, 1870, pp.282-292 et 357–365. La liste de Bruxelles et la première de Londres ont été éditées (sans tenir compte hélas des ratures) par GRILLENBERGER, Otto – Die Catalogi abbatiarum Ordinis Cisterciensis. Nachträge zu Dr. L. Janauscheks Originum Cisterciensium tomus I. I. Die Gruppe BI und P, Vienne, Alfred Hölder, 1904. 154 LES CATALOGUES D'ABBAYES ET LA CHRONOLOGIE DE L'EXPANSION CISTERCIENNE DANS L'OUEST DE L'EUROPE (XIIe-XIIIe SIÈCLES) filiation de Clairvaux, ainsi que plusieurs versions postérieures, manuscrites ou imprimées12. Les deux historiographes majeurs de l’ordre cistercien utilisèrent ces listes : Ángel Manrique au XVIIe siècle et Leopold Janauschek au XIXe siècle. L’œuvre monumentale de Janauschek se présente ainsi comme le catalogue complet des abbayes cisterciennes d’hommes, rangées selon l’ordre de leur fondation ou de leur affiliation ; ce catalogue repose sur une analyse critique de presque toutes les listes antérieures. * Dans leurs notices, Manrique et Janauschek ne cachaient pas les doutes qu’ils avaient eux-mêmes au sujet de leurs conclusions. Malheureusement, leurs lecteurs ont trop souvent pris pour des faits historiques ce qui n’était que des hypothèses. De plus, comme l’avait déjà signalé le Père Maur Cocheril dans les années 1950-196013, les sources utilisées par ces historiens étaient elles-mêmes sujettes à caution car, dès l’origine, la tabula abbatiarum ne fut pas conçue comme une chronologie historique, mais comme une liste protocolaire, fixant le rang de chaque abbé au sein de l’ordre. En effet, la Charte de charité avait établi qu’en cas de rencontre entre deux abbés dont les monastères n’étaient pas unis par un lien de filiation directe, le supérieur dont la communauté était la plus ancienne occuperait le premier rang14 ; par la suite, la place de chaque abbé au chapitre général dépendit également de ce classement chronologique15. Certes, cet ordre reposait théoriquement sur la date de fondation de chaque monastère, mais comme il s’agissait d’un ordre protocolaire, les « dates de fondation » figurant dans ces catalogues firent souvent l’objet de manipulations. Un premier exemple de ce type de remaniement concerne l’une des plus importantes abbayes cisterciennes, Morimond. Ce ne fut que vers 1157 que ce monastère obtint le statut de « première fille », c’est-à-dire de chef de filiation, chargé de corriger si nécessaire l’abbé de Cîteaux, statut dont jouissaient La Ferté, Pontigny et Clairvaux depuis la Il convient en particulier de citer la liste se terminant en 1190 publiée d’après un manuscrit perdu de l’abbaye des Dunes par DE VISCH, Charles – Bibliotheca Scriptorum Sacri Ordinis Cisterciensis, Douai, Jean Serrurier, 1649, pp.275-295. L’auteur cherchait à résoudre les contradictions chronologiques existant entre les annales de MANRIQUE, Ángel – Cisterciensium seu verius ecclesiasticorum annalium a condito Cistercio, 4 vol., Lyon, G. Boissat et L. Anisson, 1642-1657, et la liste établie par JONGELINCX, Gaspar – Notitia Abbatiarum Ordinis Cistertiensis per Orbem Universum, Cologne, J. Henning, 1640. 13 COCHERIL, Maur – Études sur le monachisme en Espagne et au Portugal, Paris-Lisbonne, Les Belles Lettres-Livraria Bertrand, 1966, en particulier pp.162 et 179. 14 Carta caritatis prior 4, 3 : Quod si plures superuenierint [abbates] et abbas loci defuerit, prior illorum in hospicio comedat. 10, 2 : Inter abbatias illas que se alterutras non genuerunt ista erit lex. Omnis abbas in omnibus locis sui monasterii coabbati suo cedat aduenienti […]. Si duo aut eo amplius conuenerint, qui prior erit de aduenientibus locum superiorem tenebit (WADDELL – Narrative and Legislative Texts, op. cit., pp.277 et 281. 15 MAHN, Jean-Berthold – L’ordre cistercien et son gouvernement des origines au milieu du XIIIe siècle (1098-1265), Paris, De Boccard, 2e éd., 1951, p.193. 12 155 ALEXIS GRÉLOIS promulgation de la Charte de charité en 1119. Cette promotion eut lieu alors que Cîteaux était dirigée par Lambert de Clairefontaine, ancien abbé de Morimond. Pour justifier ce changement de statut et, sans doute, pour rééquilibrer un ordre longtemps dominé par le futur saint Bernard, Morimond se vit assigner exactement la même date de fondation que Clairvaux dans la tabula. Mais les spécialistes, comme Michel Parisse, Hubert Flammarion ou Benoît Rouzeau, s’accordent aujourd’hui pour estimer que la création de Morimond eut lieu quelques années plus tard16. Ces questions de dates furent surtout un sujet de difficultés et de négociations en cas d’incorporation de communautés préexistantes. Un bel exemple est fourni par l’abbaye de Savigny et ses filles. Situé en Normandie, Savigny s’affilia à Clairvaux en 1147, avec une trentaine de dépendances située dans l’ouest de la France et les îles Britanniques. À cause de l’importance de sa filiation, Savigny revendiqua un rang protocolaire venant immédiatement après les « premières filles », autrement dit juste après Morimond. Certaines listes connues furent modifiées en conséquence. Mais l’abbé de Preuilly protesta et sa maison fut reconnue comme cinquième fille de Cîteaux en 121517. De façon semblable, l’abbé d’une fille anglaise de Savigny, Furness, revendiqua le premier rang protocolaire en Angleterre, contre Waverley, petite-fille de Cîteaux. Le chapitre général de 1225 consulta la tabula, constata que la date attribuée à Furness avait été grattée et changée18 (frauduleusement ?), et finit en 1232 par donner raison en grande partie à Waverley19 : de fait, les listes les plus anciennes plaçaient Furness en 1127, mais les suivantes en 1129 seulement, tandis que Waverley vit plus tard sa date de fondation avancée de 1129 à 112820. PARISSE, Michel – La formation de la branche de Morimond, Unanimité et diversité cisterciennes. Filiations-Réseaux-Relectures du XIIe au XVIIe siècle, Saint-Étienne, Publications de l’Université de SaintÉtienne, 2000, pp. 87-101 ; FLAMMARION, Hubert, éd. – Recueil des chartes de l’abbaye de Morimond au XIIe siècle, Turnhout, Brepols, 2014, p. 385 ; FLAMMARION, Hubert, ROUZEAU, Benoît et VIARD, Georges – Morimond, quatrième fille de Cîteaux, Langres, Association des amis de l’abbaye de Morimond, 2010, p. 6 ; voir aussi HELIAS-BARON, Marlène, “Chronologie des quatre premières filles de Cîteaux. La Ferté-sur-Grosne, Pontigny, Clairvaux et Morimond”, in Hypothèses : travaux de l’École doctorale d’histoire de l’Université de Paris I-Panthéon Sorbonne, 7, 2003, pp. 181-194. 17 Voir la remarquable mise au point de SWIETEK, Francis R., et DENEEN, Terrence M. – ‘Et Inter Abbatibus de Majoribus Unus’ : The Abbot of Savigny in the Cistercian Constitution, 1147-1243, Dutton, Marsha L., La Corte, Daniel M., et Lockey, Paul, éd., Truth as Gift. Studies in Medieval Cistercian History in Honor of John R. Sommerfeldt, Kalamazoo, Cistercian Publications, 2004, pp. 89-118. 18 Abbatia de Furnesio scribatur in tabula eodem loco a quo nuper abrasa est, donec ad sequens Capitulum de prioratu inter ipsum et abbatem de Waverleia determinetur (CANIVEZ – op. cit., t.2, p.40, n° 28). 19 Il fut décidé que l’abbé de Furness aurait le premier rang dans les filiations anglaises de Savigny et de L’Aumône (mère de Waverley), mais que le supérieur de Waverley tiendrait la première place partout ailleurs : Quæstio prioratus inter abbatem de Waverleia et abbatem de Furnesio per provisionem domini Cisterciensis decidetur, ut de Furnesio habeat prioratum in tota generatione Eleemosynæ in Anglia, et in generatione Saviniaci in Anglia tantum ; abbas autem de Waverleia habeat prioratum ubique alias tam in congregationibus abbatum quæ fuerint per Angliam, quam alias per Ordinem universum (ibid., pp.103-104, n° 20). 20 JANAUSCHEK – op. cit., n° 36 et n° 241. 16 156 LES CATALOGUES D'ABBAYES ET LA CHRONOLOGIE DE L'EXPANSION CISTERCIENNE DANS L'OUEST DE L'EUROPE (XIIe-XIIIe SIÈCLES) Sans avoir recours à la fraude, d’autres communautés préférèrent négocier officiellement une date de fondation au moment de leur incorporation. Citons par exemple Cadouin en Périgord, dans le sud-ouest de la France, fondé en 1113, mais affiliée à Pontigny en 1199 seulement. Entrée dans l’ordre avec un réseau d’abbayes relativement important, Cadouin obtint d’être considérée comme cistercienne depuis 1119, ce qui lui conférait la onzième place dans l’ordre et, surtout, selon les listes, le premier ou le deuxième rang dans la branche de Pontigny. Janauschek n’a malheureusement pas pris en compte cette affiliation tardive, ce qui est encore aujourd’hui la source de nombreuses erreurs21. De la même façon, Carracedo dans le Bierzo (royaume de León), affiliée directement à Cîteaux en 1203 au terme d’une longue négociation, fut inscrite dans les tabulæ aux années 1126 ou 1127, après avoir obtenu une réduction d’âge de soixante-cinq ans dès 120022. En Italie, Quartazzola bénéficia d’un rajeunissement de cinquante ans en 121623. Pour sa part, l’abbaye galicienne de Monfero obtint une réduction similaire dans des circonstances particulières : bien qu’ayant quitté l’ordre après y avoir été incorporée une première fois, elle put y revenir en 1227, avec une réduction de son âge de vingt ans24. Un autre exemple de ce type de négociations est offert par l’abbaye portugaise de São Cristóvão de Lafões. Un statutum du chapitre général de 1228 est ainsi formulé : « à l’abbé de Saint-Christophe, sont concédées vingt années dans l’ordre, et qu’il soit inscrit avec un tel âge avec les autres dans la tabula ». De fait, seule abbaye cistercienne placée sous l’invocation de saint Christophe, Lafões ne figure pas dans la liste de 1186 et n’apparaît dans les listes du XIIIe siècle qu’à l’année 1204 ; si l’on tient compte de la « réduction » de vingt ans accordée en 1228, cela signifie que ce ne fut qu’autour de 1224 que São Cristóvão fut incorporée à l’ordre de Cîteaux. * On ne manquera pas de nous objecter qu’alors que Bernardo Brito et Ángel Manrique avaient placé cette affiliation une centaine d’années plus tôt, Leopold Janauschek avait fixé en 1138 l’entrée de Lafões dans l’ordre25, en reprenant partiellement à son compte la GRELOIS, Alexis – ”Qu’avait Cadouin de cistercien au XIIe siècle ?”, in Mémoire de la Dordogne. Revue des Archives Départementales de la Dordogne, 25, 2015, pp. 4-21. 22 WADDELL – Twelfth-Century Statutes, op. cit., p.468, n° 20 ; JANAUSCHEK – op. cit., n° 540. 23 CANIVEZ – op. cit., t.1, p. 453, n° 17. Dans les catalogues, cette abbaye figure à des dates très diverses (des confusions étant probables en raison de son nom latin, abbatia de Ponte), notamment 1138 et 1188, cette dernière étant probablement celle de son affiliation et la première la date « corrigée » après négociation en 1216 (JANAUSCHEK – op. cit., n° 574). 24 Abbatiæ Montis Feri dudum Ordini sociatæ licet aliquando resilierit, quia modo pœnitet et obedit, redditur gratia Capituli generalis ; et mandatur quod in catalogo abbatiarum in ætate viginti annorum ponantur (CANIVEZ – op. cit., t.2, p. 62, n° 35). Dans les listes conservées, Monfero figure en 1201 ou 1203 (JANAUSCHEK – op. cit., n° 535). 25 Ibid., n°134 ; la lecture de la notice révèle que Janauschek avait pourtant parfaitement conscience de trancher contre la teneur des listes et du statut de 1228, alors qu’il avait procédé de façon opposée dans le cas de Carracedo. 21 157 ALEXIS GRÉLOIS légende selon laquelle João Cirita aurait accueilli dans son ermitage des moines envoyés par Bernard de Clairvaux, avant de fonder les communautés de Tarouca, Sever, Salzedas et Águias. Maria Alegria Marques a récemment repris cette version des faits en avançant que Brito s’appuyait sur des traditions locales26. Mais quand les récits rapportés par Brito – dont l’approche fantaisiste de la chronologie et les inventions biographiques et généalogiques ont depuis longtemps été prouvées27 – virent-ils le jour ? Leur origine remonte-telle vraiment au XIIe siècle ? À cette dernière question, la réponse est clairement non. La réécriture des origines du monachisme cistercien au Portugal que l’on peut lire chez Bernardo Brito peut être rapprochée de la Vie de Géraud de Salles28. Ermite (comme João Cirita), prédicateur itinérant, Géraud fut chargé par l’épiscopat aquitain de donner une règle à une quinzaines d’ermitages, dont Cadouin. La plupart d’entre eux finirent par adopter des usages cisterciens, puis par entrer dans l’ordre. Sa Vita est un texte composite ; on y distingue un noyau authentique, le rouleau mortuaire rédigé juste après sa mort en 1120 par ses anciens compagnons devenus abbés, mais le reste du texte fut rédigé à la fin du XIIIe siècle par un moine cistercien des Châtelliers en Poitou et les informations qui s’y trouvent sont complètement fausses : selon la Vita Geraldi, saint Bernard aurait été un ami intime de Géraud, qui l’aurait emmené à Cadouin pour affilier cette communauté à Clairvaux, mais les moines périgourdins auraient rejeté violemment cette proposition et Bernard aurait dû se consoler en incorporant le monastère des Châtelliers, où Géraud devait être enterré par la suite. Comme ceux de Brito, ce récit comporte des erreurs historiques : Bernard ne se rendit ainsi en Aquitaine pour la première fois qu’en 113229, soit douze ans après la mort de Géraud. Certes, on peut relier certains éléments de cette légende à des faits réels : par exemple le long refus de Cadouin d’entrer dans l’ordre, ou l’inhumation de Géraud aux Châtelliers. Mais dans l’ensemble, le récit des faits ne peut être tenu pour véridique. Sa fonction était en fait de rattacher l’abbaye des Châtelliers à Bernard de Clairvaux, pour rehausser son prestige parmi les cisterciens du sud-ouest de la France. Or Bernard de Clairvaux ne s’était en réalité jamais occupé des Châtelliers. En effet, cette abbaye est absente des deux tabulæ les plus anciennes. Dans les listes ultérieures, elle figure parfois à deux dates : 1129 et 1162 ; 1162 correspond sans doute à la date assignée lors de l’incorporation, 1129 étant le produit d’une négociation ultérieure ou d’une falsification. Sur cette base, Janauschek avait daté du 20 janvier 1163 FERNANDES MARQUES, Maria Alegria – Claraval e Portugal : uma relação de séculos, Baudin, Arnaud et Grélois, Alexis, éd., Le temps long de Clairvaux. Nouvelles recherches, nouvelles perspectives (XIIe-XXIe siècle), Paris-Troyes, Somogy-Conseil départemental de l’Aube, 2016, p. 90. La même hypothèse se trouve d’ailleurs aussi chez l’un des plus célèbres pourfendeurs de Brito : COCHERIL – op. cit., p. 215. 27 COCHERIL – op. cit., en particulier p.285-321. 28 Vita Beati Giraldi de Salis scripta ab auctore anonymo, Castellariensi, ut videtur, monacho, circa finem saeculi XIII, Acta sanctorum, Octobris, t.10, Bruxelles, Henri Goemaere, 1861, pp. 254-267. 29 VACANDARD, Elphège – Vie de Saint Bernard Abbé de Clairvaux, Paris, Victor Lecoffre, 1895, t.1, pp. 317-323. 26 158 LES CATALOGUES D'ABBAYES ET LA CHRONOLOGIE DE L'EXPANSION CISTERCIENNE DANS L'OUEST DE L'EUROPE (XIIe-XIIIe SIÈCLES) l’incorporation des Châtelliers30. Mais en 1178, ce monastère avait obtenu du pape Alexandre III un privilège qui ne comportait pas l’exemption totale de dîme dont jouissaient les cisterciens31. Ce n’est donc que plus tard que Les Châtelliers furent admis dans l’ordre. Revenons maintenant au Portugal. L’abbaye de Lafões avait elle aussi bénéficié d’un privilège d’Alexandre III, dès le 18 août 1163. Dans son cas, l’observances des usages cisterciens était explicitement mentionnée32. Maur Cocheril en concluait que l’abbaye portugaise, désignée comme observant la règle bénédictine dans un acte de novembre 1161, aurait été incorporée entre les deux dates33. Lafões devint-elle donc membre de l’ordre cistercien vers 1162 plutôt que vers 1224 ? Cela n’est pas certain du tout, car la pensée de l’historien trappiste était empreinte d’un formalisme juridique qui lui faisait commettre des anachronismes. En effet, comme l’a bien montré le bénédictin Jacques Dubois, dans la documentation pontificale du XIIe siècle, il ne faut pas prendre la « clause de régularité » mentionnant l’observance d’une règle et éventuellement de coutumes par une communauté religieuse pour une indication systématique de l’appartenance à un ordre34. Il était tout à fait possible pour un groupe de religieux de s’inspirer des usages d’un autre sans se soumettre à celui-ci. Le 18 avril 1143, le pape Innocent II avait ainsi reconnu que Cadouin organisait un chapitre réunissant les abbés de sa congrégation, conformément aux usages des cisterciens35. Peu après, Lucius II accorda à une autre abbaye instituée par Géraud de Salles, Fontdouce en Poitou, un privilège comportant la clause de régularité cistercienne36 ; pour autant, Fontdouce ne fit jamais partie de l’ordre de Cîteaux. Encore en 1162, Alexandre III accorda un privilège de même teneur à une dépendance de Fontdouce, Le Loudieu dans le Berry, au centre de la France37. Par conséquent, le privilège du 18 août 1163 ne saurait constituer une preuve décisive en faveur d’une incorporation de Lafões à l’ordre cistercien dès le milieu du XIIe siècle – alors que São João de Tarouca était alors indubitablement dans la dépendance de Clairvaux38. Le plus probable est que, comme leurs homologues du sud-ouest de la France, les ermites rassemblés dans la Beira Alta par João Cirita connurent un long et complexe processus d’institutionnalisation. Dans le cas de Cadouin et de ses dépendances, les JANAUSCHEK – op. cit., n.° 382. DUVAL, Louis – Cartulaire de l’abbaye royale de Notre-Dame des Chatelliers, Niort, Clouzot, 1872, pp.8-9. 32 ERDMANN, Carl – Papsturkunden in Portugal, Berlin, Weidmann, 1927, n° 64. 33 COCHERIL – op. cit., p. 206-207 et 217. 34 DUBOIS, Jacques – “Les Ordres religieux au XIIe siècle selon la Curie romaine”, in Revue Bénédictine, 78, 1968, pp.283–309, en particulier 308. 35 GRELOIS – “Qu’avait Cadouin de cistercien”, art. cit., p.17. 36 WIEDERHOLD, Wilhelm – Papsturkunden in Frankreich. Reiseberichte zur Gallia Pontificia, 2e éd., Vatican, Biblioteca Apostolica Vaticana, 1985, t. 2, p. 637, n° 14. 37 Ibid., t.1, p.491, n°41. 38 Comme le dit explicitement le privilège pontifical du 4 juin 1163 (ERDMANN – op. cit., n° 61). 30 31 159 ALEXIS GRÉLOIS ermites adoptèrent dès la fin des années 1110 une petite partie des usages cisterciens (chapitre des abbés, liturgie d’Étienne Harding), en raison de leur proximité idéologique avec le mouvement bourguignon (désert, pauvreté), mais les premières tentatives d’incorporation n’eurent lieu qu’au milieu du XIIe siècle et se soldèrent souvent par des échecs ; ce ne fut qu’au tournant des XIIe et XIIIe siècles que le pape Innocent III imposa l’affiliation de Cadouin à Pontigny39. S’agissant de Lafões, il importe de garder à l’esprit que les ermites furent installés par l’évêque de Porto João Peculiar sur une terre lui appartenant, peu avant 1137. Or, de toute évidence, ce fut le même João Peculiar, devenu archevêque de Braga, qui profita d’un séjour en France, à Tours, pour obtenir du pape Alexandre III une série de privilèges, dont celui qui concernait Lafões40. Ce fut donc certainement sous l’autorité et la responsabilité du prélat – et non donc de Clairvaux – que l’ermitage fut réformé en s’inspirant du modèle cistercien41. L’incorporation formelle de São Cristóvão de Lafões ne se fit donc qu’une soixantaine d’années plus tard, dans un contexte qui reste à préciser. * Les exemples qui précèdent invitent à souligner trois points en conclusion : Tout d’abord, il faut insister sur le fait que Brito, Manrique et Janauschek ont présenté une vision complètement faussée de la formation de l’ordre cistercien, en ne prenant en compte que de façon très partielle les incorporations de communautés préexistantes : Janauschek a ainsi considéré à raison Savigny, Furness, Les Châtelliers, Carracedo ou encore Monfero comme des communautés intégrées, mais il s’est trompé sur Cadouin et Lafões ; ses raisonnements sont souvent contradictoires et ses conclusions totalement biaisées. Dans toute la façade atlantique de l’Europe, comme dans les régions méditerranéennes, deux ensembles où les affiliations de communautés déjà existantes furent, de très loin, bien plus nombreuses que les fondations ex nihilo, la chronologie des fondations et des affiliations est à reprendre complètement, au cas par cas, sans chercher à gommer les incertitudes que l’état des archives ne permet pas de lever. Dans cette perspective, contrairement à ce que pensait Maur Cocheril42, il importe de s’intéresser aux tabulæ abbatiarum. Certes, comme les pages qui précèdent l’ont GRELOIS – ”Qu’avait Cadouin de cistercien”, art. cit. ERDMANN – op. cit., n° 61. L’éditeur avait d’ailleurs remarqué que ce document avait été conservé dans le fonds de la cathédrale et que les moines n’en avaient semble-t-il jamais possédé une copie. 41 Le Languedoc offre aussi des exemples comparables : en particulier, le prieuré féminin du Vignogoul fut réformé par l’évêque de Maguelone dans les années 1170 selon le modèle cistercien, avant d’être rattaché à l’ordre par le pape en 1245 : GRELOIS, Alexis – Note sur les caractéristiques institutionnelles des cisterciennes du Languedoc (milieu du XIIe-début du XVIe siècle), Alvergnat, Marion, Demarthe, Sylvain et Mallet, Géraldine, éd., Moniales cisterciennes de Méditerranée occidentale (XIIe-XVIe siècle). Histoire, histoire de l’art, archéologie, mise en perspective, Saint-Guilhem-le-Désert, Guilhem, 2017, pp. 15–54, en particulier 34 et 39. 42 « On ne peut s’appuyer sur les tables de Cîteaux. Trop souvent elles se contredisent et s’annulent mutuellement, et d’ailleurs la valeur de ces tables, comme celle de n’importe quel document, doit être vérifiée » (COCHERIL – op. cit., p. 179). 39 40 160 LES CATALOGUES D'ABBAYES ET LA CHRONOLOGIE DE L'EXPANSION CISTERCIENNE DANS L'OUEST DE L'EUROPE (XIIe-XIIIe SIÈCLES) prouvé, il est impossible de prendre à la lettre leurs données ; mais il convient de comprendre la construction de chacune de ces données pour révéler les circonstances et les enjeux de pouvoir qui y ont présidé ; à son tour, cette opération de décryptage peut faire émerger des informations précieuses sur l’évolution des communautés. Enfin, cette reconsidération nous amène à appeler à un changement radical de regard sur l’ordre cistercien et ses monastères. Cadouin exista pendant plus de quatre-vingtcinq ans avant d’entrer dans l’ordre cistercien, Lafões au moins autant, Sobrado en Galice près de deux siècles, Carracedo encore davantage. Or les historiens, les historiens de l’art ou les archéologues se sont trop longtemps contentés de se focaliser sur l’arrivée (parfois réelle, souvent fantasmée) de moines venus de Clairvaux, de Pontigny ou de Cîteaux, ils ont trop longtemps cherché à voir dans les abbatiales cisterciennes d’Angleterre, d’Aquitaine, de Castille ou du Portugal de simples répliques de leurs homologues bourguignonnes ou champenoises, et ils ont réduit l’analyse de leur fonctionnement économique à la seule importation d’un modèle fondé sur l’exploitation des convers dans le cadre de granges. Il est temps désormais de s’intéresser à l’histoire longue des communautés locales, avant, pendant et après leur intégration à l’ordre, au lieu de les vouloir a priori cisterciennes dès les premiers temps43. Autrement dit : c’est une richesse que de ne pas avoir été dès l’origine la transposition d’un modèle importé ; ou encore : il ne devrait pas être honteux pour une abbaye cistercienne de ne pas avoir été fondée par saint Bernard. Bibliographie BRITO, Bernardo de – Primeira parte da chronica de Cister, Lisbonne, Pedro Craesbeeck, 1602. BIRCH, Walter de Gray – “On the Date of Foundation Ascribed to the Cistercian Abbeys in Great Britain”, in Journal of the British Archaeological Association, 26, 1870, pp. 282-292 et 357365. CANIVEZ, Joseph-Marie – Statuta capitulorum generalium Ordinis Cisterciensis ab anno 1116 ad annum 1786, 8 vol., Louvain, Bibliothèque de la Revue d’histoire ecclésiastique, 19331941. COCHERIL, Maur – Études sur le monachisme en Espagne et au Portugal, Paris-Lisbonne, Les Belles Lettres-Livraria Bertrand, 1966. DE VISCH, Charles – Bibliotheca Scriptorum Sacri Ordinis Cisterciensis, Douai, Jean Serrurier, 1649. Citons un exemple parmi tant d’autres de l’impossibilité pour une certaine historiographie à envisager un passé non-cistercien pour les communautés auxquelles elle s’intéresse : DAILLEZ, Laurent – Escaladieu, Abbaye Cistercienne, Tarbes, chez l’auteur, 1990, p.14, selon qui cette abbaye pyrénéenne « fut un monastère directement fondé par l’Ordre et ne fut jamais affilié ou incorporé en 1142 comme cela fut écrit. Dès sa fondation, le monastère de Bigorre fit partie de ce grand mouvement qui bouleversa la vie sociale, artistique voire même intellectuelle et institutionnelle du monde médiéval dans son ensemble… » 43 161 ALEXIS GRÉLOIS DUBOIS, Jacques – “Les Ordres religieux au XIIe siècle selon la Curie romaine”, in Revue Bénédictine, 78, 1968, pp. 283-309. ERDMANN, Carl – Papsturkunden in Portugal, Berlin, Weidmann, 1927. FERNANDES MARQUES, Maria Alegria – Claraval e Portugal : uma relação de séculos, Baudin, Arnaud et Grélois, Alexis, éd., Le temps long de Clairvaux. Nouvelles recherches, nouvelles perspectives (XIIe-XXIe siècle), Paris-Troyes, Somogy-Conseil départemental de l’Aube, 2016, p.89-104. GRELOIS, Alexis – “Au-delà des catalogues : pour une étude à frais nouveaux de l’expansion cistercienne dans la France de l’Ouest”, in Annales de Bretagne et des pays de l’Ouest 120/3, 2013, pp. 171-187. GRELOIS, Alexis – ”Qu’avait Cadouin de cistercien au XIIe siècle ?”, in Mémoire de la Dordogne. Revue des Archives Départementales de la Dordogne, 25, 2015, pp. 4 21. GRILLENBERGER, Otto – Die Catalogi abbatiarum Ordinis Cisterciensis. Nachträge zu Dr. L. Janauscheks Originum Cisterciensium tomus I. I. Die Gruppe BI und P, Vienne, Alfred Hölder, 1904. HELIAS-BARON, Marlène, “Chronologie des quatre premières filles de Cîteaux. La Ferté-surGrosne, Pontigny, Clairvaux et Morimond”, in Hypothèses : travaux de l’École doctorale d’histoire de l’Université de Paris I-Panthéon Sorbonne, 7, 2003, pp. 181-194. 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WADDELL, Chrysogonus – Twelfth-Century Statutes from the Cistercian General Chapter, Brecht, Cîteaux-commentarii cistercienses, 2002. 162 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE SANTA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ* Introducción En el presente estudio ofrecemos el estudio diplomático y la edición de seis documentos que pertenecieron a lo que en su día fue el archivo del monasterio de Santa María de Lapedo, conocido desde mediados del siglo XIII como Santa María de Belmonte (Asturias, España). La cronología de este corpus se extiende desde 1415 hasta 1499. La muestra, pese a lo reducida, cobra mayor interés pues, para un período de tiempo en el que el número de diplomas de que disponíamos del fondo documental del monasterio era sensiblemente inferior a lo conocido para centurias precedentes1, esta aportación nos permitirá ahondar en los caracteres del archivo de la institución en la Baja Edad Media. Por tanto, se presentan en las siguientes páginas la edición de estos documentos, que se encontraban inéditos. Se analizan los tipos gráficos con que los mismos fueron ejecutados y se observa la génesis documental. Estado de la cuestión En primer lugar, he de referirme a aquellas investigaciones que se han realizado sobre la documentación del monasterio asturiano con anterioridad. Entre estas, destaca la llevada a cabo por insignes personajes como Jovellanos, quien en los últimos años del * Universidad de Oviedo Si nos atenemos a los documentos publicados por FERNÁNDEZ MIER, Margarita – Documentos del Monesteriu de Balmonte (sieglu XIII), Oviedo: ALLA, 1995; IDEM – Documentos del Monesteriu de Balmonte (sieglos XIV y XV), Oviedo: ALLA, 2001; para la segunda mitad del siglo XIII se conocen 80 y para la primera mitad del siglo XIV, 84. En cambio, para la segunda mitad del siglo XIV hay 52 documentos, y para el siglo XV, apenas 27 para el primer medio de siglo y aún menos, 10, para el segundo. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 163-184 163 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ siglo XVIII transcribió o regestó, junto a su secretario José Acevedo Villarroel, algunas piezas documentales, principalmente las otorgadas por los reyes2. Ya en el siglo XX fue Antonio Floriano Cumbreño quien comenzó la edición crítica de la colección documental del monasterio para el período plenomedieval, desde la fundación hasta el año 12303. Esta labor la continuó la profesora Sanz Fuentes ofreciendo el catálogo de diplomas desde esta última fecha hasta 12604. Tras ellos, Margarita Fernández Mier ha editado desde un punto de vista filológico la inmensa mayoría de pergaminos de la abadía, comprendidos entre los siglos XIII y XV5, mientras que Ana Fernández Suárez ha dado a conocer un documento conservado en el archivo de la familia Miranda-Valdecarzana6 y Adolfo García Martínez ha ofrecido la transcripción de una carta de encomienda que para en manos de particulares7. Agustín Hevia ha publicado un inventario elaborado en el siglo XIX con documentos del archivo, en buena medida conocidos ya para entonces8. Finalmente, Guillermo Fernández Ortiz ha recuperado una copia simple de un diploma del año 1367 y ha dado cuenta de los documentos desaparecidos a partir de las noticias dejadas en la documentación moderna9. Fuentes De los seis documentos que presentamos, cinco de ellos se conservan en el Archivo Histórico Nacional, entre los fondos del monasterio depositados en la sección Clero Regular, y que abarcan una horquilla cronológica que va desde 1422 hasta 1499. De ellos tres son originales y dos son copias simples del siglo XVI. Todos están realizados BALLESTEROS GAIBROIS, Manuel – Colección de Asturias reunida por D. Gaspar Melchor de Jovellanos, Tomo 2, Madrid, Gráficas Reunidas, 1948, pp. 201-272. 3 FLORIANO CUMBREÑO, Antonio – Colección diplomática del monasterio de Belmonte, Oviedo: IDEA, 1960. 4 SANZ FUENTES, María Josefa – “Documentos del Monasterio de Belmonte (1231-1263). Catálogo”, in Asturiensia Medievalia, 6, 1991, pp. 177-203. 5 FERNÁNDEZ MIER, Margarita – Documentos del Monesteriu de Balmonte (sieglu XIII), Oviedo: ALLA, 1995; IDEM – Documentos del Monesteriu de Balmonte (sieglos XIV y XV), Oviedo: ALLA, 2001. 6 FERNÁNDEZ SUÁREZ, Ana – Teverga, un concejo de la montaña asturiana en la Edad Media, Oviedo: RIDEA, 1992. 7 GARCÍA MARTÍNEZ, Adolfo – Los vaqueiros de alzada de Asturias: un estudio histórico-antropológico, Oviedo: Consejería de Educación, Cultura y Deportes, 1988. Documento 1. 8 HEVIA BALLINA, Agustín – “Un inventario de documentos que formaron parte del Archivo del Monasterio Cisterciense de Santa María de Lapedo en Belmonte”, in Studium Ovetense: Revista del Instituto Superior de Estudios Teológicos del Seminario Metropolitano de Oviedo, 25, 1997, pp. 69-94. 9 FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – “Contribución al mapa de establecimientos benéfico-asistenciales en Asturias durante la Edad Media: la malatería de La Abedul-Ambasmestas, en el concejo de Miranda”, in Boletín de Letras del Real Instituto de Estudios Asturianos, 2013, pp. 181-182; IDEM – Historia y memoria. El monasterio de Santa María de Belmonte a través de su Tumbo Nuevo, Oviedo: Universidad de Oviedo, 2017. 2 164 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) en papel. Los tres originales se hallan en uno de los legajos de papel10, mientras que las copias se encuentran embuchadas en uno de los forales del monasterio11. El documento que completa esta reducida colección está escrito sobre un soporte más clásico, el pergamino, mucho mejor conocido que el papel, sobre todo para estos momentos bajomedievales. Actualmente se encuentra en la sección Pergaminos del Archivo de la Real Cancillería de Valladolid, extraído de su pleito de referencia. Está datado en 1415 y es también un documento original12. En cuanto a la lengua es, como es lógico para estos tiempos avanzados del medievo astur, el romance13. El papel y su pérdida en Asturias El soporte mayoritario de este conjunto documental nos permite ahondar en otra cuestión de importancia en la región cantábrica, como es la pérdida del papel en Asturias para el período medieval, para el cual se conocen muy pocos ejemplares en contraposición con otros marcos geográficos nacionales en las cronologías que estamos manejando14. Esto, además, se manifiesta también en otros espacios peninsulares15. Un lamento recurrente entre los medievalistas es la disgregación de los archivos eclesiásticos y la pérdida, por ende, documental. Tradicionalmente, se ha defendido este proceso a partir de la responsabilidad que se le ha echado a las desamortizaciones del XIX, pero esto no debe entenderse así pues ya existen referencias en época moderna de la pérdida de documentación en los archivos monásticos16. Esto ocurre, por ejemplo, en Santa María de Obona (Asturias), donde Ambrosio de Morales anotó que “la casa ha sido quemada y saqueada y así no hay libros, ni escrituras, ni reliquias, sino unas menudas que están encerradas en un arca guarnecida de plata”17. Archivo Histórico Nacional, Clero Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 4937. Archivo Histórico Nacional, Clero Regular. Belmonte. L. 8752, fol. 212. 12 Archivo de la Real Chancillería de Valladolid. Pergaminos. Carpeta 76, 7. 13 SANZ FUENTES, María Josefa – “De la vida y de la muerte: cuatro documentos asturianos del siglo XIII”, in Revista de filoloxía asturiana, 3-4, 2003-2004, p. 241. 14 Llama la atención sobre lo tardío del inicio de las series documentales en papel conservadas en Asturias M. Calleja Puerta en CALLEJA PUERTA, Miguel – “El patrimonio documental de asturias: definición, proceso formativo e historia de su conservación, in Boletín de Letras del Real Instituto de Estudios Asturianos: Año LXI, 169, 2007, pp. 117-118. 15 Muestra este problema M. J. Sanz Fuentes en contraposición con la excelente conservación en papel de los documentos de Écija en SANZ FUENTES, María Josefa – Escrituras y concejo: Écija, una villa de realengo en la Frontera (1263-1400), Sevilla, Universidad de Sevilla, 2016, p. 18. 16 Ha analizado los destinos del fondo medieval de Belmonte durante la modernidad y en época contemporánea FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – Historia y memoria. El monasterio de Santa María de Belmonte a través de su Tumbo Nuevo, Oviedo: Universidad de Oviedo, 2017, p. 553. 17 SANZ FUENTES, María Josefa – “Documentación medieval del Monasterio de Santa María de Obona en el Archivo Histórico Diocesano de Oviedo”, in Asturiensia medievalia, 8, 1995-1996, p. 291. 10 11 165 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ Por lo tanto, entran en juego para la no conservación de los documentos múltiples factores a pesar de que, para los documentos de mayor trascendencia, se realizaban copias para evitar su pérdida. Además, contamos con muy pocos estudios al respecto, no solo para Asturias, sino también en relación con la edición de fuentes de los monasterios cistercienses castellanos, para el siglo XV apenas publicadas aún. Si volvemos a la cuestión de esa escasez documental en papel en Asturias para el período bajomedieval, esto puede deberse a los más importantes problemas de conservación que presenta frente al pergamino, más resistente al paso del tiempo y a una climatología desfavorable. Además de ello, habría que incluir la resistencia por parte de los clérigos a utilizar este nuevo soporte, conocido desde el siglo XIII. Así, ejemplo de ello puede ser el caso de una carta “escripta en papel e seellada de so seello” de don Pedro Ponce, adelantado mayor por el rey en la Frontera, datada a finales del siglo XIII; cuyo contenido fue trasladado a pergamino por petición de los religiosos de Belmonte, conservándose únicamente la copia. Esto nos permite observar ese valor que seguía manteniendo el pergamino18 y el miedo existente entre los usuarios por la perduración de un material que ofrecía menos vida que el soporte tradicional19. Sin embargo, y a pesar de observarse con claridad que aquellos documentos realizados en papel, además de sus problemas de conservación, presentaban resistencias por parte de los monjes del cenobio a su utilización en pos de continuar con el soporte tradicional, sea, el pergamino; para este siglo se cuenta con referencias del propio monasterio que muestran la preocupación archivística de los cistercienses, así como la designación de un espacio propio para la guarda de escrituras20. Tipologías documentales Con respecto a la tipología documental de las seis escrituras, estos diplomas a los que nos referimos contienen negocios jurídicos entre particulares que incluyen constantemente entre los actores al monasterio de Belmonte, encontrando entre estos un foro, una carta de donación, dos cartas de desembargo, una compra-venta y otro documento que se corresponde con un testamento con mandas en favor de la abadía. Por lo general, son documentos que mantienen relación con otros actos documentados con anterioridad; documentos intitulados por personas relacionadas por lazos fami18 FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – Historia y memoria. El monasterio de Santa María de Belmonte a través de su Tumbo Nuevo, Oviedo: Universidad de Oviedo, 2017, p. 555. 19 CALLEJA PUERTA, Miguel – “El patrimonio documental de Asturias: definición, proceso formativo e historia de su conservación”, in Boletín de Letras del Real Instituto de Estudios Asturianos: Año LXI, 169, 2007, p. 114. 20 Sobre la producción y la conservación documental en Belmonte desde la fundación hasta los momentos anteriores a la Reforma de mediados del XVI, FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – “El archivo del monasterio cisterciense de Nuestra Señora de Belmonte (Asturias, España) en vísperas de la Reforma (1560)”, in Espacio, Tiempo y Forma, 32 (en prensa). 166 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) liares con antiguos benefactores del cenobio. Así, en uno de estos documentos Rodrigo Colado de Somiedo, difunto marido de María Alfonso de Villar de Vildas, había dejado en su testamento una serie de bienes al monasterio de Belmonte, algo que también nos permite observar el marco geográfico que se encontraba bajo la órbita del cenobio cisterciense en la zona suroccidental de Asturias. Los documentos ofrecidos van referidos a propiedades localizadas en los actuales concejos de Belmonte, Teverga y Somiedo. Si atendemos a las diferentes notas archivísticas que se encuentran en el vuelto de algunos de estos documentos, ello nos indica la preocupación en distintos momentos por tener ordenados y controlados los diferentes escritos que poseían su importancia dentro de la órbita del cenobio belmontino. Así, es fray Bernardo Escudero21 quien, en 1604, regesta alguno de los ejemplos que aquí presentamos, habiendo incluso unas notas anteriores de finales del XVI22. Si nos adentramos ya en el siglo XIX, del período de las desamortizaciones también pueden intuirse algunas pequeñas notas con el fin de agrupar los documentos en función al monasterio al que pertenecían, por lo que la preocupación archivística continuó, aunque ahora con otros fines muy diferentes a los que tenían los monjes durante el Medievo y la Modernidad. Es también posible añadir que las anotaciones de época moderna se pudieron deber a un momento en el que la desorganización del archivo de Belmonte obligó a algunos de los eclesiásticos a tratar de buscar una solución para que los documentos del monasterio no desapareciesen y, con ello, la justificación de su patrimonio. En lo que toca a la génesis de cada uno de los documentos, nos encontramos bajo las condiciones normales de cada una de las tipologías, a excepción del testamento de Lope de Vigaña de 1467, ya que tuvo que ser autorizado ante el juez del concejo. Esto, según se nos informa en el documento, se debe a que el testador, ante la ausencia de escribano público ante el que otorgar testamento, hubo de recurrir al concurso de testigos. Luego, hubo de acudirse ante notario, siendo imprescindible la presencia de una autoridad mayor. En relación a los redactores de estos documentos, es decir, los escribanos públicos; estos aparecen en todos los casos con la mención completa al cargo que ocupan, escribano de nuestro señor el rey y su notario público en la su Corte y en todos los sus reinos y señoríos; mientras que en el documento restante aparece con la fórmula notario público d[el rey en el] conçello de Miranda, siendo por tanto escribano del número de dicho lugar 23. Esto no dista de lo que ofrece el conjunto documental del siglo XV recogido para Belmonte, donde hasta la primera mitad del Cuatrocientos es mayoritaria la aparición de escribanos públicos del número en los documentos conservados, mientras que, a partir de 1450, la presencia de notarios públicos del rey en la corte, reinos y señoríos auSobre este personaje FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – “Fray Bernardo Escudero y los usos de la escritura en un claustro cisterciense a finales del siglo XVI” (en prensa). 22 Documento 2. 23 Documento 1. 21 167 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ menta hasta ser la predominante24, algo que ya apuntara A. Canellas López, al ser frecuentes en la zona norte peninsular25. Con respecto a la estructura documental de los seis casos expuestos, la forma de cada uno presenta algunas peculiaridades, aunque generalmente se mantiene la estructura canónica conocida para cada tipología. Por lo tanto, entraremos con mayor profundidad en las diferencias que presentan más que en las similitudes. Lo que se repite de manera continuada, y que merece una mención, como es habitual y lógico, es la aparición del notario público del rey, notariado de tipo romanista desde su introducción en la segunda mitad del siglo XIII durante el reinado de Alfonso X26. Si observamos ahora brevemente lo referido a la impaginatio, vemos cómo Álvaro Suárez realiza escrituras durante las dos primeras décadas del siglo XV alternando la escritura en paralelo al lado corto o al lado largo, tal y como vemos fijándonos en otros documentos suyos conservados en el archivo monástico; mientras, del resto de escribanos no podemos realizar análisis alguno pues los documentos que presentamos están escritos en papel y el resto de los conocidos de su quehacer lo fueron sobre pergamino. Solo hay un caso, que es el de la copia de 1470, que presenta una invocación monogramática al inicio del texto. Otros dos ejemplos presentan una notificación al estilo de “Sepan quantos esta carta vieren”. También se reproduce no de manera continuada la presencia del juez del concejo, al igual que el nombre del abad, pues hay ocasiones en las que se presenta al monasterio en su conjunto sin especificar un individuo concreto. El documento en que se contiene el testamento presentado ante juez comienza por la data tópica y no por la invocación verbal típica de las últimas voluntades, dado en este caso el modo de su otorgamiento ante la justicia local. En el escatocolo, la relación de testigos y de individuos laicos que aparecen en los documentos se corresponde con el ámbito rural, como hemos dicho anteriormente, de los actuales concejos de Belmonte, Somiedo y Teverga, siendo no menos habitual en estos ejemplos documentales la presencia tanto de hombres como de mujeres, aunque en circunstancias peculiares en el segundo de estos grupos. En lo referido al número de testigos que aparecen en los documentos, podemos observar que todos ellos cumplen la normativa alfonsí, encontrándose en todos los casos mostrados dos escribanos públicos o tres “hombres buenos”, mientras que en el ejemplo del testamento sigue cumpliéndose la legislación impuesta por Alfonso X en el siglo XIII con la existencia de siete testigos del acto testamentario. El foro que presentamos es el ejemplar que correspondía a las partes y no el que hubo de custodiar el monasterio en su archivo. Por esto, además del signo del notario SANZ FUENTES, María Josefa – “El monasterio de Valdediós, espacio para la escritura”, in Mosteiros Cistercienses. História. Arte. Espiritualidade, 3, 2013, p. 215. 25 CANELLAS LÓPEZ, Ángel – “El notariado en España hasta el siglo XIV: estado de la cuestión”, in Notariado público y documento privado: de los orígenes al siglo XIV: actas del VII Congreso Internacional de Diplomática, 1, 1989, p. 112. 26 SANZ FUENTES, MARÍA JOSEFA – “De la vida y de la muerte. Cuatro documentos asturianos del siglo XIII”, in Revista de filoloxía asturiana, 3-4, 2003-2004, p. 241. 24 168 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) contaba como elemento de validación con los saellos de nos los dichos abbad e prior e conviento27. Desconocemos la entidad de este sello, pues en la plica únicamente se observan los tres orificios (en estrella) por los que pasaba el enlace que sujetaba el sello pendiente. No sería extraño pensar que se tratase del mismo sello en caxa de çera pendiente con cuerdas segund costumbre del dicho monesterio28. En relación con las características escriturarias de los documentos, los originales presentan una escritura de tipo gótico que abarca desde la escritura cursiva redonda usual hasta la redonda corriente, denominada como currens por la profesora Sanz Fuentes29. En el primero de los tipos, es decir, en la gótica cursiva redonda usual, pueden observarse características como los trazos más continuos que en los siglos anteriores, la forma más globular de la s sigma y envolventes de letras como la i, la q o los trazos finales de la m y n sobre sílabas o palabras30. En este caso, correspondiéndose con lo que se entiende como escritura cortesana, extendida en Castilla desde la segunda mitad del siglo XV31, y que tendría más relación con documentos realizados en cancillerías u otros oficios escriturarios como notarías32. Además, nos encontramos con que la línea de validación del notario pertenece a un estilo escriturario gótico absolutamente de tipo corriente. Con respecto a la escritura gótica cursiva redonda currens, a pesar de tener las mismas características que en los casos más usuales, difieren en su lugar de realización, relacionándose con los registros de cancillería de la época, los protocolos notariales, libros administrativos y libros de notas rápidas33. Si nos referimos a las copias de esta colección, realizadas probablemente en el siglo XVI, observamos que la escritura se corresponde con una humanística, visible a partir de características como el redondeamiento de la escritura; el aumento del módulo; la caligrafía diferente de la g, muy característico de la misma34; una cierta herencia carolina, Documento 1. Se ha ocupado de este particular FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – Historia y memoria. El monasterio de Santa María de Belmonte a través de su Tumbo Nuevo, Oviedo, Universidad de Oviedo, 2017, pp. 274-275. 29 SANZ FUENTES, María Josefa – “La escritura gótica documental castellana”, in Paleografía. II, Las escrituras góticas desde 1250 hasta la imprenta, Oviedo, Universidad de Oviedo, 2010, pp. 119-121. Revisar página. 30 SANZ FUENTES, María Josefa – “La escritura gótica documental castellana”, in Paleografía. II, Las escrituras góticas desde 1250 hasta la imprenta, Oviedo, Universidad de OViedo, 2010, pp. 119-121. 31 CUENCA MUÑOZ, Paloma – “La escritura gótica cursiva castellana: su desarrollo histórico” in III Jornadas Científicas sobre Documentación en la época de los Reyes Católicos, Madrid, Universidad Complutense de Madrid, 2004, págs. 23-24. 32 SANZ FUENTES, María Josefa – “La escritura gótica documental castellana”, in Paleografía. II, Las escrituras góticas desde 1250 hasta la imprenta, Oviedo, Universidad de OViedo, 2010, pp. 121. 33 Ibídem. 34 CAMINO MARTÍNEZ, Carmen del, CONGOSTO MARTÍN, Yolanda – “Lengua y escritura en la Sevilla de fines del XV: confluencia de normas y modelos”, in Historia. Instituciones. Documentos, 28, 2001, p. 12. 27 28 169 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ que se observa en letras como la s; así como la escasez de ligaduras y nexos salvo en los conjuntos st y ct, también de tradición carolina. Conclusión A modo de conclusión, hemos determinado que la tipología documental se corresponde principalmente con asuntos de carácter jurídico entre particulares donde, salvo en un caso, siempre aparece como parte implicada el monasterio de Belmonte; que el soporte mayoritario de los mismos sea el papel supone una mayor anomalía que si se presentaran en pergamino por la pérdida documental de este primer soporte por los problemas de conservación, debido a diferentes factores, que ha llevado a que sea un elemento extraño en la documentación asturiana anterior al siglo XVI; y que el tipo escriturario predominante, salvando las copias realizadas en el Quinientos, es una gótica cursiva que no refleja solemnidad con respecto a lo que significan los documentos y que la mano de los redactores rurales era más descuidada que en zonas urbanas. 170 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) Documentos -11415, febrero, 24, domingo.- Belmonte, monasterio de Santa María. Fray Arias, abad del monasterio de Belmonte, y la comunidad del cenobio aforan, medio a medio, a Álvaro Rodríguez, y a su hijo Alfonso, y a Alfonso Fernández de la Torre (Villanueva de Valdecarzana) y su hijo, las propiedades que el monasterio tiene en las aldeas de Barrio (Teverga) y Cuña (Teverga) según las llevó hasta entonces Pedro Casares, por sus dos generaciones, y a cambio de un canon anual de 10 maravedís puestos a su costa en el monasterio cada san Martín de noviembre. [A].- Perdido. A’.- Archivo de la Real Chanchillería de Valladolid, Pergaminos, Carpeta 76, 7. Sepant quantos esta carta viren commo yo, don frey Arias, por la gra[cia de Dios abbad del monasterio] de Santa María de Belmonte, e frey Pedro, prior, e el conviento del dicho monasterio, siendo a[ju]ntados en nuestro cabildo per campana tanida según que lo [habemos de] uso e de costume, aforamos a vos Alvar Rodríguez, morador en la aldea de Barrio, que es en Teverga, e a vuestro fillo Alfonso, e a vos Alfonso Fernández de la Torre, [que es en] Villanueva, que es en el dicho logar de Teverga, e a vuestro fillo Rodrigo. Aforámosvos de por medio, commo dicho es, todos los heredamientos, e lla[ntados, e] suelos, e controzios, e prados e molneras quel dicho monasterio ha, e nos por él avemos, en las aldeas de Barrio, e de Cuña, e en todos sos términos, logares que [son en el] dicho logar de Teverga, [segund] que los mellor e[má]s complidamientre por el dicho monasterio levó e pos[ió] Pedro Casares, que Dios perdone, morador que [foe en la dich]a aldea de Cuña. Esto commo dicho es vos aforamos a vos los dichos Alvar Rodríguez e Alfonso Fernández, a los dichos vuestros fillos, con todos sos derech[os e pert]enençias, entradas e salidas quantas lles pertenesçe e pertenesçer deven en qualquier manera e por qualquier razón e según que los el dicho Pedro Casares [……..]mientre levó e posió por el dicho monasterio. Et aforamosvos e la una meatad dellos a vos el dicho Alvar Rodríguez e al dicho Alfonso, vuestro fillo, e aforamos [la otra] meatad a vos el dicho Alfonso Fernández, e al dicho Rodrigo, vuestro fillo, e aforámosvoslos del San Martino que ora pasó del mes de novembre del año de [mi]ll e quatroçientos e catorze años para en todos vuestros días e de los dichos vuestros fillos, por fuero e renta que nos avedes a dar e pagar en el dicho monasterio en s[alvo] en cada hun año por el día de San Martino del mes de novembre que en cada hun año for por el dicho tiempo de los dichos vuestros días e de los dichos [vuestro]s fillos diez maravedís de moneda viella a ocho soldos el maravedí o [moneda que tanto vala]. Et non nos dando nin pagando vos, los dichos Alvar Rodríguez e Alfonso Fernández e los [dich]os vuestros fillos, los dichos 171 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ diez maravedís a ocho en soldo de la dicha [moneda vi]ella al dicho plazo del San [Marti]no en cada hun año por el dicho tiempo de los dichos vuestros días e de los dichos vuestros fillos, según dicho es, que nos que [vos] podamos tomar e resçebir[…..] el dicho aforamiento e renta de los dichos bienes se quesiermos .[E] vos que nos paguedes lo que nos ende devierdes [de] todo el tiempo pasado; e nos los [dich]os Alvar Rodríguez e Alfonso Fernández en nomme [de] nos e de los dichos nuestros fillos así resçebimos de vos los dichos abbad, [e prior e conv]iento el dicho aforamiento a renta por el dicho tiempo de todos nuestros días e de los dichos nuestros fillos, la una meatad para mí, el dicho Alvar Rodríguez [e para el dich]o mío fillo Alfonso, e la otra meatad para mí, el dicho Alfonso Fernández e para el d[ic]ho Rodrigo mío fillo. Et otorgámosvos, en nomme de nos e de los dichos nuestros [fil]los, de dar e pagar bien e en paz en salvo en el dicho monasterio en cada hun [año] e al dicho plazo de San Martino que en cada un año for por el dicho tiempo [d]e los dichos nuestros días e de los dichos nuestros fillos, los dichos diez maravedís de moneda viella a ocho soldos el maravedí o moneda que tanto vala, e cada uno de nos [e por el] todo. Et nos, los dichos abbad, e prior e conviento así vos otorgamos e la dicha renta [e] aforamiento a vos, los dichos Alvar Rodríguez e vuestro fillo, Alfonso, la una meatad, e a vos los dichos Alfonso Fernández e vuestro fillo, [Ro]drigo, la otra meatad por el dicho [tiemp]o de vuestros días e de los dichos vuestros fillos en la manera que dicha [e]s. Et otorgamos de vos los non […………] a vos nin a los dichos vuestros fillos la dicha renta e aforamiento de los dichos bienes por el dicho tiempo de los dichos días de vos e de los dichos vuestros fillos por más nin por menos nin por el tanto que nos otra por ellos diese. E que porque esto sea çierto e non benga en dolda anbas las partes rogamos a Alvar Suárez, notario público d[el rey en e]l conçello de Miranda que escripvi<e>se desto dos cartas fechas en hun tenor e las signnase de so signno; e la que avedes aver vos, los dichos Al[var] Rodríguez e [Alfonso] Fernández es seellada con los saellos de nos los dichos abbad e prior e conviento. Fechas en el dicho monasterio, domingo v<e>inte e quatro días del mes d[e] febrero, año del nasçimiento del nuestro señor Ihesu Christo de mill e quatroçientos e quinze años. Testigos: Diego Álvarez, notario, e Andrés Garçía, moradores en Silviella; Fernán Iohanes, morador en Vigaña de Arzello, frey Lope, frey Menendo, monges del dicho monasterio. E yo, Alvar Suárez, notario público sobredicho fuy presente a esto e por el dicho ruego escripví esta carta para los dichos Alvar Rodríguez e Alfonso Fernández e fizo35 en ella mío [signo que es tal en testi]monio de berdat (Signum). 35 Sic pro: fize. 172 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) -21422, abril, 1, miércoles.- Belmonte, monasterio de Santa María. Diego Fernández de Miranda desembarga en favor del monasterio de Santa María de Belmonte los bienes de Vigaña de Arcello, Castañedo y Begega que su difunto padre, Diego Fernández de Miranda, había dejado en su testamento a la comunidad del dicho monasterio. A.- AHN. Clero Regular. Legajo 4937. Carpetilla papeles. Sepant quantos esta carta vieren commo yo, Diego Fernández de Miranda, fillo de Diego Fernández de Miranda et de doña Beatriz Ponz, sua muller, que Dios perdone, otorgo et connosco que do, et desenbarg[o] et ofresco al altar e relicas del monasterio de Santa María de Belmonte, et al abbad, e prior, e monges e convento dél, todos los heredamientos, e techos, e lantados, et montes, et prados et pastos quel dicho Diego Fernández de Miranda, que Dios perdone, mío padre, avía, e [a]ver devía et le pertenesçían en la aldea de Vigaña de Arzello e en sos términos, et en la aldea de Vejega, et en la aldea de Sancta María de Castañedo, et en sos términos, aldeas [et] términos que son del conçello de Miranda. Et estos dichos bienes, e heredamientos, e techos, e lantados, e prados et pastos de susodichos do, e dono, e desenbargo e ofresco al dicho altar de Sancta María, e al abbad, e prior e convento dél, segund et en la manera que lles lo etl dicho Diego Fernández de Miranda, mío padre, dexó por su testamiento por Dios e por su ánima, et de mía madre e de mis hermanos, que Dios perdone, salvo a presentaçión de egl[esia e] señorío de río. Et estos dichos bienes les do, e desenb[ar]go e ofresco por desencargar sus ánimas de los dichos mío padre et madre, et por complaser su veluntad. Et deste día de oy que esta carta de desenbargo de mí es otorgada. Et por esta dicha carta les do e otorgo etl juro, e la posisión e etl señorío paçíficamiente de los dichos heredamientos, et techos, e lantados, e prados, e pastos e montes quel dicho Diego Fernández avía en las dichas aldeas de Vigaña, e de Vejega e de Castañedo e en sos términos, e de cada una dellas, et de cada causa e parte dellos para que sean suyos libres, e quitos e desenbargados del dicho monasterio de Santa María de Belmonte e abbad, e prior, et monjes e convento agora et para siempre jamás con la carga que lles lo dexó etl dicho Diego Fernández, mío padre. Et por esta carta mando e digo a qualquier o qualesquier personas que tengan o lieven e labren los dichos bienes que los dexen, e den e desenbarguen al dicho monasterio, et al abbad, e prior et monges dél. Et sy neçesario es yo por esta dicha carta do poder al dicho abbad, e prior e convento para que ellos o qualquier dellos en su nombre puedan entrar e tomar los dichos bienes, et la tenençia et posisión dellos et de cada causa e parte dellos syn otro mandamiento de juyz nin de alcalle nin de otra justiçia que sea. Et ellos, asý puestos e apoderados en los dichos bienes, e tenençia e pusisión dellos, pido e ruego a qualquier juyz, o alcalle, o me<r>yno 173 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ [u] otra justiçia qualquier, asý eclesiásticos commo seglares, que los defiendan et amparen con estos dichos bienes et con los [……] e rentas dellos para sienpre jamás. Et obligo a mí e a mis bienes muebles e raýses de vos defender e anparar estos dichos bienes al dicho monesterio, et al abbad, e prior, e monges e convento dél de qualquier otro mío hermano o heredero que los de[…]de o enbargue todos o parte dellos agora et para sienpre jamás. Et si etl dicho monasterio, et abbad, e prior e convento dé[l] sobre ellos fueren demandados o sobre parte dellos de tomar etl pleito e la voz por ellos et todavía defenderlos con la tenençia, e pusisión e renta de los dichos bienes et de cada parte dellos, por mí e por los otros mis bienes. Et porque esto sea çierto e non venga en duda, otorgué esta carta deste desenbargo ante Sancho Fernández de Vello, escrivano de nuestro señor etl rey e su notario público en la su corte, e en todos los sus regnos, al qual rogué que la escriviese o feziese escrivir et la signase de so signo. Que fue fecha et otorgada en el monasterio del dicho lugar de Santa María de Belmonte, miércoles, primero día del mes de abril, año del nasçimiento del nuestro señor Ihesu Christo de mill e quatroçientos et veynte e dos años. Testigos que para ello fuer[o]n llamados e presentes: Alvar Menéndez de Agüera, et Rodrigo Álvarez, clérigo, et Diego Fernández de Corés, et Diego Pérez de La[n]io et otrosý. Et yo, el dicho Sancho Fernández, escrivano e notario público sobredicho fuy presente a esto que dicho es en uno con los dichos testigos, e a ruego e pidimiento del dicho Diego Fernández de Miranda escriví esta carta deste desenbargo e fize en ella este mío signo tal en testimonio (Signum) de verdat. //1v.º Notas: S. XVI y 1604 para la adición: >Desembargo y nueva< donatión de Diego Fernández de Miranda, de la facienda que tenía en Bigaña de Arzello, y Castañedo36 >y Vexega<. 1604: Castañedo. Castañedo, y Bigaña de Arçello y Vexega. >142237<. Número (en blanco). s. XVII: Año de 142238. s. XIX: Monasterio de Belmonte. Concejo de Miranda. Castañedo, Bigaña de Arcello y Vejega. Año de 1422. Donación de Diego Fernández de Miranda. Corregido sobre Castañera. Corregido sobre 1432. 38 Corregido sobre 1432. 36 37 174 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) -31467, octubre, 12, lunes.- Vigaña (Miranda)39. Testamento de Lope González de Vigaña, hijo de Marcos Fernández. A.- AHN. Clero Regular. Legajo 4937. Carpetilla papeles. //2r.º En la aldea de Vigaña, que es en el conçejo de Miranda; lunes, doze días del mes de otubre, año del nasçimiento de nuestro señor Ihesúchristo de mill e quatroçientos e sesenta e siete años. En presençia de mí, Juan P<e>láiz de Vello, escribano de nuestro señor el Rey e su notario público en la su corte e en todos los sus regnos e señoríos, e de los testigos, adelante serán escriptos, e por ante Juan Arias de Vegega, juez en el dicho conçejo por el dicho señor Rey, paresçió asý de presente antel dicho juez frey Gonçalo, prior del monesterio de Santa María de Velmonte, e dixo al dicho juez que así era, que Lope González de Vigaña, fijo de Marcos Fernández, que Dios aya, pasara deste mundo para el otro avrá espaçio de siete ocho días poco, más o menos, tienpo e que jaziendo flaque antes que moriese feziera e ordenara su testamiento por ante testigos, non podiendo aber notario porque lo feziese, los dichos testigos dixeron que foran frey Pedro de Restie<l>llo, monge del monesterio de Santa María de Velmonte e Juan Alfonso de Vigaña, e Pedro González de San Martyno, e Lope Suárez de Vigaña que estaban presentes, e Juan Marcos, capellán de san Martyno de Ondes, que era absente, e por quanto el dicho testamiento le pertenesçían algunas claúsolas dél que pedía e pedió al dicho juez que tomasen e resçibiesen juramiento de los sobre dichos testigos e de cada uno dellos en forma debida, derecho e so virtud del dicho juramiento, e les mandase escripvir e declarar por mí, el dicho notario, el dicho testamiento del dicho Lope González e asý escripto e declarado mandase a mí, el dicho notario, //2r que diese el treslado del dicho testamiento uno o dos om[..] los que le conpliese escripto e signado de mío signo en públi[ca] forma al qual treslado o treslados que le yo asý diese en que pusiese su decreto e abto judiçial, e si lo el dicho juez así feziese que faría bien e derecho en otras maneras que protestaba, e protestó, quel dicho juez e sus bienes le fosen tenidos a diez mill maravedís en que estimaba los dichos bienes, e el dicho juez dixo que negaba e negó sus protestaciones e estimaciones, e que non consentía en ellas e toma e resçibió luego juramiento de los dichos Juan Alfons<o>, e Lope Suárez, e Pedro González que estaban presentes, e de cada uno dellos e del dicho frey Pedro sobre las sus manos sagradas e de Como hoja de guarda se utilizó un papel en el que se recoge el siguiente texto: “a sábado diez de diciembre de MCDLXVIII, a la tarde, antel señor bachiller, Juan Álvarez, vicario, fue presentado por el dicho Fray Gonzalo, prior de Velmonte, pasó la apresentaçión. Esta por registro de este día e abdencia una sentencia que pasó ante el dicho prior y García González de Vejega, que pasó por mí, Juan Fernández de [….], escribano. Juan Fernández, escripvano (R)”. 39 175 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ los dichos Juan Alfonso, e Lope Suárez, e Pedro González, e de cada uno dellos juraban a Dios, e a Santa María, e a esta signal de cruz (+) que con sus manos derechas tanieron corporalmiente e de la[s] palabras de los santos abangelios, donde quiera que están, que ellos e cada uno dellos declararán e escripvirán por mí, el dicho notario, el dicho testamiento quel dicho Lope González feziera e ordenara e segund lo él ordenara e feziera, e que non ponían en él nin menguaran más nin menos salvo segund lo el dicho Lope González feziera e ordenara bien e lealmiente e sin engaño, e que non farían en él encobierta nin fraude e si lo ellos e cada uno dellos asý feziesen e dixiesen que Dios, que era padre poderoso, los ayudasen en este mundo a los cuerpos e en el otro mundo a las ánimas a do más avían a durar e si feziesen lo contrario e non //3v [di]xiesen la verdad que Dios, que era padre poderoso, los con [.](…) en este mundo los cuerpos e en el otro las ánimas, ansí como aquellos que juran en so santo nombre e se perjuran a sabiendas, e los dichos frey Pedro, e Suer Alfonso, e Lope Suárez, e Pedro González, e cada uno dellos f[ecie]ron el dicho juramiento en la dicha forma, e cada uno dellos dixieron así lo juramos, e respondieron, e dixieron amén, e prometyeron de disir verdad. E luego el dicho juez dixo que mandaba e mandó a los dichos testigos e a cada uno dellos que se apareciesen a un cabo conmigo, el dicho notario, e dixiesen, e declarasen, e escripviesen el dicho testamiento e lo declarasen segund que lo el dicho Lope González feziera e ordenara por ante ellos a tienpo e paso de su finamiento e él, as[í e]scripto e declarado, lo presentasen antél e el f[…….] que con derecho debían. E luego yo, el dicho Juan P<e>láiz ap[…..] mío a un cabo con los dichos frey Pedro, e Suer Alfonso, e Lope Suárez, e Pedro González, e escripvió lo que los dichos testigos declararon del dicho testamiento, et lo que dixieron e declaron40 los dichos testigos e cada uno dellos a una voz es esto que se sigue: Dixeron quel dicho Lope González ora podía aber nuebe días, poco más o menos tienpo, del dicho mes de ottubre, e año sobredicho, e jasiendo flaque del cuerpo de la dolençia de que morió en una cama en la casa donde bebía e morara en la dicha aldea de Vigaña, e que dixiera e enviara por ellos que quería fazer testamiento //3r.º que los rogavan que fosen dél testigos del dicho testamiento […] quería faser por manera que diesen dél fe, e que lo ordenara [e] ordenó en esta manera que dixiera el dicho Lope González que mandara su alma a Dios padre, e que dexara e mandara a la Santa Crusiada tres maravedís; e que mandara a los malatos de Anbasmestas dos çelemines de pan; e que mandara a los frayres de San Françisco dos çelemines de pan; e que mandara a Gonçalo Alfonso, su capellán, en manda el su [……….], e que rogase a Dios por su alma e de su linaje; e [que m]andara a Pedro González, su amo que lo crió, la su yuguería […………] al prior de Velmonte una buena baca que lo [………] por lo del dicho Lope González, e que como él feziese […………]destrynga Dios quien faga por él e que mandara por él su [……..]to quel dicho prior de Velmonte; e Gonçalo Alfonso, su capellán, le dixiese un tryntanaryo cantado por su ánima e de su abuela Balysquida Pérez; e que dexara al monesterio de 40 Sic pro: declararon. 176 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) Santa Maria de Velmonte la su tierra de la Muria e la su tierra dél Gymaledo; e que mandara a Sancta Olalla de Vejega toda la su parte de los bienes que avía en la felegresía de Vejegega41; e que los capellanes que foren de la dicha Santolalla de Vejega que la renta que rentasen los dichos bienes le lo dixyeson en misas en la dicha Santa Olalla por su ánima e de su lynage en cada un año para siempre; e que dexa //4v.º [a] Santo Andrés de Agüera todo<s> los bienes e heredamientos [que] avía en la felegresía de Santo Andrés de Agüera e en sus términos, e con tal condiçión que eso mesmo que los capellanes que son e fueron del dicho Santo Andrés de Agüera que la renta que balysen los dichos bienes lo resasen en misas por su alma e de su lynaje en cada un año para siempre; e que mandara a frey Pedro >de Restiel<l>o<, monje de Velmonte, e Juan Marcos de Ondes, un tryntanario de réquiem e que dixiera que debira a Pedro Rodríguez de Vigaña mill e dosientos e çinquenta maravedís e más le debira de otro [……..] Rodríguez dosientos e çinquenta maravedís e qual[……….] a él tres heminas descanda e que dél [………], su capellán, honse heminas descanda [que ……….] daba que lo pagasen por sus bienes e que [……..] debía Suer Alfonso al dicho Lope González çinquenta e çinco [maravedís]; e que mandara a Marina Fernández, su muller, la su baca más sana; e que mandara que lo enterrasen bien e pertenesçientemente segund su estado, e pagasen los derechos des[ta] santa iglesia; e que mandara que sus mandas e su testamiento complidas, e pagadas, e debidas, e enxetas de so entierro complidas e pagadas, que todos los otros sus bienes, asý muebles como raýses e semovientes, de la mayor cosa fas[ta] la menor e de la menor fasta la mayor que dél reman[es]quiesen, que los dexaba al dicho frey Gonçalo, prior de V[el] 4r monte, e a Gutier de Vejega, e a cada uno dellos la me[atad]; e quel dicho prior rogase a Dios por su alma e de su [lina]ge e que como ellos ambos por él fesiesen, e por su al[ma] e asý Dios padre destrynga quien faga por ellos e por las suyas; e que mandara que los ofiçios de su abuela, que estaban por faser, que los fiziesen e pagasen por sus bienes; e que mandara a un afillado suyo, nieto de Pedro González, su amo que lo crió, un reçie<l>lo. E esto que mandaran que balyse como su tes[tamiento] escripto, e declarado el dicho testamiento yo, [………] leylo e notifiquelo ante el dicho juez […………] antel dicho juez, el dicho juez fizo pregun[tas …… di]chos frey Pedro, e Suer Alfonso, e Lope Suárez [………… cad]a uno dellos sy pasara el dicho testa[miento ……..] González feziera segund que lo yo, el dicho […..] tenía escripto e lo leýa, e los dichos testigos [e] cada uno dellos dixieron que asý pasara el dicho testamiento por ante ellos, salvo quel dicho Lope Suárez dixo que a las mandas anbas que los otros testigos declaravan de Santa Olalla de Vejega, e de Santo Andrés de Agüera que non estoviera presente quando el dicho Lope González las mandara. Otro sy más dixieron los dichos testigos e cada uno dellos que dixiera el dicho Lope González que debira él, e su muller Orraca Menéndez >que Dios aya<, a la moça, fija de (en blanco), la soldada de un año. E el dicho Lope González le debía al su cabo del mes de mayo ará que morira la dicha mog //5v.º[er]. 41 Sic pro: Vejega. 177 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ [E] luego el dicho juez dixo que mandaba e mandó a mí, el dicho42 notario, que diese el treslado del dicho testamiento al dicho frey Gonçalo por escripto e signado de mío signo, e me daba e dio lyçençia e abtoridad para ello e que en el tal treslado que leyó asý diese quel entreponía e entrepuso su decreto e abtoridad judiçial por la mejor manera e forma que de derecho podía e devýa de derecho; e que mandaba e mandó qu [balyse] e feziese fe de donde quiera que paresciese, así como [……] debía valer de derecho e desto en [……] frey Gonçalo por dixo que lo […….] signado de mío signo para gu[arda …..]ro presentes: don frey G[o]nçalo [………] Santa María de Velmonte, e Gutier, fijo de […..], e Fernando Arias, e Alfonso de Vejega, e otros e no [….] atado ba escripto en la tercera foja en la primera plana entre renglones do dise de Restie<l>lo; e en la misma foja, en la otra plana, do va escripto entre renglones do dise que Dios aya que yo, el dicho notario, lo hemendé. Et yo, el dicho Juan Pl<e>láiz de Vello, escribano e notario público sobre dicho, a todo lo sobre dicho presente fuy en uno con los dichos testigos e por mandado del dicho juez e a pedimiento del dicho frey Gonçalo, prior, esta escript[u]ra escripví en esta quatro fuellas de quatro de pliego de pa //5r.º pel con esta en que va mío signo e [……..] filo de lyno, e por çima de la escrip[………] plana ban tres pares de restas de la esc[riptura] para fuera, e fyn de la escriptura en cada plana ba firmado de mío nombre. Et por ende fize aquí este mío signo que es tal en testemo[nio de verdad] (Signum). Juan Peláiz (R). //6v.º Notas: Al dorso S. XIX: Belmonte. Primera mitad s. XVI: Testamento de Lope de Bigaña en que dejó a este monesterio los bienes que tenía. Fue fecho en el año de myll y quatrocientos y sesenta y siete años. S. XIX: Grado. S. XVIII: Bigaña de Salzedo, año de 1467. 1604: Número43 4944. Caxón 245. Sic repite: “el dicho”. Tachado: “67”. 44 Tachado: “93”. 45 Tachado: “11”. 42 43 178 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) -41470, marzo, 16.- Pigüeña (Somiedo). María Alfonso de Villar de Vildas, viuda de Rodrigo Colado de Somiedo, y Urraca Días de Pigüeña, hija de ambos, viuda de Diego de Alba; desembargan al monasterio de Santa María de Belmonte el monte de Berducedo con su braña y cabañas y el prado de Entrambasaguas que el dicho Rodrigo Colado había dejado en su testamento a la comunidad de Belmonte. B.- AHN. Clero Regular. Libro L. 8752, fol. 212. (C) En el46 aldea de Pigüeña, que es término del conçejo de Somiedo, a diez y seis días del mes de março del año del Señor de mill y quatroçientos y setenta años, en presencia de mí, Alvar Díaz de la Barca, escrivano de nuestro señor el rey e su notario público en la su corte y en todos los sus reynos e señoríos, e de los testigos de yuso escriptos, estando presente María Alfonso de Billar de Bildas, muger que fue de Ruy Colado de Somiedo, que Dios aya, e Orraca Díaz de Pigüeña, muger que fue de Diego de Alva, que Dios perdone, fija del dicho Ruy Colado, que Dios aya, paresçió aý de presente don fray Gonzalo, abbad del monasterio de Santa María de Belmonte, por sí y en nombre del dicho monesterio, e prior e convento dél, e dixo que por quanto Ruy Colado, que Dios aya, passó deste mundo para el otro e avía hecho su testamento en el qual dicho testamento avía dexado çiertos bienes al monasterio de Belmonte, según le avía hecho en presente; e por quanto la dicha María Alfonso avía quedado por testamentaria del dicho Ruy Colado, que Dios aya, eso mismo la dicha Orraca Díaz así como su hija legítima y heredera del dicho Ruy Colado, y ellas tenían los dichos bienes que el dicho Ruy Colado abía dexado al dicho monasterio, e al prior e convento del dicho monasterio, que requería a las dichas María Alfonso e Orraca Díaz, así como testamentaria que era la dicha María Alfonso, y a la dicha Orraca Díaz como heredera, que le diesen e desembargasen todos los dichos bienes que el dicho Ruy Colado avía dexado e dexó al dicho monasterio e a ellos en su nombre; las quales respondieron que por quanto el dicho Ruy Colado, que Dios aya, abía dexado en su testamento al monasterio de Santa María de Belmonte, e al abbad, e prior e convento del dicho monasterio en su nombre todos los bienes, e parte del monte de Berduzedo, con su braña e cabañas, e con el prado de Entrambasaguas según lo él llevava e poseava al tiempo de su finamiento, que ellas y cada una de ellas, que por descargo de sus conçiençias que davan e dieron por desembargado el dicho monte con47 las cabañas y brañas y prado, según de susodicho es, que el dicho Ruy Colado avía dexado e dexó al dicho monasterio, e al abbad, e prior e 46 47 Sic. Pro. “la”. Sic: repite “las ca”. 179 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ convento dél para que fiziesen de ellos, y en ellos, a toda su boluntad conplida, así como de sus cosas propias e del dicho monasterio. E que deste día de oy en adelante, por esta carta de desembargo les davan liçencia e posesión de todo ello, encargándoles todavía sus conçiençias a que rogasen a Dios por su ánima del dicho Ruy Colado, e de aquellos de que él era tenido, e si ellas o alguna dellas, algún título, o açión o posesión avían a los bienes que le davan, e traspasaban, e çedían en el dicho monasterio, e el abbad, e prior e convento dél, e que rogavan, e pedían a qualesquier justicia o justicias, ante quien esta carta paresçiesse, que los apoderasen e posiesen en la tenençia e posesión de los dichos bienes, e los defendiesen e amparasen con ella. E por que esto sea çierto, e non venga en duda, otorgamos esta carta de desembargo ante Alvar Díaz de la Barca, escrivano del rey e su notario público en todos los sus reynos y señoríos, al qual rogamos que la escriviese o fiziese escrivir, y la signase de su signo, que fue fecha y otorgada en la dicha aldea de Pigüeña, que es término del concejo de Somiedo, a diez y seis días del mes de março, año del Señor de mill e quatroçientos y setenta años. Testigos que fueron presentes: Alonso Álvarez de Sorrivas, vezino de Avilés, e Pedro Feyto de la Revellada, vaquero, e Alonso Pelitero de Belmonte. E yo, el dicho Alvar Díaz, escrivano e notario público sobre dicho, a esto que dicho es, presente fuy en uno con los dichos testigos. E por otorgamiento de las sobre dichas María A<l>fonso e Orraca Díaz, e a ruego del señor abbad esta carta de desembargo escriví e fize aquí en ella este mío signo que es a tal en testimonio de verdad Alvar Díaz, escrivano. //212v.º Notas: Al dorso S. XVII: + Desembargo de la braña de Berduzedo en término de Pigüeña. 180 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) -51486, junio, 4, lunes. – Belmonte, monasterio de Santa María. Catalina Pérez, viuda de Fernando García de Villamarín, moradora en la aldea de Belmonte, dona a fray Gonzalo, abad del monasterio de Santa María de Belmonte, para que ruegue por su alma, sus bienes muebles e inmuebles en las parroquias San Juan de Montobo y Santa María Magdalena de Llamoso. A. – AHN. Clero Regular. Legajo 4937. Carpetilla papeles. //1r.º Sepant quantos esta carta de donaçión vierem como yo, Cathalina Pérez, muger que fuy de Ferna<n>d García de Villamarín, que Dios aya, morador que soe en la aldea de Belmonte, otorgo e conosco por esta carta, e de mi propia e libre voluntad syn miedo e syn parte mía nin otro inducimiento que a mi sea fecho por ninguna nin alguna persona nin personas más de mi propia e libre voluntad, fago e otorgo carta de donaçión e de buen fecho, e do e dono e [ofresco] en pura e libre donaçión entre vivos e no revocable que vala, e sea firme e agora e pora syempre yamás, a vos don frey Gonzalo, abbad del monesterio de Santa María de Velmonte que presente estades, e fágovos donaçión de todos los vienes, mobles e raýzes, heredamientos, techos, e lantados, e pra[dos] e pa[stos], e [folgu]eras, e molineras, e pre[sas], e sopresas, e ríos, e pescaçiones, e montes, e fontes, e brañas, e divisos e n[on] divisos, a monte e a villa, todo universalmente e segund que [..] a […..en]e e a mi pertenesçe e perteneçer debe en qualquier manera e por qualquier ra[z]ón, a[s]ý por h[erenci]a de mi padre commo de mi madre, como por compras o donaçiones, commo por otra qualquier manera que lo yo heredase e me a mí pertenesca [ende]recho en las felegresías de48 e so las campanas de San Juan de Montobo e de Santa María Madalena de Lamoso e en sos términos, de los quales dichos vienes, heredamientos, techos, e lantados, segund dicho es, vos do, e dono e fago donaçión dellos e de cada cosa e parte dellos a mano vesada, vesando vuestra mano e vuestro ábito para que roguedes a Dios por mi ánima e por las ánimas de mis generaçiones de que yo heredé los dichos vienes que vos asý doy e ofresco en vuestras misas, e sacrificios e oraçiones, e porque sé que es asý[…… lo asý la berdad que lo faredes. Asý por esta carta vos doy, e çedo e trespaso en vos, el dicho señor abbad el jur e la propiedad e la posesión [dellos] con los esquilmos e rentas a los dichos bienes perteneçientes e a mí en su nombre de todos los tiempos pasados fasta este día de oy de la fecha desta carta para que los podades lebar, e demandar, e arrendar e posear commo cosa vuestra libre e desenbargada e para que podades fazer dellos e en ellos a toda vuestra voluntad como de cosa vuestra proprya, desenbargada, agora e para syempre jamás. E desde agora me desisto dellos e de parte dellos, e los doy, e çedo e trespaso en vos, el dicho don fray Gonçalo, abbad, e otorgo e prometo a buenna fed syn mal engaño, de non revocar nin varyar esta dicha donnaçión e 48 Sic. 181 CÉSAR QUIJANO MARTÍNEZ buen fecho que vos asý fago por palabra, nin por escriptura, nin por testamento, nin por codiçillo, nin [porque] diga que lo he menester para mi provisióm e mantenimiento, nin por complir algún voto de romerýa que tenga prometydo o prometa, nin por otro caso, nin título alguno de los contenidos em los týtulos de las donaçiones, ni por otra cabsa nin razó<n> alguna que sea de fecho, nin de derecho, e caso que lo quiera o atente de fazer, o otro por mí, otorgo que me non vala, ni sea oýdo nin reçebido en juyzio, nin fuera dél, nin en otra manera alguna, antes por esta carta ruego e pido e do poder complido a todas e qualesquier justiçias o justiçia de los reynos e señorýos del rey nuestro señor e a cada una e a qualquier dellas ante quiem esta carta de donaçión fuer presentada o por parte de vos, el dicho abbad, fuer pedido complimiento de lo en ella contenido, que me confiryngan49 e apremien por todos los remedios de derecho a tener, e guardar e complir e mantener todo lo en esta carta de donaçión contenido segund que en ella contiene. Sobre lo qual todo sobre dicho e sobre cada cosa e parte dello renunçio, e quito e parto de mí toda exçepción de fuerça e de engaño e toda ley, e todo fuero, e derecho canónico, e cebil, ordenamientos reales viejos e nuevos, escriptos e non escriptos, e toda franqueza e libertad, e carta de rey o de reyna e de infante [o infanta] o de otro señor qualquier, ganado o por ganar, e todas las otras buenas razones, exçepçiones e defensyones que yo he o podría aver para uno pasar contra lo sobredicho o contra parte dello porque me non vala en juy[çio] o fuera dél [nin a persona alguna]. En speçial renunçio e parto de mí la ley de los dos imperadores, Justiano e Valeriano, que50 en ayuda e favor de las mugeres çerteficando del benefiçio della. En speçial renunçio e parto de mí la ley e derecho que dize que general renunçiaçión que sea fecha que non vala. E yo asý la renunçio e parto de mí e por[que] esto sea çierto e non venga en dubda, otorgué esta carta de donaçión ante Alvar Díaz de Velmonte, scripvano de nuestro señor el rey e su notaryo público em la su corte e en todos los reygnos e senoríos, al qual rogué que la escriviese o feziese escrivir e [la] signase de su signo. Que fue fecha e otorgada en la aldea de Velmonte, lunes, çinco días del mes de junio, año del señor de mill e quatroçientos e ochenta e seys años. Testigos que a esto fueron presemtes, lamados e rogados: Arias González de Vejega, notario, e Fernando Suárez de Vejega, e Alfonso Gómez de Santa Catalina, e Pedro García de los Calellos, vezinos de Velmonte. E yo, el dicho Alvar Díaz, escripvano e notario público sobredicho, a esto que dicho es presente fuy en uno con los dichos testigos et por otorgamiento de la dicha Catalina Pérez esta carta de donazión fiz escripvir en este medio pliego de papel cebtý et por ende fiz aquí este mío signo que es a tal en testimonio de verdad (Signum). Alvar Díaz, escripvano (R).// 1v.º 49 50 Sic. Sic. Repite en. 182 NUEVOS DOCUMENTOS DEL ARCHIVO DEL MONASTERIO DE STA MARÍA DE BELMONTE, ASTURIAS (SS. XIV-XVI) Notas: Al dorso S. XVI: Carta de venta de la yglesia de Grado. S. XVI: (C) Donaçión de byenes en Montobo a este monasterio. 1604: Donación que hizo Catalina Pérez de los bienes que tenía en san Juan de Monfobo y en la Madalena de Llamoso, año de 1486. Llamoso, Montobo, caxón 1, >scritorio 3<, número 20. S. XIX: Monasterio Belmonte-Grado. -61499, mayo, 20.- Selviella. Juan Marrón de Camino (Somiedo), en nombre de Mayor Gómez, con poder que de ella tiene, dado ante Rodrigo Alonso (notario de Somiedo), vende a Suero Pérez, capellán de Leiguarda (Belmonte), los bienes que tiene en Villaoscura y El Dojal, hasta donde dicen Peñas Blancas, por precio de 1824 maravedís. Pasó ante Juan Fernánde de Salas, escribano público del rey en su corte, reinos y señoríos. B.- AHN. Clero Regular. Libro L. 8762, fol. 601r.º. Bibliografía BALLESTEROS GAIBROIS, Manuel – Colección de Asturias reunida por D. Gaspar Melchor de Jovellanos, Tomo 2, Madrid, Gráficas Reunidas, 1948. CALLEJA PUERTA, Miguel – “El patrimonio documental de Asturias: definición, proceso formativo e historia de su conservación”, in Boletín de Letras del Real Instituto de Estudios Asturianos Año LXI, 169, 2007, pp. 101-124. DEL CAMINO MARTÍNEZ, Carmen, CONGOSTO MARTÍN, Yolanda – “Lengua y escritura en la Sevilla de fines del XV: confluencia de normas y modelos”, in Historia. Instituciones. 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Mestre em Recuperação do Património Arquitectónico e Paisagístico Após a mudança da comunidade monástica para a Abadia Nova, a primitiva igreja monástica passa a ser designada por “Santa Maria a Velha”. Esta denominação permite a distinção entre as duas igrejas monásticas; ambas dedicadas à Virgem Maria como determinam as normas cistercienses. 2 O início da vida regular, em Alcobaça, constitui um tema que levanta sempre algumas interrogações. Não sendo aqui o espaço para apresentação desta questão, verificamos, porém, alguma unanimidade em torno do ano de 1152 como a data da fundação do Mosteiro de Alcobaça. Nas palavras de Fr. António Brandão, “algumas memórias antigas dão a entender que o Mosteiro de Alcobaça teve principio em o ano do senhor de 1152. Assi consta de hüa pedra que está à entrada da Igreja vindo da Claustra, & contem estes versos. (…) Dous templos fundou o poderoso Rey Dom Afonso gloria soberana do Reyno Portugues para memoria de seu grande poder. O primeiro dos quais fundou aqui nestes vales com pequena fabrica, na era que mostra a cruz pintada abaixo, que he a Era de Cesar de 1190. a onze das Calendas de Outubre. E vem a ser a vinte dias do mês de Setembro do anno de 1152”. A data para a fundação do antigo cenóbio alcobacense assinalada por Fr. António Brandão coincide com o ano mencionado na segunda versão longa dos Annales Portucalenses Veteres exarada no Livro das Eras de Santa Cruz de Coimbra, como sendo a data da fundação da Abadia Velha de Alcobaça; sobre este assunto, veja-se Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (8621422). Vol. II. Corpus Epigráfico Medieval Português, Tomo 1, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2000, p. 247. O cronista Fr. Manuel dos Santos na sua Alcobaça Illustrada refere que o início da construção da Abadia Velha remonta ao ano de 1148 – Dia da Purificação de Nossa Senhora, 2 de Fevereiro. O período de construção estende-se por pouco mais de três anos; deste modo, em 20 de setembro de 1152 começou a habitá-lo o abade D. Ran[d]ulfo, monge professo do Mosteiro de Claraval – nomeado por São Bernardo -, com os monges que vieram na sua companhia. Segundo o cronista o nome do primeiro abade do Mosteiro de Alcobaça está registado no primeiro Livro dos Dourados, onde se assinala que, em 1154, o Abade Randol comprou umas casas em Lisboa para que os monges aí 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 185-194 185 ANA MARGARIDA MARTINHO dos Santos e Fr. Manuel de Figueiredo registam igualmente Santa Maria-a-Velha como a igreja do primitivo cenóbio cisterciense. Informa-nos Fr. Manuel dos Santos, que, na primeira metade do século XVIII, o edifício da igreja era o mesmo que existia no tempo da Abadia Velha; todavia, nessa época, já tinha sido alterada a invocação da pequena igreja para Nossa Senhora da Conceição3. Ainda conforme o autor, a comunidade mopermanecessem quando fosse necessário deslocarem-se à cidade. Em 1153, D. Afonso Henriques manda chamar a Coimbra D. Ran[d]ulfo para proceder à doação do Couto de Alcobaça a São Bernardo e à Ordem de Cister. De facto, a doação de 1153 pode representar o culminar de um processo vindo de trás. Veja-se Fr. Manoel dos Santos, Alcobaça Illustrada. Noticias e Historia dos Mosteyros e Monges insignes Cistercienses da Congregaçam de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de S. Bernardo nestes Reynos de Portugal e Algarves, 1.ª parte, Coimbra, 1710, pp. 8-10. Por sua vez, Fr. Fortunato de S. Boaventura refere que a vinda dos monges em 1148 carece de fundamento e que se “apoia em hum desmedido amor á Santa Casa, onde vestírão o habito” Fr. Bernardo de Brito e Fr. Manuel dos Santos. Menciona ainda o cronista, que, no século XVI, a memória fundacional da Abadia de Alcobaça referia o ano de 1152. Segundo o autor, é provável que, em 1154, a primeva Abadia estivesse por concluir, advindo daí a necessidade da compra das casas em Lisboa por parte do abade Randol [Randulfo]; veja-se Fr. Fortunato de S. Boaventura, Historia Chronologica e Critica da Real Abadia de Alcobaça, da Congregação Cisterciense de Portugal, para servir de continuação à Alcobaça Illustrada do Chronista Mor Fr. Manoel dos Santos, Lisboa, Imprensa Regia, 1827, p. 33. Também Maur Cocheril refere que o primeiro documento autêntico respeitante a Alcobaça é a carta de fundação de 8 de Abril de 1153. O historiador aceita esta data como a verdadeira para a instalação dos monges cistercienses, em Alcobaça. Também aceita como verdade que os monges tenham sido enviados por S. Bernardo de Claraval. Nas palavras de Fr. Maur Cocheril, “Os recém-chegados instalaram-se a umas dezenas de metros da presente localização do actual Mosteiro, no sítio onde está agora a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A existência deste mosteiro provisório, conhecido pelo nome de Santa Maria-a-Velha, não oferece dúvidas. Foi nesse local que ficaram os monges até 1223”. Consulte-se Maur Cocheril, Notes sur l’ architecture et le décor dans les abbayes cisterciennes du Portugal, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1972, p. 50; Idem, Alcobaça. Abadia Cisteriense de Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989, p. 27. José Mattoso corrobora a data de 1152 para a fundação da Abadia Velha, afirmando que, cinco anos mais tarde, em 1157, o rei concedia aos seus monges a isenção do pagamento de portagens em todo o reino. Este privilégio permitia que a comunidade monástica pudesse comprar a um custo inferior todos os géneros que necessitava para se instalar, podendo também, com maior facilidade, construir edifícios e adquirir os utensílios agrícolas necessários ao desbravamento da terra. Cf. José Mattoso, D. Afonso Henriques, [Lisboa], Temas e Debates, 2007, p. 257. Ainda sobre a fundação do Mosteiro de Alcobaça destacamos os seguintes estudos: Saul António Gomes, “Revisitação a um velho tema: a fundação do Mosteiro de Alcobaça”, Actas. Cister. Espaços, Territórios e Paisagens. Colóquio Internacional, 16-20 de Junho de 1998, Mosteiro de Alcobaça, Vol. I, Economia e Sociedade. Espiritualidade. Arquitectura, Lisboa, IPPAR, 2000, pp. 27-72; Idem, “Abbés et vie régulière dans l’abbaye d’Alcobaça (Portugal) au Moyen Âge: un bilan in Jean-François Cottier, Daniel-Odon Hurel, Benoit-Michel Tock, (coord.), Les personnes d’autorité em milieu régulier. Des origines de la vie régulière au XVIIIe siècle, Saint-Étienne, Publications de l’Université de Saint-Étienne, 2012, pp. 137-150; Idem, “Entre Memória e História. Os primeiros tempos do Mosteiro de Alcobaça”, Revista de História da Sociedade e da Cultura, Coimbra, Centro de História da Sociedade e da Cultura, Nº 2, 2002, pp. 187-256. 3 Conforme a informação de Fr. Manuel dos Santos, “… mandou el-rei [D. Afonso Henriques] ordenar ahi perto, junto do proprio Mosteyro que se hia fazêndo, hum recolhimento decente, aonde vivessem os Monges esse tempo que durassem as obras, no mesmo sitio & lugar aonde vemos hoje Santa Maria a velha, a qual é ainda a mesma deste Mosteyrinho primeiro, & se dedicou ao Soberano Misterio da puríssima Cõceyção de N. Senhora, & foi a segunda Igreja que se consagrou no Reyno de Portugal àquelle Sagrado Misterio …”. Cf. Fr. Manoel dos Santos, Alcobaça Illustrada…, 1.ª parte, Coimbra, Ofª de Bento Seco Ferreira, 1710, p. 9. 186 IGREJA DE SANTA MARIA-A-VELHA: NOTAS DE INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DA ORDEM DE CISTER EM ALCOBAÇA nástica cisterciense vive na antiga Abadia durante um período de cerca de setenta e um anos. Menciona, a propósito, Fr. Manuel dos Santos: estando a igreja acabada, bem como “as oficinas do Mosteyro em termos de se poderem habitar”, mandou-se consagrar a igreja e celebrar a primeira missa. Assim, a igreja da Abadia Nova foi consagrada por D. Soeiro Viegas, bispo de Lisboa, em 20 de outubro de 12224. Ainda segundo o cronista, os monges permanecem na Abadia Velha, durante esse inverno; transferindo-se para a Abadia Nova, em 6 de Agosto de 12235. Como bem observa Fr. Manuel dos Santos, os monges sempre conservaram a igreja antiga como memória da sua primeira habitação6. Identicamente, Fr. Manuel de Figueiredo regista a existência do primevo Mosteiro, localizando-o ao Norte do segundo, da outra parte do rio Alcoa, que agora se chama rio de Chiqueda. Naturalmente, com base nos testemunhos apresentados, parece não haver dúvida que a cronística apresenta Santa Maria-a-Velha como a igreja do primitivo complexo monástico cisterciense, estando o mesmo implantado na proximidade da Abadia Nova, a norte da mesma, junto à margem direita do Rio Alcoa. Neste ponto da análise, impõe-se, portanto, a seguinte questão: será autêntica a memória historiográfica de que Santa Maria-a-Velha foi a igreja do primitivo mosteiro cisterciense de Alcobaça, o cenóbio que acomoda a comunidade monástica antes e no decurso da construção da Abadia Nova? Em boa verdade, parece-nos válida a memória veiculada pelos cronistas sobre o primevo local de assentamento do Mosteiro de Alcobaça. Se retrocedermos no tempo, verificamos que outras fontes também identificam Santa Maria-a-Velha como a igreja do primeiro complexo monástico cisterciense, em Alcobaça. Assim, vejamos: 1 - A segunda versão longa dos Annales Portucalenses Veteres, exarada no Livro das Eras de Santa Cruz de Coimbra, assinala o ano de 1152 como a data da fundação da Abadia Velha de Alcobaça7. 2 - A Crónica de Portugal de 1419 faz referência à primitiva abadia de Alcobaça designando-a por “convento de Santa Maria amtigua”8. Esta memória de Fr. Manuel dos Santos não é compatível com a notícia sobre a data da cerimónia de Sagração da Abadia Nova registada nos Annales Portucalenses Veteres transcritos no Livro das Eras de Santa Cruz de Coimbra. De acordo com a mesma fonte, a Sagração ocorre em 20 de outubro de 1252 – que nesse ano coincidiu com um Domingo, como era canonicamente recomendado –, quase três quartos de século depois da fundação e quase três dezenas de anos depois da mudança dos monges para as instalações definitivas. Na cerimónia, realizada no abaciado de D. Estêvão Martins (1252-1276), estiveram presentes o Bispo de Lisboa, D. Aires Vasques (1244-1258), e o Bispo de Coimbra, D. Egas Fafes de Lanhoso (12461267). Cf. Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), Tomo 1, Vol. II, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p. 419. 5 Cf. Fr. Manoel dos Santos, Alcobaça Illustrada…, 1.ª parte, Coimbra, Ofª de Bento Seco Ferreira, 1710, p. 79. 6 Ibidem, p. 80. 7 Cf. Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), Tomo 1, Vol. II, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p. 419. 8 Crónica de Portugal de 1419 [Edição crítica com introdução e Notas de Adelino de Almeida Calado], Aveiro, Universidade de Aveiro, 1998, p. 119. Citado de Saul António Gomes, “Revisitação a um velho 4 187 ANA MARGARIDA MARTINHO 3 – No século XVI, o cronista Fr. Hilário das Chagas menciona que a Abadia em que estiveram os monges enquanto se construía a Abadia Nova era Santa Maria-a-Velha9. Deixamos o ponto de vista dos percursos historiográficos e consideramos a informação contida na petição dirigida pelos moradores de Alcobaça a D. João III, em 1527. No documento, os moradores solicitam que o rei mande ampliar a Igreja de Santa Mariaa-Velha, pois a população de Alcobaça regista um grande crescimento e a igreja não tem espaço para acolher a totalidade dos fregueses10. A petição informa que, na década de 1520, a Igreja de Santa Maria-a-Velha é matriz da vila. Nesse período, Alcobaça regista um crescimento populacional significativo, e, por consequência, a velha igreja carece de espaço suficiente para acolher a totalidade dos fregueses. Não é de admirar, portanto, que os moradores de Alcobaça apresentem uma petição ao rei para que sejam realizadas obras de ampliação na referida igreja. No século XVI, conforme o Livro das rendas, fazendas, propriedades e foros que o Mosteiro de Alcobaça tem nos lugares destes coutos e sua jurisdição…, o sítio conhecido pelo microtopónimo de Santa Maria-a-Velha era um dos lugares mais povoados da vila de Alcobaça, em conjunto com a Rua do Estar e a Porta de Fora11. Em 1527, Alcobaça possuía cento e vinte e sete fogos, e, dez anos mais tema: a fundação do Mosteiro de Alcobaça”, Actas. Cister. Espaços, Territórios e Paisagens. Colóquio Internacional, 16-20 de Junho de 1998, Mosteiro de Alcobaça, Vol. I, Economia e Sociedade. Espiritualidade. Arquitectura, Lisboa, IPPAR, 2000, pp. 68-69. 9 Referindo-se ao Mosteiro de Alcobaça, escreve Fr. Hilário das Chagas: “Item as claustras deste mosteiro mandou fazer el rey Dom Dinis, sexto rey de Portugual no anno do Senhor de 1308, aos octo ydos do mês de Abril, sendo Dom Frey Pedro Nuniz omzeno abbade d’Alcobaça. E ao tempo que se fundarão as ditas claustras erão já passados 85 anos que os monges erão vindos da abbadia velha, pera ho mosteiro novo. E nota que esta abbadia velha em que estiveram os monjes enquãoto se fazia ho primeiro mosteiro que agora hé, era Sancta Maria a Velha, que agora hé a freguesia da villa. E elles se recolhyão omde chamão as adegas velhas da Ordem. E tynhão as portas da cerqua que depois aynda muito dorou, scilicet, huã na Gaffa e outra omde chamão a Porta de Fóra, onde aynda agora estão dous arquos”. Cf. Alcobacenses, CCCLXXIII/92, fls. 4vº - 5vº (BNL). Citado de Saul António Gomes, “A Congregação Cisterciense de Santa Maria de Alcobaça”, Lusitania Sacra, 2ª série, 18, 2006, pp. 396-397. 10 A petição dos moradores de Alcobaça, dirigida a D. João III, está redigida nos seguintes termos: “Os moradores no lugar d’Alcobaça fazem saber há Vosa Alteza que tem no dito lugar hua igreja de Samta Maria-a-Velha, onde recebem os sacramentos e sam obrigados ouuyr misa. E o povo do dito lugar d’Alcobaça vay em grande crecimento e a dita ygreja he muito pequena, de maneira que nom caberá o povo nela. Pede que Vosa Altesa lhe faça merce de lhes mandar fazer moor, como mandou fazer as outras igrejas dos outros lugares dos coutos <d’> el-rey voso padre que santa gloria haja. No que lhe fará merce e serviço a Deos. Manda El-Rey nosso senhor ao bispo de Titopoly que veja esta petiçam com o ouvidor Alvaro Martinz, e lhe mande dizer por sua carta o que disso lhe parecer, pera com yso mandar o que ouver por bem. Em Lixboa a xij dias de Março, 1527". Cf. Corpo Cronológico, Parte 2ª, Maço 139, Doc. 147 (ANTT). Citado de Rui Maurício, “As Igrejas dos Coutos de Alcobaça no séc. XVI”, Actas. Congreso Internacional sobre San Bernardo e o Cister en Galicia e Portugal, Vol. II, Ourense, 1992, pp. 853-854. 11 Cf. Pedro Penteado, “Rendas e fazendas do Mosteiro de Alcobaça durante a Comenda do Cardeal Infante D. Afonso (1530-1536)”, Actas. Cister. Espaços, Territórios e Paisagens. Colóquio Internacional, (16-20 de Junho de 1998, Mosteiro de Alcobaça), Vol. I, Economia e Sociedade. Espiritualidade. Arquitectura, 188 IGREJA DE SANTA MARIA-A-VELHA: NOTAS DE INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DA ORDEM DE CISTER EM ALCOBAÇA tarde, o seu número aumenta para cento e sessenta e seis fogos12. Com efeito, num período de onze anos, a vila regista um crescimento populacional expressivo; por consequência acentua-se o problema da exiguidade do espaço na Igreja de Santa Maria-a-Velha. Sabese que a petição de 1527 não resulta na concretização de obras de ampliação do edifício e, em 1538, os oficiais da Câmara e moradores da vila de Alcobaça voltam a solicitar ao Cardeal Infante D. Afonso que mande acrescentar a dita igreja ou conceda autorização para que os fregueses ouvissem missa no Mosteiro aos domingos e dias de obrigação. Por conseguinte, após a visitação de 27 de Janeiro de 1538, o Cardeal Infante D. Afonso ordena que, para “serviço de nosso Senhor e consolação dos fregueses”, o cura da Igreja de Santa Maria-a-Velha celebre a missa da freguesia na igreja do Mosteiro, todos os domingos e dias de obrigação13. Com essa finalidade, D. Afonso manda erguer um altar contíguo às grades da igreja abacial, pelo lado de fora14. Ordena ainda que a pregação da freguesia não coincida com os ofícios divinos e missa do cenóbio para não perturbarem o serviço religioso de uns e de outros. Os sacramentos do baptismo e matrimónio, bem como a sepultura dos defuntos, mantêm-se na Igreja de Santa Maria-a-Velha15. Desconhecemos as razões pelas quais o Cardeal Infante D. Afonso não empreende as obras na Igreja de Santa Maria-a-Velha, todavia, sabe-se que a ampliação da primeva igreja monástica só se concretiza em meados do século XVIII, conforme comprova o vigário José de Almeida Brandão16, bem como a inscrição do ano de 1752 na fachada da igreja. O lugar do primitivo assentamento da comunidade monástica cisterciense era conhecido, no século XVI, pelo topónimo de Santa Maria-a-Velha por nele figurar a antiga igreja monástica de “Santa Maria a velha”, agora com funções paroquiais no curato de Alcobaça. Parece-nos evidente que as primitivas acomodações dos Cistercienses – “convento de Santa Maria amtigua” – estariam implantadas na proximidade da velha igreja dedicada a Santa Maria, cumprindo-se a exigência funcional da vida monástica imposta Lisboa, IPPAR, 2000, p. 93. Ainda sobre o crescimento da vila de Alcobaça, escreve, a propósito, Saul António Gomes: “A memória do espaço externo ao complexo Abacial é, nestes tempos, pouco elucidada, posto que a arqueologia do lugar revele que se formou um burgo residencial particularmente nuclear à primitiva edificação de Santa Maria-a-Velha, na margem direita do Rio Alcoa. A construção da abadia nova mais a sudeste, entre os veios dos Rios Baça e Alcoa, é acompanhada pelo levantamento de uma extensa cerca”. Cf. Saul António Gomes, “Uma paisagem para a oração: o Mosteiro de Alcobaça em Quatrocentos”, Paisagens Rurais e Urbanas – Fontes, Metodologias, Problemáticas. Actas das Terceiras Jornadas, Lisboa, 2007, p. 27. 12 Cf. Pedro Penteado, Op. cit., p. 93. 13 Cf. Fr. Manoel dos Santos, Alcobaça Illustrada…, Coimbra, Ofª de Bento Seco Ferreira, 1710, pp. 349-350. 14 Esta grade estava colocada junto ao coro de trás, como informa a visitação realizada ao Mosteiro de Alcobaça por Fr. Pedro Serrano, em 1484; abade do Mosteiro de Santa Maria da Pedra e visitador e reformador de todos os mosteiros cistercienses em Portugal. Cf. Saul António Gomes, Visitações a Mosteiros Cistercienses em Portugal Séculos XV e XVI, Lisboa, IPPAR, 1998, p. 161. 15 Cf. Fr. Manuel dos Santos, Op. cit., pp. 349-350. 16 Memórias Paroquiais (1758-1759), Introdução, transcrição e índices de João Cosme e José Varandas, Vol. II [Alcaria-Alijó], Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa e Caleidoscópio, 2010, p. 27. 189 ANA MARGARIDA MARTINHO pela Regra de São Bento de Núrsia (c.480 – c. 547). Em bom rigor, sobre a fundação de abadias ficou estabelecido que não se pode enviar um novo abade para fazer uma nova fundação sem que sejam levantados os edifícios do oratório, do refeitório, da casa para hóspedes e para o porteiro; isto para que imediatamente possam servir a Deus e levar uma vida regular17. Naturalmente, a comunidade cisterciense transferida para o novo Mosteiro, em 1223, teria vivido, desde o início, em conformidade com os preceitos da regra e os costumes depurados de Cister. É certo que, na centúria de Quinhentos, a vetusta igreja monástica assume a função de matriz do curato de Alcobaça. Não se conhece a data em que a Igreja de Santa Mariaa-Velha avocou as funções de matriz; todavia, parece provável que tenha sido nos anos subsequentes à transferência dos monges para a Abadia Nova. No sentido de aprofundar a possível veracidade da memória perpetuada pela cronística sobre a velha igreja monástica e o primitivo lugar de assentamento da comunidade Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Foto da autora, 2019 17 Cister. Documentos Primitivos, Introdução, tradução e notas de Aires A. Nascimento, Lisboa, Ed. Colibri, 1999, p. 57. 190 IGREJA DE SANTA MARIA-A-VELHA: NOTAS DE INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DA ORDEM DE CISTER EM ALCOBAÇA cisterciense de Alcobaça, considerámos profícua a pesquisa de outras fontes escritas e materiais, passíveis de testemunhar a existência da Igreja de Santa Maria-a- Velha. Nessa fase, compulsámos os registos paroquiais de Alcobaça. No livro de registos de óbito, identificámos uma igreja denominada por “Igreja Velha”; o local onde se realiza a maioria dos enterramentos, no decurso do século XVII. Verificámos ainda que a designação de “Igreja Velha” é usada até à década de 1660. A partir daqui, a denominação de “Igreja Velha” começa a ser substituída por “Igreja da Conceição” ou por “Igreja Velha da Conceição”18. Por conseguinte, o título de “Igreja Velha”, mencionado no livro de registos de óbito, é uma forma abreviada de referir o edifício eclesial de Santa Maria-a-Velha. Parece certo que a mudança da invocação de Igreja de Santa Maria-a-Velha para Nossa senhora da Conceição tenha ocorrido na segunda metade do século XVII. Em suma, nessa parte da nossa pesquisa, apurámos que os registos de óbito seiscentistas referem a igreja denominada por Santa Maria-a-Velha. É também digno de nota que, em 1758, o vigário de Alcobaça, José de Almeida Brandão, registe nas Memórias Paroquiais que a capela de Nossa Senhora da Conceição foi edificada no reinado de D. Afonso Henriques pelos monges cistercienses vindos de Claraval e, “pellos muytos anos que lhe cauzarão ruina se edificou proximemente a primis fundamentis pellos irmãos da confraria, e esmolas de muytos devotos para o que tambem concorreu a inapta piedade do senhor rey Dom Joam, o quinto, de feliz memoria, e senhor rey Dom Joze o primeiro, da prezente e felicissima regencia deste Reyno e seus domínios, mandando-lhe dar do seu pinhal da Meyrinha a madeira necessaria à qual cappela que hé de ária e risco nobre, e espaçoso”19. Verificamos que o registo memorial do vigário apresenta um dado novo que nos parece de significativa importância: a expressão a primis fundamentis remete para a reedificação/ampliação da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de acordo com a traça original; ou seja, respeitando o edifício preexistente da Igreja de Santa Maria-a-Velha20. Prosseguindo a investigação, considerámos pertinente confrontar os elementos da documentação escrita com a observação in situ da estrutura construtiva da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Nesta senda, podemos verificar os seguintes factos: 1 - No exterior do edifício, observa-se a utilização de dois tipos de material pétreo: arenito e calcário. 2 - No ângulo noroeste da capela-mor, é visível a construção de alvenaria de pedra aparelhada, onde predominam os blocos de arenito21. Cf. Livro de registos de óbito da freguesia de Alcobaça - 1654-1696 (ADL). Memórias Paroquiais (1758-1759), Introdução, transcrição e índices de João Cosme e José Varandas, Vol. II [Alcaria-Alijó], Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa e Caleidoscópio, 2010, pp. 26-27. 20 Agradecemos à Dra. Ilda Maria Sobral Azinhais Velez pela tradução da expressão em Latim: a primis fundamentis. 21 Não é de admirar, portanto, que na parte mais antiga da igreja (zona da capela-mor) predomine o aparelho de arenito, em virtude de o mesmo constituir o material pétreo mais abundante na proximidade da construção. 18 19 191 ANA MARGARIDA MARTINHO Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Vista do alçado poente. Foto da autora, 2019. Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Vista exterior da capela-mor. Foto da autora, 2019. Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Pormenor do cunhal da capela-mor. Foto da autora, 2019. Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Vista do alçado nascente. Foto da autora, 2019. 192 IGREJA DE SANTA MARIA-A-VELHA: NOTAS DE INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DA ORDEM DE CISTER EM ALCOBAÇA 3 - Na zona da nave, os cunhais são construídos com blocos de calcário; por sua vez, as fundações da igreja, parcialmente visíveis nos alçados norte e poente da capela-mor e no alçado poente da nave, são construídas de pedra irregular (arenito) assente em argamassa. Através da análise in situ, verifica-se que a igreja apresenta dois momentos de construção diferenciados no tempo, perceptíveis pelo material pétreo utilizado: enquanto na capela-mor predomina o arenito, correspondendo à parte construtiva mais antiga, talvez mesmo referente ao século XII. Na nave, prevalece o calcário; referente à obra de reedificação/ampliação da igreja realizada pelos meados do século XVIII, conforme indica o ano inscrito na fachada. É digno de nota que as informações veiculadas pela documentação escrita, bem como os elementos obtidos pela observação in situ do edifício, convergem para a confirmação da hipótese de que a Igreja de Nossa Senhora da Conceição tenha sido reedificada/ampliada a partir da estrutura pré-existente da vetusta Igreja de Santa Maria-a-Velha. Neste contexto, parece-nos digno de registo que o vigário José de Almeida Brandão, para além de utilizar a expressão a primis fundamentis, tenha denominado as obras setecentistas como “nova fundação”22. Em síntese, parece-nos fidedigna a memória fundacional veiculada pelos cronistas de que Santa Maria-a-Velha foi a igreja do primevo mosteiro cisterciense de Alcobaça, o cenóbio que acomoda a comunidade monástica antes e no decurso da construção da Abadia Nova. Não obstante, também é verdade que a resposta definitiva a esta questão só poderá confirmar-se após a realização de trabalhos arqueológicos. 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SANTOS, Fr. Manoel dos – Alcobaça Illustrada. Noticias e Historia dos Mosteyros e Monges insignes Cistercienses da Congregaçam de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de S. Bernardo nestes Reynos de Portugal e Algarves, 1.ª parte, Coimbra, 1710. S. BOAVENTURA, Fr. Fortunato de – Historia Chronologica e Critica da Real Abadia de Alcobaça, da Congregação Cisterciense de Portugal, para servir de continuação à Alcobaça Illustrada do Chronista Mor Fr. Manoel dos Santos, Lisboa, Imprensa Regia, 1827. 194 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA* Introdução1 A diocese de Lamego com orgulho, apresenta-se como berço da presença da OC em Portugal2. Contou no seu espaço territorial quatro mosteiros masculinos: São João de Tarouca, Santa Maria de Salzedas, São Pedro das Águias e Santa Maria de Aguiar e dois femininos, Santa Maria de Arouca e Nossa Senhora da Assunção da Tabosa3. As últimas décadas têm sido férteis e produtivas na recuperação e manutenção destes antigos edifícios, quase todos eles deixados à incúria dos homens depois da extinção das ordens religiosas, em 18344. * Doutorando em História na FLUC. Sacerdote da diocese de Lamego Correspondência às abreviaturas usadas: ADB = Arquivo Distrital de Braga; ALC = Alcobaça; ANTT = Arquivo Nacional Torre do Tombo; BN = Biblioteca Nacional de Lisboa; CDC = Código Direito Canónico; Cf = confronte; CI = Cister; Cod. = Códice; DOC = Diffiniçoens da Ordem de Cistel e Congregaçam de Nossa Senhora de Alcobaça, Lisboa, Antonio Aluatez, 1593; ex: exemplo; fl.(s) = folha(s); LCG (1): ADB - CI, livro 187, Leis que se fizeram no Capítulo Geral (1672-1705); LCG (2): ADB - CI, livro 188, Leis que se fizeram no Capítulo Geral (1711-1734); LGN = ANTT, Mosteiro de São João de Tarouca, livro 1 - Livro dos graus da Noviciaria; LUACLO = ANTT - Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, livro 198 - Livros dos usos antigos das cerimónias e louváveis costumes da Ordem...; LUOC = BN - ALC Cod. 208 - Livro dos usos da Ordem de Cister; MSJT = Mosteiro de São João de Tarouca; ob. cit. = obra citada; RB = Regra de São Bento ou Regra Beneditina; OC = Ordem de Cister; SECT = O Sacrossanto e ecumenico Concilio de Trento... Tomo II. Lisboa, na off. de Francisco Luiz Ameno, 1781; v = verso. 2 Para as origens da Ordem de Cister em Portugal ver, por todos: MARQUES, Maria Alegria Fernandes Estudos sobre a Ordem de Cister em Portugal, Lisboa, Colibri, 1998. 3 Na atualidade Santa Maria de Arouca faz parte da diocese do Porto e Santa Maria de Aguiar da diocese da Guarda. 4 De realçar as recentes e longas campanhas arqueológicas nos mosteiros de Salzedas e São João de Tarouca, 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 195-226 195 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Ou contrário de outros mosteiros, ainda não existe ainda para o MSJT, um estudo histórico sistemático e abrangente, talvez porque a quase totalidade do seu cartório desapareceu no incêndio de 1841 no Seminário de Viseu, onde estava guardado após a extinção das ordens monásticas. Se para a época medieval, ainda dispomos de alguns trabalhos e fontes escritas5, o mesmo não sucede para a época moderna. Mas não podemos dizer que não existam fontes escritas, elas existem, não são é as primarias, pois estão dispersas em vários fundos arquivísticos6, inseridas na documentação de outros mosteiros da OC7 ou outras entidades (documentação régia, cúria romana, episcopal etc.)8. Faltará realizar um trabalho de fundo na identificação dessa documentação e um estudo posterior da mesma. Na falta desse trabalho, a Arqueologia tem-se revelado de extrema importância para o conhecimento dos mosteiros de São João de Tarouca e Salzedas, sendo esta a disciplina que mais artigos científicos tem produzido, a que se junta a Arquitetura e a História da Arte, que encontra um valioso espólio nas igrejas e sacristias que foram salvaguardadas pelas funções paroquiais que tais espaços passaram a ter após 18349. O trabalho que aqui trazemos, tem por base um dos poucos documentos escritos que guarda a memória dos homens que deram vida ao MSJT; ainda que o façamos por uma abordagem sobretudo quantitativa, esperamos com que ele ajudar a humanizar, os estudos que a Arqueologia, a Arquitetura e a História da Arte têm produzido. Para uma próxima oportunidade, deixamos uma abordagem mais interpretativa e de contextualização sobre o noviciado de Cister nos mosteiros de São João de Tarouca e de Santa Maria de Salzedas10. a compra e recuperação de terrenos e edifícios que estavam na posse de particulares e a musealização dos dois espaços. A isto junta-se a recuperação e manutenção das antigas igrejas conventuais, que na atualidade têm funções de paroquiais (Salzedas e São João de Tarouca). O mosteiro e igreja de São Pedro das Águias está na posse de particulares e o mosteiro da Tabosa também, estando apenas capela unida à paróquia do Carregal – Sernancelhe e usada para o culto pela comunidade da Tabosa do Carregal. 5 FERNANDES, A. de Almeida - Acção dos Cistercienses de Tarouca: as granjas nos sécs XII e XIII, Guimarães, Companhia Editora do Minho - Barcelos, 1974 e Taraucae monumenta histórica, 3 Vols, Braga, Câmara Municipal de Tarouca, 1991-1993. 6 Veja-se a título de exemplo: ANTT, BN, ADB, Arquivo Distrital e Biblioteca Municipal de Viseu e o Arquivo Diocesano de Lamego. 7 Veja-se o caso das visitações quinhentistas já publicadas: BRONSEVAL, Claude de - Peregrinatio hispânica..., II vol., Paris, Presses Universitaires de France, 1970 e GOMES, Saúl António Gomes - Visitações a Mosteiros Cistercienses..., Lisboa, IPPAR, 1998. 8 Exemplo: ANTT - Gavetas, nº 8, maço 5, nº 15: treslado do tombo do MSJT do ano de 1521. 9 Veja-se a imensa bibliografia apresentada nas últimas obras publicadas sobre estes mosteiros: CASTRO, Ana Sampaio e - Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Da Fundação à Extinção, Lamego, Vale Varosa / DRCN, 2014; Cister no Douro [cat. de exposição, [S.l.]: DRCN, Museu de Lamego, Vale do Varosa, D.L. 2015; Mosteiro de São João de Tarouca: História, Arquitetura e Quotidiano, Lamego, DRCN / Museu de Lamego / Vale do Varosa, 2015. 10 O ANTT guarda também um livro de registo de termos de profissão dos noviços, com as datas de 1732 a 1769. Esperamos brevemente poder realizar um trabalho semelhante a este, tendo por base este livro e fazer a devida contextualização. Ver: ANTT - Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, livro 2. 196 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE 1 – O noviciado na Ordem de Cister “O noviciado, com o qual se começa a vida num instituto, destina-se a que os noviços conheçam melhor a vocação divina, a vocação própria do instituto, façam experiência do modo de viver do instituto, conformem com o espírito dele a mente e o coração e comprovem sua intenção e idoneidade”. CDC n.º 646 O noviciado apresenta-se, ainda na atualidade, como um tempo de iniciação à vida religiosa (um ou dois anos), durante o qual o noviço(a) faz o discernimento da sua vocação, passa a conhecer melhor o carisma e o modo de viver do instituto a que se junta, adquire a formação necessária, comprova o seu propósito e a sua idoneidade, permitindo, aos responsáveis, julgar da sua admissão à profissão posterior que o irá unir ao instituto. 1.1 – O noviciado na Ordem de Cister – séculos XVII-XVIII A entrada na OC, nos dois séculos para que nos remete o LGN (1692-1763), do MSJT, em pouco ou nada havia de divergir dos séculos anteriores11. O tempo de noviciado, tal como toda a sua espiritualidade e carisma, assenta na RB, segundo o capítulo nº 5812. A esta, juntam-se as orientações retiradas dos textos dos livros de usos e costumes13 e das definições e Leis da da OC14. A cronologia a estudar fica também marcada pelas orientações emanadas da 25ª sessão do Concílio de Trento15 (1545-1563) que aprovou 22 capítulos com prescrições sobre a observância e vida das Ordens Regulares e de algumas orientações e privilégios papais16. 1.2 – Da tomada de hábito à profissão Em linhas muito gerais, o processo de entrada de um noviço num mosteiro de Cister, era composto, numa primeira fase, de um pedido de admissão ao noviciado e, numa segunda fase, da tomada do hábito da OC, depois dos exames prévios que inquiriam o candidato sobre os seus conhecimentos na doutrina e no latim e os admoestavam sobre a dureza da RB17. 11 DE LA TORRE RODRIGUEZ, José Ignacio - “A Comunidade cisterciense”, in Cister no Vale do Douro, Porto, GEHVDVP / Edições Afrontamento, 1999, pp. 119-121;129-132. 12 Regra do glorioso Patriarcha Sam Bento... Lisboa, Antonio Ribeiro: á custa da Congregação de Sam Bento, 1586, fls. 39-40. Veja-se também: DIAS, Geraldo J. Amadeu Coelho - Quando os monges eram uma civilização..., Porto CITCEM / Afrontamento, 2011. 13 Citamos apenas alguns dos códices presentes na BN: LUOC fls. 85-87 e 93-94v; BN - ALC Cod. 218, fls.104v-106; BN - ALC Cod. 223 - Regra; LUACLO fls. 64-68 14 BN - ALC Cod. 75; DOC, fl. 30v 15 SECT; ADB - CI - livro 186; LCG (1); LCG (2); ADB - CI, livro 191. 16 BN - ALC Cod. 228. 17 Ver também, LUOC fl. 86. A leis que saíram do capítulo geral da OC do ano de 1736, determinavam que: “para noviço monge destinado ao coro se não aceite sujeito, que tenha servido no seculo ã alguã pessoa de 197 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Apresentando-se alguém para a vida monástica, não se lhe conceda fácil ingresso, mas, como diz o Apóstolo: “Provai os espíritos, se são de Deus”. Portanto, se aquele que vem, perseverar batendo à porta e se depois de quatro ou cinco dias, sendo-lhe feitas injúrias e dificuldade para entrar, parece suportar pacientemente e persistir no seu pedido conceda-se-lhe o ingresso, e permaneça alguns dias na cela dos hóspedes. Fique, depois, na cela dos noviços, onde esses se exercitam, comem e dormem... Sejam-lhe dadas a conhecer, previamente, todas as coisas duras e ásperas pelas quais se vai a Deus. Se prometer a perseverança na sua estabilidade, depois de decorridos dois meses, leia-se-lhe por inteiro esta Regra, e diga-se-lhe: Eis a lei sob a qual queres militar: se podes observá-la entra; mas se não podes, sai livremente. Se ainda ficar, seja então conduzido à referida cela dos noviços e seja de novo provado, em toda paciência. RB nº 58, 1-12 Ao longo do ano de noviciado, os noviços entravam em contacto com a liturgia, aprendiam a rezar, a cantar o cantochão, os usos e costumes da OC e eram inseridos no ambiente do mosteiro e nas suas normas, que deviam cumprir. Tudo isto com a supervisão do mestre de noviços. Durante este tempo, estavam proibidos de falar com os outros monges e de entrar em contacto com a família ou amigos, salvo em caso de muita necessidade e na presença do mestre dos noviços ou de um monge idoso18. A tomada do hábito era feita perante o abade do mosteiro e diante de toda a comunidade, reunida em capítulo regular, numa cerimonia com um ritual próprio19. O noviço, de joelhos, era apresentado ao abade pelo mestre dos noviços, já com o hábito vestido (excepto o escapulário20). O abade, após interrogar o noviço sobre a sua disposição em seguir e cumprir a RB, despia-lhe a capa de secular e vestia-lhe o escapulário sem cruz, para o distinguir dos outros monges e entregava-o ao mestre dos noviços para o preparar, durante um ano, para a sua aprovação. Após este ato, o noviço, acompanhado do mestre, devia dirigir-se ao cartório para fazer registo da tomada de hábito num livro próprio para o efeito21 e confessar-se ao abade. Os termos da tomada de hábito seguiam mais ou menos os moldes do documento D, apresentado na transcrição documental. Durante o ano de aprovação, por 3 vezes (a cada 4 meses), decorriam votações internas acerca do comportamento do noviço, das suas qualidades, da sua adaptação à casa e o conhecimento da RB22. Externamente, o abade do mosteiro ordenava a 2 sacerdotes competentes que fizessem uma inquirição de genere vita et moribus ao noviço, nas qualquer condição que seja, e cujos pays não venham vivido a ley da nobreza, ou tenham exercitado officio algum mecânico”. Cf: LCG (2) fl. 70v 18 DOC fl. 32 19 Veja-se o ritual em: LUACLO fl. 66 20 O pano do hábito era igual ao dos outros monges já professos. Sobre os hábitos dos monges professos e conversos ver: Mosteiro de São João de Tarouca, ob. cit., p. 16. 21 LCG (2) fl. 62v 22 DOC fl. 32v; LCG (2) fl. 70v 198 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE suas terras de origem23. Por 3 vezes faziam os noviços votos temporários: os primeiros ao fim de 4 meses, os segundos aos 8 meses e os terceiros aos 11 meses24. Quando faltassem dez a doze dias para acabar o ano de noviciado, o noviço era chamado ao capítulo, pelo abade, e, diante dele e dos outros monges, pedia que o quisessem receber em profissão25. Não existindo entraves, por parte do mestre de noviços, da comunidade e da inquirição de genere, o noviço professaria os seus votos, num próximo capítulo regular. A profissão religiosa tinha (tem) obrigatoriedade dos votos de pobreza, obediência e castidade, unidos à estabilidade emocional e conversão. No dia da profissão26, com toda a comunidade novamente reunida em capítulo, em cerimónia com ritual próprio, ao noviço, “lhe fara o Abbde profissão privada diante de todo o convento, onde com as mãos na regra, prometa obediencia, castidade, &, pobreza, segundo nosso Padre Sam Bento dispoem em soa regra”27. “Aquel que quiser seer monge acabado o anno chamem no em cabidoo. ante todos. e se ouver beens. Diga oque quer fazer deles. Depois se não he clerigo beenza lhe o abbade a coroa na Egleia presente o Cantor. e o Sancristam. e faça a beençom como see no colli tanho. O sancristam queyme os cabelos na piscina que pera esto he posta des hi façam lhe a coroa.”28 Sobre a forma de fazer a inquirição de vida dos noviços, recolhemos as seguintes informações: 1º - Quem foram e são os seus pais; 2º - Se tem raça de cristão-novo, mouro, turco, mulato ou se tem fama disso; 3º - Se é legítimo; 4º se procede de geração infame; 5º - Que idade tem; 6º - Se é de bons costumes; 7º - Se cometeu algum crime a saber, homicídio ou furto ou outro semelhante; 8º - Se corre a fama ou presunção de os ter cometido; 9º - Se por eles foi condenado ou se presume que será; 10º - Se tem dívidas que não seja capaz de pagar com os seus bens; 11º - Se tem obrigação de dar contas de algum direito ou fazenda que lhe fosse entregue ou se por isso foi já molestado ou se se presume que o venha a ser; 12º - Se tem irmãos pobres; 13º Se tem irmãos pobres; 13º - Se tem alguma doença contagiosa ou incurável. Cf: LUACLO fl. 1v. 1º - Se conhecem o pretendente a entrar na Ordem, seus pais e avós; 2º - Se sabem se são católicos, de sangue limpo, sem raça de judeu, mouro, mulato, ou outra qualquer infecta nação, ou se foi o pretendente ou algum dos seus antepassados penitenciado pelo Santo Ofício; 3º - Se sabem que o pretendente he de legítimo matrimonio e por tal havido e reputado, se é pessoa livre e que livremente possa dispor de si, ou se já entrou noutra Religião; 4º - Se sabem que o pretendente já deu palavra de casamento, se deve honra a alguma mulher ou se já foi culpado em alguma visita; 5º - Se sabem que o pretendente tenha algum achaque habitual, contagioso ou falta de algum sentido; 6º - Se sabem que o pretendente é notado de alguma infâmia, vício ou se é criminoso; 7º - Se sabem que o pretendente tenha algumas dívidas que não possa pagar, se tem contas pendentes com o Rei ou com a justiça; 8º - Se sabem se o pretendente é de bons procedimentos ou se vive escandalosamente. Cf: BN - ALC Cod. 230. O custo desta inquirição, era paga pelos noviços. Cf: LCG (2) fls. 68-69 24 LCG (2) fl. 70 25 LUACLO, fls. 66-66v 26 “aos pretendentes que ouverem de vir receber o nosso Santo habito se lhe faça juntamente avizo de que não poderão trazer na sua companhia mais de huã te duas pessoas, sendo pay, ou irmão, e na falha destes algi tio, ou primo direito, e assim mesmo nas suas proficoens, para se evitarem as preturbacoens, e incomodides que cauzão aos Mosteiros com aquelles repentes”. Cf: LCG (2) fl. 70v 27 DOC fl. 33 28 LUOC fl. 86v 23 199 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Após a profissão, o noviço, acompanhado do abade do mosteiro, do mestre de noviços e outras testemunhas (por norma, os monges mais velhos), escrevia o termo do ato no livro do noviciado, que seguia mais ou menos os moldes dos termos B e C, apresentados na transcrição documental. Os noviços que se apresentassem para monges professos, passavam por uma seleção prévia: “se examine da capacidade letra, e conta, e que este nunca seja moço que tenha sido criado de pessoas seculares, nem ainda de religioso”29. Os trâmites da sua entrada no noviciado e a da profissão eram em quase tudo idênticos aos dos monges professos, só as vestes diferentes é que os identificavam e não podiam receber ordens sacras30. No dia da tomada de hábito, “lhe será dada huã túnica de Saragoça, e murça do mesmo”, no dia da profissão “diante do Prelado se porá de juelhos, elle lhe lancara o bentinho cõ a Cruz, e Escapulario pardo debaixo da murça benzendoo primeiro com a oração costumada e podosse cô os artículos das maõs no chão, meio prostrado, e levantandosse a commonidade comessara o cantor Mor o Hyno Veni Creator Spiritus”31. 2 – O mosteiro de São João de Tarouca nos finais do século XVII e primeira metade do século XVIII Sem dispormos de estudos que no elucidem acerca do seu funcionamento económico, das suas relações com outras entidades (cúria romana, coroa, mitras episcopais e cabidos, inquisição ou mosteiros) e da vivência em comunidade, atrevemo-nos a dizer que nas primeiras décadas do século XVII, o MSJT teria já recuperado o esplendor dos séculos passados, ultrapassando a crise quinhentista32. Fazemos esta afirmação, tendo por base a tranquilidade que a comunidade monacal começa a ter com a eleição trienal dos seus abades, a reforma levada a cabo no seio da OC, a conjuntura económica favorável33 e, sobretudo, os vestígios materiais que chegaram até aos tempos atuais. Estes vesLCG (2) fls. 55v; 71. “Item confirmando as leys modernas, que respeitão a aseitação de noviços para irmãos converços, ordenarão, e mandarão que daqui para diante se não aseite jujeito algum para irmão converço sem que passe por rigurozo exame, que sabe bem ler, escrever, e contar e que tem capacidade para poder tratar dos negocios e fazenda da ordem, e que não posso ser admitido ao Santo habito sem primeiro que esteja por tempo de hi anno para prova da sua capasidade: ou dentro de clausura em algia das quintas dos mosteiros”. Cf: LCG (2) fls. 83v-84 30 LCG (2) fl. 67 31 LUACL fls. 66-67 32 COSTA, Manuel Gonçalves da - História do Bispado e Cidade de Lamego, Vol. IV, Lamego, (s. ed.), 1984, pp. 543-550; GOMES, Saúl António - “A Congregação Cisterciense de Santa Maria de Alcobaça nos séculos XVI e XVII: elementos para o seu conhecimento”, in Lusitania Sacra, 18, 2006, pp. 390-393 33 Ver: FERNANDES, Rui - Descrição do terreno ao redor de Lamego duas léguas (1531-1532), Santa Maria da Feira, Beira Douro, ADVD, 2001 e OLIVEIRA, João Nunes de “A realidade sócio-económica dos arciprestados de Lamego e de Tarouca na transição do Antigo Regime para a Contemporaneidade” in, RESENDE, Nuno (Coord.) - O compasso da terra..., Vol. I, Lamego, Diocese de Lamego, 2006, pp. 94-103. 29 200 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE tígios resultam de uma série de obras de aumento das estruturas edificadas ao redor do mosteiro (hoje em ruínas) e nos melhoramentos e adaptações às disposições de Trento, levados a cabo na igreja monacal e que chegaram até aos nossos dias34. Tendo por base as informações colhidas por Gonçalves da Costa, o século XVII, tal como havia sido o anterior, foi fecundo em obras e melhoramentos levados a cabo sob a tutela dos seus abades: na igreja, no espaço conventual, na cerca, em algumas igrejas e capelas do seu padroado e nas granjas que o mosteiro trazia emprazadas35. Para a temática aqui tratada, importa realçar, pela negativa, a obra levada a cabo no segundo mandado do abade frei Frutuoso do Vale, que “promoveu a construção da noviciaria, tão mal, que em menos de um século se arruinou”36. A construção da noviciaria de três alas37, destinada à formação de noviços representava, sem dúvida, o papel de relevo que o mosteiro detinha no seio da própria OC, uma vez que era um dos quatro mosteiros que recebia noviços. Estes, após a sua profissão, seriam distribuídos pelos outros mosteiros, ocupando alguns lugares de destaque na hierarquia da Ordem. Veja-se o caso de alguns monges que professaram em São João e que singraram no campo das letras38. COSTA, Manuel Gonçalves da – Igreja do Convento de São João de Tarouca, Lisboa, Inst. Port. do Património Cultural, 1988. 35 COSTA, Manuel Gonçalves da – IV vol., ob. cit., pp. 550-558. 36 COSTA, Manuel Gonçalves da – ob. cit., p. 552. 37 Ver mapa da sua localização em: Mosteiro de São João de Tarouca, ob. cit., p. 2. 38 RESENDE, Nuno – “Frei Bernardo de Brito e os escritores dos mosteiros cistercienses do Douro” in, Cister no Douro ob. cit., pp. 83-93. 34 201 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA 2.1 – A comunidade monástica de São João de Tarouca em 1692 O rol dos religiosos da OC39, datado do ano de 1692, permite-nos perceber a população monacal residente no MSJT, aquando do início do registo que serve este estudo, introduzindo-nos contextualizando-nos na ocupação humana do espaço. Segundo o dito rol, das 26 casas com monges cistercienses40, o MSJT era a terceira casa da OC com mais população, 34 monges, sendo superado apenas por Alcobaça, com 110 monges e Salzedas com 42. Eram também estes os 3 únicos mosteiros que nesta data tinham o noviciado a funcionar41. Os 34 monges do mosteiro de Tarouca, orientados sob a tutela do abade Félix Azevedo, agrupavam-se da seguinte forma: 24 monges com votos, dos quais, 17 tinham recebido o sacramento da ordem e 9 noviços. Não havia nenhum monge converso com profissão e, dos 9 noviços, apenas o irmão António de Macedo era converso42. A vida na comunidade do MSJT devia seguir os trâmites normais dos mosteiros da OC, orientada pela RB, cumprindo as orientações saídas dos capítulos gerais e recolhidas nos livros das definições e livros de usos. 3 – O Livro dos graus da Noviciaria de 1692-1763 O documento localizado na Torre do Tombo, no fundo do MSJT, com a cota de livro 1, apresenta-se com uma encadernação em pergaminho, com bastante desgaste. Na capa, as letras quase gastas apenas permitem ler “1692” e “assentos dos noviços e dos professos”. No seu interior, apresenta 162 folhas de papel com as medidas de 29,30 cm por 20, 50 cm. A primeira folha dita o título do livro, a sua função, datação e quem foi o responsável que o mandou fazer: “Livro dos graus da Noviciaria, que pello antigo ser acabado, mandou fazer o Muito Reverendo Padre Frey Felix de Asenção deste Real Mosteiro de São João de Tarouca Dom Abade, o qual comessa no anno de 1692 43”, Está numerado deste a primeira folha, com o número 1, até à última, com o número 167. Contudo, existem algumas falhas na numeração: da folha número 21 passa para a folha 24; da folha 27 passa para a 29; a folha 28 foi rasgada, segundo a informação contida na folha 27v., porque o noviço Caetano de São José se foi embora. Estão em branco as folhas a partir da 57 e até à folha 74. A folha 90 não existe, com vestígios de ter sido arrancada. A folha 100, também não existe. A folha 110 não existe, com vestígios de ter sido arrancada. As folhas desde o número 149 até à folha 151 (rosto) estão em branBN - ALC Cod. 75 fls. 217-222 Inserem-se nesta contagem os mosteiros da OC femininos, onde serviam os monges de Cister e o colégio de Coimbra. O número total de monges as OC, espalhados pelas 26 casas na mesma data era de 385. Cf: BN - ALC Cod. 75 fl. 222v 41 Salzedas tinha 6 noviços e Alcobaça 8. Cf: BN - ALC Cod. 75 fls. 219v e 221v 42 Ibidem, fl. 219 43 LGN fl. 1 39 40 202 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE co. No verso da folha 151, está a seguinte menção: “Tem este livro cento e sincoenta e hua folhas entrando esta deste asento numerado por mim em os dezanove dias do mes de Outubro de mil seiscentos e noventa e dous annos neste Real Mosteiro de São João de Tarouca, e por verdade me assinei Frei Manuel Pereira, Prior e Mestre dos Noviços”44. Mas fazem parte deste livro mais 17 folhas, já numeradas com outra letra, tendo, a primeira, o número 152 e a última o número 167. A seguir à folha 163v (data: 28 de janeiro de 1759, existem vestígios de várias folhas cortadas, a folha seguinte não tem numeração alguma (data: 20 de outubro de 1759), mas a folha posterior já esta marcada com o número 165 (tinta azul recente), que se repete até à última folha (167). O documento divide-se em duas partes: - na primeira apresenta-se o formulário dos termos do registo da tomada de hábito da Ordem, ou seja, o dia de entrada no mosteiro e o início do noviciado, escrito e assinado pelo próprio (da folha 3 até à folha 56). Nesse registo consta a datação, o nome do abade do mosteiro, o nome do mestre dos noviços, o nome do noviço, a sua filiação e naturalidade, o bispado a que pertence e a sua idade. Assina sempre o noviço, o mestre dos noviços e, em alguns casos, o prior do convento ou o subprior; - a segunda parte consta do formulário dos termos de registo do dia da profissão feita pelos noviços, (além da filiação e naturalidade) as declarações de compromisso para com a OC, a informação dos bens que detinham como seus e a quem os legavam (da folha 75 até 167 v). Este registo é também escrito e assinado pelo próprio noviço, junto com o abade do mosteiro, mestre dos noviços e, em alguns casos, o prior do convento, o subprior e outras testemunhas (frades mais velhos). 44 LGN fl. 151v 203 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Frei Manuel Pereira, mestre dos noviços no ano de 1692, que iniciou este documento e o numerou, escreveu na folha de rosto a seguinte recomendação aos futuros mestres dos noviços: “He necessario terem os Padres Mestres da Noviciaria <advertencia> que ponhão os Noviços o dia, e era em que tomão o habito por letra, e não por algarismo por evitar o inconveniente de se poder viciar este Livro45 “, isto, porque já no livro velho, que tinha terminado, a havia encontrado e a achou digna de lembrança. Gonçalves da Costa, no VI volume da sua História do Bispado e Cidade de Lamego, utiliza as informações do LGN, para elencar os ritmos de entrada dos noviços do MSJT e identificar os seus abades46. 3.1 – Entrada no noviciado – anos meses e dias A catalogação dos 151 monges que receberam hábito, permitiu identificar os anos, os meses de entrada e os dias: - os anos em que mais noviços deram entrada na noviciaria do MSJT foram: 1711 (9 monges), 1744 (8 monges), 1705 e 1746 (7 monges) os anos de 1696, 1704, 1708, 1734, 1750, 1759 e 1762 (6 monges) e os anos de 1699, 1703, 1753 e 1756 (5 monges). O gráfico nº 1 permite visualizar que os picos de maior entrada de noviços se dão nos anos de 1696 a 1711 e de forma já mais irregular de 1734 a 1762; 45 46 LGN fl. 1 - História do Bispado e Cidade de Lamego, Vol. VI, Lamego, (s. ed.), 1982, pp. 707-715. 204 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE - em relação aos meses de entrada, os preferenciais foram: abril (47 noviços), março com (33 noviços) e fevereiro (17 noviços). Podemos afirmar que o terminar do inverno e o início da primavera era a época do ano escolhida para a entrada no noviciado no MSJT; - quanto aos dias de entrada no noviciado e profissão de votos, não encontramos um padrão que possamos apresentar. Elencámos os dias com o número de noviços que receberam hábito e professaram de forma a perceber se se adequavam a alguma festa do calendário litúrgico de Cister e de que forma é que este dia podia, ou não, ter influenciado a escolha do nome de religião, mas não nos foi possível estabelecer ligações. Podemos, apenas, dizer que o dia da Anunciação de Nossa Senhora, 25 de março, foi o dia mais escolhido para dar entrada no noviciado, por 5 vezes, sendo que no ano de 1741, entraram 2 noviços nesse dia. Verificámos também que apenas o monge Bernardo da Encarnação (1744/03/25), escolheu o nome ligado à celebração litúrgica própria do dia. Quanto aos dias de profissão, foram escolhidos 5 vezes os seguintes: 29 de março, 15 de abril e 1 de maio. Mas em todos estes dias e no mesmo ano, professaram mais do que um noviço. Da leitura das leis saídas dos vários capítulos gerais da OC, depreendemos que a entrada de noviços na Ordem, era condicionada pelas resoluções destes capítulos, como forma de controlar a população dos mosteiros47. As leis do capítulo geral do ano de 1728, por exemplo, “ordenarão, e mandarão que a prohibição que poem a dita ley se estendesse e prorrogasse de sorte que se não possão aceitar noviços alguns enquanto permanecerem os ditos empenhos, e dividas, e que o numero dos Religiozos não estiver diminuído, e reduzido para a taxa de 350. Convem a saber 315 monges, e 35 conversos; o que mais de novo detreminão, e taxão agora, e para o futuro comformandosse com a ultima taxa que se fez na religião no Capitulo geral celebrado no anno de 1678”48. Com monges a mais, alguns mosteiros não tinham meios de os sustentar, o que fazia que muitos saíssem da clausura na busca de melhores condições de sustentabilidade49. LCG (1) e LCG (2). Exemplo: “Porque no Capitullo Geral se achou preciza aceitação de seis Noviços ... e aceitados estes se não admitta outro algum antes de aver Capitullo Geral”. Cf: LCG (2) fl. 22. Anos sem estradas de monges: 1697-98, 1701,1706-07, 1709-10, 1712-13, 1715-1717, 1722-1723, 1726-1729, 1731,1736-1737, 1739-40, 1743, 1746, 1748-49, 1751, 1757, 1760-61. 48 LCG (2) fl. 39 49 LCG (2) fl. 39 47 205 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Já no capítulo geral do ano de 1729, foi determinado que: “atendendo á urgente necessidade que tem as cazas do coro de que nellas haja noviços, e professos para o seu serviço, e respeitando ao excesso, que ainda há no nº dos monges, pareceo ao Capitulo ordenar possa aceytar 18 monges ao nosso Revendendo neste seu trienio, e em tudo mais confirma a ley da junta passada no tocante a esta matéria”50. Já as leis que que saíram da junta realizada a 14 de janeiro de 1741, no Real Colégio de Coimbra, determinavam o seguinte na terceira seção: “attendendo ao Nosso Reverendo á falta que ha de monges para assistir ao coro e se fazerem com perfeição os officios divinos, e tambem para servirem os cargos e officios da ordem, e ponderando como desde o trienio do Nosso Reverendo Padre Frei Manoel de Mello athe o prezente se acha a congregação diminuta em 73 monges, conferindo com mais padre da junta, pareceo ao mesmo Reverendo preciso, e necessario aseitar ao menos 26, ou 27 noviços fora organistas e conversos”51. 3. 3 – Os nomes de religião Não dispomos de informações sobre o tempo e a forma em que se introduziu como costume, nas ordens religiosas, a adoção, por parte dos monges, do chamado nome de religião. Ou seja, o abandono do seu nome secular e de batismo, para adotar um novo nome chamado de religião. Não conhecemos estudos que abordem esta temática, mas era prática usual, na Época Moderna, entre as várias congregações religiosas mendicantes e que os cistercienses também vão adotar. A mudança de nome insere-se no mecanismo de mudança de vida que o próprio noviço vai realizar, ao abandonar a vida do século e ao entrar na vida de religião (vida nova / nome novo). A escolha do nome de religião é, possivelmente, condicionada pelos nomes dos santos, invocações ou devoções de cada Ordem. Assim, os cistercienses iriam procuram os advogados mais queridos na OC, ao passo que os franciscanos ou dominicanos fariam o mesmo entre os seus52. Os monges apresentam-se sempre com um nome próprio seguido da invocação ou santo, ex: Manuel do Coração de Jesus ou Francisco de São Bernardo. Fica a interrogação se o primeiro nome seria o nome de batismo, ou se também é escolhido. Pelo elenco dos 160 nomes de noviços que recolhemos no LGN, no termo da receção do hábito e no da profissão, depois de agruparmos os segundos nomes pelas diversas invocações, distinguindo as marianas das cristológicas e os santos das santas, obtivemos os seguintes dados: - a maior escolha para segundo nome recaiu em nome de santos, com 80 casos, seguido das invocações marianas (45 ocorrências), do nome de santas (15 referências), as invocações cristológicas (13 casos) e outras invocações (7); LCG (2) fl. 54v LCG (2) fl. 85v 52 Mas outras condicionantes devem pautar estas escolhas. Veja-se no LGN o caso do noviço Plácido de Santo Estêvão, natural da quinta de Santo Estêvão, fl. 133. 50 51 206 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE - como seria de esperar, São Bernardo lidera a escolha do segundo nome dos noviços (20 escolhas), seguido de São José (19); São Bento com 8 referências, fica atrás do franciscano português Santo António (11); - de entre as invocações marianas, Conceição lidera com 8 escolhas, seguido de Nossa Senhora, ex: Fernando de Nossa Senhora, em 7 casos; - entre as santas, Santa Ana e Santa Rosa, foram escolhidas por 4 vezes, seguidas de Santa Teresa (3). Tomamos também nota de que, por 7 vezes, se o deu o caso de alguns noviços assinarem o termo da tomada de hábito com um nome e, ao assinarem o termo da profissão usarem outro nome (no caso, apenas a invicção): ex: Francisco de Santa Apolónia muda o nome para Francisco das Chagas53; Luís de São Bernardo para Luís de São Lourenço54 ou Alexandre de Santa Teresa para Alexandre do Desterro55. Das fontes consultadas, entre as definições e livros de usos apenas encontramos a referência à mudança de nome para os monges conversos “ate fazer profissão e emquanto a não fizer sera chamado por seu nome proprio mudando o sobrenome pello de algum Sancto por não ficar com o de secular”56. Para Espanha, dispomos da informação de que a escolha do nome era da responsabilidade do abade57. LGN fls. 10v; 87v LGN fls. 10v; 88 55 LGN fls. 11; 88 56 LUACLO fl. 67 57 FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo - “Escrituras para la profesión masculina en la Orden del Císter: Ceremonial y tipologías documentales” in, Historia. Instituciones. Documentos, 44, 2017, p. 113. 53 54 207 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Sem sabermos de quem era a responsabilidade da escolha do nome de religião, certo é que os noviços, em Tarouca, no hiato de tempo estudado, já no início do noviciado se apresentavam com o nome de religião e que alguns mudaram esse nome durante o noviciado. Deixamos também a pergunta, a merecer outro tipo de investigação e confronto com as fontes de outras instituições monásticas; o nome de religião mantinha-se para sempre ou, posteriormente, os monges voltavam a usar o seu nome de batismo? Isso acontecia com todos os monges ou somente aos professos com ordens sacras? 3. 4 – Naturalidade dos noviços Estando a OC implantada um pouco por todo o país e havendo uma quantidade enorme de mosteiros das várias famílias religiosas, podemos afirmar que havia muita escolha para aquele(a)s que se propunham a entrar na vida religiosa. A identificação da naturalidade dos noviços ajuda-nos a perceber qual era a zona de influência do MJST. Mandavam as definições que “que perã bem & quietação dos religiosos nenhum noviço se receba em mosteiro algum, menos de quatro legoas, donde he natural”58, sendo menos de 4 léguas e merecedor de hábito “se lhe dará em hu mosteiro, mais apartado.” Mas nem sempre esta premissa foi seguida, pois o maior número de noviços recebidos foram os naturais do bispado de Lamego (48) e das redondezas do mosteiro: Lamego (4), Castro Daire, Leomil e da Arguedeira (Tarouca) (3), Miomães Mondim (2), Britiande, Moimenta da Beira, Salzedas, Sande, Samodães, Leomil, Penajoia e São João de Tarouca (1). Os restantes eram oriundos de quase toda a diocese: Marialva, Trevões e Resende (2), Almeida, Anreade, Arouca Barrô, Cedovim, Espinhosa, Ferreiros de Tendais, Fonte Arcada, Muxagata, Riodades, São João da Pesqueira, São Pedro de Ferreiros de Tendais, Sernancelhe, Távora, Tendais, Vidigal -Vilarouco e Vilar (1). Ao bispado de Lamego, seguem-se, por ordem decrescente entrados na noviciaria do MSJT, indivíduos naturais, do bispado do Porto (32), de Braga (30), Coimbra (20), Viseu (17), Lisboa (12), Guarda (3) e Miranda (1). Naturais das grandes cidades do reino, contámos 7 noviços do Porto e de Braga; 5 de Coimbra e 3 de Lisboa. Da atual cidade da Régua, identificamos 5 noviços; 3 de Guimarães e de Santa Marta de Penaguião e 2 de Vila Real, Ponte de Lima, Valença do Minho e Viana do Castelo59. Pelos dados recolhidos podemos constatar que a área de influência do MSJT era bastante diversificada, atraindo noviços das grandes cidades, mas também dos meios rurais como fica demonstrado pelos números acima indicados e como iremos ver quando falarmos das famílias. Além do 58 59 COC fl. 33 Ver mapa 1. 208 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE bispado de Lamego, os territórios periféricos do Minho, do Porto, Viseu e Coimbra, foram as zonas que mais noviços forneceram ao MSJT. 209 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA 3. 5 – Idade A seção XXV do concílio de Trento, no capítulo XV, deixou como norma: “Em nenhuma Religião, tanto de homens, como mulheres, se faça, Profissão, antes de completos dezaseis annos: nem seja admitido a Profissão o que tiver menos de hum anno de aprovação, desde que recebeo o Habito. A profissão pois, que se fizer antes de passar este tempo, seja nulla, e não induza obrigação alguma de alguma Regra, Religião ou observância da Ordem, nem para outros quaesquer efeitos.60”. Já as definições de Cister, do ano de 1593, estabeleciam: “Manda o capitulo, se nam recebam doje em diante pera moges nenhúis noviços menos de dezasete annos perfeitos: salvo [se] tiver tais qualidades, que a religião tenha comodo em toma los de menos. E os que ouverem de ser conversos teram vinte annos cumpridos, nenhum dos quais se receberá sendo aleijado, ou doente de mal contagioso”61. Por aqui se conclui que nem sempre a idade mínima para professar foi a mesma, variando segundo as orientações das diversas constituições da OC62. Do levantamento que fizemos, tendo por base 144 monges professos (entre os que receberam hábito e os que professaram), a idade média de entrada no MSJT era de 18 anos, tendo, o mais novo, 14 anos, e, o mais velho, 33. No caso do mais novo, frei Ascenso da Purificação, apenas professou com a idade de 16 anos e dois anos e meio de noviciado 63. Em relação aos 8 monges conversos, a média de idade era de 24 anos, tendo o mais velho 35 anos e os 2 mais novos, 20 anos cada um. 3. 6 – Família, origem social e posses Só com um estudo mais aprofundado, na área da genealogia, poderíamos traçar o perfil familiar e social de cada um dos noviços. Mas os dados recolhidos no registo de tomada de hábito e de profissão deixam antever que grande parte dos noviços vinham de famílias da nobreza regional, com algum papel de revelo no panorama social, militar e religioso da época64. SECT pp. 357-408 DOC fl. 31 62 Por causa da sua idade, o monge Luís de São Bento retificou a sua profissão, “por achar em minha conciencia ser nulla a que tinha feito ... por não ter completado o tempo que para a tal profissão ser valida hera necessario conforme o Concilio e demais Leis e direito” Cf: LGN fl. fol. 114 63 LGN fl. 119 64 OLIVAL, Fernanda; MONTEIRO, Nuno Gonçalo – “Mobilidade social nas carreiras eclesiásticas em Portugal (1500-1820)”, in Análise Social, 165, 2003, pp. 1213-1239. 60 61 210 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE Fazendo eco de alguns dos registos de tomada de hábito e de profissão, recolhemos algumas das profissões e cargos que desempenhavam alguns dos pais dos noviços: 1 - como doutores: o pai de frei José de São Bernardo, natural de Amarante e a mãe natural de Canavezes, habitavam em Lamego65; o pai de frei António de São Luís era natural de Seia66; Duarte Róis, o pai de frei José de São Joaquim, era natural do Couto de Alcobaça67; o pai de frei Francisco da Conceição, era natural de Carapito (Viseu)68; 2 - como desembargadores: o pai de frei Manuel de Santo António, morador em Vila Real69; do termo de Vila Real o pai de frei José da Encarnação, António Pimenta Borgesl70; 3 - com funções no exército: frei Francisco de São Miguel, natural de Almada, era filho de um sargento-mor do mesmo lugar71; frei Fernando de São José, de Maceira Dão, era “filho legitimo do Capitam Manuel Barbosa”72; também capitão, era o pai do monge converso Francisco de São Bernardo, natural de Pampilhosa da Serra73; frei Manuel de São José, era natural de Viana do Castelo, onde o pai servia como tenente-coronel74; frei Manuel do Coração de Jesus, era natural de Almeida, em cuja praça de armas o pai era coronel75; frei António de Nossa Senhora do Rosário, de Estarreja, era filho de capitão76. Já frei Jerónimo dos Prazeres, de São Pedro de Ferreiros de Tendais - Cinfães, declara que seu pai era procurador no Estado de Bragança77. Deixamos para o fim o caso de Ascenso da Purificação, natural de Coimbra, filho de Pedro Álvares Garrido e sua mulher, Maria da Costa. Na informação da sua profissão, indica que o pai era doutor e cavaleiro professo do hábito de Cristo78. Por outras informações, sabemos que seu pai cursou cânones em Coimbra (bacharel formado em 1702), no ano de 1704, participou na guerra contra Castela, como soldado de cavalaria pago à sua conta, o que lhe valeu a mercê régia de duas tenças anuais (28.000 e 12.000 réis) e o hábito da Ordem de Cristo, concedido no ano de 1706, foi também capitão-mor e almoxarife da Casa de Aveiro. O casal teve 13 filhos: 7 rapazes e 6 raparigas, dos quais 11 foram encaminhados para a vida religiosa, obtendo benefícios eclesiásticos que lhes garantiam sustento, uma vez que todos abdicaram das suas legítimas em favor do morgadio da família, que veio a ser administrado pelo filho segundo do casal, Lourenço Xavier LGN fl. 129 LGN fl. 34 67 LGN fl. 35v 68 LGN fl. 164v 69 LGN fl. 152 70 LGN fl. 34v 71 LGN fl. 31v 72 LGN fl. 37 73 LGN fl. 31 74 LGN fl. 139v 75 LGN fl. 153v 76 LGN fl. 157 77 LGN, fl. 155 78 LGN fl. 119 65 66 211 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Garrido, dado que o filho mais velho preferiu prosseguir a carreira eclesiástica79. A possível mercê a que frei Ascenso da Purificação diz ter direito, no registo da sua profissão, possivelmente terá sido um legado de seu pai, “de vinte mil reis de tença efectivos em alguns dos Almoxarifados do Reyno e se lhe asentou no da portage de Lisboa aonde a cobra há annos”80. Se os pais destes monges ocupavam cargos públicos na administração e defesa do reino, outros monges dão a entender que seus pais seriam proprietários de terras, possivelmente, membros de uma pequena nobreza rural: - frei Bernardo da Assumpção, “filho legitimo de Martinho de Faria Andrade ja defunto e de D. Madalena Luiza Mendes de Carvalho moradores na caza de Robalde81; - frei António de Santa Ana, natural de Ovar e que voltou ao século sem completar o tempo de noviciado, afirma que seu pai, Salvador da Rocha, era “morgado e padroeyro insolidum de Pigeiros”82; - frei Ambrósio da Conceição, filho de Francisco Gomes Colaço e sua esposa D. Maria Manço, que eram naturais e moradores na quinta de Vera, na freguesia de Almalaguês –Coimbra83; - frei Manuel de São Pedro era natural da quinta de Negrosa (São Pedro do Sul), onde moravam seus pais, Luís António de Almada e Caetana de Mesquita84; já perto da cidade de Viseu, na quinta de Santo Estêvão, moravam os pais de frei Plácido de Santo Estêvão, João de Almeida Melo e Vasconcelos e Inácia Maria Pinto de Vasconcelos85; - Frei José de Nossa Senhora informa que seus pais, Jacinto Machado Melo e D. Antónia Joséfa da Silva, eram “moradores em a quinta da quintam, freguesia de S. Thiago de Sendim Arcebispado de Braga”86; do mesmo arcebispado, os pais de frei José de São Bernardo, Hipólito Luís Lopes Picado e sua mulher D. Ana Maria, eram moradores na sua quinta em Arnoia, no concelho de Basto87; frei Tomás de São José, “filho ligitimo de Joze de Sequeira Soares, e de sua mulher D. Luzia Maria Caetano, moradores na sua quinta da Veiga de Cenra freguesia de São Jorge da villa dos Arcos, Comarca de Valença”88 e frei Torcato da Senhora da Piedade, “filho legitimo de Luis Antonio Pimenta de Barboza da Gama Castro e de sua mulher D. Jozefa de Gusmão Machado RIBEIRO, Ana Isabel – “A construção de uma identidade nobiliárquica – o percurso da família Garrido”, in Penela. Um percurso no tempo (coord. Margarida Neto), Coimbra, Palimage, XLIV, 2015, pp. 125-154; RIBEIRO, Ana Isabel – “O património da fidalguia provincial da região de Coimbra: o caso da família Garrido (século XVIII)”, in Revista Portuguesa de História, 44, 2013, pp. 328-358. 80 LGN fl. 119 81 LGN fl. 47v 82 LGN fl. 38 83 LGN fl. 113v 84 LGN fl. 132v 85 LGN fl. 133 86 LGN fl. 154 87 LGN fl. 154v 88 LGN fl. 161v 79 212 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE Miranda natural pela parte paterna da Vila de Viana e pela parte materna de Guimarães, assistentes de prezente na sua quinta de Quintela freguesia de Santa Maria de Iolda termo da Vila dos Arcos”89; - frei António de São José, “filho ligitimo de Bento Soares da Motta, e de sua mulher D. Catharina Jozefa Carneiro de Magalhães, moradores na sua quinta de Quintaã, freguesia e concelho de Soalhaens, Bispado do Porto”90; foram também moradores na quinta do Pinheiro em Godim - Régua, os falecidos pais de frei Manuel do Rosário91. Ao professarem votos, os noviços, perante o abade do mosteiro, com as mãos sobre a RB, prometiam obediência, castidade e pobreza. Pelo que, tinham que se desfazer dos bens que tinham como seus92. Nos termos dos formulários de profissão, os monges deixaram a anotação dos bens de que dispunham e a quem os legavam. Esta preciosa informação permite estabelecer o estatuto social do noviço, pelos bens que legava, e, em alguns casos, de quem os recebera e, sobretudo, ajuda a compreender o núcleo familiar de onde vinham. Foram apenas 125 monges (dos 141 monges que fizeram registo de profissão), que nos deixaram informação acerca da sua “legítima”, herança ou bens de que disponham93. Destes 125 monges, 54 informaram que ainda tinham os pais vivos e, portanto, ainda não dispunham de bens próprios. O monge converso Manuel de Nossa Senhora da Guia, natural de Ponte de Lima, com a idade de 28 anos, declarava que era “filho de pays incognitos”94, não dispondo, portanto, de bens. Frei Ascenso da Purificação, como já foi referido, tinha uma tença régia95 e frei Manuel de Jesus Maria e José, informava que tinha bens que herdara do seu tio padre e das suas tias freiras em Arouca, mas, já depois de ter assinado o termo de profissão, informava que seu pai tinha falecido e que deixava, a sua mãe, a herança que dele havia de receber96. Os restantes 6997 já eram órfãos, sendo 18 órfãos de pai e mãe, 41 só de pai e 10 só de mãe. Apesar de serem parcas as informações, conseguimos perceber alguns elos entre os noviços e outros membros da família já ingressados na vida religiosa: - o já aqui citado, frei Manuel dos Santos, cujo tio, frei João de Cristo, era abade do MSJT, tendo começado o noviciado em Alcobaça, veio com o dito tio para São João Tarouca98. LGN, fl. 55 LGN fl. 161v 91 LGN fl. 97 92 DOC fl. 33 93 Existe uma falha nesta informação, durante o triénio do abade João Barreto e do mestre de noviços e lente em Teologia Caetano Soares, nos anos de 1750 a 1752, cf: LGN fls. 152-156 94 LGN fl. 155v 95 LGN fl. 119 96 LGN fl. 138v 97 Juntámos mais um noviço, que apesar de não deixar testamento, informa no registo de profissão que sua mãe já é “defunta”. Cf: LGN fl. 155 98 LGN fl. 51 89 90 213 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA Deixou a herança de seus pais, ao seu irmão João dos Santos, da Companhia de Jesus, sem condições algumas99; - os também citados; Ascenso da Purificação, que teve 11 irmãos a seguir a vida eclesiástica e Manuel de Jesus Maria e José, que dispunha de bens que herdara de seu tio padre e de duas tias freiras em Arouca100; - frei Nuno de São Bernardo deixou a herança de seu pai a seu irmão, o beneficiado Manuel Garcia101; frei João de São José deixou os bens que herdara de seu pai, a sua mãe, e, na morte desta, legava-os ao irmão, padre João Dias Pereira, para que fizesse deles o que melhor entendesse102. No quadro nº 5, podemos verificar aqueles a quem os monges destinavam as legítimas a que tinham direito, por morte do pai, por morte da mãe e por morte do pai e da mãe. Mas nem todas as legítimas eram legadas sem condições: - apesar do voto de pobreza expresso no dia da profissão, pela leitura dos seus termos, identificámos 17 monges que salvaguardaram bens para si, mediante algumas cláusulas da herança a que tinham direito. Tratava-se de uma tença, que os beneficiários da legítima, deviam pagar aos monges, anualmente, em dia ou época definida103. Não sabemos se a gestão desta tença seria pessoal ou se entrava nas finanças do mosteiro que, posteriormente, poderia investir na formação do monge104; - identificámos também 3 monges que deixaram as seguintes cláusulas nas suas legítimas: frei Jerónimo de São José deixava a legítima que lhe pertencia de seu pai, ao irmão Francisco Xavier, com declaração de que, se tivesse filhos, seria obrigado a vinculá-la ao seu morgado, com as condições e cláusulas que lhe parecessem, e, não os tendo, o irmão ficava na liberdade de poder dispor dela LGN fl. 161 LGN fl. 138v 101 LGN fl. 76v 102 LGN fl. 131v 103 Veja-se o quadro nº 6. 104 Veja-se o caso de frei Francisco do Espírito Santo, que deixa a herança de seu pai, a sua irmã Guiomar, com a condição de tirar da legítima uma tença com licença da Religião, para livros dos seus estudos. Cf: LGN fl. 79. Já Ascenso da Purificação ou Ascenso Garrido, doutorou-se em Teologia, foi abade do mosteiro de Odivelas, procurador-geral da Ordem no Porto e segundo a informação anexa ao seu registo de tomada de hábito, foi examinador das 3 Ordens Militares e consultor da Bula da Cruzada. Tendo a tença régia, “e que agora avendo de querer profesar lhe fes o dito Senhor nova merce de que a pudesse comer no estado de Religião passando lhe apostilla do direito padrão da dita tença que ficava conservando em que a Relegião lhe premetisse o uzo della”. Cf: LGN fl. 119 99 100 214 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE como bem entendesse105; frei João de São José, deixava a herança de sua mãe, a seu pai e seus herdeiros, encapelada num morgado106 e Bernardo da Assunção legava a herança de seu pai, ao irmão, sem condições, mas em tempo nenhum, a pode vender ou dar, mas pode uni-la ao vínculo da capela de Pedro Afonso no Convento de São Domingos de Guimarães, sendo sempre dela administrador o senhor da Casa de Robalde e fazendo o meu irmão o contrario, passa a legítima para o seu primo Bartolomeu de Faria107. LGN fl. 129v-130 LGN fl. 125v 107 LGN fl. 158v 105 106 215 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA 3. 7 – Abades e mestres de noviços A escolha dos abades era feita por espaço trienal e ao longo dos 80 anos a que se refere o documento, identificámos 24 abades, sendo que, pelo menos 3, estiveram mais de um triénio: Francisco Breando108, Francisco do Espírito Santo109 e Leopoldo Botelho110. Por possível morte do abade D. Vicente de Noronha, que, no dia 5 do mês de março de 1747, ainda está presente no capitulo da tomada de hábito de frei José de São Bento, assume o governo do convento o prior Bento da Gama, recebendo o hábito no capitulo de 28 de março do mesmo ano, frei Luís da Conceição, natural de Miomães111. No capítulo do dia 11 de abril, era abade escolhido, pela comunidade, frei Manuel Barbosa112. Mas no dia 17 de junho de 1747, ao tomar habito frei Bernardo da Conceição, o abade da comunidade era já Diogo de Jesus113, que se manteve no cargo durante o triénio. Do abade Félix de Azevedo, que mandou elaborar o livro objeto deste estudo, sabemos que também mandou realizar os tombos dos bens do mosteiro e dourar os retábulos da igreja e outras obras de arte. Recolhemos a informação de que também foi abade em Santa Maria de Alcobaça114. Para o no ano de 1715, recolhemos a informação do abade Francisco Carneiro e do mestre dos noviços frei Luís da Cunha, com os 6 monges que professaram, sem termos o registo da sua tomada de hábito115. Do registo das profissões, recolhemos informação do triénio do abade Bernardo da Silva, que se seguiu ao abade João de Cristo, no ano de 1760, acompanhado do mestre de noviços Alexandre de São Bernardo. Tendo por base a RB as DOC e o LUACLO, o mestre dos noviços devia ser escolhido pelo abade do mosteiro, entre os monges mais velhos, “cujos costumes & vida codigam, com o nosso Padre Sam Bento manda no capitulo cincoenta & oito, de sua santa regra”116, que diz: “Seja designado para eles um dos mais velhos, que seja apto a obter o progresso das almas e que se dedique a eles com todo o interesse. Que haja solicitude em ver se procura verdadeiramente a Deus, se é solícito para com o Ofício Divino, a obediência e os opróbrios. Sejam-lhe dadas a conhecer, previamente, todas as coisas duras e ásperas pelas quais se vai a Deus”, RB nº 58, 7-9. Ao mestre, era pedido que acompanhasse sempre os noviços, ensinando-lhes “toda a verdade, e religião, em especial os graos de humildade contheudos em nossa Sancya Regra e as mais cerimoniais Sanctas da ordem e ter muito cuidado em que elles saibão, 1695/12/22 a 1696/04/28 e 1700/05/01 a 1703/04/27 1720/08/06 a 1721/08/29 e 1733/08/11 a 1735/04/17 110 1738/02/05 a 1738/03/26 e 1742/02/19 a 1744/04/12 111 LGN fl. 40v 112 LGN fl. 41v 113 LGN fl. 42 114 LGN fl. 24 115 LGN fls. 115-118v 116 DOC fl. 30v 108 109 216 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE e exortandoos em toda a parte, e lugar onde se descuidarem por sinal por palavra, ou por castigo.”117. No LGN, foi-nos possível identificar 24 mestres de noviços, os quais, por norma, acompanharam os triénios dos abades, ainda que com algumas particularidades: - os 3 abades que estiveram 2 triénios, fizeram-se acompanhar de mestre de noviços diferentes; - no triénio do abade António Magalhães houve 2 mestres de noviços (Feliciano de Vasconcelos e Nuno Mascarenhas); - Agostinho da Purificação ocupou o cargo no triénio de 2 abades: no triénio de D. Francisco do Espírito Santo, apenas como mestre dos noviços, e, no de D. Leopoldo Botelho, como prior e mestre dos noviços. Teotónio de Almeida, mestre de noviços do triénio do abade D. Vicente de Noronha, manteve o cargo no período em que estiveram à frente da comunidade o prior Bento da Gama e o abade D. Manuel Barbosa. - Alexandre de São Bernardo acompanhou o triénio do abade João de Cristo (175659) e do abade Bernardo da Silva (1760), como mestre de noviços. Pela possível morte deste último, acompanhou também o abade D. Bento da Fonseca (1762), agora como prior e mestre dos noviços; Constatamos que os mestres de noviços ocupavam outras funções no convento; como priores e mestres, identificámos 15: Agostinho da Purificação, Alexandre de São Bernardo, Feliciano de Vasconcelos, Inácio da Purificação, Joaquim de São José, Jorge Pimentel, José Ribeiro, Lopo da Madre Deus, Luís Faria, Manuel dos Prazeres, Manuel Guedes, Manuel Pereira, Manuel Ramalho, Nuno Caiado e Ricardo Jesus e Maria. Como subpriores e mestre de noviços, identificámos 3: António de Jesus Maria e José, José da Virgem Senhora Nossa e Teotónio de Almeida. Apenas 8 ocuparam somente o cargo de mestre de noviços: António de Jesus Maria e José, Agostinho da Purificação, Alexandre de São Bernardo, Caetano Soares, José de Távora, Miguel Albuquerque, Miguel do Espírito Santo e Nuno Mascarenhas. Agostinho da Purificação foi o mestre de noviços no triénio do abade D. Francisco do Espírito Santo, tendo sido prior e mestre de noviços no triénio do abade Leopoldo Botelho; - os mestres de noviços Caetano Soares e José de Távora eram lentes em Teologia; - o prior e mestre de noviços Lopo da Mãe de Deus, que acompanhou o triénio do abade António do Amaral, devia ser o monge que recebeu hábito a 1711/04/07 e professou a 1712/04/14, com a idade de 19 anos, natural de Barrô - Resende. 117 LUOC fl. 64 217 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA 3. 8 – Suma dos dados recolhidos As datas extremas no LGN do registo da entrada dos noviços e tomada de hábito são: 21 outubro de 1692 a 30 de junho de 1762; para o registo da profissão: 25 de outubro 1693 a 01 de maio 1763. O número de monges registados a tomarem hábito, ao longos destes 70 anos é de 151, verificando-se que 4 abandonaram o mosteiro sem completar o noviciado: - Caetano de São José, natural de Loures (1724/10/06); - Manuel de Nossa Senhora, natural de Alvares – Góis (1734/08/10); - António de Santa Ana e Manuel de Nossa Senhora, ambos de Ovar e que haviam recebido hábito no mesmo dia (1744/04/12). Registamos também 4 monges que iniciaram o noviciado noutros mosteiros e vieram terminar o tempo necessário no MJST: - Frei Manuel do Nascimento, natural da Régua, iniciou o noviciado a 18 de abril de 1702 em Salzedas, tendo-lhe a OC mandado acabar o tempo no MJST a 3 de junho do mesmo ano; - Frei Ascenso da Purificação iniciou o noviciado em Alcobaça a 2 de fevereiro de 1714, com a idade de 14 anos, depois do capítulo que escolheu no dito mosteiro para 218 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE abade D. António do Quental, com licença do dito abade, veio concluir o noviciado a 14 de maio de 1714, no MJST118. Este monge professou apenas a 15 de agosto de 1716, completando 2 anos e meio de noviciado e a idade de 16 anos119; - o monge Manuel dos Santos, de 20 anos de idade, iniciou o noviciado a 16 de março de 1756, no mosteiro de Alcobaça. Tendo seu tio, frei João de Cristo, sido eleito no capítulo seguinte, como abade do MSJT, trouxe-o consigo para este mosteiro, onde continuou o noviciado, a 16 de maio de 1756120, vindo a professar no ano seguinte, a 19 de março; - o último monge para quem dispomos de registo de tomada de hábito, havia iniciado o noviciado em Alcobaça, onde esteve 4 meses, mas, por motivos de saúde, retirou-se para a sua terra (Santa Eulália – termo de Guimarães), tendo pedido a entrada no noviciado, de novo no MJST, onde lhe contaram os meses de noviciado passados em Alcobaça121. - já frei João Batista (1708/04/29), natural de Vilar – Moimenta da Beira, morreu na sua terra, sem fazer profissão. Destes 151 noviços, apenas 8 se apresentaram como monges conversos a receber hábito e a fazer profissão: - João da Natividade (1703/09/07 - 1704/09/08) e Félix de Santo António (1708/04/ 28 1709/05/01, ambos da Régua; - Manuel de São Paulo (1720/08/06 1721/08/29), natural de Alcobaça122; - Francisco de São Bernardo (1733/08/11 1734/08/24), natural de Pampilhosa da Serra123; - Domingos de São Bento (1744/03/21 1745/03/22), de Vila do Prado - Braga 124; - Manuel de Nossa Senhora da Guia (1752/03/01 1753/03/03), natural de Ponte de Lima125; - António da Esperança (1752/05/06 1753/05/09, de Tondela126; - Leonardo da Esperança (1755/09/01 1756/09/12), natural de Botão – Coimbra127. Na segunda parte do documento, elencámos o registo de profissão de 141 monges. Apesar de a cronologia ser idêntica, ao inventariarmos os dia de tomada de hábito e os dias de profissão, além dos casos já citados, nem todos os que receberam hábito fizeram profissão: José do Espírito Santo (Lisboa - 1692/10/01), João da Glória (Arquedeira / Tarouca - 1703/04/27), António de São Luís (Coimbra - 1703/03/20), Mauro da ConceiLGN fl. 24 LGN fl. 119 120 LGN fl. 51 121 LGN fl. 57 122 LGN fls. 27, 125 123 LGN fls. 32, 130v 124 LGN fls. 37, 142v 125 LGN fls. 44v, 155v 126 LGN fls. 45, 156 127 LGN fls. 49, 160 118 119 219 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA ção (Tendais - 1708/04/18), Romualdo de São João (Braga - 1714/03/25), Manuel de São José (Vila Verde - 1725/06/22), Francisco São Pedro (Távora - 1747/04/22) e os 5 monges que receberam hábito, depois de 26 de março de 1762: Marcelino de São Bernardo, Francisco de Santa Rita, Torcato da Senhora da Piedade, Fernando de Nossa Senhora e José de São Nicolau. Também inventariámos, no ano de 1715, sendo abade Francisco Carneiro e mestre dos noviços Frei Luís da Cunha, 6 monges que professaram, sem termos o registo da sua tomada de hábito: João de São José (1715/03/20), José do Nascimento (1715/04/06), João de Santo António (1715/04/09), Diogo de Santa Rosa (1715/04/09), Bento de São José (1715/04/11) e Luís de São Bernardo (1715/04/17)128. O já citado monge Luís de São Bento, natural da cidade por Porto, que recebera hábito a 13 de março de 1711, com a idade de 15 anos, professou a 28 de março de 1712, apresentando a idade de 17 anos. Mas nove meses depois, a 2 de fevereiro de 1713, retificava a profissão, “por achar em minha conciencia ser nulla a que tinha feito”, “por não ter completado o tempo que para a tal profissão ser valida hera necessario conforme o Concilio e demais Leis e direito”129. Para o ano de 1759, o livro de registos de profissão, dá conta da reentrada do monge professo António Mendonça, que andava fugido: sendo preso foi trazido à clausura do MSJT, onde pertencia. No dia 20 de outubro, em capítulo, perante toda a comunidade, apresentou um Breve do Papa Clemente XIII, do ano de 1759, em favor dos monges que andavam fugidos ou eram apostatas das suas congregações e uma certidão do provisor do Bispado do Porto, em que se atestava que fora absolvido da excomunhão e apostasia. O abade João de Cristo, tendo consultado o letrado da casa, deliberou que prometendo, ele, emenda, seria recebido novamente na comunidade, o que vai acontecer130. Conclusões O estudo aqui apresentado não esgota o LGN, pelo que deixamos para uma outra oportunidade a devida contextualização sobre o funcionamento do noviciado, para o correspondente período de tempo, dado que também ele era moldado pelas orientações que saíam dos capítulos gerais e constituições da OC. Faltará, também, fazer um estudo mais profundo no campo da genealogia dos noviços e, dessa forma, perceber os seus laços familiares. Tal como falta perceber qual foi o destino dos 144 monges que fizeram profissão. Que papel e cargos tiveram estes homens dentro daO C, ou no funcionamento eclesial da época? Por que mosteiros passaram? Onde morreram? LGN fls. 115-118v LGN fl. 114 130 LGN fl. 159v 128 129 220 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE Dado que existe, no ANTT, um livro de registo de termos de profissão dos noviços do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, com as datas de 1732 a 1769131, pelo seu estudo, temos intenção de apresentar, para breve, novos dados que possam humanizar os dois mosteiros, neste período de tempo, tão carente de fontes escritas. Posto isto, deixamos algumas questões pendentes: o que é que fazia estes jovens sair de suas casas, saindo do século para ingressarem na religião de Cister? Será que era apenas a procura de melhores condições de vida? A procura da honra humana dentro da Ordem, ou a salvaguarda do património familiar? Ou será que era verdadeiramente a vivência da RB, nesse encontro com Deus e o próximo, que a velha máxima ora et labora proporcionou e continua a proporcionar a tantos homens e mulheres? FONTES E BIBLIOGRAFIA ADB - CI, livro 186 ADB - CI, livro 187 ADB - CI, livro 188 ADB - CI, livro 191 ANTT - Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, livro 198 ANTT - Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, livro 2. ANTT - Mosteiro de São João de Tarouca, livro 1 ANTT - Gavetas, nº 8, maço 5, nº 15 BN - ALC Cod. 75 BN - ALC Cod. 208 BN - ALC Cod. 218 BN - ALC Cod. 223 BN - ALC Cod. 228 BN - ALC Cod. 230 BRONSEVAL, Claude de - Peregrinatio hispânica..., vol. II, Paris, Presses Universitaires de France, 1970. CASTRO, Ana Sampaio e - Mosteiro de Santa Maria de Salzedas. Da Fundação à Extinção, Lamego, Vale Varosa / DRCN, 2014. 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RIBEIRO, Ana Isabel – “O património da fidalguia provincial da região de Coimbra: o caso da família Garrido (século XVIII)”, in Revista Portuguesa de História, 44, 2013, pp. 327-358. 222 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE TRANSCRIÇÃO DOCUMENTAL A) 1714 Maio 22, Mosteiro de São João de Tarouca - Continuação do noviciado de frei Acenso da Purificação no mosteiro de São João de Tarouca, que havia sido iniciado no mosteiro de Alcobaça. B) 1716 agosto 15, Mosteiro de São João de Tarouca - Termo de profissão do monge Acenso da Purificação, natural de Coimbra. C) 1742 março 25, Mosteiro de São João de Tarouca - Termo de profissão do monge Manuel de Jesus Maria e José, natural de Mondim - Tarouca. D) 1762 agosto 27, Mosteiro de São João de Tarouca - Termo de tomada de hábito do monge Fernando de Nossa Senhora, natural do couto de São João de Tarouca. ANTT, MSJT, Livro 1 - Livro dos graos da Noviciaria, que pello antigo ser acabado, mandou fazer Pe Frey Felix de Azevedo deste Real Mosteiro de São João de Tarouca o qual comessa no ano de 1692. A) [fl. 24] Aos catorze dias do mes de Mayo da hera de mil setesentos e catorze annos neste Real Mosteiro de São Joam de Tarouca sendo nelle Dom Abbade o Reverendo Padre Frei Francisco Carneiro tomei o habito para Monge eu frei Ancensso da Purificação. Filho legitimo do Doutor Pedro Alvares Garrido e de sua Mulher D. Maria da Costa moradores na cidade de Coimbra para continuar o meu anno de Noviciado o qual tinha principiado a dous de Fevereiro de mil settecentos e catorze em a noviciaria do Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça sendo D. Abbade e Geral o nosso Reverendo Padre Frei Felix de Azevedo e no capitollo geral futuro em que saio por D. Abbade Geral o Reverendo Padre Mestre Frei Antonio do Quental com licença sua vim para este Real Mosteiro acabar o meu anno de noviciado na companhia do Reverendo Dom Abbade que comigo asignou este termo dia mes e anno ut supra. [assinaturas] Frei Francisco Carneiro - Dom Abbade Frei Jozeph Ribeiro - Pior e mestre Frei Ancensso da Purificação [na margem esquerda com outra letra: Frei Acenso Garrido que foi Mestre Jubilado Examinador das 3 Ordens Militares e Consultor da bula da Cruzada] 223 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA B) [fl. 119] Aos quinze dias do mês de Agosto de mil setecentos e dezaseis annos em este Real Mosteiro de S. João de Tarouca da ordem de Nosso Padre São Bernardo sendo nelle Dom Abade o Reverendo Padre Frei Francisco Carneiro fazendo cappitulo a comunidade fes profição ao irmão Frei Ascenso da Purificação filho legitimo do Doutor Pedro Alves Garrido cavaleiro professo do habito de Cristo natural da villa de Castelo de Vide e de sua molher Dona Maria da Costa natural das Vendas da Figueiras e moradores na cidade de Coimbra sendo de idade de desaseis para desasete annos ao qual irmão foi lida hia difinição de nossa ordem em que manda não sejao admittidos della sojeitos cuja geração fosse emfamada com raça de judeu, mouros ou mulato e outro sim lhe foi lida e declarada hia ley da nossa Sagrada Religião que todo Religioso que cometer crime que pertencer a Santa Inquisição e nelle se achar convicto ou cometer crime de leza Magestade Divina e humana ex ipso seja expulso sem que a isso possa por embargos ou contradisão algua as quaes clauzulas e condicoins todas sendo lhe declaradas pello Reverendo Padre Dom Abbade dice elle ditto Frei as aceitava e perguntando lhe se tinha alguns bens de que dispor dice os tinha e havia disposto em seu testamento e mais dice elle dito Irmão que no secullo se chamava Ascensso Manuel da Costa Garrido e com este nome lhe fez sua Magestade que Deus goarde merçe de vinte mil reis de tença efectivos em alguns dos almoxarifados do Reyno e se lhe asentou no da portage de Lisboa aonde a cobra há annos e que agora avendo de querer professar lhe fes o dito Senhor nova merce de que a pudesse comer no estado de Religião passando lhe apostilla do direito padrão da dita tença que ficava conservando em que a Relegião lhe premetisse o uso della e por assim pasar na verdade eu [fl. 119v] Joao de Savedra Pior e Mestre dos noviços lhe mandei fazer este termo que com o Reverendo Padre Dom Abbade e Irmão assignei e mais Padres que asestirao em capittolo a dita Profisão dia mês e era ut supra. [assinaturas] D. Francisco Carneiro - Dom Abbade Joao de Savedra - Pior e Mestre dos Noviços Frei Manoel Ramalho - Prezidente Frei Luis Aris - Sanchristão Mor Frei Antonio da Silva - Cantor Mor C) [fl. 138] Aos vinte e sinco dias do mes de Março de mil e setesentos e quarenta e dois annos e neste Real Mosteiro de São João de Tarouca sendo nelle D Abbade o muito Reverendo Padre Frei Leopoldo Bottelho e fazendo cappitullo à communidade fis profissão eu [fl. 138V] o irmão Frei Manoel de Jesus Maria e Jozeph filho legitimo de Heytor Pinto de Vasconcellos e de sua mulher D. Benta de Mesquita Pimentel e moradores em Vila de Mondim bispado de Lamego sendo de idade de dezasseis annos feitos em Outubro proximo passado e logo pello Reverendo Padre D. Abbade me foi perguntado se alguém me compelia, ou obrigava a profeçar ao que respondi que não, e que só o sim 224 NOVIÇOS DO MOSTEIRO DE SÃO JOÃO DE TAROUCA 1692-1763 – DA TOMADA DO HÁBITO À PROFISSÃO PARA MONGE de servir a Deus e segurar milhor minha salvação muito livremente e de minha vontade profeçava sem que a isso me obrigasse ou constrangesse pessoa algia, e pelo Reverendo Padre Frei Jorge Pimentel Prior e Mestre da noviciaria me foi lida e declarada, hia definição de nossa Sagrada Religião que manda não sejam admittidos a ella sugeitos cuja geração fosse emfamada com a raça de mouro, judeo ou mulato; e outrossim me foi declarada hia lei que manda que o religioso que commetter crime de leza Magestade ou divina ou humana ex ipso seia expulso fora e do mesmo modo o que commetter crime contra a Santa inquisição, e nele se achar convicto e sem que a isso possa por embargos, ou contradição algia, as quoais clauzulas e condiçoens sendo me declaradas disse eu que tudo açeitava; e sendo me perguntado se tinha algus bens de que dispor disse sim tinha os que me dotou meu tio o Reverendo Padre Francisco Guedes Botto, e como o dito Padre me deixasse, nomeu alvedrio as desse a quem milhor me pareçeçe os deixo a minha mai D. Berta de Mesquita Pimentel a qual emquanto viva me asistira com tudo quanto me for necessario e por sua morte a qualquer de meos irmãos a quem os ditos bens forem deixados me dara vinte mil reis de tensa os quoais principiarão em o dia que minha Mai falecer e quando isto não faça poderei eu tomar posse dos ditos bens. Declaro que também deixo a minha Mai tudo quanto minhas tias me dotaram D. Thereza Bernarda Pimentel, religioza que foi em Arouca já defunta, e sua Irmã D. Anna Luiza Pimentel Religioza que ha em o mesmo Mosteiro, os quoais bens meu Pai vendeu, e quando minha Mai quizer [fl. 139] poderá anullar as ditas vendas por me serem os bens datados e meu Pai os não poder vender como assim consta da escritura e por asim passar na verdade fiz este termo que asigno com o Reverendo Frei Prior e Mestre da noviciaria e mais testemunhas que assistiram no cappitulo a minha profiçam, dia mes, era, ut supra. Declaro que, dipois deste termo asima feito, tive a nota que era falecido meu Pai e como por sua morte me ficou ligitima e alguns prados os deixo a minha Mai D. Benta com os mesmas obrigaçoins asima referidas. [assinaturas] O Irmão Frei Manoel de Jesus P. Mestre Fr Leopoldo Bottelho - D Abbade Fr Joze de Menezes - Cantor Mor Fr Jorge Pimentel - Prior e Mestre da Noveciaria Fr João de Cristo - Prezidente D) [fl. 55v] Aos vinte e sette dias do mês de agosto da era de mil settecentos e sesenta e dois annos, neste Real Mosteiro de São João de Tarouca, sendo nelle D. Abbade o Reverendo Padre Mestre Frei Manoel Pinto; Prior o Muito Reverendo Padre Frei Carlos de Albuquerque, e Mestre da Noviciaria o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Miguel de Albuquerque, pellas seis para as sette horas da menham, tomei o santo habito para monge de nosso padre São Bernardo, eu o Irmão Frei Fernando de Nossa Senhora, filho legitimo de Manoel Pereira, e sua mulher Anna Maria, do lugar de São João de Tarouca, 225 LUCIANO AUGUSTO DOS SANTOS MOREIRA freguesia de São Bras, e territorio deste Real Mosteiro netto pela parte paterna de Manoel Pereira, natural da villa de Tarouca, freguesia de São Pedro bispado de Lamego, e de sua mulher, Maria de Moraes, do lugar do Couto, freguesia de São Bras, deste territorio; pela parte materna, neto de João Dias, e sua mulher, Maria da Costa, ambos do lugar de São João de Tarouca, freguesia de São Bras, territorio deste Real Mosteiro, tendo de idade vinte para vinte hum annos: e por assim ser tudo verdade fis este termo que assignei com o muito Reverendo Padre Mestre da Noviciaria, dia mes, e era ut supra. [assinaturas] O Irmão Fr Fernando de Nossa Senhora Fr Miguel de Albuquerque - Mestre da Novessiaria 226 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA MARIA DO ROSÁRIO BARBOSA MORUJÃO* INÊS SOFIA LOURENÇO OLAIA** As origens do mosteiro cisterciense de Santa Maria de Celas, fundado por D. Sancha, filha de D. Sancho I, por volta de 1221 nos arredores de Coimbra, no lugar chamado Guimarães ou Voimarães1, devem ser procuradas na vila de Alenquer, de que a infanta era senhora havia provavelmente mais de uma década. Da sua relação com Alenquer chegaram-nos testemunhos documentais fracos, mas eloquentes. Um desses testemunhos, o foral2, está implicitamente relacionado com a importância da vila, por um lado, e a dinâmica política do jovem reino, por outro. Dado no calor da contenda que envolveu a infanta D. Sancha e a sua irmã D. Teresa contra D. Afonso II * Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Membro integrado do Centro de História da Sociedade e da Cultura da mesma Universidade, e colaboradora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. ** Mestranda em História Medieval da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Sobre este mosteiro, ver MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense feminino: Santa Maria de Celas (séculos XIII a XV), Coimbra, BGUC, 2001. Acerca da infanta e de suas irmãs, D. Teresa e D. Mafalda, também ligadas à introdução do ramo feminino de Cister em Portugal, ver COCHERIL, Maur – “Les infantes Teresa, Sancha, Mafalda et l’ordre de Cîteaux au Portugal”, Revista Portuguesa de História, 17, 1976, pp. 39-49; YAÑÉZ NEIRA, M. Damian – “Tres princesas lusitanas en el Cister – Teresa, Sancha y Mafalda, vista por los historiadores españoles”, Brigantia, 11 (1/2), 1991, pp. 93-126, e o livrinho de MARQUES, Maria Alegria Fernandes – D. Matilde, D. Teresa, D. Mafalda e D. Sancha, Matosinhos, Quidnovi, 2011. 2 O foral doado por D. Sancha em 1212 encontra-se em Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), PGS, fl. 64 v. (disponível online em http://purl.pt/28333). O texto é conhecido pela cópia que D. Dinis doou aos Montes daquela vila em 1305 e decalca o foral de Lisboa de 1179. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 227-243 227 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA por causa do senhorio das vilas de Alenquer e Montemor-o-Velho3, tem a peculiaridade de não incluir qualquer referência ao rei4. O problema remonta ao testamento de Sancho I e, possivelmente estará relacionado ainda com a sua esposa. Na primeira versão do seu testamento5, o monarca deixava a D. Dulce as rendas de Alenquer, Santa Maria da Feira, Terras do Vouga e Porto. Há quem tenha visto nisso a hipotética confirmação de umas arras que a rainha teria recebido antes, mas não há meio de o confirmar6. O certo é que D. Dulce possuía extensos bens no termo da vila de Alenquer, que ficariam depois da sua morte associados à coroa7. Sintomaticamente, Sancho I considera, nesse primeiro testamento, que, caso a sua morte resultasse em guerra civil, a mulher e as filhas se deviam recolher a um castelo seguro. O melhor local seria Santa Maria da Feira, mas sendo impossível lá chegar, descartadas todas as hipóteses, o monarca indica que se deviam dirigir para Alenquer. D. Sancho confiava, portanto, não só na defensabilidade do lugar, como na fidelidade das suas gentes8. Na segunda versão do testamento9, tendo já falecido D. Dulce, Sancho I destinou a vila de Alenquer à sua segunda filha sobreviva, Sancha. E aqui o problema torna-se delicado. Genericamente, considera-se que foi o testamento de D. Sancho I que concedeu à infanta o senhorio da vila; no entanto, João Pedro Ferro detetou uma precisão na forma latina aplicada no testamento que parece indicar a confirmação de uma situação anterior e não posterior. O testamento do rei confirma, portanto, de algum modo uma doação anterior do senhorio, em vez de estipular uma nova doação10. Menos provável parece, no entanto, a ideia de Figanière, seguida por outros, de que Alenquer chegou às mãos de D. Sancha através do testamento da mãe11. Sobre este conflito, que se inscreve no contexto mais alargado do programa centralizador de D. Afonso II, continua a ser a obra mais completa a de COSTA, António Domingues de Sousa – Mestre Silvestre e mestre Vicente, juristas da contenda entre D. Afonso II e suas irmãs, Braga, Editorial Franciscana, 1963. 4 O reparo é de VILAR, Hermínia – D. Afonso II: um rei sem tempo, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2005, p. 100, por contraste com o foral de Montemor-o-Velho, dado nas mesmas circunstâncias. 5 AZEVEDO, Rui; COSTA, Avelino de Jesus da; PEREIRA, Marcelino Rodrigues – Documentos de D. Sancho I (1174-1211), vol. 1, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1979, doc. 30 (com codicilo no doc. 31). 6 DIAS, Nuno Pizarro – “Dulce de Barcelona e Aragão”, in MARQUES, Maria Alegria Fernandes, DIAS, Nuno Pizarro, SÁ-NOGUEIRA, Bernardo de; VARANDAS, José; OLIVEIRA, António Resende de – As primeiras rainhas. Mafalda de Mouriana, Dulce de Barcelona e Aragão, Urraca de Castela, Mecia Lopes de Haro, Beatriz Afonso, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2012, p. 171. 7 Esses bens estão registados numa inquirição: ANTT, Feitos da Coroa, Inquirições de D. Dinis, livro 10, fls. 22r-24v. O documento é o traslado de uma inquirição levada a cabo em tempo de D. Afonso III, que inclui um rol de propriedades elaborado ainda em vida da rainha. A lista inclui os vendedores das propriedades e os valores que a rainha despendeu, bem como a sorte posterior de alguns dos bens. 8 BRANCO, Maria João Violante – D. Sancho I: o filho do fundador, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2011, p. 126. 9 AZEVEDO, Rui; COSTA, Avelino de Jesus da; PEREIRA, Marcelino Rodrigues – Documentos de D. Sancho I…, doc. 194, com aditamentos no doc. 203. 10 Ver FERRO, João Pedro – Alenquer Medieval (séculos XII-XV), subsídios para o seu estudo, Cascais, Patrimonia, 1996, p. 219. 11 FIGANIÈRE, Frederico Francisco de La – Memorias das rainhas de Portugal. D. Teresa – Santa Isabel, 3 228 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA Independentemente da forma como a vila chegou à posse de Sancha, o facto é que, após a morte do rei, se desencadeou uma guerra civil em torno dos senhorios de Alenquer e Montemor-o-Velho. Em causa estavam, essencialmente, duas visões diferentes sobre as condições destas doações, bem visíveis nas cláusulas do acordo que pôs termo ao conflito12: as infantas não podiam escolher sozinhas os alcaides (pressupondo-se algum tipo de acordo entre elas e o rei), circularia naquelas vilas a moeda régia (um dos regalia que os reis de Portugal, desde muito cedo, não alienaram), e a obrigatoriedade de os habitantes das vilas participarem no exército do rei e na reparação de fortalezas. Contrapunham se, pois, o poder senhorial, de que as infantas se consideravam investidas, e o poder real em expansão protagonizado por Afonso II .13 A isto se juntava a posição estratégica que estas duas vilas ocupavam, uma sobranceira a Coimbra e outra nas proximidades de Santarém e Lisboa. Se se convertessem em feudos hereditários poderiam tornar-se, a qualquer momento, ameaças sérias à coroa14. Nesse mesmo acordo, em que são referidos os bens de Santa Maria de Celas15, consagra-se uma outra circunstância pouco comum: o senhorio da vila não é taxativamente atribuído à infanta que o detinha inicialmente, mas sim a ambas as infantas, Sancha e Teresa. A situação é tanto mais estranha quanto, no caso de Montemor, a senhora do castelo era perfeitamente identificada como sendo D. Teresa. Quer isto dizer que havia uma partilha do senhorio de Alenquer entre as duas? O clausulado prossegue, no entanto, explicitando que em caso de morte de D. Sancha, o senhorio da vila passava para D. Teresa, mas nada se diz sobre o inverso. Supor-se-ia que, sendo Sancha mais nova, a sua morte seria menos provável e, portanto, o importante era assegurar a passagem do senhorio para D. Teresa? Ou, de facto, a senhora de Alenquer seria Sancha, apenas, mesmo que isso não seja explicitado? Pode dar-se ainda o caso de ser necessário deixar estipulada esta norma apenas porque ela altera o espírito original do testamento de D. Sancho I, que fazia Alenquer passar para Berengária e não para Teresa16. De qualquer forma, ficava assegurado que Alenquer apenas regressava à coroa depois da morte das duas protagonistas do conflito. Lisboa, Typographia Universal, 1859, p. 64, que se apoia na distribuição de outros bens da rainha pelas filhas após a sua morte; a sua opinião é seguida por HENRIQUES (da Carnota), Guilherme João Carlos – Alenquer e seu Concelho, fac símile da edição de 1873, Arruda dos Vinhos, Arruda Editora, 2005, p. 69. 12 O acordo foi publicado, a partir do original, por COSTA, António Domingues de Sousa – Mestre Silvestre e mestre Vicente…, pp. 119-123; a partir da bula de 1231 do papa Gregório IX dirigida a D. Teresa que o confirma e copia, por MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense..., doc. 80a (o doc. 80 é a bula). 13 VILAR, Hermínia Vasconcelos – Afonso II…, pp. 99-100. 14 FERNANDES, Hermenegildo – Sancho II: Tragédia, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2006, p. 89. 15 Significativamente, este acordo está conservado em cópia no fundo documental daquele mosteiro (cf. supra, nota 12). 16 Colhemos as informações sobre a sequência de sucessão que o testamento de D. Sancho previa em FERNANDES, Hermenegildo – Sancho II... p. 88. 229 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA Além do próprio foral e destas questões, o fundo documental do Mosteiro de Santa Maria de Celas, intimamente ligado à ação da infanta, constitui-se como o mais antigo e sólido testemunho acerca da vida em Alenquer neste período17. Entre a documentação, há notícia de compras feitas por D. Sancha, seguidas por doações ao mosteiro, de moinhos no Rio de Alenquer e bens em Marrocos18, bem como da doação de parte do reguengo19. A estes, junta-se a menção, numa inquirição executada em torno dos bens régios no termo da vila, que inclui uma lista de propriedades da rainha D. Dulce, da doação a Celas de alguns bens que esta rainha detivera na Marinha20. Menciona-se ainda uma albergaria de D. Sancha, que surge igualmente referenciada marginalmente entre a documentação de Celas21. Na maioria das doações (três de cinco), a infanta não surge sozinha, mas sim apoiada pela irmã Teresa22. D. Sancha faleceu primeiro e o senhorio da vila passou, como previsto, para D. Teresa, e parece ter sido sobretudo desta que a principal memória se conservou, desde finais do século XIII23. A atuação de D. Sancha ficou, no entanto, patente no espaço físico de Alenquer. A infanta deu aí largas à sua devoção, quer favorecendo a instalação dos franciscanos na vila24 e de dominicanos no respetivo termo25, quer protegendo uma pequena comunidade de mulheres devotas, que o cronista Fr. Bernardo de Brito denomina de “enceladas, ou emparedadas”26, referida na documentação nesses mesmos inícios da década de 20 do século XIII como Santa Maria de Celas de Alenquer27. 17 A documentação referente ao mosteiro de Celas, desde as suas origens até 1437, foi publicada por MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense… 18 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, docs. 10, 12, 13, 18, 21-30, 32-34, 36-37, 49, 57, 59. 19 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, doc. 14. 20 ANTT, Feitos da Coroa, Inquirições de D. Dinis, livro 10, fls. 22r-22v. 21 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, doc. 26. 22 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense..., docs. 14, 15, 38. 23 Procurando resolver uma questão relacionada com a portaria do concelho, os tabeliães de Alenquer conduzem uma inquirição a pedido da rainha D. Beatriz. Um dos inquiridos diz lembrar-se do primeiro alcaide de Alenquer, em tempo de D. Teresa (ANTT, Gavetas, Gaveta 13, maço 3, nº 2, trasladada em ANTT, Leitura Nova, livro 27, fls. 270r-272r). Pelas referências a circunstâncias ou figuras mencionadas, o documento, embora não esteja datado, deverá ter sido produzido nos últimos anos do século XIII, cerca de 1295. 24 ESPERANÇA, Frei Manoel da – Historia Serafica da Ordem dos Frades Menores de São Francisco na Provincia de Portvgal. Primeira parte qve contem sev principio, & augmentos no estado primeiro de Custodia, Lisboa, Na officina Craesbeekiana, 1656, pp. 58-66; especificamente sobre a história do convento de S. Francisco de Alenquer, ver pp. 66-136. 25 Sobre os primórdios dos dominicanos em Portugal e a ação de D. Sancha na proteção a Fr. Soeiro Gomes, ver ESPERANÇA, Frei Manoel da – Historia Serafica …, pp. 70-71; ROSÁRIO, Fr. António do – “Primórdios dominicanos em Portugal: notas para o estudo da excelsa figura portuguesa de D. Fr. Soeiro Gomes”, Bracara Augusta, 20, 1965, pp. 205-249; CAEIRO, Francisco da Gama – “Os primórdios dos frades pregadores em Portugal. Enquadramento histórico-cultural”, in Dispersos, Lisboa, INCM, vol. 3, 1999, pp. 419-436. 26 BRITO, Bernardo de – Primeira parte da Chronica de Cister…, Lisboa, por Pedro Crasbeek, 1602, fl. 458r. 27 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, pp. 23-28, em que nos baseamos para toda a exposição sobre Santa Maria de Alenquer que se segue. 230 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA Dessa comunidade pré-existente terá nascido a ideia de a infanta criar um verdadeiro mosteiro feminino, que não foi fundado, porém, em Alenquer, mas sim nos arrabaldes de Coimbra, na zona que acabou por ser designada com o nome da própria instituição, Celas. Das razões que conduziram Sancha de Alenquer para Coimbra nada se sabe ao certo; a tradição pretende que tenha sido um sonho ou uma inspiração divina28; é provável que tal decisão tenha sido favorecida pela proximidade à cidade onde a corte residia habitualmente, assim como em relação a Lorvão, onde D. Teresa, a irmã mais velha da infanta, se instalara poucos anos antes, na sequência do final do seu casamento com Afonso IX de Leão29. Com efeito, parece-nos impossível dissociar esta decisão da influência que D. Teresa exercia sobre a irmã que ajudara a criar depois do falecimento precoce da rainha sua mãe (como aconteceu, aliás, também com as outras irmãs)30. O novo mosteiro, que recebeu a mesma designação que a comunidade de Alenquer já tinha, terá sido criado com algumas freiras vindas de Lorvão, onde, por ação de D. Teresa, os monges beneditinos tinham sido substituídos por uma comunidade feminina cisterciense; assim se obedecia aos ditames da Ordem de S. Bernardo, que mandavam fundar novas casas a partir de um grupo de religiosos já filiados em Cister31. Em 1223, o bispo de Coimbra autorizou D. Sancha a introduzir na nova instituição a regra monástica que entendesse32; a sua escolha recaiu, como sabemos, sobre a Ordem de Cister, em cuja obediência entrou em 122733. Em Alenquer tinham ficado as devotas mulheres que Sancha ali protegia, pelo menos até serem transferidas para Coimbra, em 1234, já depois da morte da infanta, portanto, por mão de sua irmã Teresa34, que tomara então Celas sob a sua proteção e recebera o senhorio da vila de Alenquer para si própria35. Todas essas mulheres, ou apenas algumas, BRITO, Bernardo de – Primeira parte da Chronica de Cister…, fl. 458r. Sobre D. Teresa e a sua instalação em Lorvão, além da bibliografia indicada na nota 1, veja-se também MARQUES, Maria Alegria Fernandes – “Inocêncio III e a passagem do mosteiro de Lorvão para a Ordem de Cister” e “As primeiras freiras de Lorvão”, in Estudos sobre a Ordem de Cister em Portugal, Lisboa, Colibri / FLUC, 1998, pp. 75-125 e 127-180, respetivamente. 30 Sobre esse papel tutelar de D. Teresa em relação às irmãs, ver bibliografia indicada na nota 1. No caso de D. Sancha, em concreto, a sua influência está bem patente nas frequentes decisões que foram tomadas pela infanta com o apoio ou anuência da irmã mais velha em relação às comunidades de Celas de Alenquer e de Coimbra; ver MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, docs. 14, 15, 38, 62. 31 Sobre a transformação do mosteiro de Lorvão numa comunidade de monjas cistercienses, ver supra, nota 11. Acerca da ida de freiras desse mosteiro para Celas, ver MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, p. 27. 32 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, p. 27 e doc. 42. 33 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, pp. 27-28. 34 Assim nos diz BRANDÃO, Fr. António – Quarta parte da Monarchia Lusitana…, Lisboa, por Pedro Crasbeek, 1632, fl. 129v, a partir da leitura que faz de uma inscrição que no seu tempo ainda estava em Celas e entretanto desapareceu; sobre essa inscrição, ver BARROCA, Mário Jorge – Epigrafia medieval portuguesa (862-1422), Lisboa, FCG/FCT, 2000, vol, 2, t. 1, pp. 752-754, inscr. nº 305. 35 A atitude de D. Teresa em relação ao mosteiro da irmã é claramente expressa em documento sem data pelo qual toma sob sua proteção e guarda o mosteiro de Celas de Coimbra, “quod mihi reliquit soror mea regina 28 29 231 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA dez pelo menos, foram levadas nesse ano para Celas de Guimarães, de acordo com a lápide que marcava, outrora, o seu local de sepultura no mosteiro de Coimbra. A comunidade de Alenquer não desaparecera por completo com a criação do mosteiro em Coimbra. A documentação mostra-a procedendo a aquisições até 122736. Em 1240, talvez não existissem já devotas, mas as propriedades no local onde tinham vivido mantinham-se: nesse ano, um casal encomenda-se à proteção da abadessa de Celas de Guimarães, doando-lhe os seus bens no termo de Alenquer e ficando a servir e a guardar o património do mosteiro em Santa Maria de Celas de Marrocos, como o documento diz37. Em 1258, num tempo de resolução de conflitos entre comunidades monásticas e igrejas paroquiais devido ao pagamento de dízimas38, foram lavrados acordos entre a abadessa de Celas de Guimarães e os reitores das paróquias de Santo Estêvão e Santiago de Alenquer acerca das dízimas e de outros direitos que as freiras deviam pelos bens que o mosteiro possuía nessas freguesias39. Entre esses bens, é mencionada uma capela ou oratório, e uma casa denominada Celas, que se distinguem de um outro conjunto de propriedades designado como reguengo. As devotas teriam desaparecido entretanto, mas ficara o seu templo, que já então era conhecido como Santa Maria Rotunda ou Redonda40, designação indicativa, por um lado, da dedicação das “enceladas” à Virgem e, por outro, do seu formato circular. As propriedades do mosteiro de Celas na vila estremenha foram na sua maioria mantidas ao longo dos séculos, entregues embora a foreiros que faziam a sua exploração em troca do pagamento de rendas41. Era essa a tendência no tocante aos bens localizados domna Sancia” (MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, doc. 71). Sobre a sua ação como senhora de Alenquer, os testemunhos são ainda mais escassos do que quanto à irmã. Resta, por exemplo, uma carta de proteção sobre os seus bens no termo de Alenquer, concedida pela infanta ao Mosteiro de S. Vicente de Fora em 1243, publicada por GOMES, Saúl António – “A Chancelaria do Mosteiro de S. Vicente de Fora de Lisboa nos séculos XII e XIII: subsídio para o seu conhecimento”, in Svmmvs philologvs necnon verborum imperator. Colectânea de estudos em homenagem ao académico de mérito Professor Doutor José Pedro Machado no seu 90.º aniversário, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 2004, p. 164. 36 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, docs. 53, 54, 58, 60, 61 (destes dois últimos documentos há dois exemplares, um dos quais tem como comprador Santa Maria de Celas de Alenquer, o outro D. Sancha) e 63. 37 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, doc. 101. 38 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – A Sé de Coimbra: a instituição e a chancelaria (1080-1318), Lisboa, FCG/FCT, 2010, p. 137. 39 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, docs. 116 e 117. 40 Assim aparece designada a própria comunidade alenquerense em bula de Honório III outorgada em 1224, pela qual o papa permitia às “enceladas” celebrarem os ofícios divinos apesar do interdito; ver MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, doc. 50. 41 Até 1434, a documentação de Celas encontra-se publicada em MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, podendo-se facilmente através desta edição seguir o rasto das propriedades do mosteiro em Alenquer. Daí em diante não existem documentos publicados nem, sequer, um verdadeiro inventário da sua totalidade, para além do que foi feito por Maria Teresa Geraldes Barbosa Acabado do fundo de Celas conservado no Arquivo Nacional Torre do Tombo, que pode ser consultado na sala de referência desse arquivo, com a cota L496. Para além deste inventário, é também muito útil a obra de 232 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA Aspeto atual do exterior da ermida. Fotografia de Rui Manuel Mesquita Mendes mais longe da instituição, como ficou comprovado no estudo sobre a exploração do domínio de Celas até à década de 143042. Esse património era explorado de forma indireta, recorrendo a prazos de duração diferenciada – anos, vidas ou perpétuos, consoante o que mais interessava para cada tipo de propriedade e de acordo com a conjuntura económica vivida. Dada a distância a que se encontravam, era frequente as freiras constituírem procuradores para irem, em seu nome, tratar dos assuntos relativos a essas propriedades, onde se tornava difícil deslocarem-se pessoalmente43. Assim se passou com a propriedade em que a capela se inseria, e que fazia parte de um conjunto de bens que sabemos terem estado emprazados durante vários séculos com a designação de “prazo de Alenquer”, o qual incluía pelo menos parte do reguengo doado a Celas por D. Sancha. A partir de data desconhecida, o local passou a chamar-se ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas. Index da fazenda, manuscrito publ. por J. M. Teixeira de CARVALHO, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921. O Arquivo da Universidade de Coimbra conserva a documentação moderna do mosteiro, que aguarda as nossas pesquisas para averiguarmos com pormenor a história do templo de Santa Maria Redonda e das propriedades onde se situava, tal como sucede com o arquivo pessoal da família sua proprietária. 42 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, p. 93-106. 43 Veja-se, por exemplo, MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, docs. 202a, 207a, 208a, respeitantes a Afonso Peres, encarregado a 8 de fevereiro de 1350 dos prazos da Estremadura, tendo um mês depois passado a procurador-geral do mosteiro. 233 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA Quinta da Redonda, decerto quando a capela – que aparece em tempos modernos apelidada como ermida44 – deixou de ser um templo e se foi esquecendo a sua primitiva função. A primeira notícia a respeito deste prazo refere como seu detentor Nuno Gonçalves de Ataíde45, um dos combatentes na Batalha de Aljubarrota ao lado de D. João I; foi governador da casa do infante Fernando e faleceu em 142546. Da sua filha, Beatriz de Ataíde, o contrato passou para o marido, outro fidalgo da corte da dinastia de Avis, Martim de Távora, meirinho-mor de D. Afonso V e membro do seu conselho47. D. Martim foi pai de D. Catarina de Távora, que casou com D. Pedro de Noronha, mordomo-mor de D. João II, comendador-mor da Ordem militar de Santiago e senhor do Cadaval48. Falecido em 1492, D. Pedro de Noronha era um dos filhos legitimados do famoso arcebispo de Lisboa com o mesmo nome, neto do rei D. Fernando, porque filho de sua filha natural, D. Isabel de Portugal, e do marido desta, Afonso Henriques de Castela, filho ilegítimo do rei Henrique II de Castela; foi este matrimónio que deu origem ao aparecimento da família Noronha em Portugal49. Nas mãos de Noronhas permaneceu, desde então, o prazo de Alenquer. Do contrato lavrado por D. Pedro de Noronha era terceira vida o seu filho Henrique50. A morte deste antes de tomar posse do prazo levou-o a ser substituído por um filho, D. Leão de Noronha51, que ficou conhecido pela sua bondade, falecendo com fama de santo por volta de 157252. Cf. HENRIQUES (da Carnota), Guilherme João Carlos – Alenquer e seu Concelho…, pp. 195-197. ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 31-32. 46 Ver MORENO, Humberto Baquero – A batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico, vol. 2, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1980, pp. 986-987 e TEIXEIRA, André – “Nuno Fernandes de Ataíde, o Nunca está quedo capitão de Safim”, in A nobreza e a expansão portuguesa: estudos biográficos, coord. João Paulo Oliveira e COSTA, Cascais, Patrimonia, 2000, pp. 161-205. 47 ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 31. Sobre D. Martim de Távora, veja-se MORENO, Humberto Baquero – A batalha de Alfarrobeira…, vol. 2, pp. 983-987 e GOMES, Rita Costa – A corte dos reis de Portugal, Linda-a-Velha, Difel, 1995, p. 98. 48 ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 31. 49 Sobre os Noronhas, ver GAIO, Manuel José da Costa Felgueiras – Nobiliário de famílias de Portugal, vol. 21, [Braga], Agostinho de Azevedo Meirelles e Domingos de Araújo Affonso, 1939, pp. 136-153. Acerca do arcebispo D. Pedro de Noronha e da respetiva família, veja-se MORENO, Humberto Baquero – A batalha de Alfarrobeira…, vol. 2, pp. 897-901, GOMES, Rita Costa – A corte dos reis …, pp. 91-92, bem como a recente biografia de VIGIL MONTES, Néstor – “Pedro de Noronha (1423-1452)”, in Bispos e arcebispos de Lisboa, dir. João Luís Inglês FONTES, Lisboa, Livros Horizonte, 2018, pp. 495-501. 50 ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 31. 51 Ver ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 31-33 e ALARCÃO, José Manuel de Noronha e Menezes de (Conde dos Arcos) – “O Prazo de Dom Leão em Alenquer”, Boletim da Província da Estremadura, 2ª série, 9, 1945, pp. 185-191. 52 SOUSA, António Caetano de – Agiologio lusitano dos sanctos, e varoens illustres em virtude do Reino de Portugal, e suas conquistas: consagrado aos gloriosos S. Vicente, e S. Antonio, insignes patronos desta inclyta cidade Lisboa e a seu illustre Cabido Sede Vacante, t. 4, Lisboa, na Officina Craesbeekiana, 1744, pp. 672-683. 44 45 234 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA À frente do prazo ficou então o seu filho D. Tomás de Noronha, depois D. Marcos, que teve o contrato renovado em 158953, e depois outro D. Tomás54, que se tornara, entretanto, Conde dos Arcos, e foi um dos conjurados da revolução de 164055. Em finais do século XV, os Noronhas receberam o senhorio de Vila Verde dos Francos, no atual concelho de Alenquer, o que provavelmente solidificou ainda mais o seu interesse na região56. Até ao século XVIII, pelo menos (não fomos por ora mais longe na nossa investigação), a documentação de Celas permite-nos seguir o destino destas propriedades emprazadas, que acompanharam as várias gerações de Noronhas, passando de pais para filhos. Em data que ainda não foi possível determinar, o simples direito ao usufruto dos bens emprazados passou a plena propriedade, que ainda hoje a família Noronha de Alarcão, detentora do mesmo título nobiliárquico, conserva. Hoje, a Quinta da Redonda pertence ao 14º Conde dos Arcos, que curiosamente ostenta o mesmo nome do seu antepassado arcebispo, D. Pedro de Noronha. O espaço que foi outrora um templo, e no século XVIII era designado com frequência como ermida, encontra-se agora profundamente descaracterizado, apenas mantendo o formato redondo, último indicativo do que foi outrora. Foi o rio de Alenquer que fez alterar o uso inicial do espaço da Ermida da Redonda. Intimamente ligado à vila, não seria de estranhar que o curso de água tivesse estado na origem do próprio povoado. Não só lhe fornece recursos essenciais, como proporciona um meio de transporte. O seu grande caudal, que hoje se encontra reduzido, era suficiente para justificar as múltiplas azenhas e moinhos que a documentação referencia57, a taxação de peixe e transportes identificada no foral58, ou o nome do bairro medieval na ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 33. ASSUMPÇÃO, Fr. Bernardo d’ – Mosteiro de Celas…, p. 33. 55 Sobre os conjurados de 1640, ver a conhecida Relação de tudo o que passou na felice aclamação do mui alto e mui poderoso rei Dom João o IV, ed. crítico-interpretativa por Evelina VERDELHO, Coimbra, CELGA, 2007. Para conhecer os acontecimentos de 1640 e o seu contexto, veja-se, por exemplo, COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da – D. João IV, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2006. 56 HENRIQUES (da Carnota), Guilherme João Carlos – Alenquer e o seu concelho..., p.102-106 elenca todos os senhores de Vila Verde dos Francos, com uma breve nota biográfica. Depois dos Gomides / Albuquerques (a família muda do nome da linha masculina para a feminina por causa da morte infamante em auto de justiça régia do seu chefe), em tempo de D. João I e D. Duarte, seguem-se, por extinção da linha varonil, D. Martinho de Noronha (casado com Guiomar de Albuquerque) e seus descendentes. Sobre o problema que envolve a família dos Gomides/Albuquerques ver GOMES, Saúl António – “Fernão de Sousa, alcaide-mor de Leiria: apenas (mais) algumas notas documentais”, Cadernos de Estudos Leirienses, 5, setembro de 2015, pp. 175-184. 57 São várias as referências a azenhas e moinhos no próprio fundo de Celas, a que podemos juntar, por exemplo, a referência a moinhos que deviam render para dois capelães e missas diárias por alma de um Mateus Domingos, trapeiro, em 1374 (ANTT, Mosteiro de Santos-o-Novo, nº 1546), a doação a S. Tiago de Alenquer de metade de um moinho na ribeira da vila, em 1330, por Domingos Vicente, dito Trabuco, para um aniversário em dia de S. Tiago (ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, 2ª incorporação, maço 3, nº 90), ou a referência ao moinho de Alvito no reguengo de Celas, em Alenquer (ANTT, Cónegos Regulares de Santo Agostinho, Mosteiro de Chelas, maço 34, nº 675; maço 41, nº 810 e maço 55, nº 1097). 58 A cujo texto já fizemos referência supra, nota 2. 53 54 235 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA margem fronteira ao castelo, Triana59. Mas o rio também provocou cheias, suficientemente destrutivas para explicar, logo no século XIII, a escusa da vila em pagar um imposto60. É à industrialização da baixa da vila que os autores coevos dos acontecimentos, no século XIX, atribuem as cheias mais gravosas e o assoreamento do rio. Essa industrialização seguia a tradição já existente da produção de papel na vila desde o século XVI: data de 1565 a primeira referência a moendas para fazer papel em Alenquer, embora se tenha duvidado durante muito tempo quanto ao seu funcionamento efetivo61. Curiosamente, no ano seguinte, a vereação da Câmara endereça à rainha, D. Catarina, uma carta em que relata problemas de cariz que podemos designar como ecológico provocados pela instalação das estruturas para estas moendas62. Esta carta, por si só, evidencia o início problemático do aproveitamento mais intensivo do rio, que afetou Santa Maria Redonda. Construíra-se no curso de água um tanque e no processo o povo amotinou-se (termo utilizado na própria carta) por ver a água do rio turva e os peixes mortos. A preocupação da população e o desrespeito pelo embargo que o concelho pusera à obra levaram a escrever à rainha, buscando o aconselhamento de especialistas nos problemas em causa e pedindo que a soberana faça efetiva a justiça. O engenho de papel, no fim de contas, funcionou mesmo e perdurou até ao século XIX. Em finais do século XVIII, os primeiros indícios da industrialização da baixa da vila davam sinais: uma fábrica de chitas, de que pouco se sabe, teria sido instalada não muito longe da ermida, e já funcionaria em 178563. É em 1802, no entanto, que é criada por decreto a Real Fábrica de Papel64, instalada em Alenquer pela abundância e limpeza das águas do rio, sobre antigos moinhos (incluindo o de papel que referimos acima), na primeira curva acentuada do leito do rio ao entrar na vila de montante, entre a Ponte da Couraça e o Moinho d’el-Rei. O projeto desta fábrica previa um açude de grandes dimensões, com sistemas que defendiam a fábrica em caso de cheia, desviando as águas. É à construção desta fábrica que todos os autores apontam as culpas para a perda da ermida da Redonda: o lodo e o recuo das águas em cheia foram parcialmente soterrando o edifício65. De nada valeram os protestos dos foreiros, tendo a ermida ficado soterrada em poucos anos. O próprio Segundo HENRIQUES (da Carnota), Guilherme João Carlos – Alenquer e o seu concelho..., p. 198, Triana derivaria de “Trans Amen”, além do rio, tal como acontece no lugar do mesmo nome em Sevilha. 60 ANTT, Feitos da Coroa, Inquirições de D. Dinis, livro 10, fl. 22v. 61 A questão é tratada em LOURENÇO, José Henrique Tomé Leitão – A indústria na vila de Alenquer (1565 1931), dissertação de Mestrado em História Local e Regional apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2009, p. 60. 62 O problema é indicado e a carta citada em LOURENÇO, José Henrique Tomé Leitão – A indústria... pp. 60-62. 63 Sobre este assunto ver LOURENÇO, José Henrique Tomé Leitão – A indústria na vila de Alenquer…, p. 48. 64 LOURENÇO, José Henrique Tomé Leitão – A indústria na vila de Alenquer…, pp. 71-84. 65 Como aponta HENRIQUES (Da Carnota), Guilherme João Carlos Henriques – Alenquer ... p. 197. Quando o autor escreveu, restavam algumas paredes em ruína. 59 236 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA Gravura de autor desconhecido sobre litografia de 1861. Publicada no Boletim da Junta de Província da Estremadura, série II, 9, maio-agosto de 1945 curso do rio parece ter sido alterado, passando agora do lado contrário ao que antes acontecia, como é possível perceber observando uma litografia de 186166. Foi por estas razões que a ermida perdeu o seu uso e a imagem da Virgem que aí se encontrava foi transferida para o Convento de São Francisco67. Depois, terá sido transferida para o palácio dos detentores do prazo, o Palácio do Salvador, em Lisboa, onde ainda se encontra. Sobre o que restou a descoberto da ermida quando o processo de assoreamento terminou – apenas a abóbada – um rendeiro construiu uma casa, em data incerta68. É isso que atualmente vemos no local. Foram, pois, as alterações profundas que o rio de Alenquer sofreu ao longo do tempo, por ação combinada da natureza e dos homens, que levaram a que o edifício ficasse em boa parte soterrado, só se podendo, hoje, aceder à sua parte superior, que também sofreu modificações. Sabe-se, pelos relatos de autores modernos, que a ermida da RePreservada em desenho reproduzido no Boletim da Junta de Província da Estremadura, 1945, série II, nº 9, p. 187. 67 HENRIQUES (Da Carnota), Guilherme João Carlos – Alenquer e o seu concelho..., p. 197. Quando o autor escreve, ainda a imagem está em S. Francisco, no altar de Santo António à direita (p. 167). Terá sido transferida antes do momento em que escreve ALARCÃO, D. José Manuel de Noronha e Menezes (Conde dos Arcos) – “O prazo de D. Leão em Alenquer...”, p. 191. 68 Mas seguramente antes de 1945, já que essa construção é referida no artigo publicado nesse ano por ALARCÃO (Conde dos Arcos), D. José Manuel de Noronha e Menezes – “O prazo de D. Leão...”, p. 191. 66 237 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA Aspeto do interior do edifício. Fotografia de Rui Manuel Mesquita Mendes donda fazia acorrer muitos devotos a Alenquer, e que os Condes dos Arcos ali tinham como guarda um eremitão69. O Pe. Luís Cardoso diz, no seu Dicionário Geográfico, que por 1740 a ermida se encontrava em bom estado70, e cerca de um século antes há notícia de uma irmandade que dela se encarregava71. O que ali levava tantos fiéis era a devoção a uma imagem de pequenas dimensões (pouco mais de um palmo de altura, informa-nos Fr. Agostinho de Santa Maria no seu Santuário Mariano72), que representava a Virgem sentada com o Menino no colo, ambos coroados e integrados num tabernáculo de madeira entalhada e colunas – a imagem que há pouco referimos, hoje no Palácio do Salvador de Lisboa. A tradição pretende que fora encontrada miraculosamente, como tantas outras pequenas imagens medievais da VirALARCÃO (Conde dos Arcos), D. José Manuel de Noronha e Menezes – “O prazo de D. Leão ...”, p. 188. CARDOSO, Pe. Luís – Diccionario geografico ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, ribeiras e serras de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas como modernas, tomo 1, Lisboa, Na Regia Officina Sylvania, e da Academia Real 17471751, pp.253-254. 71 A referência é feita por LEAL, Pinho Augusto – Portugal Antigo e Moderno, vol. I, Lisboa, Livraria Editora de Matos Moreira e Companhia, 1873, pp. 107-108. 72 SANTA MARIA, Frei Agostinho de – Santuario Mariano, e historia das Images milagrosas de Nossa Senhora, E das milagrosamente aparecidas, em graça dos pregadores, & dos devotos da mesma senhora, t. 2 (Arcebispado de Lisboa), Lisboa, Na oficina de Antonio Pedroso Galraõ, 1707, pp. 342-344. 69 70 238 O MOSTEIRO DE CELAS, ALENQUER E SANTA MARIA ROTUNDA gem73. Fr. Agostinho considera mesmo que esse achado teria estado na origem da proteção concedida por D. Sancha ao lugar onde ela aparecera. A originalidade do formato da capela e os dias de festejo que aí ocorriam confundiram os autores modernos que o descreveram, que pretenderam mesmo atribuir à capela e à imagem a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres ou da Anunciação74. A imagem da Virgem estaria colocada numa custódia dentro de uma charola no centro do espaço circular, segundo Guilherme João Carlos Henriques. A capela, de acordo com Fr. Agostinho de Santa Maria, teria um perímetro de cerca de 40 metros, e 12 de diâmetro. Em volta dela dispor-se-iam as celas das mulheres recolhidas. Se considerarmos que aos 12 metros é preciso retirar o espaço para as celas e o volume do altar, é fácil percecionar a exiguidade do espaço. Alvitra ainda Fr. Agostinho de Santa Maria que as celebrações seriam presididas por uma abadessa, o que não condiz com a documentação que nos chegou. De facto, para os tempos em que Alenquer era uma comunidade, temos algumas referências a uma prioresa, nunca identificada, confinadas a um curto período de menos de dois anos, entre julho de 1226 a março de 122875. Depois, não há mais referência a qualquer tipo de organização estruturada em Celas de Alenquer. O que se sabe sobre este tipo de comunidades, de origem muitas vezes espontânea, é muito pouco. Existiram mulheres devotas ao longo de toda a Idade Média, que desejavam consagrar-se a Deus e escolhiam viver em ascetismo e penitência, em verdadeira reclusão, muitas vezes à margem das regras monásticas. Algumas delas chegavam ao extremo de se fazerem encerrar em espaços muito diminutos, sem acesso ao exterior, apenas existindo uma pequena janela pela qual mãos caridosas lhes faziam chegar alguns alimentos e a Eucaristia – eram as emparedadas76. Em Alenquer, as mulheres devotas protegidas por D. Sancha eram “enceladas”, ou seja, viviam numa cela, designação dos pequenos compartimentos ocupados por monges e monjas em diversas ordens monásticas, que deu várias vezes nome aos próprios mosteiros, como por exemplo em Celanova, na Galiza, em diversas Celles em França, ou, em Portugal, em Santa Maria de Celas de Coimbra. Um exemplo vindo da localidade próxima da Merceana: conta a tradição, registada na azulejaria e na escultura do templo, que a imagem da Virgem que aí se venera foi encontrada por um pastor, a quem todos os dias faltava um boi. Ao seguir o animal, o pastor deparou com a imagem sobre uma árvore. A imagem tem menos de um palmo de altura. A tradição é recolhida logo no século XVIII por SANTA MARIA, Frei Agostinho de – Santuario Mariano..., pp. 336-340. 74 É o caso do já referido Pinho Leal (ver supra, nota 70). 75 MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – Um mosteiro cisterciense…, docs. 58, 60, 61, 63 e 67. 76 Sobre este fenómeno, ainda insuficientemente estudado entre nós, ver L’HERMITE-LECLERCQ, Paulette – “La réclusion volontaire au Moyen Âge: une institution religieuse spécialement féminine”, in La condición de la mujer en la Edad Media: actas del coloquio celebrado en la Casa de Velázquez, del 5 al 7 de noviembre de 1984, Madrid, Casa de Velázquez / Univ. Complutense, 1986, pp. 135-174; FONTES, João Luís Inglês – 73 239 MARIA DO ROSÁRIO MORUJÃO e INÊS OLAIA A capela de Alenquer tinha o formato circular que lhe valeu o nome de Rotunda ou Redonda e a admiração dos autores que a mencionam, pela sua raridade. Mas, na verdade, os templos redondos, não sendo os mais comuns, existiam desde a Antiguidade, como era o caso dos tholos da Grécia, do templo de Vesta de Roma (onde viviVista aérea do edifício da antiga ermida, com a medição aproximada am em rigorosa castidade as do seu diâmetro. Fotografia de satélite – Google Maps mulheres dedicadas a este culto), ou do Panteão romano, aquele que esses autores modernos referem como possível modelo. Já na Antiguidade Tardia, destaque-se a igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém, que tanto influenciou a arquitetura das igrejas templárias, nomeadamente a do Convento de Cristo de Tomar, com a sua charola77. Celas de Alenquer era redonda, como redonda é, também, a planta da igreja de Celas de Coimbra, tal como foi mandada reformar no séc. XVI. Walter Rossa e Paulo Varela Gomes, que estudaram a tipologia “singular” deste templo78, aventaram a hipótese de o edifício primitivo ter tido o mesmo formato, imitando, pois, o núcleo estremenho original. Não analisaram, porém, o que resta deste último. Só a arqueologia poderá desvendar o que dele porventura subsistir ainda, sob o solo atual do edifício. Um trabalho que, esperamos, virá a ser levado a cabo a breve trecho, como sabemos ser desejo, tam“Reclusão, eremitismo e espaço urbano: o exemplo de Lisboa na Idade Média”, in Lisboa Medieval: os rostos da cidade, coord. Luís KRUS, Luís Filipe OLIVEIRA, João Luís FONTES, Lisboa, IEM / Livros Horizonte, 2007, pp. 259-277; GOMES, Saul António – “Castas Donas: cónegas regrantes de Santo Agostinho em Portugal no período medieval”, Revista do Centro de História da Sociedade e da Cultura, 10: 1, 2010, pp. 37-71; DIAS, Paula Barata – “Para uma compreensão da clausura monástica e emparedamento enquanto fenómenos históricos e religiosos”, Medievalista [Em linha], 18, julho dezembro 2015 [consultado 01.11.2018]. 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Raramente consideradas as bases materiais dos estilos pelo genérico da historiografia artística, todos convêm e convergem finalmente, quando se trata do barroco em Portugal. De facto, falar do nosso barroco é sempre invariavelmente falar do decisivo impacto do “nosso” ouro e diamantes do Brasil. Uma equação simples, directa e retilínea. Efectiva e extensiva realidade ou um lugar certo e comum, que se ensina e aprende desde a primária à universitária? 2. De facto, consideradas as várias fases em que é possível subdividir e diferenciar o barroco, lá temos sempre o dito ouro do Brasil de sua majestade que recobriu e “dourou de ouro” as nossas numerosas talhas e imagens de tantas e tantas igrejas, de norte a sul do país. Convenhamos assim, uma notável fartura de ouro, à mão de semear, para tanta e tão diversificada clientela. 3. Apreciaremos ao longo dessas principais fases, desde o maneirismo-ciclo nacional, ao joanino, josefino e neo-clássico (mariano) a realidade efectiva do real impacto desse ouro com a participação, alargada, restrita ou selectiva, desse impacto material, centrado na mineração e fluxo das minas do Brasil. 4. Em paralelo, ou contra-ponto, o papel e impacto das rendas eclesiásticas das Ordens religiosas (ou outras instituições eclesiásticas ou para-eclesiásticas) nomeadamente de algumas dessas Ordens, como a de S. Bento que teve (ou tiveram), um papel determinante não só na sua génese como ao longo do mais percurso do barroco. Poder-se-ão considerar outras Ordens certamente também determinantes para outros espaços geográficos que não tanto o Entre Douro e Minho, principal assento dos mosteiros beneditinos e logo a partir da casa-mãe - a abadia de Tibães. Mas poderíamos dizer praticamente o mesmo embora não tão minuciosamente documentado para esta de Cister, * Fac. de Letras do Porto ap./ IU-Maia Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 245-256 245 AURÉLIO DE OLIVEIRA desde alguns mosteiros do Minho como Bouro, aos do vale do Douro e, finalmente, até à própria Abadia de Alcobaça. Por que mais documentado, em virtude de outros estudos sobre a realidade dos mosteiros de S. Bento de Entre Douro e Minho e muito particularmente sobre a Abadia de Tibães para todo o percurso do barroco ente 1620 e 1828 (Vide A abadia de Tibães… 1620 1828 Porto. 1979, agora em nova edição Terra e trabalho. Senhorio e Gentes no Vale do Cávado durante o Antigo Regime A Abadia de Tibães 1610 18289. Ismai 2017) em que se tratou tratando essencialmente da parte económica sendo certo que pontualmente tratamos também de realizações artísticas (em várias circunstâncias e textos). Venhamos por isso, a algumas considerações sobre esta temática, por provocatórias que possam ser. Entendemos que as realizações artísticas (como outras, aparentemente menos articuladas), não prescindem do enquadramento das circunstâncias materiais em que se criam e desenvolvem embora, no geral, poucos historiadores da Arte em Portugal se importem com estas ninharias como se tais realizações se possam entender fora dos tempos e das suas circunstâncias. Em primeiro lugar materiais mas depois também comportamentais e anímicas de que o Barroco é, aliás, um caso bem paradigmático. Tanto na sua génese como na sua evolução. Infelizmente, na generalidade da produção historiográfica sobre a história da arte não vemos habitualmente, essas necessárias abordagens e enquadramentos. Muitas vezes apenas acumulando datas e nomes. Efectivamente, aspectos importantes mas que não esgotam a problemática da História da Arte, dado que toda a forma é portadora ou devedora a conteúdos, por sua vez muito articulados e dependentes das circunstâncias dos tempos: materiais, anímicas e sociológicas. 5. Deixando estas e outras questões, consideraremos aqui, as bases materiais deste barroco nacional na criação e dourado das suas talhas - se é justo que reportemos a arte barroca ou o fenómeno do barroco apenas à talha dourada. Consideraremos também qual a explicação que teremos que procurar para outras manifestações artísticas do barroco, como ainda o quadro material isto é, o suporte económico do barroco peninsular (galego, por exemplo), como italiano, francês ou alemão. Também “metemos” aqui, para todos estes casos, o nosso ouro do Brasil? O quadro económico nacional no período do Barroco (1580-1800) 1. O Barroco, a vários títulos, transformou-se no fenómeno artístico Nacional, por excelência. 2. Todo o fenómeno artístico tem, inevitavelmente, a sua circunstância. Essa circunstância vai dos aspectos do quotidiano material ao quotidiano anímico, sentimental sensitivo e representativo. 3. Vamos deixar aqui de lado outros necessários aspectos da dimensão deste fenómeno tão alargado no tempo e de tão vasta aceitação social que vai dos estratos mais ilustrados da Corte ou da chamada cultura erudita, aos mais alargados estratos populares, seja do 246 AS RENDAS ECLESIÁSTICAS NO FENÓMENO DO BARROCO NACIONAL. BENS E RECURSOS mundo urbano seja do mundo rural que podemos levar ou trazer dos finais do século XVI aos alvores do século XIX. Um alargado reinado matizado e polifacetado que permitiu, à generalidade dos estudiosos do fenómeno e da Arte em Portugal, subdividi-lo, faseá-lo em várias etapas cronológicas, assaz bem definidas nos núcleos centrais dessas mesmas fases, ainda que diluídos e incertos quer no arranque quer no fecho definitivo dos mesmos e sem que haja cortes neste mesmo fenómeno do barroco como agora vai sendo corrente por parte de alguns introduzir constituindo estilos diferentes. Tudo possível desde que se aclarem conceitos, especificando permanências e/ou detalhes. 4. Já Erwin Panofsky (Three Esseys on Stile) como Henry Focillon (em La vie des Formes), chamaram há muito tempo a atenção para a vida e a evolução, por vezes imperceptível das formas (dos cânones formais e estilos) que vai dos fiapos de ligação ao anterior, à premonição prospectiva isto é, ao anúncio do prospectivo. E isto desde a apreciação global de cada período até ao trajecto da expressão formal dentro de cada criador. Ora, numa dessas condicionantes subjacentes à produção e evolução do fenómeno artístico estão, sem dúvida, as condições materiais que permitiram e depois presidiram (ainda que, por vezes, inconscientemente) à criação ou recreação artística sem negar que a força criativa do autor seja capaz de as transcender e superar. Deve dizer-se, porém, que quando isso acontece estamos, quase sempre, em períodos charneira, de rupturas ou de novas modelações formais e estruturas mentais e informativas que, normalmente, abrem ou encerram outros gostos e outras referências por cânones formais e até mutações anímicas importantes. O fenómeno do Barroco é um fenómeno complexo, eu diria mais, um fenómeno global, até pela sua alargada aceitação em todos os estratos sociais que, à partida, até pode impedir uma explicação sentimental e anímica unívoca - como creio, aliás. Da contaminação, ao específico, há gradações que não são, de modo algum, unívocas. Dessas circunstâncias ou condicionantes por imperceptíveis que sejam – voltamos a sublinhar – focamos aqui as condicionantes económicos e materiais, passe embora a ânsia de muitos de, hoje, tentarem, novamente, esquecer e ultrapassar essas mesmas condicionantes e algumas vezes – assim se vê – por opções preconceituosas – hoje sem qualquer sentido – substitui-las por meras opções explicativas pessoais, que às vezes chegam a raiar quase o inconcebível, na ânsia da novidade a todo o transe. Para quê queimar etapas ou desprezar ou não atender a dados realmente adquiridos? É importante não dar às coisas aquilo q elas não têm – como temos visto – ou, ao invés – como também temos visto – retirar-lhes aquilo que realmente e comprovadamente contêm e comportam. Por isso, o conhecimento das infra-estruturas formativas e informativas é fundamental. Entre elas, obviamente, as materiais. 5. Facilmente se instalou uma corrente menos atenta ou, melhor, demasiado simplista, que acaba por explicar o fenómeno do Barroco nacional com o impacto directo do ouro do Brasil. Quer dizer, em síntese: Barroco, arte barroca, talha, imaginárias pintura (penso que também a música – falo da que ficou de fora do mecenato régio – e a literatura, por que não?), explicam-se com a presença maciça do ouro e dos diamantes do Brasil, que tudo terão condicionado e permitido. Abram-se os livros de História desde os manu247 AURÉLIO DE OLIVEIRA ais da Primária aos que correm como mais actualizados, das histórias gerais, aos tratamentos e abordagens específicos e verão: Barroco = (igual) a ouro e diamantes do Brasil, que, aliás, terão levado Portugal a uma prosperidade material e económica nunca vistas nem experimentadas. Eis o lugar-comum e a banalidade instalada mesmo aceite e propalada por aqueles de quem se exigiria outro tipo de análises explicativas e, necessariamente também, outro tipo de informação. Eis a difícil tarefa que me cabe aqui no contexto deste Congresso (e em tão resumida síntese) onde especialistas de vários ramos se pronunciam sobre a arte e outras manifestações do Barroco. Atitude e afirmações certamente polémicas, mas conscientemente tomadas e, naturalmente assentes em dados concretos que muito sumariamente ouso deixar à vossa reflexão e consideração, aceitando embora outras vertentes explicativas, certamente também, bem fundamentadas. Não sendo um estudioso exclusivamente, ou essencialmente, dedicado ao Barroco não escuso de abordar e deixar à vossa consideração alguns dados e reflexões, suportando-me e apoiando-me em suficiente informação documental e em informações, dados e estudos de história económica portuguesa mais recentemente adquiridos e que reporto, pelo menos, aos anos de 1970-79. Tenho, por isso, que negar esse lugar-comum nos termos que passo a considerar ou a expor. Alguns autores definiram já o nosso barroco como a Arte dos Pobres. Afinal, Arte do Ouro (e Diamantes), isto é, Arte dos Ricos, ou arte dos pobres, dos sem Ouro? Em que ficamos? (e passamos, ainda a ilação – que não me parece adequada e justa – de que o belo da expressão estética depende do suporte material de que é feito, não da beleza formal em si, independentemente do suporte ou matéria-prima utilizados). Além disso, outra realidade que a este propósito que entendo andar sempre desatendida da maior parte dos historiadores, se não esquecida e ignorada – se à mineração brasileira atribuíssemos, sem mais, a explicação material do fenómeno do Barroco. Roberto Simmonsen numa fundamentada História económica do Brasil (História Económica do Brasil. 2 Vols.1937), há muito chamou a atenção para as distorções introduzidas e aceites e plasmadas no genérico das Histórias Gerais. É que, na verdade o açúcar, (da laboração ao trato), representou um encaixe económico muito superior a todo o ouro e pedras preciosas que do Brasil se despejaram em Portugal durante o século XVIII, isto é, essencialmente, nas algibeiras do Freirático. Também este aspecto deveria ser tomado, como penso, pelo menos, com alguma consideração. O que posso dizer e sustentar (fica naturalmente o espaço para a discussão) é que o dito Ouro do Brasil pouco explica, não explica tudo, nem todo o fenómeno do barroco ao largo da sua dilatada vigência e, mesmo em algumas circunstâncias, não explica nada. Vejamos, e de modo muito sumário: 1. Quando o impacto do ouro Brasil chega com algum significado e logo com algum impacto, já ia muito avançada a vida do Barroco em Portugal (mesmo que reportemos isso aos anos finais do Século XVII). Na verdade, isso realmente acontece com a descoberta das Minas do Coxipó – Mirim nos inícios do Século XVIII (cerca de 1705/6). 248 AS RENDAS ECLESIÁSTICAS NO FENÓMENO DO BARROCO NACIONAL. BENS E RECURSOS Nesta altura já a talha e o Barroco em Portugal levavam uma dilatada existência. In limine: justificar isto como ouro do Brasil é, na verdade, um anacronismo, uma aberração e uma incongruência histórica total. Mais: O Barroco, como dissemos, teve um trajecto que a generalidade dos historiadores assinala, caminhando de Norte para Sul. Queremos ter reforçado essa opinião ou quase consenso - como cremos - assinalando a importância dos mosteiros de S. Bento na difusão desse gosto e desse caminhar desde o início como depois, praticamente, ao longo de todas as fases do Barroco. (Ver entre outros, Os beneditinos e os caminhos do Barroco). Casas, especialmente concentradas neste espaço geográfico nortenho. Não há qualquer contacto nem vestígios de pó ou de pipitas brasileiras por aqui, nem na mão dos Abades Bentos. E olhando um pouco para o lado, também não as vimos nos outros clientes e “aficionados” do barroco. No que aos Bentos concerne, em todos os casos se refundaram e modernizaram os edifícios preenchendo os interiores com as primitivas talhas, do Maneirismo ou do chamado Estilo Nacional (que poderemos balizar e por vezes os anos Quinze – Vinte do século XVIII). O suporte económico foi necessariamente outro. Ou melhor, a buscar suportes materiais, eles teriam e têm que ser necessariamente outros. Mais: nesta vertente, o trajecto do Barroco teria, então, que ser, obviamente, inverso: de Sul para Norte, melhor - de Lisboa para Norte e para o resto do país! E isto – que é um facto demolidor, me parece – bastaria para mostrar a incongruência desta asserção ou deste lugar comum, desta banalidade sem fundamento. E apetecia ficar por aqui! Mas não. Vejamos mais: 2. No período áureo das entradas do ouro do Brasil que decorre entre aquela data e os anos de 1750, assistiu-se de facto, a uma floração espectacular das talhas e da formulária barroca, desde as obras eclesiásticas, às seculares com particular visibilidade – “ usaria aqui “vistosidade” – nas obras régias. Pois bem: a generalidade do país, ficou arredado desse influxo directo. E nem 10% dessa riqueza se terá espalhado pelo tablado geográfico do país. Quando as pepitas tilintaram e reluziram mais visivelmente no Além-Atlântico (cerca dos vinte de Setecentos), é certo que o fluxo migratório aumentou ou tendeu a aumentar, mas logo o monarca acorreu proibindo terminantemente em 1720 a emigração para o Brasil (não fosse o “povoléu” enriquecer-se rapidamente, mudar o seu modo de vida e desatar a encher tudo de talhas! Estamos, de facto, agora na preia-mar do enchimento do fluxo do ouro mas isso beneficiou essencialmente Lisboa e alguns círculos da Corte bem como alguns portos de mar, mas cujo trato principal com o Brasil nem sequer era a traficância do ouro! (Aqui teríamos que olhar muito mais para o “saco” do ingleses). Ora, por estes anos, por todo o lado se assistiu a essa “vistosidade” do Barroco, do litoral ao interior e, mais uma vez, de Norte para Sul. Voltemos aos Mosteiros de S. Bento pioneiros e detentores de magníficas talhas deste período: Não vimos nenhum vestígio de ouro do Brasil nem em Tibães, cujos 249 AURÉLIO DE OLIVEIRA fundos por força das circunstâncias mais exaustivamente conhecemos) nem nos outros mosteiros e logo nos maiores: S. Tirso, Pombeiro, Rendufe, Ganfei, S. Romão do Neiva, Refojos de Basto, etc. etc. E as obras de talha- espectaculares também - do mosteiro de S. Bento da Vitória do Porto, - casa urbana e na cidade que no Norte maiores relações mantinha com o Brasil - também não vimos ouro nem dádivas de ouro de devotos da Ordem ou do santo S. Bento! O que aqui e a outras casas urbanas chegava, como Coimbra ou Lisboa, eram as dádivas, melhor, as cotizações impostas aos mosteiros rurais para benefício destas casas urbanas - que tudo isso nos ficou na documentação. Tudo proveniente das suas rendas fundiárias. E lembraria, de passagem, que o esplêndido exemplar da talha da Capela-mor deste mosteiro do Porto, (não pertence a Gabriel Rodrigues, nem data dos anos de 1719-22) como, por analogias estilísticas o afirmou Robert Smith, e como se continua a ver em escritos de alguns), mas ao bracarense Bento Alvarenga e tem a data de 1705. O contrato foi lavrado 1703 em Tibães e pago, naturalmente, com os bens desta casa, “com a prata da Casa” – como se costuma dizer. Isto é, com o “ouro de Tibães” e mais acertadamente da Arca da Congregação, onde entravam e donde saíam aqueles referidos encargos. Mas é seguro que de Tibães seguiram cotizações directas para obras neste mosteiro urbano ao longo de todo o Século do Ouro brasileiro. (As “Minas Gerais” afinal, estavam do outro lado, isto é, do lado de cá)! Mas poderemos falar de mosteiros de Outras ordens Religiosas, tanto masculinas como femininas, como da generalidade das Mitras a começar pela de Braga. Aqui, só as Rendas da Mitra valiam uns 16/ 18 contos pelo último Quarto do século XVI. Engrossaram ao longo de todo século XVII e por 1779 se diz que, além da Mitra, andavam a ela anexas mais treze Dignidades, “todas possuidoras de mui grossas rendas”. (Ms 897. fl. 46-47). Temos ainda Irmandades, Confrarias e até Misericórdias mais “dadas” a esmolas de benfeitores mas cujo principal património repousava igualmente no tecido fundiário e, aqui, sobretudo, no dinheiro dado a juros. (Particularmente expressivo este, também na Ordens Religiosas femininas). Gostaríamos de ver aqui o contraditório e, se sim, em que termos. Não estamos cegos nem obcecados. Há que conjugar necessária e obrigatoriamente as obras régias, e alguns palácios e solares mas essencialmente de gente ligada à administração brasileira, das Minas e do Ouro em particular, (sendo certo que o resto da administração não roubava se não podia). Mas isso não chega para afirmar tão alargado impacto nas manifestações artísticas do Barroco mesmo deste período áureo. Ficaria aqui bem aquela peripécia dos dois ministros, que o Magnânimo Freirático surpreendeu a cochichar atrás do reposteiro, num dos intervalos de uma das suas visitas às “suas” de Odivelas: – Em que tratais? Diz o mais ousado e o mais solto: – Saiba V. Majestade que tratamos dos modos como nos havemos de enganar (isto é, roubar) um ao outro, e ambos a V. Majestade! (NB: É bem possível que tenha recebido do Magnânimo mais uma medalha de ouro pela sua sinceridade!) 250 AS RENDAS ECLESIÁSTICAS NO FENÓMENO DO BARROCO NACIONAL. BENS E RECURSOS 3. Finalmente, segunda metade do Século XVIII, em que o Barroco atinge a fase mais espalhafatosa e espectacular. À primeira vista e na lógica desta tese, estaríamos no período de maior afluxo dos ouros e pedras precisas do Brasil. Outra flagrante e clamorosa contradição com a realidade dos factos e em duas vertentes históricas de relevar: a primeira a quebra brutal das remessas desse tal ouro que, “mingado”, estranhamente, produziu a talha mais espectacular. A quebra atingiu brutalmente os recursos da Coroa. E os particulares que até aí tomavam o seu quinhão, viram-se também afectados. Na verdade, a repressão pombalina sobre os particulares que se envolviam na corrupção e no contrabando desse mesmo ouro e pedras preciosas, fez notoriamente diminuir o quinhão que até aí tomavam. É certo que Pombal não acabou com a roubalheira e agiotagem em torno da riqueza da Coroa (e seus contractos de arrendamento), mas seguro é que a fez diminuir de modo significativo. Conclusão: por um canal e por outro, (na fonte ou na sucção), diminuíam as remessas. Entretanto aumentava, em contrapartida, o luxo e o aparatoso das talhas e das construções barrocas, quer da Coroa quer, agora, sobretudo dos particulares! O quadro que traça Virgílio Noya Pinto (O Ouro brasileiro e o Comércio angloportuguês. Contribuição aos estudo da economia atlântica no Século XVIII.1979), chama a chama a atenção para isso, por demais eloquente, eu diria mesmo arrasador, tal como o havia feito já Magalhães Godinho (Ver Prix et Monnaies au Portugal.1955) para não vir a quadros gerais mais alargados como apreciou Michel Morineau (Incroyables Gazettes et fabuleux métaux 1981/84), englobando embora outras problemáticas). Mais uma vez, aqui, a prova documental daquilo que melhor conhecemos: Tanto em Tibães como nos restantes mosteiros beneditinos, que todos reformularam no todo ou em parte as suas talhas ao novo gosto (como até nos dispendiosos revestimentos de azulejaria): não vimos ouro do Brasil – que afinal até diminuía! Nem há esmolas ou participações directas caucionadas por esse ouro. As fontes de financiamento continuavam a ser outras ou, para a generalidade daquelas instituições, essencialmente outras. Quer dizer, uma quebra brutal na entrada de ouro que “entretanto” produziria- deve concluir-se e pergunta-se, na realidade, como efeito e consequência a talha mais espalhafatoso da de toda a história do barroco?. (E…mais uma vez se, é justo confinarmos tudo à talha dourada). 4. Na última fase correspondendo com a evolução dos gostos e talhas para o Neoclassicismo, as formas simplificam-se. É certo que agora estamos perante uma crise generalizada da economia portuguesa, embora o sector mercantil esteja (pareça próspero. Todavia, o espaço geográfico dessa prosperidade mercantil reduz-se, concentrandose essencialmente em Lisboa. Isto ficou documentado em números embora muitos o continuem a ignorar. Contrariamente ao que genericamente corre, é seguro (documentado) que diminuiu o tráfico nos restantes portos, desde Viana ao Porto (o que mais resiste), à Figueira e a Setúbal, empolando-se somente em Lisboa. (Vide nosso, As actividades económicas em Portugal na Segunda Metade do Século XVIII. Em “História de Portugal” Direc. de A.H. de Oliveira Marques. Prelo). Fizeram-se grandes fortunas nesse 251 AURÉLIO DE OLIVEIRA sector mercantil e sobretudo na agiotagem em torno das rendas da Coroa, numa delapidação que levou a uma crise financeira sem precedentes (muito semelhante, aliás, à que hoje temos aí sob os nossos olhos). Há muitas embarcações em Lisboa, mas são essencialmente estrangeiras navegando sob pavilhão português. E não há investimentos reprodutivos, inclusive no sector mercantil e o sector industrial, podemos dizer próspero até cerca de 1780-82, reflexo da política pombalina, decai visivelmente e entra também em crise. Os anos Noventa e os da soldadura do século são difíceis com sucessão de anos calamitosos no sector agrícola. Nesta região do Entre douro e Minho valeu, nos apertos mais drásticos a acção caritativa e de socorro dos mosteiros de S. Bento, ora adiantando e emprestando cereais para assegurar as sementeiras (com a consequente recorrência dos endividamentos dos foreiros), ora com esmolas directas de pão às portarias dos seus mosteiros. Mais uma vez, Tibães foi um aparatoso exemplo. E o mesmo acontecendo com o Celeiro do Micho da Mitra bracarense. (Vide, trabalhos nossos, vários). Em breve as Invasões Francesas complicarão toda esta situação geral (mas não a provocaram – diga-se também de passagem e contrariamente ao que também anda por aí dito). Para além de uma mutação estética e de novos gostos decorativos, essa simplificação e o uso claro de menos ouro nas decorações, regista-se um notório abrandamento das obras na generalidade das instituições de que temos falado. Os mosteiros beneditinos embora relativamente pouco ou nada afectados nas suas rendas e ingressos (mercê de uma modelar administração e a continuação do crescendo dos ingressos), continuam a não repousar no ouro, nem no comércio nem na indústria. O ambiente geral que se observa nas talhas e no seu ritmo de construção traduz, quanto a nós, o reflexo geral dessa situação., mas sobretudo a alteração dos gostos artísticos preferência por novos cânones formais e estilísticos, a “conversão” por novas formulárias sem negar, isto é perante mais uma vez uma circunstância material específica (e que, mais uma vez, não é exclusiva do quadro nacional). Aqui parece mais manifesto casarem-se os novos gostos estéticos e decorativos, traduzidos na simplificação das formas, com esta situação geral de crise económica generalizada mas que de um modo geral não afectou os ingressos dos grandes senhorios e muito menos os que viviam do favor do Erário, isto é do Estado. Na realidade, sempre no tempo de vacas magras se criaram e alimentaram vacas gordas. Foi de ontem e é de hoje! O que poderemos, assim, concluir deste rápido bosquejo que eu desejaria alongar e comentar mais detalhadamente para não parecer provocação, é que as fontes de financiamento, o suporte económico, o enquadramento geral do fenómeno do barroco assentou (volto a exceptuar aqui as obras régias, e de um ou outro particular muito articulado com a coroa e a administração brasileira), assentou ou pressupôs, outras fontes de recursos. Isto é, fundamentalmente nos recursos próprios dessas instituições que normalmente viviam das propriedades fundiárias e das rendas agrícolas, que, sob modalidades várias, lhes iam propiciando os excedentes que foram sendo canalizados para essas realizações (e sem que a “ostentação barroca” se tenha confinado à talha dourada das igrejas). Assim aconteceu sistematicamente nas Casas da Ordem de S. Bento ao longo de todo o percur252 AS RENDAS ECLESIÁSTICAS NO FENÓMENO DO BARROCO NACIONAL. BENS E RECURSOS so cronológico do Barroco, a começar pelo arranque da reformulação de suas casas e mosteiros (genericamente desde de 1613-1614). À subida dos ingressos correspondeu sempre, quase sistematicamente, a subida de verbas consignadas a obras e numa percentagem sempre elevada. A Mitra Bracarense, ou o Cabido, na Vacante, pode ser outro bom e importante exemplo. Tanto uma como outro eram detentores de enormes massas foreiras, e sobretudo, dizimeiras que deixaram nas suas mãos vultosos encaixes financeiros. Foram eles que genericamente sustentaram todas estas obras e todo o seu aparato litúrgico. Os bens dessas instituições tradicionais que encomendaram e realizaram as obras do Barroco repousaram essencialmente nesta fonte de rendimentos fundiários e, em complemento, naquelas em que esses bens eram mais reduzidos ou de menor significado, no encaixe de dinheiros dados a juro. É o caso manifesto observado na primeira, como segunda metade do século XVII como durante o século XVIII, nas referidas casas de S. Bento. E as outras Ordens religiosas não fugiam a esse esquema patrimonial. Ficariam de lado uma ou outra doação régia que importa sempre localizar e as obras régias em que Mafra representou a maior “infundição” de ouro do Brasil, mas que por anos ficou por pagar apesar de tanta riqueza e tanto ouro e diamantes!... Quer dizer, para se sair desta banalidade e lugar-comum há, naturalmente, que considerar o impacto do ouro do Brasil – com certeza – mas sempre indagando, o onde e o quando e por mão de quem. Meter tudo no esmo saco, pode ser cómodo e até fácil de transportar e vender, mas nada ou pouco explica, ou não explica a esmagadora maioria dos casos. Como remate, terminaria com uma legenda que um viajante viu, por esta altura, num dos portais trabalhados de um dos muitos solares barrocos do Minho: – Sabeis quem fez estes lavores? – O brio dos fidalgos (e clero) e as décimas dos Lavradores. (S. Thadim, Memorias bracarenses, Arquivo Distrital de Braga, fl, 334). Duas ou três ilustrações (nas páginas seguintes): 253 AURÉLIO DE OLIVEIRA Volume das rendas (encaixes fundiários globais) e volume das verbas consignadas a obras. Vão também referidas em %percentagem as cotas saídas para a Sacristia que neste período da se-gunda metade do século XVIII foram muito substanciais e significativas. O aparato da liturgia e o “adorno” do espaço barroco é, por sua, vez uma dimensão muito importante da circunstância barroca). Percentagem (Médias – sem Verbas da Sacristia) consignadas a Obras. 1632-1670 .................. c. de 38,5 ( %) 1632-1700 ......................... 34,5 1722-1749 ......................... 19,0 1752-1807 ......................... 27,0 1810-1825 ......................... 8,5 254 AS RENDAS ECLESIÁSTICAS NO FENÓMENO DO BARROCO NACIONAL. BENS E RECURSOS 255 AURÉLIO DE OLIVEIRA Bibliografia sumária Bazin, Germain, Refleion sur l´origine et évolution do baroque dans le nord de Portugal. Em “Belas Artes”. N.º 2. Lisboa. 1950. Ferreira, Monsenhor José Augusto, Conta Corrente das rendas da Mitra. Braga (c. 1820) “Congr.º do Mundo Portuguez”. Godinho, Vitorino Magalhães, Prix et Monnaies au Portugal (1750-1850). A. Colin. Paris. 1955. Morineau, Michel, Incroyables Gazettes et fabuleux métaux. Paris. 1981/84. Oliveira, Aurélio, Elementos para a história do Barroco no Noroeste português. Porto. 1973. - A Abadia de Tibães. 1630-1813. Propriedade, exploração e produção agrícolas no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. Porto. 1979. 2 vols. NB: Agora, Terra e trabalho. Senhorio e gentes no vale do Cávado durante o Antigo Regime 1620-1828. Ismai. 2017. - Os beneditinos e os caminhos do Barroco, Braga. 1991 - Bento Alvarenga Mestre de S Bento da Vitória. Em “O Tripeiro” 7ª Série. Ano XVI. Junho / Julho 1997. - As “prosperidades” dos fins do Antigo Regime. Duas ou três considerações. Guimarães. 2009. - Documentos e Memórias para a história do barroco bracarense. (Série Documental em Curso na Revista. “Bracara Augusta”. - Itinerários do barroco beneditino. I. Tibães. No Prelo - As actividades económicas na segunda metade do Século XVIII. Em “História de Portugal”. Direc. de A H. de Oliveira Marques. (No prelo) - Itinerários do barroco beneditino. - Tibães, 1620-1716. (Vol. I). No prelo. - Tibães. 1716 1828. (Vol. II). No prelo. Simmonsen, Roberto História Económica do Brasil. 2 Vols. 1937. Pinto, Virgílio Noya, O Ouro brasileiro e o comércio anglo-português. Contribuição aos estudos de economia atlântica no Século XVIII. S. Paulo. 1979. 256 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRa* 1.O liberalismo em Portugal e a Igreja Católica Luís de Oliveira Ramos escreveu “para entrar no conhecimento profundo da história eclesiástica de Portugal nas duas últimas centúrias, importa, sem dúvida, remontar ao marquês e auscultar algumas das ressonâncias maiores da sua política”1. De facto, com o Marquês, iniciou-se uma dinâmica de mudança que teve o condão de anunciar o futuro e, mais concretamente, o século XIX. O regalismo pombalino, defensor dum poder régio como o único poder temporal, manifestou intenções secularizadoras, preconizando um conjunto de reformas tendentes a controlar todos os aparelhos existentes, desde as correntes de pensamento à administração, desde o ensino ao Estado, desde a economia à Igreja. Pombal criou novas formas de vigiar uma sociedade que ele pretendia transformar, dando os mecanismos necessários para que a alta burguesia fosse capaz de destronar a alta nobreza e o clero ultramontano. Neste contexto, foi clara a tentativa de afirmação de uma Igreja nacional, a valorização do episcopalismo e de um cristianismo local e autónomo, de influência galicana e jansenista. Os conflitos com a cúria papal foram vários, até porque a afirmação do poder régio não era compatível com o fortalecimento do poder romano2. Com as mudanças * Instituto Politécnico do Porto/Escola Superior de Tecnologia e Gestão. CETRAD/CIICESI/APHVIN/GEHVID RAMOS, Luís A. de Oliveira – Sob o Signo das «Luzes», Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1988, p. 18. 2 BARBOSA, David Sampaio Dias – “Santa Sé e Portugal” in AZEVEDO, Carlos Moreira de (dir. de) – Dicionário de História Religiosa de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores e Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2001, vol. 4, p. 160. GOMES, Saul António – Embaixadores de Portugal Junto da Santa Sé in AZEVEDO Carlos Moreira de (dir. de) – Dicionário de História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores e Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000, vol. 2, p. 105. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 257-274 257 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA operadas por Pombal, invertia-se a hierarquia3 e alicerçavam-se doutrinas que iriam ter eco nas cortes vintistas. A tradição cultural jusnaturalista e historicista, expressa no tempo de D. José, atravessou os reinados mariano e de D. João VI e visualizou-se, com particular evidência, nos debates parlamentares na década de vinte4. Uma dinâmica de mudança, a vários ritmos e suportada por diferentes atores, perpassa desde meados do século XVIII até se consumar na revolução liberal de 1820 e, mais tarde, na vitória definitiva do constitucionalismo, em 1834. A concretização da ideia liberal, entre nós, teve com a estrutura religiosa uma atitude regalista. O poder político liberal tentou, ao máximo, aproveitar-se das estruturas eclesiásticas existentes, sobretudo das suas ramificações locais, para construir e manter canais de comunicação entre os órgãos de decisão centrais e as massas populares. Os párocos eram os “novos mecanismos de poder”5 que se queriam articulados com o novo poder político, exercendo uma função mediadora, mas que nem sempre resvalou para o êxito desejado. A unidade religiosa da nação não foi questionada, até porque era vital preservá-la, mas a autonomia progressiva do Estado, a divisão dos poderes, a soberania popular (embora limitada), exigia que a Igreja se adaptasse e fosse capaz de se articular com uma teoria regalista e de filosofia iluminista. Do século XVIII vinha o mote e a fundamentação do sistema que a partir de 1820 se quer construir no espaço português. Primeiro o poder secular, depois, em simbiose com o anterior, a dimensão religiosa6. A temática ficaria conhecida como a questão religiosa. O caminho fez-se para a secularização, para a laicização e para o anticlericalismo. O ambiente anticlerical, também oriundo de meados do século XVIII, visível nas críticas às ordens religiosas, consideradas responsáveis pelo atraso do país e a tendência para desvalorizar e criticar a influência de Roma na Igreja nacional, embora não encontre eco nas camadas populares, fortificou em determinados setores da elite portuguesa. Esta aversão ao clero, especialmente ao de condição fradesca, agravou-se no âmago das lutas liberais7 e, de certa forma, o processo de desamortização, iniciado antes do século XIX, teve a partir de 1832 o caminho facilitado para a sua justificação. Os comentários satíricos8 que são vulgares na 3 CALMON, Pedro – A reforma da Universidade e os dois brasileiros que a planejaram, Revista de História das Ideias, vol. IV, t. 2. Coimbra: Instituto de História e Teoria das Ideias, 1982, p. 94. 4 CASTRO, Zília Osório de – Cultura e Política Manuel Borges Carneiro e o Vintismo. Lisboa: INIC, CHCUNL, 2º vol., p. 629. 5 HESPANHA, António Manuel – A revolução e os mecanismos do poder in REIS, António (dir. de) – Portugal Contemporâneo, vol.1, Lisboa, Publicações Alfa, 1999, p. 123. 6 NETO, Vítor – O Estado, A Igreja e a Sociedade em Portugal (1832-1911). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1995, p. 26-27. 7 GONDOMAR, A. – “O anticlericalismo em Portugal”, Brotéria, Série Fé-Sciências-Letras, vol. XXIX, fasc. III. Lisboa, Tipografia Inglesa, 1939, p. 555. 8 VARGUES, Isabel Nobre; RIBEIRO, Maria Manuela Tavares – Ideologias e práticas políticas in MATTOSO, José (dir. de) - História de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, vol. 5, 1993, p. 223. 258 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) imprensa e noutras publicações após 18209 são reveladores que a nação liberal ansiava por uma reforma de fundo na vida religiosa, especialmente no mundo regular, deixando aos seculares, concretamente aos párocos, a função de mediadores entre as decisões do poder central e as populações (“transporte descendente de modelos de comportamento social”)10. O clero paroquial, embora já não tivesse o monopólio do saber, possuía parte considerável da ilustração e dos conhecimentos intelectuais que fazia dele um eficaz meio de propagação de ideias e comportamentos. Tal circunstância tornava-os apetecidos aos olhos dum poder que se queria impor no todo nacional e durante várias décadas, os párocos vão ser utilizados como agentes locais de veiculação de ideias políticas. Neste particular, nem D. Miguel foi excepção, muito pelo contrário, e a utilização dos párocos revelar-se-á muito aprazível para quem pretendia ilustrar, implementar ou defender um determinado ideal11. Os párocos tiveram, pela governação liberal, tratamento diferenciado, pelo menos os que se mostraram abertos a colaborar com as autoridades instituídas. O clero rural chamou a atenção dos diversos governos liberais e consumou-se na tentativa de os transformar em autênticos funcionários públicos, através do estabelecimento de uma côngrua, forçando-os, também, a colaborar com os ideais liberais12. Ao contrário, o frade foi, amiúde, ridicularizado pelas autoridades pensantes e políticas do constitucionalismo. Tidos como dispensáveis para a coesão social13, classificados como improdutivos e acusados de viverem à custa dos mais necessitados e identificados como mensageiros do tradicionalismo miguelista14, os clérigos de condição regular viveram tempos difíceis Carta ao Redactor do Astro da Lusitania Sobre os Regulares. Coimbra: Real Imprensa da Universidade, 1821. Reflexões Sobre o Clero Secular e Regular Por Um Cidadão Presbytero e filosofo Amigo da Religião e da Patria. Lisboa: Of. de Antonio Rodrigues Galhardo, 1821. Dissertação Sobre os Regulares, a que se Ajuntão duas homilias do Bispo de Parma, que tem alguma relação com o mesmo objecto. Lisboa: Of. de Simão Thaddeo Ferreira, 1821. Problema Resolvido Se os Corpos Regulares Devem Totalmente Supprimirse, ou Conservarem-se Alguns Para Memoria. Lisboa: Imprensa Nacional, 1821. Reflexões Por Occasião do Projecto de Reforma das Ordens Religiosas Apresentado no Soberano Congresso Nacional Pela Respectiva Commissão na Sessão de 7 de Fevereiro de 1822. Lisboa: Impressão de João Baptista Morando, 1822. Que Vem a Ser Hum Clero Pobre, e Assalariado? Questão Resolvida na Camera dos Pares de França por Mr. F. A. Chateaubriand, par de França. Lisboa: Typ. Maigrense, 1822. Cartas de Hum Amigo a Outro Sobre Indulgencias. Lisboa: Typ. De Simão Thaddeo Ferreira, 1822. Reflexões Breves Sobre o Estado Actual da Egreja Lusitana. Lisboa: Typ. Lusitana, 1834. 10 ARAÚJO, Ana Cristina – A Esfera Pública da Vida Privada: a Família nas Artes de Bem Morrer, Revista Portuguesa de História, t. XXXI, vol. II. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1996, p. 415. 11 OLIVEIRA, José António – A Igreja e a Instauração do Liberalismo em Portugal (1816-1840). D. João de Magalhães e Avelar e Frei Manuel de Santa Inês. Lisboa: FCG/FCT, 2009. 12 CAPELA, José Viriato – Igreja, Sociedade e Estado na partilha dos bens eclesiásticos. Dízimos e direitos paroquiais no Arcebispado de Braga nos fins do Antigo Regime in IX Centenário da Sé de Braga, Congresso Internacional Actas, Braga, UCP, CMPB, 1990, vol. II, p. 470, n. 76. 13 ULRICH, Ruy Ennes – Estudo sobre a condição legal das ordens e congregações religiosas em Portugal de 1834 a 1901. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1905, p. 12. 14 VASCONCELOS, António de – Os Colégios Universitários de Coimbra (Fundados de 1539 a 1779), Biblos, Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, vol. XV, t.1. Coimbra: Coimbra Editora, 1939, p. 28. 9 259 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA nos anos de consolidação e de domínio liberal, sendo perseguidos na sua condição e nos seus bens15. À simpatia e utilidade pelo secular, correspondia uma visão perfeitamente hostil e negativa ao modo de vida regular16. No primeiro caso exige-se-lhe que não exerça apenas funções de carácter religioso mas que igualmente, com estas, assuma um comportamento político e ideológico em conformidade com as ideias do século17. A partidarização da Igreja foi um facto inegável. Muitos seculares não estavam alheios às ideias e ao espírito do século18 e não raras vezes aparecem interligados a movimentos de carácter liberal, sofrendo consequências dessa coragem política19. Outros, escolhiam uma via mais segura e pela imprensa20 explanavam e defendiam ideias, causando um profundo mau estar na instituição mãe, já que as divisões internas, de índole política e ideológica, vindas de trás e agora agudizadas, foram uma das principais razões para uma difícil e áspera relação com o poder político. 2.A produção legislativa vintista e a Igreja portuguesa Se o Parlamento constituiu a instituição de excelência do liberalismo português, inclusivamente do vintista, a legislação produzida desde os alvores da primeira experiência liberal tornou-se o instrumento fundamental para os vários governos constitucionais tentarem mover e alterar os variados quadros da sociedade portuguesa. Embora de alcance limitado, perspetivava-se a construção dos fundamentos jurídicos da nova ordem constitucional e a preparação das bases estruturantes do sistema monárquico-constitucional. Mas, no concreto em que é que consistiu a produção legislativa liberal e de que forma colidiu com os interesses e estruturas da Igreja portuguesa? Uma das convicções que nos fica ao percorrermos o corpo legislativo de 1821 a 1823 (basicamente até ao episódio da Vilafrancada, de 31 de maio), é que os liberais pretenderam alterar tudo21. CORREIA, José Eduardo Horta – Liberalismo e Catolicismo. O Problema Congreganista (1820-1823), Coimbra, Universidade de Coimbra, 1974, p. 76. 16 SILVEIRA, Luís Nuno Espinha da – Território e Poder. Nas Origens do Estado Contemporâneo em Portugal. Cascais: Patrimonia, 1997, p. 71. 17 CABRAL, João Pina de – O Pároco Rural e o Conflito Entre Visões do Mundo no Minho, Studium Generale Estudos Contemporâneos, n.º 2-3. Porto, 1981, p. 88. 18 SOUSA, Rui Fernando Nunes de – Catolicismo e Liberalismo n’«O Patriota Funchalense» (1821-1823), Lusitânia Sacra, Revista do Centro de Estudos de História Religiosa, 2ª série, t. III. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 1991, p. 174. 19 OLIVEIRA, José António - Heterodoxia e reformismo na igreja portuense: a acção política e pastoral de Frei Manuel de Santa Inês (1833-1840) in Douro Vinho, História & Património / Wine, History and Heritage, n.º 2. Porto: APHVIN/GEHVID, 2013, pp. 197-217. 20 Fala de Hum Parocho Aos Seus Freguezes Feita no Acto da Eleição dos Compromissarios, e Eleitores da Sua Parochia; Para Lhes Explicar o Direito com que a Nação Vai Formar a Constituição, e as Imminentes Qualidades que Devem Ter os Deputados, e os Seus Eleitores, e Compromissarios. Offerecida aos Portuguezes por... . Porto: Typ. De Viuva Alvarez Ribeiro e Filhos, 1820. 21 OLIVEIRA, José António – A Igreja e a Instauração do Liberalismo em Portugal…, pp. 90-97. 15 260 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) Mas, rapidamente se aperceberam que a Igreja e os seus recursos humanos e materiais eram imprescindíveis para o êxito da sua missão, decorrendo então uma preocupação em controlar a instituição maior da sociedade e aquela que podia desequilibrar, para um dos lados, os pratos da balança. Controlar significava ter a possibilidade de cercear muitos dos seus privilégios, limitar a sua capacidade económica e financeira e traduzir esses objetivos numa estrutura virada para o espiritual e menos um estado dentro de outro estado. Controlar implicava, desta forma, diminuir as suas receitas, fiscalizá-las, bem como reduzir efetivos e a muitas das prerrogativas temporais. Depois de domada, queria-se instrumentalizada, a favor dos desígnios liberais, como fonte condicionadora de comportamentos e de atitudes; uma Igreja fiel ao sistema constitucional, concorrendo, a par dele, para a edificação de uma nova estrutura política, económica e social mais moderna e consentânea com os valores do século. Desafio complicado porque “mexia” com interesses instalados, com tradições seculares, com privilégios que não se queriam perder, nem partilhar. 3. A relação dos párocos e mais eclesiásticos que têm pregado a bem do sistema constitucional (1821-1822) Para fazer passar a sua mensagem, sobretudo junto às populações mais afastadas dos dois grandes centros políticos, económicos e populacionais, Lisboa e Porto, restava aos liberais a promoção através dos melhores agentes possíveis: os párocos. Para isso, a Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça expediu ordens para que o Diário do Governo fosse publicando listagens dos membros do clero que, nas suas localidades, ou noutras, tivessem pregado a bem do sistema constitucional22. Relembre-se que em 26 de fevereiro de 1821, a regência, em nome do monarca, instava o Cardeal Patriarca para, através de uma pastoral, recomendasse a todos os habitantes do patriarcado uma união recíproca e sujeição ao governo estabelecido, provando-lhes que “as reformas e melhoramentos de que estão ocupados os seus legítimos representantes de maneira alguma ofendem a Religião Cathólica, Apostólica Romana”. O aviso da regência era claro: o cardeal patriarca devia ordenar aos párocos que além de explicitar a pastoral, instruíssem os paroquianos “nos mesmos objectos que são do seu comum interesse particular e da Nação em geral”23. Mais tarde, em 6 de maio de 1822, uma portaria obrigava os bispos a remeter à Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos a relação dos párocos das suas dioceses “mais compíscuos em virtudes, literatura e firme adesão ao sistema constitucional”24. OLIVEIRA, José António – “Tradição e Reformismo: a relação dos párocos e mais eclesiásticos que têm pregado a bem do sistema constitucional e os resistentes ao novo regime (1821-1822)”, Actas do IV Congresso Histórico de Guimarães. “Do Absolutismo ao Liberalismo”, vol. II. Guimarães, 2009, pp. 221-247. 23 Diario da Regencia, n.º 54, 3 de março de 1821. 24 Diario do Governo, n.º 214, 11 de setembro de 1822, p. 1596. 22 261 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA Os objetivos são claros: por um lado, como já afirmámos, exportar para todas as paragens do reino uma imagem positiva do recente regime político, condição básica para a sua sobrevivência. Por outro, demonstrar que o clero não estava, nem era contrário aos objetivos propostos pelo governo, antes, tinha atitudes de respeito e de aderência às novas orientações políticas. Esta instrumentalização de parte do clero português, visava uma aculturação, que a partir do púlpito, assumisse um carácter quase inquestionável, jogando a favor do governo o prestígio e a forte carga simbólica que a mensagem clerical, indubitavelmente, possuía. Evitando afrontar diretamente as crenças religiosas da esmagadora maioria da população e tentando agregar os próprios membros da instituição clerical, o poder político visava uma simbiose de esforços, entrecruzando o labor pastoral com a propaganda política, esperando aderência populacional. Embora a parenética neste período fosse intensa25, muitas vezes a população mostrava-se incapaz de entender as mensagens pastorais emitidas pelos bispos, cabendo aos párocos a missão de descodificar o verdadeiro teor da informação e, paralelamente, formar consciências, legitimando a nova ordem. Esta atitude percorreu todo o território, inclusivamente as ilhas26 e traduziu-se numa clara tentativa de propagandear um sistema que não se encontrava estruturado na consciência nacional. Desta forma, a Igreja zelaria pelo sucesso político liberal, visando a edificação de uma nova atitude política, formatada e fundamentada com novos valores (exemplo: a Constituição), tentando agremiar um conjunto de apoios que, na prática, jamais existiram, pelo facto da maioria da população rural, quase sempre, se manter alheada de qualquer tipo de participação política27. A conquista do poder não se podia limitar aos principais centros populacionais, especialmente os do litoral. Na óptica liberal, a instrução não se devia circunscrever à religião e aos rudimentos das primeiras letras; devia incluir, igualmente, a dimensão política - cidadania, com o conhecimento, ainda que rudimentar, das principais instituições e mecanismos de governação (Constituição, à cabeça)28. Instrumento de coesão nacional, a religião e os seus ministros podiam ser portadores duma mensagem cívica e ALVARES, José Marinho Afonso – A Parenética Portuguesa e os Principais Acontecimentos Políticos de 1820 a 1834. Coimbra, F.L.U.C., 1966 (dissertação de licenciatura policopiada). 26 ENES, Maria Fernanda Diniz Teixeira – O Liberalismo nos Açores. Religião e Política (1800-1832), Lisboa, UNL, 1994, 1º vol., p. 494. 27 OLIVEIRA, José António - A população do Porto na instauração do liberalismo em Portugal – episódios e comportamentos (1820-1826). Actas do I Congresso Anual de História Contemporânea (Coord. de Maria Fernanda Rollo). Lisboa: Instituto de História Contemporânea, FCSH da Universidade de Lisboa, Rede de História Contemporânea, Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, 2013 ISBN 978-989-98388-0-2, pp. 268-278 (e-book). 28 OLIVEIRA, José António - Política e Caridade no Porto do Liberalismo (1820-1826). In A Solidariedade Nos Séculos: A Confraria e as Suas Obras. Actas do I Congresso de História da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Porto: SCMP Aletheia Editores, 2009, pp. 145-162. 25 262 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) catalisadora da adesão dos fiéis à causa monárquico-constitucional29 tentando concretizar uma “cristianização do figurino constitucional”,30 atraindo para si quer membros da própria Igreja quer população que, de outra forma, se via desprovida dos mecanismos básicos da ideologia liberal e, logo, predisposta a ser conquistada pelo adversário político. O contributo era exigido a todos, sem excepção, e muitos foram aqueles que viram transcrito na imprensa oficial o seu nome como parte integrante do esforço de “evangelização político-liberal”. Ao serviço da Igreja e do Estado, os membros do clero deviam colaborar com o regime, utilizando a sua influência junto das populações para que estas aderissem, ou pelo menos, não repudiassem o liberalismo31. Era para o Diário do Governo que se remetiam os nomes dos eclesiásticos que pregavam e procediam a bem do sistema liberal. O volume de informação que nos chega é desigual, quer na quantidade quer na qualidade dos dados fornecidos. Normalmente conseguimos referenciar a localidade, o pároco ou párocos que se manifestaram próliberais, a descrição da ação realizada e o responsável pelo fornecimento desses dados ao governo central. A primeira notícia de que temos conhecimento remonta a 13 de novembro de 1821 e aí o beneficiado encomendado Pedro António de Figueiredo, de Albufeira, é mencionado por ter concorrido para a fortificação do regime. O que fez em concreto não sabemos, mas conhecemos, por exemplo, que em Évora o prior de Oréga, António Luciano, bom serviço fez à causa nacional e “com ilustração e sã doutrina derrama no pulpito as melhores informações sobre os seus fregueses”32. As informações repartem-se um pouco por todo o território nacional, ilhas incluídas33, mas não nos podemos deixar envolver pela aparente simplicidade das informações e da fonte. Convém não esquecer que se trata dum documento oficial, emanado e controlado pelo próprio poder político, logo obrigado a uma parcialidade evidente. Ao ilustrar quase somente mensagens positivas, tal não significa que não houvesse resistentes e resistências ao poder instalado. Por outro lado, não convinha publicitar possíveis deserções que podiam servir de exemplo e de incentivo a outros descontentes. É isso mesmo que a fonte pretende: dar exemplos concretos de aderentes de condição clerical, provando, desse modo, a possível e desejável articulação entre poder político e poder religioso. Daí a importância da generalização geográfica pois, desta forma, o público leitor ficaria VARGUES, Isabel Nobre – “A «Fé Política» Liberal”, Revista História das Ideias, vol. 11, Coimbra, IHTI, 1989, p. 278. 30 SILVA, Armando B. Malheiro da – O Miguelismo em Braga II. Factos e ideias para o estudo da contrarevolução, Bracara Augusta, vol. XLI, n.º 91-92, (104-105). Braga, 1988-1989, p. 411. 31 NETO, Vítor – O Estado, A Igreja e a Sociedade em Portugal (1832-1911), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995, p. 47. 32 Diario do Governo, n.º 269, 13 de novembro. Lisboa: Impressão Nacional, 1821, p. 759. 33 Em Angra o deão e o arcediago depois de acusar a portaria que solicitava a explicação aos povos dos bens e vantagens da constituição, logo dirigiram pastorais a todos os párocos e garantem que, geralmente, os diocesanos se acham persuadidos das vantagens do novo sistema constitucional. Diario do Governo, n.º 129, 3 de Junho. Lisboa: Impressão Nacional, 1822, p. 919. 29 263 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA com a ideia de que o processo estava amplamente disperso pelo território nacional, facto que convinha de sobremaneira aos liberais. Sem menosprezar a validade da informação recolhida, temos de convir que se trata de uma realidade encomendada e construída, quer pelas estruturas dirigentes quer no escopo de ilustrar uma realidade que talvez não fosse exata, mau grado todos os esforços exercidos. Acresce que ter um discurso ou uma prática constitucional não significava exatamente que se fosse apoiante dessa ideologia, podendo assim muitos clérigos mascararem-se duma filosofia que não era, verdadeiramente, a sua. O silêncio de alguns e a quase indiferença de outros, isso indicia34. Quando analisamos o tipo de ação ou o empenho que os diversos clérigos tiveram, bem como a metodologia utilizada, somos confrontados com atitudes completamente díspares. Há aqueles que, abertamente, decidem promover o novo sistema político, realizando mais do que aquilo que lhes era solicitado – e assim podemos crer na veracidade do ato. Outros, traduziam e alimentavam ações pouco mais do que rotineiras ou que manifestavam evidente obrigação suportada por determinações superiores. Muito provavelmente, estes, executariam essas tarefas por obrigação ou, possivelmente, temendo consequências futuras. Sermões, missas, Te Deum, festividades religiosas ou civis, aniversários, etc. seriam os momentos por excelência para as práticas encomendadas pelo governo. Estrategicamente, procura-se difundir uma mensagem de coesão e de unidade nacional em torno do projeto liberal. A defesa do bem comum, da felicidade pública, do patriotismo, da segurança pública, a par de vantagens materiais presentes e, sobretudo, futuras são epítetos fortemente utilizados pelos mentores da nova ordem. O povo devia perceber e esperar um futuro mais risonho que se estava a construir com as reformas políticas encetadas em 182035. O futuro é um conceito importante no léxico liberal. Quantitativamente dominam as referências aos seculares, mas há participação política dos regulares. Resistências também as houve, embora tendam a passar despercebidas no rol dos “bons exemplos”. Em Caminha os párocos tinham instruído os povos sobre os bens resultantes do “actual sistema”. Mas os religiosos do convento de Santo António da Província da Conceição, demonstraram alguma frieza porque “unicamente se reduzem a pedirem a Deus que ilumine o governo e que se deve obedecer cegamente a quem governa” atestava, algo desanimado, o juiz de fora36. Em Mafra, foi preciso o juiz utilizar de argumentos mais fortes para que os párocos cumprissem com os seus deveres políticos, enquanto em Pombal os párocos só cumpriram a sua obrigação desde que lhes fizeram saber que esta “era a vontade de Sua Magestade”37. A relação dos párocos e mais eclesiásticos que têm pregado a bem do sistema constitucional, por si só, OLIVEIRA, José António – “Os franciscanos de Entre-Douro e Minho na implantação do liberalismo em Portuga (1832-1834)” in Actas do Congresso Internacional Os Franciscanos no Mundo Luso-Hispânico: História, Arte e Património. Lisboa: Sociedade de Geografia, 2013 (no prelo). 35 OLIVEIRA, José António - A população do Porto na instauração do liberalismo em Portugal – episódios e comportamentos (1820-1826)... 36 Diario do Governo, n.º 291, 8 de dezembro. Lisboa: Impressão Nacional, 1821, p. 913. 37 Diario do Governo, n.º 67, 20 de março. Lisboa: Impressão Nacional, 1822, p. 468. 34 264 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) levanta pistas que carecem de suporte posterior, apesar do número de paróquias ilustradas não chegar às cinco centenas num universo que atingia quase quatro milhares. Terá tal diferença numérica querido significar afastamento do clero em relação ao determinado pelo governo? Por outro lado, muito embora tenhamos detetado alguns regulares, estes estão claramente em minoria. E os outros, para que lado pontificaram? À medida que o vintismo se concretizava não se terá desenvolvido um aumento de comportamentos desviantes? E as múltiplas localidades que não conseguimos descortinar, terão sido atingidas pelas prédicas constitucionais? Muitas destas interrogações são substantivas na medida em que insinuam a incipiente e frágil propaganda liberal. Os liberais careciam dum tempo que não tiveram porque o movimento contra-revolucionário foi lesto na estruturação de uma resposta, embora concretizada a dois tempos. 3.1. Exemplos por terras de Cister Alcobaça. Dois registos a assinalar: em 24 de novembro de 1821 o juiz de fora afirma não duvidar da sincera adesão e do regozijo dos povos da comarca pelo progresso do sistema constitucional. Todavia, é mais previdente relativamente ao comportamento do clero (secular e regular) pois não lhe tinha constado que nas práticas e sermões tenham falado ou explicado os bens e vantagens da atual situação38. Este relatório é ligeiramente alterado pouco tempo depois: em 12 de dezembro desse ano, o mesmo juiz de fora atesta que os párocos do termo e principalmente o vigário da freguesia da vila, António Raimundo Velho Coutinho e António Duarte Calado, cura do Valado têm explicado e declarado os bens e as vantagens “que já nos resultão e devem resultar da nova ordem de cousas, dando provas de adesão”39. Batalha. O juiz ordinário informa paz e tranquilidade e que ali prosperava o sistema constitucional, tanto pelos felizes resultados como pelas “analíticas exortações feitas pelo clero secular e regular, já nos púlpitos e nas estações das missas conventuais”. Neste particular destacaram-se o pároco José Vieira Neto e o regular Fr. Manuel Jerónimo Garcia, da ordem dos pregadores e residente no convento da vila40. Leiria. O espírito público na cidade e seu termo era o melhor possível, na descrição do vereador que faz de juiz de fora. Os povos já observavam os benefícios do sistema constitucional e consagraram-lhes uma “decidida adesão”. Para este resultado contribuíram os párocos da cidade José Rodrigues Neto e Jaulino José de Oliveira Barros que, constantemente, nas suas práticas, explicavam e enunciavam a vantagem da “nova ordem das coisas”. Os párocos rurais também não falharam nesta missão, quer pela exemplar conduta, quer pela “afeição” que dedicavam ao sistema constitucional. No púlpito, distinguira-se o padre Joaquim Gomes e o Frei João de Santa Rufina, que recomendaDiario do Governo, n.º 279, 24 de novembro de 1821, p. 831. Diario do Governo, n.º 294, 12 de dezembro de 1821, p. 933. 40 Diario do Governo, n.º 292, 10 de dezembro de 1821, pp. 917-918. 38 39 265 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA vam a obediência, fidelidade e amor à constituição, às cortes e a sua majestade41. Também digno de registo o reverendo José da Costa Barreira que fez um eloquente discurso na Igreja do Espírito Santo, “expondo nela preposições as mais constitucionais” e o reverendo Joaquim Gomes de Meneses que pregou um sermão “muito constitucional”42. Monte Real. Sossego em todo o território e os párocos de Vila do Souto, Monte Redondo, Vieira e Carvide tinham cumprido exatamente os seus deveres, “fazendo-se muito distintos não só pelas suas predicas mas pelas suas conversações e comportamento verdadeiramente constitucional”43. Caldas da Rainha. O corregedor da comarca afiança que o vigário da matriz, num domingo de novembro, fez uma excelente homilia na qual desenvolveu as ideias “mais constitucionais com tal energia e clareza que foi entendido por todas as classes”, renovando os juramentos no púlpito, “possuído do maior entusiasmo”44. Benavente. A apreciação relatada pelo juiz de fora é diferenciada: por um lado critica os oradores que ali têm pregado por remeterem-se “ao silencio pelo que respeita aos bens que tem resultado da nossa regeneração politica”. Exceptua o beneficiado Eugénio António Murato que foi o primeiro a fazer um sermão laudatório para o atual sistema. Elogios também para o prior da vila, Frei José Moreira Rodrigo de Carvalho que “fez huma eloquente pratica mostrando os benefícios que já tínhamos recebido dos regeneradores da pátria”, embora tenha feito aquele ato apenas uma vez45. Terena. Afirma o juiz de fora que os párocos e beneficiados da vila Frei Manuel de S. Paulo e o padre Anastácio Caetano Rosado se têm esmerado em persuadir o povo na congruência dos princípios constitucionais com as doutrinas evangélicas. Mais crítico é com os párocos José Joaquim Ribeiro, da freguesia de S. Tiago e Marcos Gomes Pousão, prior de Santo António de Capelins, que sendo informados das suas obrigações, “nada tem feito”. Esta falha é mais notada no prior, pelo facto de ser vigário da vara “que por este motivo devia ser o primeiro em dar o exemplo aos outros párocos”46. Alenquer. O corregedor participa que o vigário encomendado Joaquim Ribeiro, num elegante discurso, mostrou aos seus fregueses as vantagens que se seguiram do governo representativo que a nação adoptou. O corregedor considerava este eclesiástico um exemplo e o seu nome deveria ser conhecido do povo pelo que se “apressa em fazer esta participação”47. Alvaiázere. Afirma o juiz ordinário que a situação é calma “assim como não tem havido obstáculo algum contra o progresso do atual sistema”. Não sinaliza clérigos revoltosos e “de má morigeração”. Classifica de muito benemérito o pároco da vila, Frei Diario do Governo, n.º 72, 26 de março de 1822, p. 503. Diario do Governo, n.º 81, 8 de abril de 1822, p. 559. 43 Diario do Governo, n.º 292, 10 de dezembro de 1821, p. 917. 44 Diario do Governo, n.º 300, 19 de dezembro de 1821, p. 937. 45 Diario do Governo, n.º 292, 10 de dezembro de 1821, p. 917. 46 Diario do Governo, n.º 294, 12 de dezembro de 1821, p. 933. 47 Diario do Governo, n.º 291, 8 de dezembro de 1821, p. 913. 41 42 266 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) Dionísio Miguel Leitão Coutinho, por pregar e insinuar a seus fregueses os bens “que nos resultão da nossa Constituição Politica”48. Pombal. O juiz de fora classifica o espírito público dos povos “o melhor possível”, atribuindo ao clero secular crédito pela situação embora não lhes reconheça “o talento da oratória”. Quanto ao clero regular é mais conservador pois “os poucos frades que existem no distrito vivem em claustro que de tal maneira não sabe qual seja o seu espirito”49. Penela. Informa o juiz de fora que o sistema constitucional vai sendo anunciado aos povos com toda a dignidade pelos párocos da sua jurisdição, merecendo singular distinção o vigário do Espinhal, Vicente Simões Martins e o prior de Santa Eufémia, Francisco Xavier Pedrosa. Quanto ao “espirito publico não pode ser melhor” pois não conhece “pessoa alguma que seja a ele contrario”50. Torres Novas. Para o juiz de fora, todos os habitantes da vila e termo “bem dizem” as incomparáveis vantagens do sistema constitucional; para tal, concorre “para este justo entusiasmo as bem ordenadas e elegantes homilias feitas pelos respetivos párocos a seus fregueses”. Distingue o vigário da vara Manuel dos Reis e Silva “que atrai com os seus bem traçados discursos o coração de seus ouvintes”, os reitores das freguesias de S. Pedro, Santa Maria e S. Salvador, os reverendos Luís Marques Bacalhau, Luís José da Fonseca e José Maria Rolé51. Vila do Paço (Torres Novas). O juiz ordinário assegurava existir o maior sossego e tranquilidade, “sendo todos muito adidos ao novo sistema bem como todos os eclesiásticos”. Nestes, particularizou o abade Agostinho José de Barros que tem explicado “com toda a clareza” as bases da constituição e os decretos do soberano congresso “fazendo conhecer aos povos os bens que desfrutão e as grandes vantagens que esperamos gozar”52. Pombal. O juiz de fora classifica o espírito público “o melhor”. Louva a conduta dos párocos que, aproveitando todas as ocasiões, “recomendam a seus fregueses a gratidão e respeito a quem legisla e a quem governa”. Neste contexto, distingue dois párocos do termo: Fr. José Mendes Pinheiro, vigário de S. Bartolomeu de Vila Chã e Fr. Anselmo José Zozimo Rebolo, vigário de Santiago de Alitem. Já o padre José Inácio Barreira Santa Marta, de Soure, no dia 26 “arrebatou o auditório por suas ideias e sentimentos de patriotismo”53. Soure. O juiz de fora assegura firme convicção que estão os povos cientes da “bondade do sistema constitucional” e afirma: “o clero é todo constitucional” e todos os párocos são incansáveis em fazer reconhecer às populações, por suas práticas, as vantagens da nova ordem política54. Diario do Governo, n.º 293, 11 de dezembro de 1821, p. 925. Diario do Governo, n.º 306, 27 de dezembro de 1821, p. 1017. 50 Diario do Governo, n.º 3, 3 de janeiro de 1822, p. 23. 51 Diario do Governo, n.º 102, 2 de maio de 1822, p. 718. 52 Diario do Governo, n.º 102, 2 de maio de 1822, p. 718. 53 Diario do Governo, n.º 123, 27 de maio de 1822, p. 874. 54 Diario do Governo, n.º 139, 15 de junho de 1822, p. 989. 48 49 267 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA Condeixa-a-Velha. Merece elogio a conduta constitucional do pároco José Joaquim Pimentel Nogueira que, segundo o juiz ordinário, desde a época da regeneração não tem cessado de convencer os fregueses da “felicidade que resulta a Portugal da nossa Constituição e das sábias leis demanadas do Augusto Congresso”. Segundo a informação que apurámos, este pároco cumpria “expontanea e prontamente” as instruções que as autoridades haviam dirigido55. Peniche. O juiz de fora afirma que os curas se têm comportado de modo “louvável”, particularizando José Joaquim da Silva, prior da igreja de S. Pedro, “pelos seus sentimentos de adhesão ao novo sistema”56. Ourém. O corregedor participa que o sossego público é total e que a conduta do clero (regular e secular) “he a mais bem acertada, propagando com o maior zelo o sistema constitucional e explicando ao povo as leis emanadas do Soberano Congresso”57. Lourinhã. O juiz ordinário informa que o clero secular e regular “vive de huma maneira muito exemplar”, os pregadores “jamais deixão de insinuar aos seus ouvintes uma inteira e prompta sujeição ao Congresso Nacional e a todas as authoridades”. Neste particular, mereceu elogio o prior encomendado Joaquim José Nunes Franco58. 3.2. Os resistentes ao novo regime segundo o Diário do Governo (1821-1822) Houve, de facto, um universo ainda não quantificado de clérigos que assumiram, desde os alvores do primeiro liberalismo, uma clara posição de adesão aos princípios defendidos pelos liberais. São conhecidas as posições de alguns membros da alta hierarquia da Igreja portuguesa que aferiram os seus valores pela ideologia liberal, mas também noutras camadas, mais inferiores, da condição clerical, se ilustraram exemplos seduzidos pelas novas propostas, acarretando, mais tarde, situações de exílio, interno e externo, provocadas por uma coragem e constância ideológica que é justo mencionar. Quando folheamos o Diário do Governo, entre as datas de 1821 e 1822, ficamos com a nítida sensação que muitos párocos, ao cumprirem com extraordinário empenho a tarefa de propagandear o sistema constitucional, não só cumpriam determinações superiores, mas, igualmente, demonstraram uma simbiose de valores com a nova orientação política. Assim, mesmo nos regulares, os aderentes ao liberalismo foram múltiplos, carecendo de uma nítida quantificação, tarefa que, para esta altura, não se apresenta nada fácil59. Se aderentes existiram, resistentes também os houve e desde cedo madrugam as informações que consubstanciam tomadas de posição contrárias aos desígnios liberais. Para além daqueles que conseguimos detetar, cremos que muitos mais tenham ficado, ao Diario do Governo, n.º 175, 27 de julho de 1822, p. 1273. Diario do Governo, n.º 294, 12 de dezembro de 1821, p. 933. 57 Diario do Governo, n.º 43, 20 de fevereiro de 1822, p. 313. 58 Diario do Governo, n.º 219, 8 de dezembro de 1821, p. 913. 59 OLIVEIRA, José António – A Igreja e a Instauração do Liberalismo em Portugal…, pp. 377 e ss. 55 56 268 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) menos, desconfiados das propostas liberais, mas, provavelmente, não tiveram coragem de, ao tempo, assumir uma posição inequívoca e de força perante as autoridades instituídas. Outros, talvez, esperassem por sinais mais concretos para exteriorizar os seus verdadeiros sentimentos, circunstância que iria acontecer com as mudanças políticas operadas a partir de 1823. Apesar destes limites e conhecendo as tradicionais reservas que alguns membros da cúpula da Igreja lusitana tomaram relativamente ao constitucionalismo, fomos descortinando um conjunto de exemplos que desde 1821 demonstraram, por vastas áreas do território nacional, fraturas e rupturas que tiveram em membros clericais um expoente muito significativo de oposição, declarada ou não, aos governos liberais. Outros teriam, por conveniência60, aderido ao novo sistema, enquanto vários manifestavam sérias reservas, optando, posteriormente, por uma colagem definitiva ao setor tradicionalista representado por D. Miguel. Desta forma, desde cedo, se estruturou uma corrente bastante intensa para corroer as orientações que de Lisboa deviam percorrer todo o país, cristalizando em forma de guerrilhas locais61 e de feição contrária ao liberalismo nascente. Assim, é sintomático aferir que a domesticação da instituição religiosa pelo poder político encontrou barreiras quase intransponíveis em variadíssimos membros da Igreja. Se somos confrontados com situações quase anómalas como aquela que ocorreu em Vila do Bispo em que o prior José Pedro da Silva Gonçalves elaborou um catecismo constitucional pelo qual ensinava aos seus paroquianos os fundamentos do constitucionalismo político e ministrava aos jovens, compreendidos entre os 5 e os 11 anos, os “rudimentos constitucionais” aos quais estes respondiam “com todo o empenho”62 também, detetamos atitudes de alguma frieza ou mesmo afastamento das diretrizes governamentais. Se em Alcobaça o juiz de fora não duvidava da sincera adesão do povo ao liberalismo, o mesmo não podia afirmar do clero secular e regular. Àquele juiz já lhe havia constado que, em algumas práticas e sermões, os clérigos tinham abordado a temática, mas o empenho estava longe de ser o ideal. Não nos esqueçamos que em Terena, os párocos José Joaquim Ribeiro e Marcos Gomes Pousão são criticados por nada terem feito em prol do sistema constitucional. Em Pombal, o afastamento do clero regular impedia qualquer classificação… Já em Mafra, só depois do juiz de fora ter admoestado os párocos é que estes se dignaram cumprir com os seus deveres de inculturação política63. Estes exemplos indiciam uma clara suspeita das determinações liberais. Mas não ficam por aqui as notas que aferimos sobre comportamentos dissidentes ou menos orto60 COUTO, José Jorge – A Adesão da Ilha de S. Miguel à Revolução de 1820, História e Crítica, n.º 10. Lisboa, 1983, p. 17-28. 61 O Liberalismo Português no Século XIX. Livre Cambismo / Proteccionismo. Mesa Redonda, Condução e Introdução de Artur Portela. Lisboa: Moraes Editores, 1981, p. 13 -14. 62 Diario do Governo, n.º 122, 20 de maio. Lisboa: Impressão Nacional, 1822, p. 869. 63 Diario do Governo, n.º 291, 8 de dezembro. Lisboa: Impressão Nacional, 1821, p. 913. 269 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA doxos para com o regime político. Benavente, Sousel, Santarém, Porto, S. João de Areias são outras localidades onde as ordens do governo liberal esbarram, ou com a indiferença ou com comportamentos opostos, de parte de muitos clérigos. Ou porque imperava o silêncio quando se devia ser exuberante e comunicativo, ou porque predominava a frouxidão quando se esperava determinação, o certo é que naquelas localidades, segundo as informações dadas pelos respetivos juízes de fora, os párocos não cumpriram, com exactidão, as orientações provindas de Lisboa. Já em Sousel não era tanto a oratória que estava em questão mas, antes, a circunstância de dois frades franciscanos, de origem espanhola (Frei Ildefonso Canhete e Frei João d’Assa), terem sido presos pelo fato de se ausentarem sem licença do seu superior e de serem homens de suspeita e de passarem por vadios64. Em Santarém, os religiosos dos diferentes conventos, ao invés dos párocos, não haviam insinuado, por meio de prédicas, as vantagens do sistema político, embora não constasse que o criticassem65. Esta posição de aparente neutralidade não agradava aos governantes que exigiam zelo e participação ativa. Esta falha de participação concreta foi detectada e assumida noutras localidades - na cidade portuense, muitos párocos e regulares não assumiram qualquer comportamento condizente com as ordens políticas, enquanto em Terena os párocos das freguesias do Campo, S. Tiago e de S. António de Capelins manifestaram uma total ausência de motivação para a prédica político-constitucional, atitude que mereceu forte reparo do juiz territorial66. Estes casos demonstram a fragilidade da metodologia e da estratégia utilizada pelo poder central; acresce que o mesmo poder assumiu, progressivamente, uma atitude de maior censura para aqueles que ousaram questionar as suas decisões ou orientações. O mesmo periódico oficial retrata vários casos em que os eclesiásticos foram alvo de processos causados pela sua conduta política, sendo alguns sujeitos a penas de prisão ou obrigados a abandonar território nacional. Quando, em junho de 1823, a Junta Governativa do Porto ordenou que se soltassem da Cadeia da Relação os indivíduos que aí se encontravam detidos por delitos de opinião e políticos, verificamos que num total de 79 casos, 20 pertencem à condição eclesiástica, sendo 19 secularizados e apenas um regular67. Este aumento da vigilância que o poder político liberal assumiu perante os eclesiásticos rebeldes é notório pelas notícias que se plasmam no periódico oficial, a partir de maio de 1822. As sentenças atingem vários eclesiásticos, de ambas as condições e as motivações, embora diferenciadas, apresentam como pano de fundo a questão política: a recusa de jurar as bases da constituição e o facto de vários clérigos não se mostrarem afetos ao sistema constitucional, optando por uma prática contrária aos interesses do governo. Outros são suspeitos de serem autores de manuscritos contendo propostas contráDiario do Governo, n.º 292, 10 de dezembro. Lisboa: Impressão Nacional, 1821, p. 917. Diario do Governo, n.º 293, 11 de dezembro. Lisboa: Impressão Nacional, 1821, p. 925. 66 Diario do Governo, n.º 294, 12 de dezembro. Lisboa: Impressão Nacional, 1821, p. 933. 67 Borboleta Duriense, n.º 129, 11 de junho. Porto: Imprensa do Gandra, 1823. 64 65 270 PÁROCOS CONSTITUCIONAIS E PÁROCOS RESISTENTES AO REGIME LIBERAL EM TERRAS DE CISTER (1821-1822) rias ao liberalismo. É o caso de Frei Manuel da Encarnação Sobrinho, religioso da Congregação de S. Paulo que é acusado de ser o autor do escrito Preservativo simples e Catholico contra as idéas liberaes do seculo dezanove68. Vários religiosos são compelidos ao exílio até se encontrar cabalmente aferida a sua conduta política. Outros são apenas repreendidos por se mostrarem desafeiçoados ao sistema e pelos excessos que cometeram ao espalharem papéis incendiários e divulgando notícias aterradoras com que pretendiam fazer “vacilar e estremecer os animos dos incautos e desprevenidos”. A “conduta escandalosa” é também vítima e alvo de castigos, devendo muitos frades radicarem-se em casas religiosas definidas pelo poder político, até ordem em contrário69. Mais casos são contabilizados pelo poder central; uns são presos, outros obrigados a sair do reino, outros repreendidos e fixados em “prisão domiciliária”, mas também houve aqueles que sofreram a pena de suspensão imediata das suas funções pastorais70. Conclusão Por terras de Cister identificamos 19 localidades onde foi possível recolher informações sobre a participação do clero regular e secular na veiculação do ideário liberal. Nomeamos 25 seculares e sete regulares e nessa amostra apenas 2 seculares são criticados por terem um comportamento diferente das diretrizes constitucionais: os párocos de Terena, José Joaquim Ribeiro e Marcos Gomes Pousão. Os demais, identificados ou não, segundo os informadores (juízes de fora, juízes ordinários e corregedores), tiveram comportamentos dignos de registo: trabalharam na inculturação liberal, exortaram as vantagens do novo sistema político, explicaram que a constituição e a nova ordem política não eram contrárias à religião e tiveram comportamentos constitucionais. Aparentemente, a situação era positiva para o lado liberal. Todavia, como sabemos, houve múltiplas atitudes de resistência ao poder liberal. Embora aparentemente minoritários em relação aos que se afirmam aderentes ao regime, estes casos poderão ser encarados como a parte visível do iceberg já que muitos outros, no silêncio das suas consciências, apenas esperariam o melhor momento para afirmarem as suas opções ideológicas. Com o cerceamento das prerrogativas do clero e com as reformas preconizadas pela legislação liberal, muitos foram os eclesiásticos que ficaram conhecedores das verdadeiras intenções do poder liberal. Por isso, não se estranha que a partir de 1823 os descontentes com o primeiro liberalismo aumentassem, em número ainda não quantificado. Aceitar o regime não significava apoiá-lo, muito embora houvesse quem, publicamente, desse azo às suas opções políticas e ideológicas71. A divisão na Igreja era e seria um facto. Diario do Governo, n.º 107, 8 de maio. Lisboa: Impressão Nacional, 1822, p. 757. Diario do Governo, n.º 131, 5 de junho. Lisboa: Impressão Nacional, 1822, p. 931. 70 Diario do Governo, n.º 167, 18 de julho. Lisboa: Impressão Nacional, 1822, p. 1207. 71 VELHO, Joaquim Anastacio Mendes – Homilia Constitucional Para Uso dos Reverendos Parocos Menos Instruidos em Politica. Offerecida Pelo Prior de Mecejana. Lisboa: Imprensa Nacional, 1822. 68 69 271 JOSÉ ANTÓNIO OLIVEIRA Fontes e Bibliografia Impressas Borboleta Duriense, nº 129, 11 de junho. Porto: Imprensa do Gandra, 1823. Carta ao Redactor do Astro da Lusitania Sobre os Regulares, Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1821. Cartas de Hum Amigo a Outro Sobre Indulgencias, Lisboa, Typ. de Simão Thaddeo Ferreira, 1822. Reflexões Breves Sobre o Estado Actual da Egreja Lusitana, Lisboa, Typ. Lusitana, 1834. Diario da Regencia, Lisboa, Impressão Nacional, 1821. 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Coimbra: Coimbra Editora, 1939, pp. 1-170. 274 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE NUESTRA SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SIGLOS XVI-XIX GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ* Introducción Como es bien sabido, los monasterios cistercienses de la Corona de Castilla se fueron integrando a lo largo del siglo XV, y especialmente en la primera mitad del quinientos, en la Congregación fundada por fray Martín Vargas en el primer cuarto del cuatrocientos1. Esta supuso para las viejas abadías, tras unos primeros años de incertidumbre, la uniformización de los hábitos de vida, los ritmos y las prácticas de gestión y gobierno, pues, hasta entonces, cada una de ellas había operado de forma mucho más autónoma2. Nuestra Señora de Belmonte (Asturias, España) fue, tras un proceso relativamente largo y traumático, la última de las viejas abadías cistercienses de la Corona de Castilla * Universidad de Oviedo.
[email protected]1 MARTÍN, Ezequiel — Los bernardos castellanos (Historia de la Congregación cisterciense de Castilla), Palencia, Gráficas Aguado, 1952; GARCÍA ORO, José — La reforma de los religiosos españoles en tiempo de los Reyes Católicos, Valladolid, Instituto Isabel la Católica, 1969; PÉREZ-EMBID WAMBA, Javier — El Císter en Castilla y León. Monacato y dominios rurales (siglos XII-XV), Salamanca, Junta de Castilla y León, 1986; GARCÍA ORO, José; PORTELA SILVA, María José — Los monasterios de la Corona de Castilla en el reinado de Carlos V. Estudio histórico y colección diplomática, Santiago de Compostela, El Eco Franciscano, 2001. 2 Ha destacado la importancia de la uniformización SAAVEDRA FERNÁNDEZ, Pegerto — “Composición y trayectoria de las rentas de algunos monasterios cistercienses a lo largo de la época moderna”, in CASAL, Raquel; ANDRADE, José Miguel; LÓPEZ, Roberto J., eds., Galicia monástica. Estudos en lembranza da profesora María José Portela Silva, Santiago de Compostela, Universidad de Santiago, 2009, p. 268. Los rasgos de esta uniformización han sido identificados y analizados in extenso, atendiendo a la vez a su instalación en el último de los monasterios en integrarse en la Observancia en FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo — Historia y memoria. El monasterio de Belmonte a través de su Tumbo Nuevo, Oviedo, Universidad de Oviedo (Tesis doctoral inédita), 2017, pp. 93-233 y 293-587, respectivamente. Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 275-292 275 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ en ser absorbida por los monjes reformadores (1560)3. Desde entonces, estos procuraron implantar los nuevos usos en una casa que hasta la fecha había permanecido ajena a las normas dictadas por el Capítulo General, el General Reformador y el Santo Definitorio, órganos bajo cuya autoridad se hallaban el resto de monasterios cistercienses castellanos. Así, los reformadores regularon las pautas que habían de guiar las prácticas administrativas y el gobierno de cada monasterio. Con independencia de las disposiciones coyunturales dictadas por el General Reformador y los visitadores generales en sus respectivas visitas a las distintas abadías, la normativa general, tratada en las reuniones que periódicamente se celebraban en uno de los monasterios de la Corona de Castilla (salvo excepción, en el de Palazuelos), era recopilada e impresa cada cierto tiempo. El volumen que resultaba, las denominadas Definiciones, se configuraba como una suerte de corpus que recogía aquellos preceptos de obligado cumplimiento y que contaban con el aval del gobierno central de la Congregación. Los religiosos que residieron en Belmonte desde 1560 hasta 1835 estuvieron sujetos al Capítulo General y debieron observar lo contenido en estas Definiciones que, a su vez, cada tres años incorporaban nuevos preceptos, cancelaban algunos de los existentes o matizaban aquellos que, al correr el tiempo, exigían mayor precisión. Aunque se conocen disposiciones y compilaciones desde el primer tercio del siglo XV3a, las primeras Definiciones impresas salieron a la luz en Toledo en casa de Juan de Ayala en 1552. En ellas se recogía, entre un buen número de preceptos de muy distinto alcance y contenido, que «los padres abbades tengan libros de tumbos en que estén todas las propiedades y rentas y contractos autorizados»4; en estos mismos términos se volvía a insistir en 15615. En cambio, en 1584, el mandato, dirigido hasta entonces al abad, se deslizaba ya hacia la comunidad en su conjunto, recomendando que «en todos los monasterios aya libros de tumbos en que estén todos los contractos y arrendamientos autorizados e importantes al monasterio»6. Hacia 1630 aparecen individualizados por sus nombres los libros de apeos, «libros forales, o de arriendos o de otras escrituras»7. 3 Queda explicado este proceso en FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo – “El archivo del monasterio cisterciense de Nuestra Señora de Belmonte (Asturias, España) en vísperas de la Reforma (1560)”, in Espacio, Tiempo y Forma, 32 (en prensa). 3a YÁÑEZ NEIRA, M.ª Damián – “Los primeros usos de la Congregación de Castilla”, in Compostellanum, 26, 1981, pp. 83-133. 4 Diffiniciones compiladas de la orden del Cistel y observancia de España, de todos los capítulos desde que la Observancia se començó en estos reynos de España, hasta el capítulo celebrado en Valladolid en el año de 1552, Toledo, Juan de Ayala, 1552, fol. LIIIIr.º, cap. 34, n.º 10. Cito a partir del ejemplar de Biblioteca Nacional de España (BNE). 5 Diffiniciones de la Orden de Cistel y Observancia de España, Salamanca, Juan María Terranova, 1561, fol. 44v.º, cap. 33, n.º 218. Cito a partir del ejemplar de BNE. 6 Diffiniciones de la Sagrada orden de Cistel y Observancia de España, Salamanca, Mathías Gast, 1584, fol. 47r.º. Cito por el ejemplar de la Biblioteca Digital de Castilla y León. 7 Difiniciones cistercienses de la Sagrada Congregación de San Bernardo y Observancia de Castilla, Valladolid, Antonio Vázquez, 1637, fol. 67r.º, cap. 29, n.º 5. Cito por el ejemplar de la Biblioteca del Seminario Metropolitano de Oviedo. 276 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX Desde los últimos años del siglo XVII, la normativa apenas parece reflejar la preocupación por la conservación, sin pautar nada en relación a la confección de libros o cuadernos. Las autoridades de la Observancia únicamente señalarán que «todas las escrituras del monasterio y todos los contratos y arrendamientos autorizados e importantes al monasterio» se pongan en un archivo o en un aposento seguro8. No hace falta más que leer uno de los puntos de la visita a Sobrado (La Coruña) de 1675 para comprobar la preocupación que más acuciaba entonces: «Iten mandamos al padre abbad que es o por tiempo fuere, pena de suspensión de su dignida[d] abbacial por quatro messes, que, de todas las escrituras y arriendos que se hicieren, haga se [sa]que del prothocolo un tanto autorizado en forma que haga fe, y se ponga en el archivo [den]tro de quince días como se otorgare dicha escritura (...)»9. Queda, por lo tanto, aclarado que la elaboración de libros forales o tumbos de foros aparece contemplada en las constituciones de la orden, disposiciones que se habrían de obedecer y cumplir en todas las abadías de bernardos castellanos. La importancia de tener, conservar y disponer con concierto las escrituras no hace falta explicarla, máxime teniendo en cuenta que las rentas de estos contratos se constituyen en la Modernidad como la principal fuente de ingresos de las abadías cistercienses castellanas10. Fuentes En principio, a partir de lo expuesto y sin más disquisiciones, puede definirse el foral o libro foral como aquel códice diplomático en el que se recogen los contratos de foro autorizados ante notario público en favor de un particular o de una institución que es el o la responsable de su confección. Algunos de estos libros recibirán, especialmente en el Noroeste de la Península Ibérica, el nombre de tumbos de foros11. Once son los libros forales que llegaron a formar parte del archivo del monasterio de Belmonte. Sin embargo, únicamente seis se localizan entre los fondos de la abadía que llegaron al Archivo Histórico Nacional de Madrid, procedentes de la Real Academia de la Historia, y a esta de la Delegación Provincial de Hacienda de Oviedo. De los otros cinco puede recuperarse parte de su contenido a partir de las informaciones contenidas Difiniciones cistercienses de la Sagrada Congregación de San Bernardo y Observancia de Castilla, Salamanca, Lucas Pérez, 1683, fol. 78v.º cap. 35 n.º 13. 9 Archivo Reino de Galicia (ARG). Sig. 45748 (leg. 813 - n.º 27). 10 Por supuesto, salvo puntuales excepciones, como eran las fundaciones tardías (por ejemplo, Santa Ana de Madrid). Señala la importancia de la renta foral como fuente fundamental SAAVEDRA FERNÁNDEZ, Pegerto — “La economía del monasterio de Carracedo; ca. 1700-1834”, in Studia Historica. Historia Moderna, 5, 1987, pp. 246 y ss. Sobre el concierto de contratos forales por los bernardos de la Galicia suroccidental en la Edad Moderna vide las apreciaciones de SEIJAS MONTERO, María — Los cistercienses en el Sudoeste de Galicia a fines del Antiguo Régimen, Santiago de Compostela, 2009, passim. 11 Sobre el concepto de tumbo o de cartulario vide RODRÍGUEZ DÍAZ, Elena E. — “Los cartularios en España. Problemas y perspectivas de investigación”, en RODRÍGUEZ DÍAZ, Elena; GARCÍA MARTÍNEZ, Antonio Claret, eds., La escritura de la memoria. Los cartularios, Huelva, Universidad de Huelva, 2011, pp. 13-36. 8 277 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ en otros códices diplomáticos, así como de la huella que dejaron en instrumentos de descripción posteriores. A partir de los seis libros forales conservados en el Archivo Histórico Nacional de Madrid12, de los escasos folios que nos quedan de algunos de los otros cinco códices y de las noticias que nos ofrecen los inventarios de la Desamortización13 y el Libro de Tumbo del monasterio14 pretendemos determinar la génesis de cada uno de los volúmenes, el momento de su elaboración, su factura material, una aproximación a su contenido, la disposición del mismo y, en última instancia, su estado de conservación. Los primeros ejemplares En Belmonte, los dos primeros ejemplares que conocemos no se confeccionaron hasta finales del siglo XVI15. Fray Bernardo Escudero, un monje formado en el claustro de Valbuena de Duero y natural de Almonacid de la Zorita, fue quien en un primer abaciadgo en el monasterio asturiano entre 1581 y 1584 determine la elaboración de los forales 1.º y 2.º16. Es él mismo quien nos informa sobre el particular cuando en 1604 recuerda las actividades realizadas en Belmonte durante el referido período. Escribe: «(...) se hizieron y enquadernaron dos libros grandes, a los quales se les dio título de Libro Foral Primero y Libro Foral Segundo, poniéndose en ellos algún papel blanco en que se fuessen escriviendo los demás foros que en el tiempo de adelante se fuessen haziendo»17. Se trata de dos libros facticios en los que se incorporaron escrituras que ya tenía el monasterio en su archivo desde tiempo atrás. Ambos fueron encuadernados reutilizando pergaminos del viejo fondo litúrgico del monasterio, en cartera, flexibles y con cintas de cuero para su cierre. Además, en sus respectivas portadas, junto al escudo con los emblemas de la Congregación18, los dos ejemplares recibieron título, enmarcado AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Libros L. 8749, L. 8753, L. 8750, L. 8751, L. 8752 y L. 8753. 13 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte Legajos 4936 y 4937. 14 Archivo Histórico de Asturias (AHA). L. 11308. 15 Los inicios de la serie son más tardíos, por lo tanto, que en otros monasterios. Así, en Valdediós, integrado en la Congregación cisterciense de Castilla en fecha más temprana, los primeros ejemplares conocidos se fechan a comienzos del siglo XVI y albergan no pocos foros de la centuria anterior. Sobre esta cuestión vide SOLANO FERNÁNDEZ-SORDO, Álvaro — “El papel de los monasterios asturianos en la configuración de la Villaviciosa bajomedieval desde una perspectiva documental. Contratos inmobiliarios en los forales de Valdediós”, in CAVERO DOMÍNGUEZ, Gregoria, ed., Construir la memoria de la ciudad: espacios, poderes e identidades en la Edad Media (XII-XV). I. La ciudad publicitada: de la documentación a la Arqueología, León, Universidad de León, 2015, pp. 227-245. 16 Sobre su figura FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo — “Fray Bernardo Escudero y los usos de la escritura en un claustro cisterciense a finales del siglo XVI”, in De scriptura et scriptis: producir, León (en prensa). 17 AHA. L. 11308, sin foliar [prólogo]. 18 Escudo polilobulado, con la barra de escaques en el cuerpo de este, con dos flores de lis a cada uno de sus costados, dentro del escudo; el báculo, dispuesto verticalmente, orientado hacia la izquierda y de trazo 12 278 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX por una doble línea paralela de apenas 2 mm. de ancho. El título y la mise en page son prácticamente idénticos de uno a otro. Así, leemos en uno de ellos: «LIBRO / SEGUNDO / de los foros / de este / Monesterio de Nuestra Se/ñora de Belmonte. 1582»19. Con el tiempo los dos códices serían dotados de sendas tablas o índices con los instrumentos en ellos contenidos20. La elaboración de ambos códices respondía al celo del abad Escudero, dispuesto a aplicar en Belmonte cuanto recogían las Definiciones, todo cuanto indicara el Capítulo General de la Observancia Cisterciense Castellana, todo cuanto fuese necesario para lograr el mejor funcionamiento de la administración monástica, el engrandecimiento de su hacienda y la defensa de sus intereses jurídicos. Por eso, aunque las actividades que desplegó en la abadía asturiana fueron muchas y diversas, su atención se centró principalmente en las escrituras vinculadas a la administración, a la gestión y al gobierno de la abadía; al menos en las que eran susceptibles de ser empleadas con mayor asiduidad. Por eso no solo se preocupó por ordenar el fondo histórico, sino que centró sobremanera sus desvelos en las escrituras más recientes sobre papel, que fueron, a diferencia de los soportes membranáceos, custodiadas y organizadas a tenor de su contenido. Así, con «las escripturas más nuevas (como son foros, encabeçamientos y otras semejantes) se hizieron y enquadernaron» los dos forales a los que me estoy refiriendo. En cambio, las escrituras de censos, arriendos y «cosas semejantes» fueron enlegajadas, procediendo del mismo modo con las escrituras de apeos e incluso con algunos pleitos y censos conservados21. Como parece evidente, recoger en formato libro las escrituras hasta entonces dispersas garantizaba su mejor conservación, pero seguía ofreciendo las mismas dificultades en relación a su manejo y rápida localización. Por ello, tras reordenar el fondo histórico y formar estos dos libros «determinó de escrevir dos libros, que fuessen como Tumbos o summarios de todas las sobredichas escripturas, porque sin ellos de poco provecho fuera todo lo que se avía trabajado»22. Uno de ellos sería «para las escripturas nuevas de los dos libros forales y de los arriendos y censos. Y, con el favor de Dios, començé por el libro de las escrituras nuevas de los foros, por parecerme ser por agora más necessario, sogueado, ocupa posición central. El modelo no aparece documentado en el, sin embargo, exhaustivo y minucioso trabajo de RODRÍGUEZ, José Ignacio — El patrimonio heráldico de la Congregación Cisterciense de Castilla, Madrid, Real Academia Matritense de Heráldica y Genealogía, 2017. 19 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8753. 20 La tabla del libro foral 2.º se halla en regular estado de conservación, con los laterales perdidos. Va intitulada como «+ Tabla de las escripturas pertenecientes a este libro que es el 2 foral». Los asientos de la tabla incluyen el nombre del lugar contenido en el foro (escrito con posterioridad), el nombre de la persona que lo concertó («Foro de X») y el folio en el que se ubica. Tiene otra tabla posterior. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8753 [portada]. 21 AHA. L. 11308, fol. 3r.º. Para los apeos véanse los documentos que se conservan en el AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4936. Carpeta de apeos. 22 AHA. L. 11308, fol. 2v.º. 279 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ al qual puse título y nombre de Tumbo y Breve Summario de la hazienda deste monasterio»23, libro que, en el fondo, se atenía nuevamente a lo que disponían las Definiciones24. Una de sus partes era una «summa de todos los foros que el monasterio tiene hechos, la qual va puesta por este orden en cada foro: que primero se pone la hazienda que se afora; y, después, por quantas vidas sea, y en qué vida esté entonzes, y cómo se llame la tal vida, y lo que cada año se a de pagar, y qué condiciones tenga el foro, y en qué libro foral esté la escritura y a quantas hojas (...)»25. En este libro, que sería conocido pasado el tiempo como Tumbo Viejo, el sumario de foros sería la parte más amplia del mismo y en ella la descripción de cada contrato ofrecería los datos esenciales: nombre o localización de la hacienda, nombre del llevador, duración del vínculo contractual, canon foral a satisfacer en cada anualidad junto con las condiciones específicas que tenía este y, finalmente, la cota archivística que correspondía al documento, con indicación de la unidad de instalación (libro foral primero o segundo según correspondiese) y del folio al que se encontraba cada escritura. En los años siguientes, tras el trienio de Escudero, ambos libros continuaron utilizándose. No faltan en ellos los foros y encabezamientos concertados en los abaciadgos de sus sucesores, en tiempos de los padres fray Bernardo de la Cruz, fray Miguel de Berganza, fray Juan de Tamayo, etcétera. Estos se sumaban a las numerosas cartas elaboradas durante su propio trienio, durante el de su antecesor el padre fray Alonso Sanz, y aún las había anteriores a la incorporación de Belmonte a la Observancia, es decir, bajo las prelacías de los últimos abades perpetuos. El libro foral primero quedó compuesto por 425 folios e incorporó escrituras desde 1582 hasta 1603, según un impreciso testimonio de época posterior26. Las más antiguas que se recogieron en este códice son, sin duda alguna, anteriores a la reforma del monasterio y guardan memoria de la actividad desplegada por uno de los últimos abades perpetuos de la institución27. No escasean tampoco los instrumentos datados entre 1543 y 1560, periodo en el que fray Gonzalo (el último abad perpetuo) y los reformadores (los abades-presidentes) se disputaron con mayor ahínco el control de Belmonte28, pero más Ibidem. Diffiniciones de la Sagrada orden de Cistel y Observancia de España, Salamanca, Mathías Gast, 1584, fol. 49r.º-v.º. 25 AHA. L. 11308, fol. 3r.º. 26 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8749, fol. 2r.º. 27 De 1539 data el foro que el abad fray Julián y fray Gonzalo, su coadjutor, hicieron de un molino en San Martín de Lodón a María González por espacio de 60 años. Pasó ante Mateo Martínez, escribano del rey y de todos sus reinos y señoríos. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses, Belmonte. L. 8749 fol. 135r.º. De 1522 data un documento trasladado en fecha posterior, que pasó, siendo abad fray Julián, ante Álvaro Díaz, notario del rey en su corte, reinos y señoríos, relativo al pleito movido ante el provisor del obispado de Oviedo sobre bienes en Clavillas y Valcarce (Somiedo). 28 Se reúnen en el códice documentos de las presidencias de Cristóbal de Valdeunquillo o de Alfonso de Granada. Además, hay varias escrituras del año 1546, en buena medida sin validar, barradas o incompletas, en que aun reconociendo a «Belmonte ques de la horden de Çíster y Regular Oserbançia en el obispado de 23 24 280 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX numerosos son los comprendidos entre los abaciadgos de fray Mauro de Curiel (1560), fray Alfonso de Tordehumos (1561) y el propio Escudero (1582-1584). Algunos se escribieron tras la prelacía de este29 y el último foro incorporado al códice data de 1604. El libro fue usado con regularidad hasta aproximadamente el año 1621, fruto del asiento en los foros de encabezamientos en segunda y tercera vida30. La anotación más tardía que hemos identificado data de 166031. Es muy probable que buena parte de las escrituras incorporadas a este foral ya hubiesen formado parte de un cuaderno anterior desmontado para la ocasión, tal y como acredita la numeración romana tachada que figura en la esquina superior derecha del recto de no pocos folios. El foral segundo llegó a constar de 588 folios. El resultado final es un volumen compuesto por varios cuadernillos de dimensiones variables32 formados tanto por expediciones como por bifolios en blanco. Los documentos más antiguos se remontan otra vez al período anterior a la Observancia, pero sin salir del quinientos33 y los más recientes, apenas un par de instrumentos, superan ligeramente el segundo abaciadgo de Escudero34. Las escrituras de este libro presentan encabezamientos debidos a la mano de este abad, quien, en los márgenes, a la altura del foro en la que figura la renta, fijó una «r» de martillete, idéntica a la que se puede ver también en el Tumbo Nuevo del monasterio35. Pese a las escasas adiciones que hemos referido, lo cierto es que a la altura del año 1602 ambos libros podían darse por finalizados, ya sin hojas en blanco para recibir nuevos negocios. Era entonces Escudero abad de Belmonte en un segundo mandato, y a él correspondió nuevamente dar comienzo al tercer libro foral del monasterio. Tenemos una vez más su propio testimonio, pues bajo su gobierno, se «acabaron de henchir y escrevir las hojas blancas de los dos libros forales primero y segundo. Y assí, fue necessario hazer otro tercero, en el qual se yrán escriviendo los foros que de aquí adelante se hizieren. Y acabándose de escrevir el papel blanco deste, se hará el quarto, y, assí, continuándose la successión en todo esto, se conservará la hazienda y andará todo bien ordenado»36. Oviedo» solo aparecen en ellas los nombres de Juan de Villagarcía, soprior, Juan de las Dorigas y Pedro de Espinareda, sin rastro de abad o presidente alguno. Vide, por ejemplo, AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8749, fols. 84 o 134. 29 Por ejemplo, en los abaciadgos de fray Gabriel Bermúdez o fray Juan de Tamayo. 30 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8749 fol. 49v.º. 31 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8749 fol. 159r.º. 32 El último cuaderno que lleva signatura es el Z. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8753, fol. 494r.º. 33 Correspondientes al año 1511 están o sin autorizar o trasladadas por notario público en fecha posterior (1556). AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8753, fols. 200-206 y 207-214. 34 Los más recientes llevan fechas de los primeros años de la década de 1620, AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8753, fols. 215r.º y 508r.º. 35 AHA. L. 11308, passim. 36 AHA. L. 11308, fol. 1v.º. 281 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ En la portada del nuevo códice puede leerse «Libro tercero de los foros deste monasterio de Belmonte. Començose en el 2.º trienio del padre abbad fray Bernardo Escudero. Año del Señor [de 1]604»37. Es en el verso del primer folio donde podemos localizar los motivos aducidos para su composición: «Casi todos los foros y nombraciones dellos que se contienen en los dos libros forales anteriores a este son foros que se hizieron desde que este monasterio se unió a la Regular Observancia de España de Nuestra Orden, hasta el segundo triennio del padre abbad fray Bernardo Escudero, en el qual se acabó el papel blanco de los dichos libros forales primero y segundo, y se comenzó a escrevir en este tercero»38. De él, las escrituras del segundo trienio de Escudero únicamente llegan al folio 33, teniendo la última fecha de 23 de abril de 1605. Desde entonces, en años sucesivos, el libro fue continuado y dotado en sus folios finales de una tabla con su contenido. Consta actualmente de 470 folios, los mismos que se cifraron en 182039. Entre los documentos reunidos en este códice sus continuadores no incorporarán solo expediciones, sino que también puede encontrarse alguna escritura validada ante notario público, pero con su rúbrica, no con su signo40. Por otra parte, Escudero, además de reunir en un libro los nuevos contratos de foro, decidió poner todas las cartas de arrendamiento juntas en un libro compuesto para compendiar y recoger en él este negocio y su correspondiente tipo documental: «Pareciendo que convenía, se hizo un libro de escrituras de arriendos, para que en él se pongan todos los arriendos signados, de la manera que se ponen los foros en los libros forales»41. Frente a los foros, caracterizados por la larga duración del vínculo contractual, la vida de las escrituras de arriendo era, por propia definición, mucho más breve; de hecho, en el seno de la orden se consideraba que bajo ningún concepto debían extenderse más allá de nueve años, siendo lo más adecuado rubricar contratos de tres años en tres años. Por lo tanto, actualizar este libro suponía una tarea ardua, pero Escudero no dejó de ver en él las ventajas que suponía: «Cosa algo prolixa parece, por durar pocos años los arriendos, pero no dexará de ser de importancia, porque andando sueltos los arriendos (aunque se pongan en legajos) se suelen perder como la experiencia lo a enseñado»42 y añadía, además, que «como los arriendos necessariamente se an de sacar, no es mucho inconveniente el sacarlos en libro como se avían de sacar en un papel suelto»43. Paralelamente hizo el segundo libro de tumbo de la abadía, el conocido como Tumbo Nuevo. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8750, fol. 1r.º. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8750, fol. 1v.º. 39 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fols. 159v.º160r.º 40 Se localizan en este foral algunas escrituras rubricadas, pero no signadas por el notario público Francisco Fernández. 41 AHA. L. 11308, fol. 540r.º. 42 Ibidem. 43 AHA. L. 11308, fol. 1v.º. 37 38 282 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX Cambios en el concierto de los contratos de foro Desde el año 1611 la política de aforamientos de los bernardos castellanos va a cambiar y los foros van a dejar de hacerse por vidas de llevadores para empezar a establecerse por las de tres reyes. Esto se acordó en la reunión del Santo Definitorio de ese año 161144 y ya en los últimos años del reinado de Felipe III y sobre todo a lo largo de los de Felipe IV y Carlos II se instituirán en Belmonte los contratos siguiendo las nuevas directrices45. Paralelamente, una vez se completó este tercer libro de foros, se inició durante el reinado de Felipe IV un cuaderno que respondió en un primer momento al nombre de «Foros nuevos»46. El volumen, con el tiempo, habría de formar parte del foral cuarto. Su primera nomenclatura le fue dada por el padre León Bustamante, un monje muy diligente en la gestión administrativa de la abadía, en la que fue cillerero y mayordomo y en la que residió buena parte de la década de 1620 y aún en los primeros años de la siguiente47. Solo después recibiría la nueva denominación, momento en el que, por lo demás, sirvió para confeccionar otro códice facticio: el libro cuarto de los foros de la abadía. Junto a estos, tal y como se consigna en los primeros folios de este 4.º libro foral, se van a adjuntar los hechos en los «[tri]ennio[s] d[e lo]s [padres a]bbades fray Alonso Martínez, fray Alonso de [Bur]gos y van al principio algunos foros de un año que fue abbad don fray Luys Verdugo]»48. Con ellos, «están aquí los foros del trienio del padre fray Gerardo Carrillo y del padre fray Joseph de Palafox» según anota otra mano posterior49. De este proceso se da puntual cuenta en el Tumbo Nuevo del padre Escudero. Así, en el folio 37 de los «Foros nuevos» se hallaba el foro que el monasterio hacía en 1628, por Diffiniciones hechas en el Capítulo General que se celebró en el monasterio de Santa María la Real de Palaçuelos, a cinco de mayo del año de 1611 en el qual salió por General Reformador nuestro reverendíssimo padre maestro fray Phelippe de Tassis, hijo del Real monasterio de Herrera, sin lugar, sin año, 1611, n.º 7. Sobre este aspecto y las consecuencias de esta política con las polémicas renovaciones forales del siglo XVIII vide SAAVEDRA FERNÁNDEZ, Pegerto — “A reyes muertos, foros vacos: la conflictividad por la temporalidad de los foros desde la muerte de ’El Hechizado’ a la de Fernando VI”, in LÓPEZ DÍAZ, María, dir., Galicia y la instauración de la Monarquía borbónica: poder, élites y dinámica política, Madrid, Sílex, 2016, pp. 202 y ss. 45 Por ejemplo, a propósito del prado de Corros se escribe en el Tumbo Nuevo que este «aforose a Pedro de Dolia por una fanega, por la vida de 3.es reyes y la 1.ª es Philipe Terçero. Está el foro, libro 3.º, folio 234. Año 1613». AHA. L. 11308, fol. 157r.º. Los ejemplos que pueden aducirse son muy numerosos. 46 Así puede leerse en el Tumbo Nuevo, «Foro de Juan de Alzedo y Toribio Feyto, vezinos de la feligresía de Montobo, y mancomunados a la paga. Es por vida de 3 reyes: 1.ª don Felipe 4.º. Contiene las dos terçias partes del término que llaman de Villar, en Llamoso, y an de partir con otros herederos. Pagan por todo treçe reales cada año. Está original, ante Luys González, en los Foros nuebos, a folio primero». AHA. L. 11308, fol. 340v.º. El subrayado es mío. El número del folio fue tachado por una mano posterior. 47 Sobre su actividad escrituraria en Belmonte, vide FERNÁNDEZ ORTIZ, Guillermo — Historia y memoria. El monasterio de Belmonte (Op. Cit.), pp. 464-466. 48 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8751, sin foliar. 49 Ibidem. Sus abaciadgos se extendieron desde 1625 hasta 1636. Tomo las fechas extremas de AHA. L. 11308, fol. 11v.º. 44 283 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ vida de tres reyes (1.ª Felipe IV), de la media braña de Cobasil (sita en el coto de la abadía) a Gonzalo Menéndez de Belmonte a cambio de un canon anual de 500 maravedís, una marrana, una hemina de escanda y un cordero o su justo valor. Una mano posterior consignaría cómo la escritura se localizaba en el folio 57 del foral cuarto. Similar a este no faltan otros ejemplos. Lo mismo ocurrió con el foro hecho por vida de tres reyes a Alonso Rubio, de Meruja, quien podría disfrutar de tres días de bueyes «grandes» en La Repenerencia a cambio del pago anual de 2 heminas de escanda. La escritura pasaría de estar en el folio 34 de los «Foros nuevos» a aparecer recogida en el 55 del foral cuarto50. Los foros que actualmente conforman el libro 4.º, numerados hasta el folio 30851, también dan cuenta de este proceso. Así, si un foro de 1 de agosto de 1630, otorgado siendo abad fray Alonso de Burgos, se localiza en el folio 107-108 del foral 4.º, puede leerse aún cómo se correspondía con las hojas 87 y 88 de los Foros nuevos. Como este los ejemplos que pueden aducirse son muy numerosos52. El foral contiene abundante documentación de las década de 1620 y 1630, si bien las escrituras más modernas alcanzan la de 164053. Abundan entre ellas instrumentos procedentes de los protocolos de Luis González de Belmonte y Bartolomé González, ambos escribanos públicos del rey y del número de la jurisdicción de Belmonte, pero también expediciones otorgadas por los mismos. Se trata por lo tanto de un códice facticio, encuadernado también en cartera, reutilizando una vez más viejos pergaminos del fondo litúrgico de la abadía. Además, hoy en día se hallan entre los folios del libro documentos sueltos que en origen no debieron de formar parte del mismo, sino que integraban otros códices54. Los últimos forales conservados Desde el abaciadgo de Jerónimo de Quindós, hijo de Moreruela (1641-1644), y especialmente de su sucesor, también se procedió a remozar la distribución de las escrituras que paraban sueltas en el archivo. En esas atenciones al fondo documental de la abadía, no podía faltar la reestructuración que se hizo con no pocos contratos sobre papel. El detonante es el de casi siempre, pues en las primeras hojas del que habría de ser foral quinto, «comencado a enquadernar año 1646»55, se anotó: «Muchos destos papeles AHA. L. 11308, fol. 131v.º. En 1820 se cifraron 313 folios numerados. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fols. 159v.º-160r.º. 52 En la esquina superior derecha del recto de cada folio puede leerse el número de este, precedido de la expresión «a fojas». AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8751, passim. 53 Por ejemplo, el encabezamiento de María de Inclán en el foro de San Adriano de Naveces, con fecha de 12 de octubre de 1640, otorgado ante Bernardo de Valdés, escribano del número antiguo de la villa de Avilés. AHN, folio. 282. Vide también AHA. L. 11308, fol. 539r.º. 54 Se fechan en los primeros años del siglo XVIII. Se trata de encabezamientos o traslados notariales efectuados en los abaciadgos de fray Baltasar Fernández (1703), fray Francisco Quiñones (1713-174) o fray Joaquín de Ania (1719-1720). 55 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, fol. 1r.º. 50 51 284 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX y escrituras estaban en el archibo enbueltos con otros y sin orden; y para más claridad [se] an puesto aquí»56. Otra mano advirtió que su contenido iba más allá de la tipología que se anunciaba en portada: «Aunque contiene escrituras de foros >y otras escripturas< años atrassados y anteriores al de 640 >años<»57. Su contenido, frente a los 4 forales anteriores, es enormemente diverso, muy heterogéneo. Hay escrituras sacadas de protocolos notariales desmembrados (como del de Juan Arias de Tolinas, escribano que fue del número del alfoz y villa de Grado)58, escrituras de donación, permutas, algún testamento, compraventas, cartas de poder, e incluso documentos de diversa naturaleza como una curaduría59, la «información de cómo la hazienda de Villamar está enagenada»60 o un «pedimento sobre el repartimiento que se a de hechar al coto»61. Desde luego el lote más extraordinario de cuantos componen este códice queda constituido por interrogatorios, peticiones, informaciones, y otros documentos que pasaron en primera instancia ante las justicias de la jurisdicción de Belmonte, prácticamente todos fechados en el quinientos y en los primeros años del siglo XVII62. En fin, hay, por supuesto, foros, dejaciones de foros y encabezamientos que son, como no podía ser de otra manera, el elemento más abundante. Se da, entre ellos, la particularidad de que algunas piezas ya habían sido solidarizadas en el «Cuaderno de encabezamientos que se juntaron [año de 1632]»63 o en el foral del padre fray Jacinto Ayala64. Según la tabla que describe su contenido consta de 356 folios. Cronológicamente las piezas más antiguas de este foral vuelven a ser anteriores a la integración de la abadía en la Regular Observancia de Castilla65. Las más recientes se fechan en la década de 164066. No obstante, hoy en día, la data más moderna de los papeles reunidos en este códice es el año 1834, en que se fecha un documento rubricado por fray Anselmo de Villoria en el que se da razón de un foro otorgado en Foxo en 1692 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, fol. 1r.º. Ibidem. 58 También hay escrituras que pertenecieron a los protocolos de Bartolomé González, escribano público de la jurisdicción. 59 Expedida por Pedro de Menes, notario público del número de la villa y concejo de Grado. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, fol. 110r.º. 60 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, fols. 213-215. 61 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, fol. 204. 62 Fueron despachados en la audiencia de Belmonte, por ejemplo, problemas en el monte de Valdesoto, un pleito movido por el derribo de una casa u otro entre los vecinos de Meruja y Faidiello por meter aquellos las vacas en los términos de esta última aldea. 63 Así, el encabezamiento de Gonzalo Martínez en el foro concertado por su padre en San Julián de Belmonte se dice que estuvo primero en dicho cuaderno, anotándose luego su situación en el folio 24 del foral 5.º. AHA. L. 11308, fol. 84v.º. 64 Al folio 1 estaba el foro de la Casa del Llano, más tarde recogido en el folio 306 del foral 5.º. AHA. L. 11308, fol. 90v.º. Las escrituras de su cuaderno se hallan tanto al foral quinto como al sexto. 65 De 1470 data una copia simple de la carta de desembargo de la hacienda del monte de Berducedo, que César Quijano edita en este mismo volumen. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8752, fol. 212. 66 Varios foros otorgados en el año 1644 parecen ser las escrituras más recientes. 56 57 285 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ que se dice estar en el foral 7; junto a ello está el foro de Juan de la Iglesia de Fresnedo, también de 1692. En fin, sobre la heterogeneidad de los materiales reunidos en este volumen y su procedencia no hace falta más que aducir el contenido de algunas notas dorsales. Por ejemplo, una carta de trueque entre el monasterio y Fernando de Villamarín fechada el año 1570 lleva, entre otras notas dorsales, la siguiente, escrita en el año 1604, «Grado. Villamarín y Villandáx. 1570. Caxón 21, n.º 6»67. En el folio 266 se halla una carta de venta de un hórreo en la aldea de Meruja, nuevamente con nota de 1604, «Belmonte. Meruja. 1602. Caxón 21, número 12»68. Mientras, en el cajón 20, al n.º 5, se halla un pleito del año 1580 entre particulares a propósito de la explotación de la braña de Cobasil. Creo pues, con lo expuesto hasta ahora, que no resulta difícil ver que detrás de la elaboración de los libros forales por parte de los bernardos de Belmonte se encuentra su concepción como unidades de instalación, más que incluso como unidades de documentación compuestas. No obstante, hay ejemplos aún más contundentes al respecto de cómo se procedía archivísticamente y del ciclo vital de los documentos. En 1681 se compondría el foral sexto, al que también se dotó de la pertinente tabla para facilitar la localización de escrituras. Acabaría compuesto por más de 600 folios 69, si bien hoy, completamente descabalado, no conserva más que la mitad. Tipológicamente se observa lo mismo que en los forales 4.º y 5.º: tampoco contiene foros exclusivamente. Será nuevamente un códice facticio, encuadernado también en cartera, con pergaminos reutilizados. El documento que lleva la fecha más antigua, una compraventa entre particulares del año 1499, es una copia simple bastante más tardía70. Ningún documento es posterior al año 168071. Además, hay no pocas escrituras del siglo XVI que con anterioridad estuvieron depositadas en los cajones del archivo monástico plegadas sobre sí. No obstante, el grueso de instrumentos que formaron parte del códice fueron contratos que se concertaron en los trienios de los padres Ángel Ramírez, fray Nicolás García, fray Agustín de Miranda, fray Basilio de la Cuadra o fray Juan Bautista de Santo Domingo o fray Jacinto de Ayala, entre otros. Es decir entre el año 1647 y el citado 1680. En la mayoría de los abaciadgos de los anteriores ya se habían ido conformando cuadernos de foros u otras escrituras, y solo más tarde fueron solidarizados en ese foral 6.º. En el Tumbo Nuevo se citan abundantemente los cuadernos de los padres fray Basi- AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, folios 251-252. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8752, fol. 266. 69 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Legajo 4937. Inventario de 1820, fols. 159v.º-160r.º. 70 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8762, fol. 601. 71 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8762, fols. 81-83. Da cuenta de este documento César Quijano en otro artículo de esta publicación. 67 68 286 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX lio de la Cuadra72, fray Jacinto73, fray Agustín de Miranda74, fray Nicolás García75; si bien solo en ocasiones se da cuenta del cambio de ubicación operado con posterioridad76. El propio foral sexto, como no podía ser de otro modo, permite observar ese proceso que el Tumbo Nuevo termina de aclarar. Así, la escritura del folio 443 de dicho foral remite al Tumbo Nuevo y lleva tachada una foliación anterior (f. 182)77. En el becerro se indica que esta nomenclatura se correspondía con la del cuaderno de foros hechos en el trienio del padre fray Nicolás García78. Otro tanto sucede con el foro que Álvaro Menéndez concertó el 25 de febrero de 1662 y que formó parte del foral del padre Alejandro79. Como estos los ejemplos son muy numerosos. De todos modos, para complicar más lo expuesto hasta ahora, no hay ninguna duda de que en los trienios 1650-1653 y 1656-1659 fue el entonces abad, fray Alejandro Ramírez, quien asumió por completo la responsabilidad sobre la nueva documentación, entre ella los foros80. Se aprecia con las escrituras de sus abaciadgos el proceso que va desde que se consigue un documento expedido hasta su última ubicación en el archivo de la abadía. En primer lugar, debe afirmarse que fue el propio abad quien se ocupó de las labores de descripción de los documentos que progresivamente se fueron incorporando a las oficinas monásticas. Así, a él debemos las notas dorsales de un buen número de escrituras. Muchas de estas, que en origen estuvieron dobladas, solo más tarde pasarían a componer el llamado cuaderno del padre Ramírez o foral del padre Alejandro. Hoy están insertas en el foral sexto, como indicamos más arriba. En sus notas no hay, sin embargo, cotas archivísticas, sino únicamente una descripción del contenido de cada escrito: «Foro de la braña de Carriçedo echo a Juan Bardasca Casagrande y a Toribio Riesco y Pedro Biçente y Domingo Bardasca por çinquenta años. Paga veinte y cinco ducados y 8 libras asturianas de manteca. Primera paga San Martín de 1652»81. Está pues acreditada la gestión directa de los abades sobre la documentación, disponiendo en el escritorio de la bien dotada celda abacial de copias y originales para la directa supervisión de asuntos de primer interés. AHA. L. 11308, fol. 294r.º. AHA. L. 11308, fol. 295v.º. 74 AHA. L. 11308, fol. 299r.º. 75 AHA. L. 11308, fol. 303r.º. 76 El traspaso de un foro que hizo en 1649 Melchor Menéndez en Juan Menéndez de la Vega pasó de estar en el folio 13 del cuaderno del padre Basilio de la Cuadra a ubicarse en el folio 256 del foral sexto. AHA. L. 11308, fol. 307r.º. 77 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8762, fol. 443. 78 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8762, fol. 366r.º. 79 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8762, fol. 153r.º. 80 Llegó a concertar escrituras sin presencia de escribano público. Así, con fecha de 12 de mayo de 1651, son el propio abad y el cura Caunedo quienes rubrican el foro que conciertan, sin mediación de notario alguno. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8762, fol. 462r.º. 81 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. L. 8762, fol. 181r.º-182v.º. 72 73 287 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ Quizá esto permite precisamente reconocer la distinción entre un archivo intermedio, que no se configura aún como histórico, pero que recibe la documentación que genera la abadía pasado cierto tiempo, de aquellos conjuntos documentales que permanecen repartidos entre los diferentes oficios monásticos, según las necesidades de cada cargo o de las responsabilidades que asuma cada religioso. Así, los papeles del trienio del padre Ramírez que él mismo procedió a doblar y a dotar de notas dorsales, fueron, a posteriori, unidos, formando primero un cuaderno específico, y luego solidarizados con otros en el libro foral sexto. Este último adoptaría la función de unidad de instalación. Los forales perdidos Los forales que se conservan no sobrepasan los últimos años del siglo XVII, aún cuando, como hemos visto, hay entre sus folios alguna escritura fechada con posterioridad. El foral 7, hoy perdido, debió de componerse precisamente en el último quinto del siglo XVII con las escrituras que se produjeron en el reinado del último Habsburgo, al menos esto es lo que se deduce del Tumbo Nuevo82. Quedó formado por 284 instrumentos83. En sus páginas no solo figuraron foros, sino también arriendos o compra-ventas. Algunas de las escrituras que compusieron este códice se hallan sueltas en los legajos de la sección clero del Archivo Histórico Nacional84. El foral 8, en cambio, no se comenzó hasta el reinado de Felipe V. Es de nuevo el Tumbo Nuevo el que nos permite aproximarnos a su contenido, compuesto fundamentalmente por foros. Quedó conformado por 420 instrumentos, pero valiéndonos del becerro apenas podemos conocer una mínima parte de ellos85. El que abría el códice iba fechado en 170186. El foral 9 se empezó hacia 174887 y no consta su empleo mucho más allá de los años centrales del siglo XVIII. Apenas llegó a reunir un centenar escaso de escrituras88. En 1755 van fechadas las primeras escrituras del foral 1089 y debió de continuar en uso durante buena parte de la segunda mitad del siglo XVIII. En 1820 constaba de 234 instrumentos90. Algunos folios se hallan hoy sueltos en los legajos del Archivo Histórico Las primeras escrituras reunidas en este libro fueron foros concertados el año 1684 ante el escribano Marcos García de Quintana. AHA. L. 11308, fols. 624r.º y 642r.º. No obstante, hubo cartas anteriores. 83 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fol. 160r.º. 84 Por ejemplo, la carta de compra-venta y el arriendo de una casa en Avilés, que pasaron ante Gaspar González de Candamo Hevia, que se hallaban entre los folios 77 y 80. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937, folio suelto. Consta su ubicación en el Tumbo Nuevo. AHA. L. 11308, fol. 539v.º. 85 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fol. 160v.º. 86 AHA. L. 11308, fol. 206v.º. 87 De este año es el foro del castañedo de Sobrevilla que abría el códice. AHA. L. 11308, fol. 143r.º. 88 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fol. 160v.º. 89 AHA. L. 11308, passim. 90 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fol. 160v.º. 82 288 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX Nacional91. Además, en él se incorporaron también escrituras de arriendo, como la que en marzo de 1781 se hizo de la hacienda de Soto de los Infantes, que estaba al folio 229 del foral 1092. Sobre el foral 11 el Tumbo no suministra apenas noticias, pero suficientes para reconocerlo como un códice en uso durante las primeras décadas del XIX93. Entre sus folios había, hacia 1820, un total de 109 instrumentos94, entre foros, permutas, arriendos o compraventas. De ellos alguno se halla hoy suelto entre los papeles del monasterio en el Archivo Histórico Nacional95. El códice fue ampliamente utilizado en 1820/21 para el inventario bienes muebles y efectos semovientes, escrituras de arriendo, libros y asientos de cuenta y razón96. A pesar de haberse conservado todos hasta las primeras décadas del siglo XIX, su estado en vísperas de la Desamortización no era el más adecuado, pues de ellos se dice en 1821 que «se hallan faltosos de ojas por estar desenquadernados y por cuya razón no se hallaron barios foros»97. En fin, en todos estos ejemplares hubo pues negocios que no eran solo conciertos forales y sus derivados de encabezamientos, permutas, ventas o reducciones de foros, sino que también se incorporan otros vínculos contractuales, ventas, censos al quitar, arriendos, etc., e incluso otras completamente ajenas a la explotación y conformación del dominio. El foral 5.º estuvo integrado masivamente por instrumentos que pasaron ante la justicia del coto, y en él no faltan interrogatorios, mandatos o peticiones. Entre estas últimas, quizá pueda citarse la escritura de tiempos del abad Diego Arias, cuyo pedimiento escribió y publicó el escribano público del coto Juan Arias de Tolinas en relación a los árboles que se habían cortado para las obras que a fines del siglo XVI se estaban haciendo en el monasterio. Además, aunque las Definiciones insistían en la incorporación a los forales de negocios autorizados, buena parte de las escrituras de los forales 5.º y 6.º no son expediciones, sino las escrituras extraídas de los protocolos notariales de los escribanos AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Papeles sueltos. Foro de Las Huertas a Manuel Fernández del Faedo (1755, agosto, 11) otorgado ante Antonio García Riveros. Mismo año y ante el mismo escribano, foro a Matías Fernández de Meruja de la tierra de La Raíz. Estaban en los folios 24 y 25 del códice. 92 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de escrituras de arriendos, bienes muebles, libros de cuenta del antiguo monasterio de Belmonte. Año 1821, fol. 10r.º. 93 AHA. L. 11308, fols. 129r.º y 490r.º. 94 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fol. 160r.º. 95 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Escrituras sueltas. Se conservan cuatro escrituras (que estaban en los folios 29-33 de dicho foral). Entre ellas, la permuta entre el monasterio y Pedro Ozores, vecino del Faedo, de un prado en La Repenerencia y una tierra en la Ponte Vieja; otorgada ante Bernardo Andrés Peláez (1802, abril, 23), y la venta de unos bienes en Meruja (1801) que pasó ante Mariano González, escribano del número de Grado. 96 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, passim. 97 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajo 4937. Inventario de 1820, fol. 159v.º. 91 289 GUILLERMO FERNÁNDEZ ORTIZ de la jurisdicción, o de otros que trabajaron para el monasterio, y a cuya muerte quedaron en poder de los monjes y que estos desmontaron e incorporaron al correr el tiempo a los forales. Así, a lo largo del Tumbo Nuevo no faltan asientos en los que se dice que la escritura está «entre los orijinales de Juan Arias, folio 75, quaderno de Grado» u otros similares98. Sin embargo, la matriz no dejaba de ser eso, una matriz; para que tuviera el valor necesario era imprescindible la expedición, previa petición al juez y recurso al notario para que sacase el traslado autorizado99. Por esto podemos leer en el Tumbo en repetidas ocasiones: «Pasó ante Juan Arias de Tolinas, escrivano. Y está refrendado por Alonso Gonçález de Leyguarda, escrivano»100. En este sentido, quizá sea un documento inserto en el foral sexto el que mejor refleje esa preocupación de los religiosos por sacar traslado autorizado de las escrituras que pasaron ante distintos escribanos públicos: «Bartolomé García Pumarino, en nombre del padre abbad y monxes del monasterio de Santa María de la real de Velmonte en el concejo de Miranda digo que Francisco Fernándezde Tuña, vezino de Tuña, concejo de Tineo, y Bartolomé González, veçino de Bigaña de Arcello, concejo de Miranda, fueron scrivanos de Su Magestad y del número de los dichos concejos y del coto y jurisdiçión de Velmonte y al presente son muertos y de los susodichos an quedado muchas scripturas de foros, censsos, arriendos y otros papeles que tocan al dicho monasterio y asta ahora no se hizo ymbentario dellos y los papeles paran en poder de sus mugeres y herederos, con que mis partes no tienen seguridad de sus scrituras y se podrán perder por no tener traslado de ellas, atento lo qual a vuestra merced pido y suplico mando se despache (…) aga ynbentario de dichos papeles y escrituras y de los que tocaren al monasterio el dicho scrivano dé testimonio signado»101. Conclusiones Después de haber ofrecido un análisis sobre la génesis de los once forales que los monjes de Belmonte confeccionaron desde la integración de la abadía en la Observancia cisterciense castellana hasta la Exclaustración de 1835 y de haber atendido a su contenido, disposición y estado de conservación actual, queda únicamente ofrecer, para terminar, las conclusiones de rigor: 1) Los forales son libros que dispone hacer el órgano central de la Observancia cisterciense castellana. Las normas recogidas en las Definiciones de la congregación no son detalladas, pero sí que instan a la obtención y conservación de los contratos autorizados ante notario. En un primer momento se insistirá en la confección de AHA. L. 11308, fol. 383r.º. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. L. 8751, fols. 44r.º y ss. 100 AHA. L. 11308, fol. 334v.º. 101 AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Libro L. 8762. Véase también AHA. L. 11308, fol. 611v.º. 98 99 290 LOS LIBROS FORALES DEL MONASTERIO DE N. SEÑORA DE BELMONTE (ASTURIAS, ESPAÑA) SS XVI-XIX libros específicos y, más adelante, en su custodia en el archivo, sin mayor grado de detalle. 2) Los libros forales de Belmonte son códices facticios, donde se reunen escrituras hasta entonces sueltas o que componían cuadernos de menor entidad. 3) Las tipologías documentales que se recogen en estos códices no quedan reducidas al foro y a las figuras asociadas a este (encabezamientos, traspasos, renuncias...). 4) Estos códices pueden entenderse, desde un punto de vista archivístico, como unidades documentales compuestas y sobre todo como auténticas unidades de instalación, dotadas de índices y pensadas, pese a la cursividad de buena parte de los instrumentos, para la fácil consulta (no hay más que fijarse en los encabezamientos que llevan no pocas escrituras) y mejor conservación de la documentación. 5) De los once forales que, según las noticias recabadas, hicieron los monjes de Belmonte en el transcurso de la Modernidad únicamente se localizan entre los fondos conservados del monasterio seis ejemplares, curiosamente los más antiguos. No obstante, todos llegaron, como hemos visto, a los traumáticos procesos del siglo XIX: desamortización y exclaustración. Fuentes AHA. L. 11308. Tumbo Nuevo del monasterio de Belmonte (1604). AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Libros L. 8749, L. 8753, L. 8750, L.8751, L. 8752 y L. 8753. AHN. Sección Clero. Regular. Cistercienses. Belmonte. Legajos 4936 y 4937. ARG. Sig. 45748 (leg. 813 - n.º 27). Visita al monasterio de Sobrado (La Coruña). Año 1675. Referencias bibliográficas Diffiniciones compiladas de la Orden del Cístel y observancia de España, de todos los capítulos desde que la Observancia se començó en estos reynos de España, hasta el capítulo celebrado en Valladolid en el año de 1552, Toledo, Juan de Ayala, 1552. Diffiniciones de la Orden de Cístel y Observancia de España, Salamanca, Juan María Terranova, 1561. Diffiniciones de la Sagrada Orden de Cístel y Observancia de España, Salamanca, Mathías Gast, 1584. 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PEREIRA* MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO** MARIA FILOMENA MONTEIRO*** 1. Introdução De acordo com os “papiros Edwin Smith” (1600 a.C.) e “Ebers” (1550 a.C.), já existia uma longa tradição na prática e na observação da anatomia humana e animal no Egipto Antigo (Scholl, 2002), essenciais para o desenvolvimento das técnicas e ingredientes utilizados no embalsamamento dos corpos. Na época, os egípcios conheciam e dominavam o conhecimento e a aplicação de um vasto leque de plantas medicinais de origem africana e que ainda são utilizadas, tais como a coloquíntida (Citrullus colocynthis (L.) Schrad.), a erva-doce (Pimpinella anisum L.), a goma arábica (Vachellia seyal (Del.) P.J.H.Hurter), a mirra [Commiphora myrrha (Nees) Engl.], o linho (Linum usitatissimum L.) e o alho (Allium sp.), entre outras. Na Civilização Árabe (Figs. 1 e 2), destacou-se o médico Abu Ali al-Husayan Abdallah ibn Sina ou Avicena (980-1037 d.C). Era também matemático, astrónomo e naturalista, um dos mais importantes sábios do Islão, de cultura grega e pensamento muçulmano. No campo médico, contribuiu com a obra al-Oanunfi al-tibb (Cânone de Medicina) que, traduzido para o latim tornou-se a base essencial da medicina medieval. O domínio árabe no comércio do oceano Índico e as caravanas vindas da Índia e da África possibilitaram a introdução de muitas plantas asiáticas e africanas na Europa, tornando acessíveis as especiarias oriundas de zonas muito isoladas. * Departamento de Paisagem, Ambiente e Ordenamento, Escola de Ciências e Tecnologia, Universidade de Évora ** Departamento de Arquitetura, Escola de Artes, Universidade de Évora *** Divisão de Cultura e Património, Câmara Municipal de Évora Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 293-318 293 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO Fig. 1 – Botica na antiga Babilónia. Fontes: ww.slideshare.net. Fig. 2 – Materia Medica de Dioscorides (1224) no Iraque. Fonte: islamic-arts.org. No século IX, os comerciantes muçulmanos tiveram acesso a algumas espécies da Asia Oriental, entre elas, a laranjeira [Citrus sinensis (L.) Osbeck.] e a canforeira [Cinnamomum camphora (L.) J. Presl] (Basso, 2004). Com a expansão árabe na Península Ibérica no século VIII, foram introduzidas especiarias e drogas orientais para vários fins medicinais, como a galanga [Alpinia galanga (L.) Sw.], o gengibre (Zingiber officinale Roscoe), a moscadeira (Myristica fragrans Houtt.), o ruibarbo (Rheum officinale Baill.), o sândalo (Santalum album L.) e o tamarindeiro (Tamarindus indica L.), entre outros (Liberato, 2008). Os descobrimentos portugueses também contribuíram para o conhecimento de muitas espécies vegetais de origem asiática, utilizadas no tratamento dos “males do corpo”. Com a chegada de Vasco da Gama a Goa em 1498, data em que se inicia a Idade Moderna, muitos homens rumaram ao Oriente, entre eles, o médico de origem judaica Garcia d’Orta, autor do Colóquio dos simples e drogas, obra essencial na divulgação no ocidente de algumas espécies botânicas de origem asiática e as suas propriedades terapêuticas. Com o descobrimento do Brasil, era necessário que os colonizadores tivessem conhecimento dos benefícios e malefícios dos componentes da flora americana, para aliviar as enfermidades de que sofria o homem branco. Mais tarde, coincidindo com o regresso das expedições navais e dos missionários, começaram a aparecer na Europa muitas plantas desconhecidas, com virtudes surpreendentes. Destaca-se a casca de quina (Cinchona calisaya Wedd.) utilizada para baixar a temperatura das febres da malária e as virtudes anestésicas das bagas da pimenta-da-jamaica [Pimenta dioica (L.) Merr.], entre outros. Foram selecionados três mosteiros femininos da Ordem de Cister: S. Bento de Cástris em Évora (1274), S. Bernardo em Portalegre (1518) e Nossa Senhora da Nazareth do 294 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) Mocambo em Lisboa (1653), com o objetivo de analisar os espaços vocacionados para a saúde e respetivos complementos (espaços, hortos, cercas, …). 2. Localização e enquadramento dos conjuntos monásticos O Mosteiro de S. Bento de Cástris foi fundado no sopé de um monte, a 2 km cidade de Évora, em direção à vila de Arraiolos. No local, existiria a ermida de S. Bento construída em finais do século XII, onde em tempos remotos, existiram pequenas fortificações – os Castris. Próximo da ermida, terá Dona Urraca Ximenes constituído recolhimento religioso feminino que, por imposição da Igreja, integrou a Ordem de Cister1. É uma das mais antigas fundações religiosas femininas, no Sul de Portugal (Leal, 1874a). Embora sendo de clausura, devido a especificidades da Regra, este mosteiro era amplo, rico e populoso, podendo, segundo Pe. Manuel Fialho, sustentar uma comunidade com mais de cento e quarenta pessoas2. A zona envolvente e a cerca do Mosteiro de S. Bento de Cástris apresenta um coberto vegetal muito alterado relativamente à vegetação natural primitiva. Em termos potenciais, presumivelmente predominava na região, uma floresta de azinheiras [Quercus ilex subsp. ballota (Desf.) Samp.] com sobreiros (Quercus suber L.) e um sub-bosque diversificado. Atualmente, no interior da cerca predominam olivais (Olea europaea L.) nas cotas mais baixas próximas do convento e nas mais altas e inclinadas, uma mata artificial com manchas residuais de sobreiro (Quercus suber), azinheira (Quercus rotundifolia) e oliveira (Olea europaea). O Mosteiro das monjas bernardas de Portalegre foi fundado por D. Jorge de Mello, bispo da Guarda em 1572 e foi dedicado a Nossa Senhora da Conceição (Leal, 1876). Está localizado extramuros da cidade no sopé da serra de S. Mamede, cuja encosta é retalhada por diversas linhas de água e coberta por uma mancha florestal dominada por sobreiros (Quercus suber), carvalho-português [Quercus faginea subsp. broteroi (Cout.) A. Camus], carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd.), castanheiros (Castanea sativa Mill.) e oliveiras (Olea europaea), entre outros. O Mosteiro da Nossa Senhora da Nazareth do Mocambo em Lisboa, localizado no bairro ocidental da freguesia de Santos-o-Velho, foi fundado em 1653, com as esmolas dos devotos, a instâncias de Frei Vivaldo de Vasconcellos, monge do convento de Tarouca, e com licença de D. João IV, do cabido e da ordem (Leal, 1874b). Teve início num recolhimento de mulheres penitentes, numa casa cedida por D.ª Maria da Cruz, com algumas religiosas que vieram do mosteiro de S. Bento de Cástris de Évora (Leal, 1874b). FIALHO, Padre Manuel, Évora Illustrada, com noticias antigas e modernas sagradas e profanas, BDA 01(2)MF02_COD. CXXX/1-9. 2 Fialho, Padre Manuel, Évora Illustrada, com notícias antigas e modernas sagradas e profanas, BDA - 01 (2) MF02_COD. CXXX/1-9. 1 295 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 3. Espaços da saúde (boticas e dependências) Esta Ordem nascente, para uma maior aproximação a Deus, acolheu os princípios estabelecidos nos Estatutos, anteriores a 1134, que contribuíram para uma maior ascese, em relação à vida monástica de ordens anteriores, abraçando uma vida de isolamento, de austeridade e de trabalho árduo para a sua subsistência. Este espírito austero traduziu-se na arquitetura sóbria, de linhas bem definidas, identificada com o seu tempo e ambiente, nos modelos definidos pela Ordem, nos ajustamentos às condições físicas e ambientais e nos locais onde se iam implantar. A Ordem Cisterciense, fortemente estruturada e hierarquizada, estabeleceu um plano (o cisterciense)3 para a construção dos seus mosteiros. Este plano concretizou-se na organização dos espaços funcionais constituintes de uma casa religiosa. Deveria agrupar-se de acordo com um esquema simbólico, centrado no claustro. Com base na primeira planta conhecida, da Abadia de St. Gall, os cistercienses, adequaram-na aos princípios estatuídos na Carta Caritatis4 e nos Estatutos da Ordem, de maior rigidez na reformulação da regra. Isto pareceu conduzir a espaços de menores dimensões aglutinados em torno de um claustro. Na planta esquemática adaptada aos mosteiros femininos, pode observar-se que o espaço de saúde se situava em local autónomo a nascente. Neste sentido, para cada um dos mosteiros em estudo, identificar-se-ão os prováveis espaços de saúde. O Codex Sangallensis5 representa uma abadia beneditina (Fig. 3), abrangendo entre outras dependências, igrejas, casas, estábulos, cozinhas, oficinas, cervejaria, enfermaria. Fig. 3 – Exemplo de espaço de saúde (beneditino). Planta de Saint Gall. Codex Sangalienses. Fonte: Stiftsbibliothek Sankt Gallen. Trata-se de uma planta esquemática com a distribuição dos espaços necessários ao bom funcionamento de uma unidade religiosa autónoma. Encontra-se na famosa biblioteca da Abadia de St. Gall, até à atualidade. Foi desenhado no scriptorium em Reichenau Cocheril, Dom Maur de, Alcobaça, Abadia Cisterciense de Portugal, Lisboa, 1989, p. 35. Cf. Nascimento, Aires A. (ed.), Cister - Os Documentos Primitivos, Lisboa, Edições Colibri, 1999, p.82. 5 Plano de Saint Gall – Codex Sangallensis 1092, Stiftsbibliothek Sankt Gallen. 3 4 296 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) na terceira década do século IX. Serviu de base à criação da tipologia arquitetónica utilizada posteriormente pela Ordem de Cister (Fig. 4). Fig. 4 – Prováveis localizações dos espaços de saúde beneditinos e cistercienses. Fonte: Reconstrução dos edifícios por J. Rudolf Rahn, 1876. S. Bento de Cástris No Mosteiro de S. Bento de Cástris6, o espaço de saúde cuja localização propomos foi baseada na descrição de documentos diversos, parece indicar como provável a zona que comunica diretamente com a cerca pequena, articulada com a antiga enfermaria (Fig. 5). Neste espaço de saúde é ainda possível fazer a distinção da zona de botica (com lume de chão) e a enfermaria. O acesso à botica poderia ser utilizado por pessoas exteriores ao mosteiro, para abastecimento de medicação e mezinhas. Fig. 5 – Mosteiro de S. Bento de Cástris, provável localização do espaço de saúde. Fonte: desenho de M.C. Tereno com base em SIPA. 6 Trata-se da fundação feminina mais antiga que se situa a sul do Tejo, mandada erigir por D. Urraca Ximenes. 297 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO B. S. Bernardo em Portalegre (1518)7 No Mosteiro de S. Bernardo de Portalegre8, o espaço de saúde parece ter-se situado, anexo ao claustro primitivo, adjacente à Casa do Capítulo. O espaço proposto para a botica comunicava com a cerca e próximo do muro da mesma, bem como ao acesso para o exterior do mosteiro (para quem necessitasse de medicamentos). Esta suposição é corroborada pela existência de uma nascente a escassos metros, essencial para o abastecimento da botica (Fig. 6). Fig. 6 – Mosteiro de S. Bernardo em Portalegre, provável localização do espaço de saúde. Fonte: desenho de M.C. Tereno com base em A. M. Martins. C. Nossa Senhora da Nazareth do Mocambo em Lisboa (1653) No Mosteiro de Nossa Senhora da Nazareth do Mocambo9, devido à localização e as características específicas do edifício, assim como a ausência de cerca, criaram uma concentração funcional dos espaços em torno do claustro. A zona mais plausível da Este complexo monástico, à semelhança de tantos outros que ficaram devolutos após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, passou por vicissitudes várias ao longo do tempo. 7 BUCHO, Domingos de Almeida – Mosteiro de S. Bernardo de Portalegre: estudo histórico-arquitectónico propostas de recuperação e valorização do património edificado. Dissertação de Mestrado em Recuperação do Património Arquitectónico e Paisagístico, Universidade de Évora, 1994 [policopiado]. 8 O Mosteiro de São Bernardo dedicado a Nossa Senhora da Conceição, foi fundado em 1518 pelo bispo da Guarda, D. Jorge de Melo, com o objetivo albergar as freiras cistercienses. 9 O Mosteiro de Nossa Senhora da Nazareth do Mocambo (Abadia de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo / Convento das Bernardas do Mocambo / Real Mosteiro da Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo) foi mandado erigir no antigo Bairro do Mocambo (atual Madragoa). Teve a sua génese entre 1653 e 1654 no Recolhimento de Santa Madalena, em cujas casas se acomodaram as irmãs. 298 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) existência do espaço de saúde seria anexa à portaria do mosteiro, funcionando como um espaço quase autónomo (Fig. 7). Fig. 7 – Nossa Senhora da Nazareth do Mocambo, provável localização do espaço de saúde. Fonte: desenho de M.C. Tereno com base em A. M. Martins. 3.1. A Botica De uma maneira geral, as boticas conventuais encontravam-se nas proximidades de uma portaria de acesso ao exterior, onde o monge ou a monja boticários pudessem atender a comunidade leiga, sem quebrarem os votos de vida em clausura, além de efetuarem experiências e preparar mezinhas para administrar no espaço conventual. Era comum disporem de um espaço, jardim ou horto, onde plantavam algumas espécies medicinais e aromáticas úteis na preparação de medicamentos. 3.2. As espécies medicinais Com base na documentação consultada do Mosteiro de S. Bento de Cástris em Évora, foi possível efetuar um levantamento de espécies medicinais utilizadas na época. Na elaboração do elenco florístico, a informação foi sistematizada em quatro parâmetros: 1. O nome comum utilizado na época. 2. O nome latino atualizado (género e epiteto específico). 3. A família botânica. 4. E a origem da espécie vegetal. Na determinação da sua procedência, aplicou-se a metodologia de Fournier (1977), onde as espécies vegetais foram identificadas por áreas geográficas e reunidas em cinco grupos de proveniências: europeias (Europa do norte e centro, região mediterrânica), 299 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO africanas (Egito, Etiópia, Síria, deserto do Saara), americanas (Brasil, Venezuela, Argentina), asiáticas (Península Arábica, Turquia, Índia, Vietname, China) e pluriregionais (continentes americano, europeu e asiático). Na Tabela 1, enumeram-se as espécies que estão referidas no Códice XXXII/1-6 – Livro da Feitoria do Mosteiro de S. Bento de Cástris em Évora que teve início em maio de 1735 sendo responsáveis, na época, o Prior Padre Nuno Mascarenhas, a Abadessa D. Catarina Maria de Carvalho e o Feitor Padre Bernardo de Azevedo. Tabela 110 – Espécies medicinais do Mosteiro de S. Bento de Cástris. https://br.pinterest.com, http://www.mediterraneangardensociety.org https://gobotany.newenglandwild.org, http://envis.frlht.org, https://www.medicinescomplete.com https://www.pinterest.pt, http://itoox.com/ Amazonia-Pau.html, https://www.naturopataonline.org http://obotanicoaprendiznaterradosespantos. blogspot.pt, http://www.seminart.it, https://botany.cz https://www.herbal-supplement-resource.com, http:// nargil.ir 10 300 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) Na Tabela 211, encontram-se alguns ingredientes vegetais que poderão ser provenientes das boticas dos Padres da Companhia, da casa de Manuel Carvalho e da casa do Droguista, em Évora, de acordo com o Códice XXXII/1-6. https://jb.utad.pt, https://www.biolib.cz, https://www.gardenia.net, https://commons.wikimedia.org http:/ /fenixartdecor.blogspot.com, http://www.biga.org, https://garden.lovetoknow.com http://www.ct-botanicalsociety.org, http://plants.nature4stock.com, http://powo.science.kew.org https://www.jennifercosta.net, http:/ /balconygardenweb.com, http://annonaceae.myspecies.info https://en.wikipedia.org, http:// www.florasilvestre.es, http://www.ebah.com.br https://www.healthbenefitstimes.com, http://hi2100.com, http:/ 11 301 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO Tabela 2 – Espécies medicinais que poderão ter sido utilizados nos mosteiros femininos. /www.tipdisease.com http://www.photomazza.com, http://www.westafricanplants.senckenberg.de https:// commons.wikimedia.org, https://jb.utad.pt, http://www.macplants.co.uk https://shop.zdravnitza.com, https:/ /commons.wikimedia.org, https://keys.lucidcentral.org https://www.herbier-du-diois.com, https:// www.hydroponics.eu, http://www.wikiwand.com https://lunaedew.wordpress.com, http:// www.horsedvm.com, https://www.plant-world-seeds.com https://plantslive.in, https:// commons.wikimedia.org, https://gobotany.newenglandwild.org https://plantstomata.wordpress.com, https:/ /en.wikipedia.org, http://www.thepoisongarden.co.uk https://commons.wikimedia.org, https:// www.alibaba.com, https://www.prota4u.org http://floraofgibraltar.myspecies.info, https://alchetron.com, https://www.biolib.cz http://www.golatofski.de, http://www.maine.gov, https://pt.wikipedia.org http:// www.epharmacognosy.com, http://jonnsaromatherapy.com, http://sombra-verde.blogspot.com https:// www.farreachesfarm.com, https://plants.usda.gov, https://fr.wikipedia.org http://www.flickriver.com, https:/ /en.wikipedia.org, http://powo.science.kew.org https://www.naturespot.org.uk, http://www.terrain.net.nz, http:/ /www.biljni-preparati.com http://www.pureorigines.com, http://www.sunshine-seeds.de, www.pinterest.fr http://floradobrasil.jbrj.gov.br, keyserver.lucidcentral.org, http://www.chemfaces.com www.prota4u.org, en.wikipedia.org, http://swbiodiversity.org, http://www.maltawildplants.com http://www.biorede.pt, https:/ /www.pinterest.pt, http://www.purevisionbio.com, www.amazon.com https://www.biolib.cz, http://flora.org.il, www.knowplant.com, http://powo.science.kew.org https://www.pinterest.pt, https://commons.wikimedia.org, http://eol.org, www.agroscope.admin.ch http://www.ufrgs.br, en.wikipedia.org, gobotany.newenglandwild.org http://www.ervaslondrina.com.br, https://www.cafr.ebay.ca, http://www.revenaturel.com http:// floraitaliana.blogspot.com, www.inaturalist.org, http://tropical.theferns.info http://en.wikipedia.org, https:/ /www.zimbabweflora.co.zw, https://medium.com http://www.conifers.org, http://powo.science.kew.org, http:/ /perfumenw.blogspot.com http://www.wikiwand.com, http://smilacaceae.e-monocot.or, https://www.biolib.cz http://www.africanplants.senckenberg.de, https://loirenature.blogspot.co, https://pt.wikipedia.org http:// www.arvores.brasil.nom.br, http://ukrbin.com, https://en.wikipedia.org https://www.indiamart.com, https:// pt.wikipedia.org, https://www.floravascular.com http://www.westafricanplants.senckenberg.de, https:// www.prota4u.org http://asminhasplantas.blogspot.com, https://www.binran.ru, https://idfg.idaho.gov http:/ /www.agroatlas.ru, https://gobotany.newenglandwild.org, https://en.wikipedia.org http://www.florasilvestre.es, http://www.atacadochaecia.com.br, http://www.terradeismael.com.br http://www.conifers.org 302 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) 303 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 304 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) 305 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 306 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) 307 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 308 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) 309 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 310 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) 311 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 312 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) 313 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO 4. Resultados e conclusão De acordo com o Livro da Feitoria do Mosteiro de S. Bento de Cástris em Évora, são referidas 14 espécies medicinais que pertencem a 12 famílias botânicas diferentes. Delas, cinco espécies são de origem asiática, quatro pluriregionais, três europeias e duas americanas. O elenco florístico do Códice XXXII/1-6 (Tabela 2) permitiu identificar 124 espécies diferentes, distribuídas por 61 famílias botânicas. A Fabaceae foi a família mais representativa, com o maior número de espécies (11 spp.). De acordo com Judd et al. (2009), tem uma distribuição cosmopolita, e é a terceira maior família de angiospérmicas, com cerca de 630 géneros e aproximadamente 18.000 espécies, ocorrendo em habitats muito diversificados. As espécies podem ser plantas anuais ou perenes, eretas, prostradas, difusas, trepadeiras, subarbustos, arbustos e árvores de pequeno, médio ou grande porte (Lewis et al., 2005). As folhas são alternas, compostas, por vezes, unifolioladas e/ou com filódios e as flores hermafroditas, vistosas, solitárias ou reunidas em inflorescências. Os frutos característicos são vagens, podendo ocorrer outros tipos como o folículo, o lomento, a sâmara e o aquênio, entre outros (Barroso et al. 1999). A importância desta família reflete-se na economia e na cultura popular, pela utilização de algumas espécies na produção de óleos, resinas, gomas, cumarinas, taninos e produção de madeira; ornamentais; forrageiras e na medicina popular (Elias, 1974). A Asteraceae (8 spp.) encontra-se amplamente distribuídas em quase todos tipos de habitats, compreendendo cerca de 25.000 espécies pertencentes a 1.600 géneros (Bremer, 1994). Possui representantes com porte herbáceo, subarbustivo, lianas, e eventualmente, por arbustos ou pequenas árvores. As folhas são alternas, ocasionalmente opostas, raramente verticiladas e as inflorescências em capítulos, uma característica marcante da família (Judd et al. 2009). Os frutos são cipselas com mecanismos de dispersão muito eficazes, apresentando grande número de espécies ruderais em zonas antrópicas. Na Asteraceae destacam-se algumas espécies com importância económica, que são comercializadas para fins medicinais, ornamentais e culinários. A família Apiaceae (7 spp.) com aproximadamente 480 géneros e 2600 espécies (Constance, 1988) é quase cosmopolita, distribuída praticamente em todo o mundo, desde regiões tropicais a regiões temperadas (Judd et al., 2002). Reúne ervas anuais, bienais e perenes, de pequeno a médio porte, raramente lenhosas, acaulescentes ou caulescentes, frequentemente fistulosas e, em geral, fortemente aromáticas por produzirem óleos essenciais (Dethier, 1941). As folhas compostas são alternas, rosuladas ou opostas, simples ou compostas, com uma larga bainha envolvendo o caule. As flores são geralmente pequenas, dispostas em umbela, panícula ou reduzido a uma só flor e o fruto esquizocarpo, é constituído por dois mericarpos unidos nas faces comissurais (Mercado-Gomez et al., 2011). As Apiaceae têm vindo a ser utilizadas pelo Homem desde as civilizações antigas, com grande valor económico, por abarcar espécies comestíveis, condimentares e 314 ESPACIALIDADE CISTERCIENSE FEMININA: BOTICAS E A ARTE DE CURAR – LISBOA, ÉVORA E PORTALEGRE (PORTUGAL) aromáticas que são utilizadas em perfumaria e bebidas alcoólicas (Judd et al., 2002). Além da importância gastronómica, são fontes de gomas e resinas de uso medicinal como sedativos, antiespasmódicos, estimulantes e até venenos (cicuta) (Corrêa & Pirani, 2005). As Euphorbiaceae (6 spp.) apresentam distribuição mundial com maior diversidade nos trópicos (Govaerts et al., 2000; Radcliffe-Smith 2001), com cerca de 307 géneros e aproximadamente 7 500 espécies (Judd et al., 1999). Tem sido um grande desafio na classificação taxonómica, principalmente pela ampla variação morfológica, o que ocasionou diferentes posicionamentos nos diversos sistemas de classificação e divergências nas delimitações propostas para a família (Takhtajan, 1980). Atualmente, a Euphorbiaceae é caracterizada por incluir espécimes herbáceos a arbóreos, alguns cactiformes e/ou lianescente, com látex colorido, transparente ou leitoso e indumento bastante variado. As folhas são muito variadas, pecioladas ou sésseis, alternas, opostas ou raramente, verticiladas e limbos muito variáveis. As inflorescências são terminais e/ou axilares, em geral cimosas ou racemosas e os frutos (tricocas), são cápsulas com deiscência septicida e loculicida (Webster 1994; Radcliffe-Smith, 2001). A família é conhecida pelas espécies ornamentais, invasoras e com propriedades medicinais, além de diversos usos populares (Mwine & Van Damme, 2011). A família Rosaceae (6 spp.) tem sido descrita como de difícil caracterização devido à grande diversidade morfológica (Dickinson et al., 2002). Contém 95 géneros e 3.000 espécies dispersas em todo o globo terrestre, especialmente no Hemisfério Norte (Reitz, 1996; Barbieri & Stumpf, 2005). Reúne árvores, arbustos, subarbustos ou herbáceas anuais e perenes, por vezes com espinhos ou acúleos. As folhas são alternas ou opostas, às vezes com rosetas basais, simples ou compostas, com inflorescência axilar ou terminal, em fascículo, corimbo, panícula, racemo ou flores isoladas. O fruto pode ser simples (folículo, aquénio, drupa, cápsula ou baga), ou múltiplo (Castroviejo et al., 1998). A família tem géneros de grande importância económica, devido às flores e frutos, interesse ornamental e utilização medicinal (Reitz, 1996). A família Lamiaceae (5 spp.) é composta por aproximadamente 258 géneros e cerca de 6970 espécies, com ampla distribuição mundial, mas abundante nas regiões mediterrânicas, no Médio Oriente e nas montanhas tropicais (Judd et al., 2002). As características morfológicas desta família são muito diversas, podendo apresentar-se como herbáceas, arbustos ou árvores, com folhas simples, raramente compostas, opostas ou verticiladas. As inflorescências são cimosas, com flores vistosas e bilabiadas e os frutos, bagas, drupas ou esquizocarpos (Lorenzi et al., 2002). Tem como característica principal, o aroma muito marcante e fácil de distinguir. A utilização comercial é relevante, para a indústria farmacêutica e cosmética, culinária e aromoterapia. Outras espécies são utilizadas para ornamentação paisagística. A utilização destas plantas com finalidades terapêuticas, é muito antiga em que as experiências com a utilização das ervas com propriedades medicinais, foram passando de geração em geração. A partir do elenco florístico do Códice XXXII/1-6, foram identificadas as áreas de proveniências das espécies. Verificou-se que as pluriregionais são dominantes (34%), 315 MARÍZIA M. D. PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO seguidas pelas europeias (23%), asiáticas (21%), americanas (13%) e africanas (1%) (Tabela 2). Por último e importante referir que houve dificuldade na interpretação de alguns nomes de plantas na grafia manuscrita antiga dos documentos consultados, o que limitou a identificação correta do nome comum da espécie e a atualização dos nomes latinos científicos. Se estes obstáculos tivessem sido ultrapassados, o elenco floristico apresentado teria mais contingentes. 5. Bibliografia NASCIMENTO, Aires A. (ed.), Cister – Os Documentos Primitivos, Lisboa, Edições Colibri, 1999. BARBIERI, Rosa L.; STUMPF, Elizabeth. R.T. – “Origem, evolução e história das rosas cultivadas”, in R. Bras. Agrociência, Pelotas, 11 (3), 2005, pp. 267-271. 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PEREIRA, MARIA DO CÉU SIMÕES TERENO E MARIA FILOMENA MONTEIRO http://itoox.com/Amazonia-Pau.html, https://www.naturopataonline.org http:// obotanicoaprendiznaterradosespantos.blogspot.pt, http://www.seminart.it https://botany.cz, https:/ /www.herbal-supplement-resource.com, http://nargil.ir Tabela 2 https://jb.utad.pt, https://www.biolib.cz, https://www.gardenia.net https:// commons.wikimedia.org, http://fenixartdecor.blogspot.com http://www.biga.org, https:// garden.lovetoknow.com, http://www.ct-botanical-society.org, http://plants.nature4stock.com, http:/ /powo.science.kew.org https://www.jennifercosta.net, http://balconygardenweb.com http:// annonaceae.myspecies.info, https://en.wikipedia.org http://www.florasilvestre.es, http:// www.ebah.com.br https://www.healthbenefitstimes.com, http://hi2100.com http:// www.tipdisease.com, http://www.photomazza.com http://www.westafricanplants.senckenberg.de, https://commons.wikimedia.org https://jb.utad.pt, http://www.macplants.co.uk, https:// shop.zdravnitza.com https://commons.wikimedia.org, https://keys.lucidcentral.org, https:// www.herbier-du-diois.com, https://www.hydroponics.eu, http://www.wikiwand.com https:// lunaedew.wordpress.com, http://www.horsedvm.com, https://www.plant-world-seeds.com, https:/ /plantslive.in, https://commons.wikimedia.org https://gobotany.newenglandwild.org, https:// plantstomata.wordpress.com https://en.wikipedia.org, http://www.thepoisongarden.co.uk https:// commons.wikimedia.org, https://www.alibaba.com, https://www.prota4u.org http:// floraofgibraltar.myspecies.info, https://alchetron.com, https://www.biolib.cz http:// www.golatofski.de, http://www.maine.gov, https://pt.wikipedia.org http://www.epharmacognosy.com, http://jonnsaromatherapy.com, http://sombra-verde.blogspot.com, https://www.farreachesfarm.com, https://plants.usda.gov https://fr.wikipedia.org, http://www.flickriver.com, https://en.wikipedia.org http://powo.science.kew.org, https://www.naturespot.org.uk http://www.terrain.net.nz, http:// www.biljni-preparati.com http://www.pureorigines.com, http://www.sunshine-seeds.de, www.pinterest.fr http://floradobrasil.jbrj.gov.br, keyserver.lucidcentral.org; http:// www.chemfaces.com, www.prota4u.org, en.wikipedia.org http://swbiodiversity.org, http:// www.maltawildplants.com, http://www.biorede.pt https://www.pinterest.pt, http:// www.purevisionbio.com, www.amazon.com https://www.biolib.cz, http://flora.org.il, www.knowplant.com http://powo.science.kew.org, https://www.pinterest.pt https:// commons.wikimedia.org, http://eol.org, www.agroscope.admin.ch http://www.ufrgs.br, en.wikipedia.org, gobotany.newenglandwild.org http://www.ervaslondrina.com.br, https:// www.cafr.ebay.ca http://www.revenaturel.com, http://floraitaliana.blogspot.com, www.inaturalist.org http://tropical.theferns.info, http://en.wikipedia.org https:// www.zimbabweflora.co.zw, https://medium.com, http://www.conifers.org http:// powo.science.kew.org, http://perfumenw.blogspot.com http://www.wikiwand.com, http:// smilacaceae.e-monocot.or, https://www.biolib.cz http://www.africanplants.senckenberg.de, https:/ /loirenature.blogspot.co https://pt.wikipedia.org, http://www.arvores.brasil.nom.br, http:// ukrbin.com https://en.wikipedia.org, https://www.indiamart.com, https://pt.wikipedia.org https:// www.floravascular.com, http://www.westafricanplants.senckenberg.de https://www.prota4u.org, http://asminhasplantas.blogspot.com https://www.binran.ru, https://idfg.idaho.gov, http:// www.agroatlas.ru https://gobotany.newenglandwild.org, https://en.wikipedia.org http:// www.florasilvestre.es, http://www.atacadochaecia.com.br; http://www.terradeismael.com.br, http:/ /www.conifers.org 318 CONGREGAÇÕES CISTERCIENSES: MODELOS E OBJETIVOS RUI RASQUILHO* Introdução O papa Bonifácio VIII e o rei de França Filipe, o Belo, serão no início do séc. XIX (1302) os protagonistas de um conflito político que irá arrastar a Igreja Católica para um desentendimento que virá a ser conhecido por Cisma, e que só terminará em 1417. Esta crise vai determinar o fim da teocracia medieval, o papa pretendia a suzerania mundial do sumo pontífice, mas o rei “très chrétien” repudiou a pretensão1 afirmando a monarquia laica. Após a morte, em 1303, no exílio, de Bonifácio VIII, é escolhido para assumir o trono de Pedro o arcebispo de Bordéus, com o nome de Clemente V, que será o primeiro de uma série de papas franceses. Haverá desde logo um entendimento entre o novo pontífice e o rei, recebendo aquele a sua tiara na Catedral de Lyon, no ano de 1305. O crescente poder político francês vai afirmar-se no terreno em 1309 com a transferência para Avinhão da sede da Igreja Católica, mas não é aqui nem o tempo, nem o lugar para abordar este complexo problema2. Convirá, contudo, recordar que, mais tarde, en* Antigo Diretor do Mosteiro de Alcobaça O repúdio do rei Filipe ao conteúdo da bula Unam Sanctam leva o papa a excomungar o rei e o rei prende o papa. Após sucessivos afrontamentos, o papa morre em 11 de Outubro de 1303. Filipe, o Belo, adquire então poder sobre a Igreja. Neste quadro, o arcebispo de Bordéus, Bertram, será eleito papa com o nome de Clemente V. Este pontífice vai ser o primeiro de muitos papas a residir na cidade francesa de Avinhão onde, em 1309, se iniciará a construção de um imenso edifício pontifício. Filipe IV e Clemente V morrem ambos em 1314. O rei deixa fracos sucessores e o papa, dois anos de vacatura, até à eleição do jurista e teólogo João XXII. Este papa excomungará o imperador da Alemanha. 2 João XXII, bispo de Avinhão, promove a centralização eclesiástica, lançando um interdito sobre o império alemão. Luís IV da Baviera indigna-se e apoia a eleição de um antipapa, Nicolau V. Mas circunstâncias várias levam o antipapa a submeter-se a João XXII. Entre 1334 e 1342, um cisterciense vai ocupar a cadeira 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 319-328 319 RUI RASQUILHO tre 1378 e 1409, haverá um papa em Roma, Urbano VI, e outro em Avinhão, Clemente VII, iniciando-se o grande Cisma. Durante 31 anos a Igreja passa a ter uma administração bicéfala, prejuízo agravado, em 1409, com a eleição no concílio de Pisa de um terceiro papa, Alexandre V, que exercerá o seu munus durante cinco anos até à realização, em 1414, do Concílio de Constança. O concílio só terminará em 1418, restabelecendo-se a unidade da Igreja com a deposição dos papas em exercício e a eleição de Martinho V que será papa único até 1431. Menos sorte teve a tentativa de reforma da Igreja e da sua doutrina. Até ao concílio de Constança, a Igreja Católica foi, com nefastas consequências para a Cristandade, uma “hydra” de três cabeças3 que provocará consequentes mudanças de orientação política dos soberanos europeus relativamente à obediência religiosa que deveriam seguir4. Durante este longo período, as centenas de casas cistercienses foram sensivelmente afetadas pelo reflexo da partilha do poder pontifício nos seus reinos. O mau exemplo da hierarquia provocou quebra de disciplina na vida paroquial e monástica. Apesar de tudo, a regra de S. Bento adotada por todos os mosteiros no séc. IX, após as determinações do sínodo de Aix-la-Chapelle (817) que se sucedeu às capitulares carolíngias, continuou a ser a espinha dorsal monástica consolidada nos cistercienses com a carta de caridade e o pequeno exórdio. Acresce que neste longo período houve guerras, peste e outras epidemias, bem como protestos religiosos que levaram, por exemplo, João Huss e Jerónimo de Praga à fogueira. No séc. XIV a Igreja atravessa um tempo de decadência material e espiritual, sobretudo na vida religiosa institucional. de Pedro, Bento XII. O papa seguinte, Clemente VI, compra a cidade de Avinhão à rainha de Nápoles e aumenta as receitas pontifícias. Haverá mais dois papas em Avinhão e, em 1378, Gregório XI morre em Roma, iniciando-se o Grande Cisma. 3 Até 1418, 33 cardeais, 900 bispos, 2.000 doutores, presididos pelo imperador da Alemanha, numa reunião inédita, consideram-se autorizados a tomar decisões, por voto nacional, que levem ao restabelecimento da unidade da Igreja, depondo os três papas, entre outras decisões. O irremediável vai acontecer: o apeamento dos teimosos pontífices. João XXIII, sucessor do papa pisano, Alexandre V, foge. Gregório XII, papa de Roma, com 90 anos de idade, renuncia. E o papa de Avinhão, Bento XII, o mais teimoso, é deposto. Em 1417, é eleito Martinho V que vai receber a submissão do último papa de Avinhão, Clemente VIII. A unidade da igreja está restabelecida. 4 Apoiando Clemente VII, está Portugal a partir de 1380, Castela, Aragão, Escócia e França. Ao lado de Urbano VI, a Alemanha, a Hungria, a Inglaterra e a Escandinávia. E, a partir de 1831, Portugal muda de obediência, o que se refletiu na guerra com Castela entre D. João I e D. Juan I. Esta situação obviamente vai criar conflitos políticos entre os dois blocos seguidores das partes que quase se envolvem em guerra. Os governos pedem então aos dois papas que renunciem, o que não farão, por isso será eleito um terceiro papa, Alexandre V. 320 CONGREGAÇÕES CISTERCIENSES: MODELOS E OBJETIVOS AS CONGREGAÇÕES Congregação da regular observância de S. Bernardo da Coroa de Castela Em consequência da longa crise cismática que abalou a Europa religiosa e política entre 1302 e 1417, constituíram-se, em vários países, uniões monásticas cistercienses denominadas congregações. A partir do séc. XV – na nossa análise não abordaremos a congregação de Flora na Calábria criada no séc. XII5, – devido sobretudo à fratura na liderança da Igreja, procurou-se uma solução de regresso à estabilidade nos mosteiros cistercienses. A primeira congregação, a de Castela6, nasce fisicamente em Toledo, no Monte Sião, a 21 de Janeiro de 1427. Martin Vargas e onze monges do Mosteiro de Piedra refazem nessa data a saída de Robert de Molésme quando, em 1098, fundou Citeaux. Esta reconstituição sublinha simbolicamente o desejo de devolver a disciplina original aos mosteiros castelhanos de Cister. Este modelo de observância reformista foi aprovado pelo papa Martinho V, eleito no concílio de Constança, através de bula Pia Supplicum de 24 de Outubro de 1425. Após as conversações entre o jeronimista Martin Vargas, agora cisterciense, e o papa, também o rei de Castela, D. João II, deu amplo apoio à criação da congregação da regular observância de S. Bernardo da Coroa de Castela, que patrocinará também a introdução deste retorno às origens no Mosteiro de Valbuena, o que ocorrerá no dia 4 de Março de 1430. Os papas Martinho V (1417-1431) e Eugénio IV (1431-1447) irão a seu tempo apoiar a reforma liderada por Vargas, provocando o despertar dos responsáveis cistercienses que, nos Capítulos Gerais de 1433 e 1445, irão contestar a congregação, determinando inclusivamente a prisão de Martin Vargas que morrerá em 1446, a 2 de Junho. A congregação de Castela perdurará até 1835, conservando a liturgia antiga7. Durante os dezassete anos que levou o período cismático, a Igreja atravessou um tempo de decadência material e espiritual, sobretudo na vida religiosa institucional. Se focarmos o nosso olhar na história deste período com visão suficientemente larga, percebemos melhor a proposta, a sua aprovação, os apoios que teve e a lentidão da reação do Capítulo Geral por ter sido ignorado no processo. Frei Joaquim será o abade de uma rede de 38 mosteiros beneditinos que usarão, tal como os cistercienses, hábitos brancos, mas apenas isso. O Mosteiro de Flora foi fundado em 1189 e a congregação em 1196, por decisão do papa Celestino III. A experiência terminará em 1251. 6 Não considerámos na ordem de fundações a união de Sibculo por não ser nacional. Foi incorporada por decisão do Capítulo Geral na Ordem de Cister em 1412. O superior era um prior sendo o grupo louvado pelo papa em 1489 pelo seu fervor religioso. 7 Ao longo do séc. XVII a ordem abandona a antiga liturgia cisterciense mas houve sempre um reconhecimento pela vida e prosperidade da congregação idealizada por Martin Vargas e materializada pela Santa Sé. 5 321 RUI RASQUILHO A sociedade e os seus atores principais ao longo de várias gerações sucessivas foram envolvidos pela demolidora epidemia da peste negra e nas mortíferas batalhas da Guerra dos Cem Anos com graves consequências económicas e demográficas até à segunda metade da centúria de quatrocentos, em particular em França. Não espantará, por tudo isto, haver do Cisma uma hidra com três cabeças na liderança da Igreja Católica: Gregório XII em Roma, Bento XII em Avinhão e João XXIII em Pisa. Não terá sido por acaso que entre 1382 e 1407 não há notícia de sequer uma fundação monástica cisterciense e que a administração direta dos mosteiros na lavoura das suas terras termina por todo o lado substituída por cedências e arrendamentos. Fica, julgo eu, claro que a congregação castelhana nasce como tentativa de suster a degradação dos cenóbios por via da quebra da cadeia hierárquica com reflexo em todas as vertentes da vida espiritual e material. Se o papado e o rei apoiaram o movimento reformista de Vargas, foi por incapacidade de o Capítulo Geral o fazer, pois demorou seis anos a reagir. Por outro lado, sequer os monges visitadores tiveram êxito nas suas raras visitações8,, o que naturalmente tornava obsoletos os decretos de visita, mantendo a indisciplina dos cenóbios, por ausência de instruções escritas. Apesar de tudo, sou levado a concordar (se houvesse clima para a aplicação da disciplina monástica) com Frei Josep Torné, quando opina não ter havido necessidade de constituir a congregação se os cenóbios tivessem sabido respeitar convenientemente as disposições da Carta de Caridade, ou seja, se tivessem sido capazes de se autorreformar, evitando deste modo também o seu desprestígio entre os crentes laicos. Convenhamos que o clima não era propício, pois acresce que, em meados do séc. XVI, no período da Reforma, há destruições de casas, secularização de cenóbios e guerras religiosas, sobretudo em França. Após o concílio de Trento (1545-1563), na primeira metade do séc. XVII, a ordem inicia uma guerra de observâncias entre Antigos e Abstinentes. Sublinhe-se, contudo, que estes acontecimentos tiveram pouco significado em Portugal. Congregação Italiana de S. Bernardo A segunda congregação nasce em 1496, meio século após a morte de Vargas, na Toscana e Lombardia, denominando-se Congregação Italiana de S. Bernardo. Foi a primeira congregação completamente independente do Capítulo Geral de Cister. A bula papal de Alexandre VI Plantatus in Agro é, digamos, uma encomenda do Duque de Milão, Luís Maria Sforza, com o acordo dos abades dos mosteiros da região que, tal como o duque, desejavam o crescimento dos cenóbios e eleições trienais dos “prelados”. Se é certo que Cister consegue com constantes protestos uma revogação do mesmo papa, Júlio II, quinze anos depois, em Março de 1511, recupera a congregação que, 8 Muchos monasterios podían passar décadas sem visitation. 322 CONGREGAÇÕES CISTERCIENSES: MODELOS E OBJETIVOS embora de forma menos radical, vai continuar livre do Capítulo Geral. Esta situação entre o Capítulo Geral e o papado provocavam tendencialmente cisões, por isso criaram-se congregações de submissão cisterciense. A Congregação da Alta Alemanha foi negociada entre 1595 e 1654 com abades perpétuos e 1772 membros, no primeiro quartel do séc. XVIII. Em 1605 constituiu-se a congregação da Calábria, em 1613 a congregação romana e também a de Aragão. Urbano VIII cria na Irlanda, em 1626, a congregação de São Bernardo e Malaquias. No início do séc. XVII é criada a congregação polaca. Congregação Independente de Portugal A congregação de Alcobaça, a terceira, nasce em minha opinião por razões diplomáticas. Tratou-se de uma solução de compromisso entre o papa e o rei, sem qualquer intervenção do Capítulo Geral9 que o papa, aliás, ignorou. O papa Pio IV, à revelia do estabelecido pelo Conselho de Cardeais10, concede, no dia 1 de Fevereiro de 1562, ao menino rei D. Sebastião, então com 8 anos de idade, e na regência de seu tio D. Henrique, o Padroado, ou seja, “o direito de apresentar em todos os mosteyros do seu reyno consistoriaes”, incluindo a real Abbadia de Alcobaça. O papa Pio V11, seu sucessor, logo revogou essa “tal graça e faculdade de apresentar”. Mas o rei, ou melhor, o cardeal D. Henrique não gostou, pois deixava de poder prover as igrejas vacantes com sacerdotes e, talvez por isso, demorou a dar o seu acordo, apesar da Bula de conciliação negociada pelo nosso embaixador, datada de 26 de Outubro de 1567, no segundo ano de pontificado de Pio V, criando a congregação. O rei, já com 13 anos, não a aceita de imediato. Tenho poucas dúvidas da constante presença do Cardeal D. Henrique, Comendatário de Alcobaça, nesta posição de firmeza real, e não por, como diz Veríssimo Serrão, pela sua “tendência para protelar a resolução dos assuntos”. O papa, não querendo repor o padroado, acabou por encontrar uma alternativa honrosa que, pelas negociações diplomáticas, sabia seria aceite. Na criação da congregação o papa correu o risco de provocar a autoridade do Capítulo Geral de Cister. Os portugueses, desde 1460, por decisão de Pio II, não tinham obrigação de participar nos Capítulos Gerais em Cister. Os principais obstáculos à circulação comum a todos os mosteiros afastados eram a guerra e a peste, as comitivas numerosas e dispendiosas e uma logística pesada em Cister que não podia acomodar um número inimaginável de monges, soldados, criados, cavalos durante a realização dos Capítulos. 10 O futuro pontífice (Pio IV) não concederia a reys de príncipes (…) o poder de apresentar ou padroado de igrejas, mosteyros, nem de outros quaesquer benefícios, que fossem consisturiaes; salvo de consentimento e aprovação das duas partes dos cardeais ouvidos por voto secreto. Esta Congregação de cardeais fora aprovada na última sessão do Concílio de Trento, para boa interpretação das conclusões do concílio. 11 Pio V, foi este papa quem redigiu um novo catecismo, um novo breviário (1568) e uma nova liturgia (1570). Será este pontífice que a 7 de Outubro de 1571 derrotará os turcos em Lepanto, no ano anterior ao da sua morte. 9 323 RUI RASQUILHO Frei Manuel dos Santos diz-nos que “(...) esta nova congregação seria governada por abbades trienais em cada uma das casas, sujeitos a hum abbade geral também trienal” – tal não aconteceu relativamente ao comendatário – “e para este fim se conseguir, como os mosteyros fossem vagando da mam dos abades perpétuos e comendatários”. Ensaia-se uma necessidade de mudança administrativa gradual perante a ingovernabilidade de mosteiros num mundo que se estendia da Noruega à Sicília, de Portugal à Estónia. A Bula de criação da Congregação só será aceite pelo soberano em 1570, já com 16 anos, após um Breve do papa Gregório XIII que acomoda as pretensões do comendatário. “Se resolveu ultimamente El Rey em aceitar a Bula. Nomeou com efeito para primeiro D. Abade Geral da nova congregaçam de Alcobaça, ao dito Infante Cardeal seu tio” (…) “que fosse o real Mosteyro de Alcobaça, a Casa Capitular e cabeça da Congregação” (…) quiz que se chamasse assim a Congregação de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de São Bernardo conforme o alvará real datado de Sintra a 7 de Julho de 1570, dois anos após a sua subida ao trono: (…) “Eu El-Rey faço saber aos que este vireã que o santo Padre Pio V creou ora novamente, e instituyo huma congregaçam de todos os mosteyros que ha nestes reynos, da Ordem de S. Bernardo e ordenou que o geral della fosse o prior do Mosteyro de Alcobaça. E o dito prior e os abades do mais mosteiros que ha nestes reynos, da Ordem de S. Bernardo e ordenou que o geral della fosse o prior do Mosteiro de Alcobaça e os ditos abades dos mais mosteyros da mesma Ordem fossem triennais e eleitos no Capítulo Geral da dita congregação” (…). Correndo o risco de poder ser considerado um preciosismo, entendo dever ser esta a data da entrada em funcionamento da Congregação, ou seja, treze anos após a Bula da sua instituição emitida por Pio V. Será neste ano de 1570 que se reunirá em Alcobaça o seu primeiro Capítulo, presidindo aos trabalhos, em nome do cardeal, o arcediago de Olivença e desembargador na relação de Braga, o doutor António de Carvalho. Neste Capítulo vão ser nomeados por D. Henrique os confessores, feitores e capelães para os mosteiros femininos e eleitos oito definidores, dois visitadores, o procurador, o secretário do Capítulo e os abades trienais dos mosteiros que integravam a Congregação: Arouca, Salzedas, Seiça e Bouro. Este último mosteiro é integrado, por entretanto haver falecido o seu comendatário, D. Carlos, Deão de Braga, passando a direção da casa a ser feita por um monge professo como estava estabelecido. (…) “e esta nova Congregação seria governada por abades trienais em cada casa sujeitos a hum abbade geral, também trienal, e para esse fim se conseguir, como os mosteyros fossem vagando da mam dos abbades perpétuos e dos comendatários”. (Frei Manuel dos Santos) No dia 30 de Setembro de 1573 inicia-se em Alcobaça o segundo triénio da Congregação no Capítulo Geral Nacional, este, sim, presidido pelo cardeal D. Henrique; o Governo do Reino era presidido pelo secretário Martim Gonçalves da Câmara. Na primeira sessão são eleitos quatro definidores, dois visitadores e o secretário do Capítulo. Foi nomeado Prior Conventual de Alcobaça, Frei Guilherme da Paixão, do qual D. Henrique era amigo. 324 CONGREGAÇÕES CISTERCIENSES: MODELOS E OBJETIVOS O então denominado Colégio de Coimbra terá, na primeira sessão deste Capítulo, escolhido o seu primeiro reitor, tinha então 14 estudantes. Na segunda sessão foram eleitos os abades e priores trienais para mosteiros em comenda. Importante medida administrativa foi a de conjugar as rendas de cada mosteiro com o número de frades dos seus cenóbios12. Será também neste Capítulo, na sessão de 4 de Outubro, que se fixará uma data, o dia 1 de Maio, para a realização das sessões trienais do Capítulo Geral, logo após a apresentação de contas do triénio anterior. Assim, a 1 de Maio de 1576 realizar-se-á o 3.º Capítulo Geral Nacional presidido pelo Abade Geral, o cardeal D. Henrique, sendo secretário do Governo do Reino Alcáçova Carneiro, muito influente em Castela. Até 1833 este calendário cumpriu-se. Foi durante a vigência deste triénio que se analisaram e fizeram acertos com as determinações do Concílio de Trento e que “no mez de Agosto de 1578 sucedeo a lamentável Rota de África; e como se achasse no exército com El Rey D. Sebastiam hum Miguel Leitão de Andrada (…) irmão de Frei Joam de Andrada, monge de Alcobaça (…) escreveu a primeira notícia certa que chegou a este reyno logo no Setembro seguinte”. O cardeal D. Henrique estava no mosteiro e, ao saber a notícia, viajou logo para Lisboa para tomar a coroa, entendendo que lhe pertencia o reino. Foi rei e comendatário geral e, no Capítulo Geral de 1579, por ser rei delegou em Frei Guilherme da Paixão a presidência dos trabalhos (atas fol. 40)13. Produziu-se legislação e entregaram-se os selos aos abades eleitos e visitadores. Durante este triénio, no mês de Janeiro de 1580, o rei D. Henrique morre, ficando simultaneamente a Congregação sem presidente. “Levou Deos deste mundo ao sereníssimo rey D. Henrique e vagaram juntamente com a sua pessoa as duas grandes dignidades de Rey de Portugal e D. Abade de Alcobaça”. D. Henrique governou a Congregação com autoridade absoluta, respaldado nas Bulas dos papas Nicolau V (1447-1458), Pio II (1458-1464) e Leão X (1513-1521). Conclusão Se o padroado não tivesse sido revogado, muito provavelmente a Congregação não teria sido criada, pois os Capítulos Provinciais bastariam à união e controle dos mosteiros Na terceira sessão, a 1 de Outubro, de acordo com as rendas dos mosteiros congregados estabeleceu-se a lotação dos cenóbios: Tarouca, 950 mil reis, 34 monges; Bouro, 850 mil reis, 20 monges; Salzedas, 1 conto e 100 mil reis, 30 monges; Maceira Dão, 288 mil reis, 10 monges; S. Pedro das Águias, 180 mil reis, 8 monges; Odivelas, 250 mil reis, 10 monjas. – Alcobaça Ilustrada, 1.ª parte, p.538. 13 Dom Henrique por graça de… Rey de Portugal e dos Algarves da aquem e da lem mar, em África etc. superior e geral de toda a Ordem de Cister nestes meus reynos e senhorios de Portugal. Faço saber que pela obrigação e devoção que tenho à dita Ordem desejo em tudo (…) cometo minhas vezes, authoritate apostolica (…) lhe dou (Frey Guilherme da Paixão) inteiro poder para que por mim e em meu nome presida e assista ao dito Capítulo. – (idem p. 539). 12 325 RUI RASQUILHO subordinados a Alcobaça. Aliás, é evidente o empenho do cardeal comendatário em criar uma estrutura centralizadora que coordenasse as casas cistercienses mais significativas. Frei Manuel dos Santos, na pág. 524 da sua Alcobaça Ilustrada, primeira parte, título XVII, diz o seguinte: “que no mesmo tempo em que o Infante D. Henrique em Portugal andando ideando e dispondo a novidade dos Capítulos Provinciaes bem alheyo do que há em Roma vagou la no anno de 1558 a cadeira de S. Pedro por morte de Paulo IV”. Durante seis anos, o poderoso comendatário estuda o modelo provincial, e nesse espaço de tempo logra obter o direito de padroado para o sobrinho, o menino rei com 8 anos de idade (1562). Dois anos depois desta disposição, D. Henrique assiste à distância à realização do 1.º Capítulo Provincial trienal no Mosteiro de Alcobaça (1564). No início da ata desta sessão lê-se: “o Livro do Capítulo Provincial o qual se celebrou neste Mosteyro de Alcobaça por mando do Cardeal Infante Nosso Senhor Protetor Superior da Ordem do Glorioso N. P. S. Bernardo nestes reynos de Portugal; começou o primeiro dia de Mayo de 1564”. (Em 1560 o papa Pio V dá a Tibães a cabeça da Congregação Beneditina). “Esta foi a primeira vez que se viu entre os nossos monges de Portugal ajuntamento comum ou Capítulo”. Será Pio IV quem criará em Alcobaça os Capítulos Provinciais, realizando-se o primeiro no 1.º de Maio de 1564, como vimos, presidido por D. Manuel dos Santos, bispo de Targa, em nome do cardeal. Neste Capítulo decidiu-se, devido à pobreza dos mosteiros, que os abades não podiam aceitar noviços para o triénio, nem podiam os monges transferir-se sem o conselho dos visitadores e dos anciãos do mosteiro de origem. Os abades não podiam arrendar terras para além do seu triénio e os irmãos conversos não podiam professar nem usar escapulário de monge sob pena de encarceramento sem remissão, contrariando os usos medievais; até novas ordens as disposições passavam para o triénio seguinte. É justamente neste ano que, após 18 anos de trabalho, termina o Concílio de Trento e o comendatário é elevado a arcebispo de Lisboa com a idade de 52 anos. Tudo indica que neste período o poder político, a hierarquia da Igreja e a importante Ordem de Cister constituem um bloco que procurava controlar o reino nas suas vertentes essenciais. Quando, com data de 4 de Fevereiro de 1566, o papa Pio V14 revoga o direito de padroado, imagina-se o abalo que tal decisão veio provocar no projeto iniciado oito anos antes pelo tio do rei. O papa Pio V foi o efetivo reformador da Igreja na sequência das decisões tridentinas. No ano de 1568, institui um novo breviário e, em 1570, um novo missal. Estava criada uma nova liturgia que deixou de lado o rito cisterciense e outros desde que tivessem um procedimento de pelo menos dois séculos. Já no século XVII a força reformista introduzirá a liturgia romana, por exemplo, na Congregação da Irlanda e nas comunidades. Todavia, o Missal Cisterciense foi-se mantendo, estabelecendo-se alguma confusão com a missa romana, como refere Button. 14 326 CONGREGAÇÕES CISTERCIENSES: MODELOS E OBJETIVOS O papa, perante o escândalo que a sua decisão provocou, apressou-se a emitir uma Bula que criou a Congregação, com data de 26 de Outubro de 1567. A congregação de Portugal nasceu, pois, por motivos políticos. O rei, que subirá ao trono a 20 de Janeiro de 1568, ou seja, praticamente quatro meses após a Bula, não aceitará a Congregação de forma pacífica, naturalmente aconselhado pelos seus próximos, sobretudo o tio cardeal. Só em 1570, a 7 de Julho, o soberano emitirá, como vimos, um alvará de aceitação do modelo que irá seguir o Provincial. O problema agora estaria na manutenção no poder do cardeal D. Henrique que não queria desistir da jurisdição espiritual que tinha sobre o cenóbio. Gregório XIII dispensará D. Henrique de ser professo cisterciense em 1574. A Congregação de Alcobaça nasce de uma solução de compromisso entre o papa e o rei, sem qualquer intervenção do Capítulo Geral do qual, aliás, os mosteiros portugueses estavam desligados, embora o presidente da Congregação tivesse a obrigação de neles participar. As sanções decididas pelos capítulos realizados entre 1667 e 1745 não tiveram qualquer efeito. Rei em 1578, devido à morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, D. Henrique não deixará, até à morte, em 1580, o seu lugar de comendatário de Sta. Maria de Alcobaça, nem cederá o seu governo comendatário absoluto, espiritual e material. Cronologia 1512 – Nasce o Infante D. Henrique. 1522 – D. Henrique é bispo. 1526 – Comendatário de Santa Cruz. 1534 – Arcebispo de Braga. 1542 – D. Henrique é comendatário de Alcobaça. 1545 – Torna-se cardeal. 1554 – A 20 de Janeiro nasce D. Sebastião, filho de D. João e Joana de Espanha. 1557 – A 16 de Junho D. Sebastião, com 3 anos de idade, sobe ao trono. Regência de D. Catarina. Durante a regência, surge um partido favorável a um alinhamento com Castela e outro nacional comandado pelo Cardeal. 1558 – D. Henrique estuda a criação dos Capítulos Provinciais; conclusão do Palácio Abacial de Alcobaça. 1562 – Pio IV, através da Bula Exímio Devociones de 1 de Fevereiro, concede ao rei o Padroado. D. Henrique é regente a 23 de Dezembro e o rei o cardeal para papa. Por decisão das cortes de Lisboa torna-se regedor e governador do reino. 1563 – Fim do Concílio de Trento. 1564 – No dia 1 de Maio realiza-se o 1.º Capítulo Provincial trienal em Alcobaça 327 RUI RASQUILHO (Pio IV). A 7 de Setembro é assinada a Bula de conclusão do Concílio de Trento, após 18 anos de sessões. D. Henrique é arcebispo de Lisboa. 1565 – Morre Pio IV, o último papa de Trento que pela Bula Benedictus Deus confirma os decretos tridentinos. 1566 – A 4 de Fevereiro, o papa Pio V revoga o direito de Padroado ao rei. 1567 – Dia 26 de Outubro, Bula de criação da Congregação de Portugal. O rei tem 13 anos. 1568 – D. Sebastião sobe ao trono com 14 anos, no dia 20 de Janeiro. 1570 – Dia 7 de Julho, por alvará real, o rei aceita a criação da Congregação – 1.º Capítulo. 1572 – Guerras Religiosas, no dia de S. Bartolomeu, Henrique de Navarra casa com Margarida de Valois (30 de Setembro) – católicos assassinam 20.000 protestantes em França – Nova regência de D. Henrique. 1573 – A 30 de Setembro, o cardeal preside ao Capítulo do início do 2.º triénio da Congregação. 1574 – Breve de Gregório XIII (1572-1585) confirmando o cardeal D. Henrique à frente da congregação. 1576 – 1.º de Maio, 3.º Capítulo presidido por D. Henrique. 1578 – D. Henrique sobe ao trono por morte do sobrinho D. Sebastião. 1579 – 4.º de Maio, 4.º Capítulo. 1580 – Morre o rei Henrique em Janeiro. Nota final É provável que, se o Padroado não tivesse sido revogado, a Congregação de Portugal jamais seria criada, pois os Capítulos Provinciais teriam sido suficientes para a união dos mosteiros subordinados a Alcobaça. Bibliografia ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, 4 volumes, Portucalense, Porto, 1967. CASTRO, José de – D. Sebastião e D. Henrique, União Gráfica, Lisboa, 1942. COELHO, Amílcar – Enigma de Cister, Imagens e Letras, Leiria, 2012. CRUZ, Maria Augusta Lima – D. Sebastião, Círculo de Leitores, Rio de Mouro, 2006. CRUZ, Frei Bernardo da – Chronica de El Rei D. Sebastião, Galhardo e Irmãos, Lisboa, 1837. POLÓNIA, Amélia – D. Henrique, Círculo de Leitores, Rio de Mouro, 2009. SANTOS, Frei Manoel dos – Alcobaça Ilustrada, 1ª parte, Coimbra, 1710. SERRÃO, Joaquim Veríssimo – Itinerários de El-Rei D. Sebastião (1568-1578), Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1987. Revista Cistercium, Nº extraordinário 2010, Ediciones Monte Casino-Benedictinas, Zamora. 328 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS HENRIQUE RODRIGUES* ABERTURA Os cistercienses implantaram-se nos concelhos de Melgaço e Arcos de Valdevez. Primeiro em Fiães e depois em São Pedro do Vale,1 tendo saído transferido deste couto para Ermelo,2 nos princípios de duzentos; seguindo a regra beneditina, cedo optaram pela observância de Cister. Ermelo estava filiado a Fiães. Pelos anos de 1320, terá sido iniciada a construção do mosteiro e igreja, mas crise económica não permitiu a conclusão da obra.3 As dificuldades em sustentar este cenóbio arrastaram-se, até 1533, ano em que os rendimentos eram insuficientes para alimentar um só monge.4 Na visita feita pelo D. Saulieu, o relato de * CETRAD/UTAD e APHVIN-GEHVID-UP COSTA, Avelino de Jesus da – A comarca eclesiástica de Valença do Minho (antecedentes da diocese de Viana do Castelo) Separata de I Colóquio Galaico-Minhoto. Ponte de Lima: 1981, pp. 115 e 235. 2 O couto do mosteiro de Ermelo era constituído pelas actuais terras de Ermelo e de S. Pedro do Vale. REIS, António Matos – Valdevez Medieval, esboço de um estudo sobre a organização administrativa do julgado de Valdevez no século XIII. Separata de “Terra de Val de Vez”, n.º 9,1986, p.10. 3 COSTA, Avelino de Jesus da – A comarca eclesiástica, o. c. p. 115. 4 «O mosteiro de Santa Maria de Hermello, junto à corrente do rio Lima, a hua legoa em distancia da Villa dos Arcos de Valdevez era da filiação do Real Mosteiro de Fiaens. E por estarem as rendas delle, no anno de 1576 dissipadas e perdidas, fes el Rey D. Sebastião, com Bullas Apostolicas, recolher para os mosteiros da Congregação os dous únicos religiosos que nelle residiã e meteo o mosteiro e igreja no Padroado Real» Extracto de Notícias a respeito do mosteiro de Fiães, [c.1780], B.N.L., códice n.º 1494, publicado por RODRIGUES, Henrique Fernandes – Subsídios para a ordem de Cister no Alto Minho, separata da revista Caminiana, ano IX- 1987, n.º 14, pp. 206-209. Nos princípios de quinhentos, o rendimento deste mosteiro era o mais definhado de todos, apresentando 40 000 reais de rendimento. GOMES, Saul António- “A congregação cisterciense de Santa Maria de Alcobaça nos séculos XVI e XVII: elementos para o seu conhecimento”. Lusitania Sacra, 2.ª série, 18, 2006, p. 399. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 329-359 329 HENRIQUE RODRIGUES Bronseval refere o comendatário, D. Diogo Pires, filho do último abade de Ermelo, que tinha o mosteiro num estado deplorável.5 Os dois frades residentes, em 1567, recolheram a outras casas religiosas.6 Desta feita, os Bernardos, no espaço do Alto Minho, ficavam reduzidos a Fiães, em Melgaço. A presença destes monges no Vale do Minho, considerando o documento de doação mais remoto conhecido, era uma realidade em 1142 e, em 1173 ainda seguiam a regra beneditina.7 Desconhece-se a data da fundação do cenóbio, embora Pinho Leal recue a implantação para tempos anteriores à formação da nacionalidade.8 Mesmo assim, não é de excluir a possibilidade da presença de religiosos em Fiães antes do nascimento de Portugal, como acontecia noutras dioceses visigóticas.9 A prova documental mais antiga existente no cartulário data de 1142, quando o mosteiro recebeu um casal doado por Fernando Tedão;10 em 1157 é feita referência à vida beneditina;11 o mesmo acontece em O mosteiro estava abandonado e em estado de total pobreza, sem estatuária nem alfaias de culto. Havia dois missais, um deles com belas iluminuras. Os aposentos estavam degradados, assemelhando-se a autênticos espaços para acolher animais, e aqui viviam os cultivadores. Ainda anota ruínas do dormitório, capítulo e refeitório, obras que não tinham sido concluídas. OLIVEIRA, Aurélio de – “Entre frades, ouvidores e “contadores”: os mosteiros de Cister no contexto agro-económico da primeira metade do século XVI”, in CARREIRAS, José Albuquerque (dir.) Mosteiros Cistercienses, História, Arte Espiritualidade e Património, tomo III. Alcobaça: Jorlis, 2013, p. 382. 6 COSTA, Avelino de Jesus da – A comarca eclesiástica, o.c., p. 116. A Congregação de Alcobaça foi criada em 1567 e instituía o modelo de “governação” centrado na figura do abade trienal, quer dos mosteiros, quer o Abade Geral de Alcobaça, substituindo os abades perpétuos e comendatários, à medida que iam vagando ou abdicavam do benefício. Sobre a Congregação independente de Portugal, ver o trabalho de RASQUILHO, Rui – Congregações cistercienses: modelos e objectivos, texto provisório e resumo in II Congresso Internacional, Mosteiros Cistercienses. Alcobaça: AMA – Associação dos Amigos do Mosteiro de Alcobaça, 2018, pp. 45-47. Deixamos aqui a nota de agradecimento ao Dr. Rui Rasquilho por nos facultar o acesso, em primeira mão, à versão provisória da comunicação oral, que muito útil foi para esclarecermos algumas dúvidas. 7 MARQUES, José – O cartulário do mosteiro de Fiães, vol. I. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço, 2016, p. 14. 8 LEAL, Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho – Portugal Antigo e Moderno. Vol. III. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso e Irmão, 1874, pp. 181-184. Sem prova documental, aponta para a existência de um convento de frades beneditinos em 851, da era cristã. Os medievalistas citados anteriormente sublinham que a Regra de S. Bento só foi generalizada entre nós no último quarto de século do ano mil, opondo-se assim à afirmação anterior, por ausência de suporte científico, tanto mais que o ano de 1142 é a referência cronológica mais recuada, documentada no Cartulário de Fiães; trata-se de uma carta de doação de Fernando Tedão, monge no convento. Assim, não é possível datar a fundação deste mosteiro. Sabe-se que, em 1157, seguia a regra beneditina, ano em que D. Afonso Henriques doou os bens que possuía em Melgaço e Chaviães. Ver: José, MARQUES- O cartulário do mosteiro de Fiães, o.c., p. 34, doc. n.º 3. MARQUES, José – O Mosteiro de Fiães. Braga: Edição de autor, 1990, p. 20; PINTOR, Bernardo- “Doação de Afonso Pais e outros ao mosteiro de Fiães em 1157, pergaminho inédito”, in Arquivo do Alto Minho, vol. II, Viana do Castelo: 1947, pp.79-83. O mesmo texto foi republicado em PINTOR, Padre Manuel António Bernardo- Obra Histórica I. Monção: Rotary Clube de Monção, 2005, pp.19-23. 9 MARQUES, José – O cartulário do mosteiro de Fiães, o.c., p. 12. 10 IDEM, p. 41. 11 PINTOR, Padre Manuel António Bernardo – Obra Histórica I. o.c., p. 22. 5 330 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS 1173, como vem documentado no livro de datas;12 A primeira alusão a Cister vem expressa em 1194,13 quando Gomes Nunes e filhos doaram um casal ao mosteiro.14 Em síntese, se entre 1157 e 1173 Fiães seguia a observância beneditina, em 1194 já tinha optado pela regra de São Bernardo, sob a administração do abade Pedro. Frontispício da igreja de Fiães, Agosto de 2018, foto de Jorge Rodrigues O património fundiário de fiães O modelo de gestão abacial, com a entrega do mosteiro a administradores, os abades perpétuos, vigorou, em Fiães, até 1600. O Abade era a autoridade do couto, por quem passava a aquisição de bens e outras decisões sobre o património, como consta no livro de datas. Através destes actos, podemos analisar a evolução dos bens, através do MARQUES, José – O cartulário do mosteiro de Fiães, o.c., p. 34. Frei Maur aponta a filiação Fiães a Cister para o período entre 1173 e 1194. COCHERIL, Frei Maur – Abadias Cistercienses Portuguesas, Lusitânia Sacra, n.º 4, 1959, p.79. 14 MARQUES, José – O cartulário do mosteiro de Fiães, p. 61. 12 13 331 HENRIQUE RODRIGUES número de doações e compras, além de outros contratos, e também identificar os nomes de abades,15 até inícios do século XIV. O hiato relativo aos séculos de trezentos e quatrocentos pode indiciar o tempo de recessão e destruição patrimonial, com gestão em benefício do próprio abade, em prejuízo da comunidade religiosa. As primeiras doações não fazem menção ao nome do Abade, referindo o mosteiro de Fiães. Em 1161, foi identificado o abade D. João, a quem doaram cinco casais, além de ter feito a compra de uma propriedade. Todavia, em 1168 e 1178, durante a administração do abade João, emerge Domingos, para de novo voltarmos a ter referência a um homónimo do primeiro. Desconhecemos se se trata da mesma pessoa, que fez uma compra em 1180. Podemos depreender que o Abade João esteve à frente dos destinos do mosteiro de Fiães entre 1142 e 1180? Outros nomes figuram no livro de datas: Domingos, Diogo, Fernando, Gonçalo, Martinho e Pedro. Entre 1197 e 1219, voltamos e encontrar um abade de nome João, num intervalo de dezassete anos relativamente ao homónimo referido anteriormente, donde o podermos conjecturar que pode tratar-se de uma segunda figura de igual nome próprio. O mesmo acontece em 1228. Desde esta data até 1247, este abade João foi o “grande obreiro” de Fiães, se considerarmos o número de doações que captou e o total de compras que fez. Ainda aparece, em 1283, um outro abade com nome idêntico. Pelo arco temporal, não deve tratar-se do mesmo indivíduo, mas também desconhecemos que tipo de relações poderia haver entre estas figuras. Importa ainda destacar a acção de Gonçalo, que bem contribuiu para a expansão do património fundiário do mosteiro. Neste quadro, observa-se, até ao século XIV, a preocupação com a boa “gestão”, considerando as propriedades pertencentes ao couto de Fiães, embora a crise provocada pela peste negra esteja bem sublinhada nestes actos de compra e doações, que diminuem. Numa análise breve, observa-se um movimento suave de doações até 1190, mas também de compras de herdades, alargando lentamente a área fundiária de Cister em terras do rio Minho. A partir deste ano, aumentam as “ofertas” bem como as aquisições, demarcando-se os anos de 1208 e 1209. O património do mosteiro crescia com exemplos de doações de reis de Portugal e de Leão, membros da Igreja e da nobreza, mas especialmente de particulares, sejam homens, casais (marido, esposa e filhos), famílias, mas também mulheres,16 quer em Portugal quer na Galiza. Eram tempos de expansão e afirO cartulário reúne documentos do próprio mosteiro e outros relativos a actos de compra e venda entre particulares. Neste livro, encontramos o método de aquisição de terras por cedência, heranças, compras, doações, permutas e ainda os emprazamentos e aforamentos, formas que eram usadas para construir o património fundiário. Sobre esta questão, remetemos para RODRÍGUEZ, José Ignacio de la Torre- “A visão cisterciense do trabalho”, in AAVV- Cister no Vale do Douro. Porto: Edições Afrontamento/GEHVID, [1999], pp. 151-160. 16 Ao distribuirmos as doações por sexo, as mulheres rubricam 23,8%, enquanto os homens são responsáveis por 51,4% das doações. As restantes 24,8% foram da responsabilidade de ambos os sexos (esposos, pais e filhas entre outras). Vários bispos de Tui e Orense, os abades de Celanova e de Alcobaça, rei de Leão e Galiza (Afonso IX), arcebispo Garcia, a condessa D. Fronilde, D. Afonso Henriques e o filho, D. Sancho I, 15 332 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS mação de Cister.17 Estas duas operações exibem números muito idênticas, com a maior percentagem de doações, (50,6%) fosse em terras de Portugal ou da Galiza. As propriedades também aumentavam pela compra de casais e pela via de heranças. Ao observarmos o movimento de doações e compras de casais e herdades, por anos, notam-se dois momentos: um até 1205 e outro desta data até meados da centúria. Todavia, as doações, desde 1142 até ao tempo em que o mosteiro tinha aderido a Cister,18 representam mais de 22%, enquanto as compras ficam com indicadores modestos, apontando para cerca de metade daquele valor. Mas, se balizarmos pelas datas de 1194-1218, o crescimento do território administrado pelos abades foi em boa parte comprado, sinal de boa capacidade económica para alargar os domínios fundiários. O período entre 1219 e 1247 mostra uma dinâmica equilibrada de aquisição de casais e doações, correspondendo a mais de 60% dos bens de Fiães. O século XIII representa o tempo de prosperidade neste reduto de Cister, tendo reunido bens em ambas as margens do rio Minho. Na Galiza, destacamos 38 propriedades adquiridas por doação e 32 comprados, com realce para as localidades de Padrenda, Muíños e S. Martinho, Pontevedra e Ramirás, entre outras; na área correspondente ao Alto Minho, temos 76 casais doados e 51 adquiridos por compra, com destaque para as propriedades fundiário em Chaviães, Cristóval, Paços, Parada e Rouças, paróquias com mais casais pertencentes a esta casa religiosa. O maior número de propriedades encontrava-se nas terras de Paços, Cristóval, Roussas e Chaviães. Nestes valores não incluímos bens distribuídos por outras unidades administrativas em ambas as margens do rio Minho. Coincidindo com o reinado de D. Afonso III, o alargamento da área fundiária estabiliza. Para organizarmos a cartografia por anos, a alguns documentos atribuímos a data crítica, recorrendo ao arco temporal do abade em questão, optando por indicar o século, embora pudéssemos dar o último ano de exercício do respectivo comendatário. São sete do século XIII e dois do seguinte, além de mais oito sem possibilidade de os relacionar com um abade em concreto. Mesmo assim, para um estudo mais detalhado, sugerimos que se relacione o dador/vendedor para a datação crítica. a abadessa beneditina, D. Teresa, além de monges, frades, priores e outras personalidades de destaque social, contribuíram com bens e rendas para o mosteiro. 17 MARQUES, Maria Alegria Fernandes – “A Ordem de Cister em Portugal na transição da Idade Média aos tempos moderno”, in Estudos em Homenagem ao Professor Doutor José Amadeu Coelho Dias, vol. 2. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006, p. 123. 18 Entendemos como tempo de adesão a Claraval a referência a Cister, no ano de 1194, doc. n.º 53 do cartulário já citado. No mesmo ano, o prior do mosteiro, Pedro Grande, faz uma permuta de propriedades, não se referindo à filiação nem ao nome do abade. (doc. 57). José Ignacio RODRÍGUEZ recua a presença dos monges brancos em Fiães para um período anterior a 1184, sem referir a prova documental desta afirmação, quando só existem os documentos 20 e 47 no livro de datas, relativos a uma doação e uma compra sob a administração do abade Fernando. RODRÍGUEZ, José Ignacio de la Torre- “Evolução histórica de Cister no Vale do Douro”, in AAVV- Cister no Vale do Douro, o.c., p.76. 333 HENRIQUE RODRIGUES Gráfico 1: compras e doaçoes por ano Gráfico 2: compras e doaçoes por abades Fonte: Elaboração própria a partir de MARQUES, José- O Cartulário, o.c. vol. 1 334 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS No contexto das guerras fernandinas, por haver benefícios em ambas as margens do Minho, em Portugal e na Galiza, os rendimentos decaem. Entre 1498 e 1572, e comparativamente a outras casas19, exibem indicadores de recessão, pois ficam abaixo da média relativa a todas os mosteiros, quando a maior parte duplica os respectivos benefícios.20 D. Justo Baldino, comendatário e bispo de Ceuta, em 1483 tinha arrendado bens ao abade de Rouças e ao padre Fernando Domingues, moradores na vila de Melgaço, por 21000 reais, seis presuntos e dezoito lampreias secas,21 indicador de que nesta fase não deve ter havido delapidação do património, sublinha José Marques.22 Por desconhecermos a existência de outros dados, até princípios de quinhentos, apenas podemos dizer que se seguiu um período de decadência e mesmo ruína dos edifícios que compunham o mosteiro, provocada pelos comendatários. Os últimos abades perpétuos Face à ruína do património, no século XVI, Frei João de Cós foi nomeado abade perpétuo, com a finalidade de restaurar e administrar o mosteiro, que em 1533 albergava quatro monges e dois conversos. O relato da visita do abade D. Saulieu permite-nos ter uma imagem de um mosteiro delapidado.23 Se Frei João foi referenciado como bom prelado, que fez o tombo e tomou boa diligência sobre os imóveis, «emprazou mal alguã fasenda deste mosteiro».24 Depois renunciou a abadia a favor do sobrinho Frei Diogo de Cós. Ao Fiães, em 1458, contribuía anualmente com 200 reais para o mestre de Gramática e Lógica, no mosteiro de Alcobaça, montante que era dos mais reduzidos entre as restantes casas, cujas contribuições iam dos 800 a 100 reais brancos. ALMEIDA, Fortunato- História da Igreja em Portugal. vol. 1. Porto/Lisboa: Livraria Civilização-Editora, 1970, p. 327. 20 PEREIRA, Fernando Jasmins. “Bens Cistercienses”, in Dicionário da História da Igreja em Portugal. 2.º vol., Lisboa: Editorial Resistência, 1983, pp. 226-227. 21 As referências a pesqueiras constam nos documentos n.º 140 e 141 do cartulario. Este último documento trata da compra de 1/16 da pesqueira de Castro a Martinho Afonso, na era de D. Diogo, em 1 de Julho de 1217; passado um ano completo, Martinho Afonso doa 1/8 da mesma pesqueira. Cf. MARQUES, José- O Cartulário, o.c., vol.1, pp. 109-110. Com a extinção das ordens religiosas, ficamos a saber que o mosteiro era proprietário da pesqueira dos “Cachões de Merelhe”, que em 1841 foi avaliada em 150$000 réis. Além desta pesqueira, os frades tinham “metade da pesqueira de Coule, em Chaviães; e a pesqueira da “Foz”, em Melgaço. Estes bens são um indiciador do valor patrimonial, no contexto dos rendimentos da pesca no rio Minho. Ver LEITE, Antero – As pesqueiras do rio Minho, economia, sociedade e património. Caminha: Corema, 1999, pp. 88-90. 22 MARQUES, José – O Mosteiro de Fiães. o.c., p. 31. 23 OLIVEIRA, Aurélio de – “Entre frades, ouvidores e “contadores”: os mosteiros de Cister…”, o.c. pp 382-383. 24 Este abade foi responsável pela recuperação do imóvel, tendo coberto a igreja, a sala do capítulo, o claustro e a habitação, enquanto a cerca antiga estava em ruínas, aquando da visita de D. Edme Saulieu, em Janeiro de 1533. Neste relatório foi feita menção à delapidação de bens, retirados ao mosteiro e entregues a familiares dos comendatários, como aconteceu com uma filha do abade anterior, que recebeu a capela de Orada onde se dedicava à prostituição, juntamente com outras meninas, o que escandalizou o visitador e o levou a exigir a intervenção do juiz de Melgaço, para expulsar as prostitutas. Ver relatório da visita em MARQUES, José- O Mosteiro de Fiães, o.c., pp. 83-86. 19 335 HENRIQUE RODRIGUES mesmo tempo, este abade chamou para Fiães mais três sobrinhos, naturais de Castanheira: Simão, João e Bernardo. Os primeiros casaram e receberam herdades em Portugal e na Galiza, propriedades pertencentes a Fiães.25 Por sua vez, Frei Bernardo estudou e professou com o hábito de Cister, tendo sido ordenado quando o tio tinha idade avançada, herdando a abadia.26 Este comendatário continuou a desbaratar o património do mosteiro, alienando e sonegando bens.27 Para agravar o quadro, teve dois filhos a Habitação sobre arcos do antigo claustro do mosteiro, quem «determinou de dar Agosto de 2018, foto de Jorge Rodrigues tudo quanto tinha este mosteiro e lhes emprasou quintas e outras fazendas fora do couto, em que os trasia ricos, fartos e poderosos».28 A renúncia de frei Bernardo à abadia, em 11 de Setembro de 1600, fez dele o último abade perpétuo, o que ocorreu através de escritura pública.29 Cf. RODRIGUES, Henrique Fernandes – Subsídios para a ordem de Cister no Alto Minho, o.c., p. 200. «O padre frey Bernardo, dom abbade do Mosteiro de Fiães», participou no capítulo provincial em Alcobaça em 1567. Cf. GOMES, Saul António, “A congregação cisterciense… “, o.c., p. 406. 27 Situação idêntica ocorria noutros conventos, como fez Álvaro Vaz, em Alcobaça, sobrinho do Arcebispo D. Jorge da Costa, enquanto administrador/comendatário, que se apropriou dos rendimentos do mosteiro, nomeava celeireiros e bolseiros, dava igrejas e emprazava terras, tratava da justiça do couto, e aos frades deixava apenas o essencial para sobreviverem, e os monges até eram obrigados a pagar a lenha das próprias matas, tal era o domínio do sobrinho do Arcebispo referido acima. ALMEIDA, Fortunato- História da Igreja em Portugal. vol. 1. Porto/Lisboa: Livraria Civilização-Editora, 1970, p. 328. 28 Os filhos do último abade foram: João de Figueiredo e Manuel Ferreira Lagarto, que foi escrivão da vila de Valadares. «A estes dous sobrinhos (filhos) determinou de dar tudo quanto tinha este mosteiro e lhe(s) emprasou quintas e outras fazendas fora do couto, com que os trasia ricos, fartos e poderosos. Morrendo este abbade frei Bernardo da Castanheira, ficarão os filhos apoderados assim do que o pay lhe(s) tinha emprasado […] que eram duas quintas de muito preço, que possuem seus herdeiros, como tão bem de outras rendas e casaes de que por força se apossarão , como se fora a fasenda deste mosteiro património de seu pay…» RODRIGUES, Henrique Fernandes- Subsídios para a ordem de Cister o.c. p. 208, doc. citado: Notícias a respeito do mosteiro de Fiães, [c.1780], B.N.L., códice n.º 1494. 29 IDEM, pp. 211-214, doc. n.º 3, datado de 1780, «Serie chronologica dos abbades triennaes do Real Mosteiro de Santa Maria de Fiãens da Congregação de São Bernardo». 25 26 336 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS Estavam reunidas as condições para se aplicar o regime de rotatividade trienal em Fiães, seguindo-se o modelo de gestão com recurso a frades da congregação, eleitos em capítulo geral,30 dando início a uma nova era no mosteiro. Abades Trienais entre 1601 e 1726 Em Capítulo Geral, em 1601, foi eleito o Padre Frei Arsénio da Paixão para Abade de Fiães, cujo perfil de liderança está associado aos dois mandatos que fez como Geral da Congregação.31 Seguem-se outros dois monges, que também estiveram na liderança de Alcobaça: Frei Gregório de Carvalho e Frei Lourenço Botelho. Desde 1601 até 1726, passaram por Fiães 43 abades, de quem temos elementos biográficos minimalistas. Destacamos, nos primeiros 38 anos, a presença de indivíduos de bom perfil de liderança e gestão, com tirocínio feito em Fiães. A reeleição de Carlos de Araújo chamou a nossa atenção, a embora não tenha concluído o segundo mandato, por ter falecido em 1712, sendo substituído por Bento Coelho, para acabar o triénio iniciado pelo colega, único abade reeleito. Até 1726, a lista segue as orientações e estrutura traçadas no mandato de Manuel Madeira, com o nome do abade sem qualquer anotação. A partir de 1729 e até ao ano de 1768, por um período de 39 anos, com 13 mandatos, encontramos 15 abades, dos quais dois fizeram substituição dos colegas falecidos no decurso em 1753 e 1759, respectivamente: Frei Salvador Barreto e Frei Francisco Bravo. O rol apresenta alguns dados biográficos, como a naturalidade e o óbito, sempre que a morte ocorreu durante o triénio, além do nome, assim com acontecimentos relevantes. Neste período, Fiães foi administrado por vários irmãos procedentes da região de Entre Lima e Minho. Pelas qualidades, são realçados dois vianenses; Frei Bernardo de Melo, eleito em 1747, que também foi «abbade dos mosteiros de Bouro e collegio da Conceição de Alcobaça», único monge apresentado, além dos abades gerais, para administrar mais casas; em 1735 foi escolhido «… o Padre Mestre Frei Félix da Cerveira, cujus patria fuit Opidum Vianense...», sobre quem o copista se debruçou com encómios porque no «ingresso» do mosteiro mandou edificar o fontenário e plantar árvores, depois de preparar o terreno, terraplanando-o, e embelezando o acesso com uma avenida aprazível. Esta obra identifica o vianense Félix da Cerveira como um dos religiosos mais dedicaÀ medida que os abades perpétuos e comendatários deixavam vago o lugar, por morte ou por opção, era eleito um monge para gestão da respectiva casa. A Congregação Independente de Portugal foi criada em 1567, presidida pelo Cardeal D. Henrique, que foi simultaneamente rei e comendatário geral. Passados mais de 33 anos, Fiães deixou de estar submetido ao poder dos abades perpétuos, quando Frei Bernardo de Castanheira abdicou do título de abade, em 11 de Setembro de 1600. Ver, sobre a criação da congregação, RASQUILHO, Rui- Congregações cistercienses: modelos e objectivos, o.c. 31 Frei Lourenço do Espírito Santo foi o primeiro abade geral eleito, em capítulo, em 31 de Janeiro de 1580, após a morte do Cardeal-Rei, e pela segunda vez em 1601. COCHERIL, Maur- “Alcobaça”, in Dicionário da História da Igreja em Portugal, vol. 1..º, Lisboa: Editorial Resistência, 1980, pp. 100-105. 30 337 HENRIQUE RODRIGUES dos a Fiães. Na referida alameda, ainda podemos ver carvalhos seculares, que poderão ser dessa época. Até ao ano de 1765 a série «copiada fielmente» tem alguns «descuidos» que o autor sublinha. O primeiro refere-se ao ano da eleição do limiano, Manuel de Lima que foi em 1744 e não no ano de 1742, já que «(...) no capitulo geral de 1744 forão escolhidos todos os despachados»; o segundo diz respeito à omissão da data em que faleceu Francisco Bravo e à eleição do seu sucessor, o Padre Frei André Fontenário construído durante o triénio de Frei Félix da Cerveira Saraiva, « (...) porem eu tenho (1735-38), Agosto de 2018, foto de Jorge Rodrigues especies que faleceu no Outono de 1760 e logo elleito o seu sucessor». Segue-se o terceiro descuido que «… he fazerem ao Padre Frei Ignacio da Annunciação natural da Villa de Celorico, quando elle era natural do Lugar de Rapa». Depois de transcrita e feita análise à lista elaborada até ao abade eleito em 1765, o autor completa a série apresentando como metodologia um processo híbrido, ora identificando-os simplesmente pelo nome, ora dando informes pormenorizados sobre a naturalidade ou ainda explicando-nos que o abade eleito em 1772 que «(...) acabou em 1744 em Abril ( ...)», continuou como administrador até ao ano de 1777, ano em que foi substituído por «Frei Fructuozo de Palhares».32 Face à reforma dos estudos monásticos, são extintos vários mosteiros e entre eles está Fiães, que recupera o estatuto anterior em 1777, tendo D. Maria I conferido o ónus do ensino das primeiras letras aos frades, fazendo do mosteiro a escola do couto.33 Inferimos, da análise à lista de abades, que a ordem de Cister foi bem representada pelos naturais desta região, eleitos entre 1729-1765, tendo beneficiado de dedicação e recuperação de património. A tão nefanda situação económica não voltou a acontecer, tendo esta casa apresentado uma forte progressão nas suas rendas, no triénio de 1810As citações dentro do texto, sem referência à fonte, podem ser confirmadas em RODRIGUES, Henrique Fernandes – Subsídios para a ordem de Cister o.c. pp. 211-214. 33 GOMES, Joaquim Ferreira – O Marquês de Pombal e as reformas do ensino. Coimbra: Livraria Almedina, 1982, p. 61. 32 338 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS 1813, ao contrário do que seria de esperar, por oposição ao que acontecia com as outras suas congéneres. O perfil destes monges permite-nos dizer que os cistercienses estavam vocacionalmente implantados no Alto Minho, de onde eram naturais, pelo menos, sete abades. Perfis de frades egressos Quatro dias após a convenção de Évora Monte, foi publicado o decreto que extinguiu as ordens religiosas,34 de que resultou a mobilidade de religiosos, deixando os conventos e seguindo para a paróquia de origem.35 Muitos membros da Igreja, depois de despojados dos bens,36 espalharam-se pelo Alto Minho, fixando-se nas paróquias de O decreto datado de 28 de Maio de 1834, assinado por Joaquim António de Aguiar, abrangia toda a rede religiosa formada por « (...) conventos, mosteiros, collegios, hospicios, e quaesquer casas religiosas de todas as ordens regulares, seja qual for a sua denominação, instituto ou regra.» Enquanto que as alfaias do culto eram postas à disposição do clero secular, os restantes bens patrimoniais foram incorporados na fazenda nacional. Este decreto apresentava-se mais acutilante para os religiosos que tinham apoiado a causa da usurpação/miguelismo, tendo, por isso, ficado excluídos da pensão anual que o estado atribuía a cada egresso que não fosse absolutista. O artigo 4.º desta lei apresenta seis parágrafos, onde se indicam os tipos de acções e comportamentos que excluem os frades do subsídio pago pelo estado e que transcrevemos: «1.º Os que tomaram armas contra o Throno legitimo ou contra a Liberdade nacional.» «2.º Os que em favor da Usurpação abusaram do seu Ministerio no confessionario ou no pulpito.» «3.º Os que aceitaram beneficio ou emprego do Governo do Usurpador.» «4.º Os que denunciaram ou perseguiram directamente os seus concidadãos por seus sentimentos de fidelidade ao Throno legitimo e de adhesão à Carta Constitucional.» «5.º Os que acompanharam as tropas do Usurpador.» «6.º Os que no acto do restabelecimento da authoridade da Rainha ou depois delle, nas terras em que residiam, abandonaram os seus conventos, mosteiros, collegios, hospicios ou casas respectivas.» Os restantes recebiam, enquanto não tivessem emprego público ou rendimento superior ao que auferiam, uma verba idêntica ao ordenado de um professor do ensino das primeiras letras ou ensino secundário (Gramática Latina e Latinidade), com 7$200 réis mensais e 12$000. Cf. A.G.C., Rellação de egressos habilitados na Administração Geral de Vianna, folha 34v-65. O decreto de 20 de Junho de 1834 regulou a importância das pensões sendo que «os religiosos patrimoniados professos receberiam mensalmente doze mil réis, ou dezoito mil réis se tivessem mais de sessenta anos de idade. Os religiosos mendicantes professos venceriam sete mil e duzentos réis; e dez mil e oitocentos réis aqueles que excedessem a idade de sessenta anos ou estivessem inválidos». ALMEIDA, Fortunato – História da Igreja em Portugal, Vol. III, Porto/Lisboa, Livraria Civilização-Editora, 1970, p. 49. 35 Com a aplicação do Decreto de extinção, foram suprimidas 448 casas religiosas, entre as quais havia 356 do sexo masculino, com uma população conventual a rondar as 6289 almas, distribuídas por 5061 religiosos professos, 591 frades leigos e 637 criados, como refere: SILVA, António Martins da – Extinção das ordens religiosas, in Dicionário de História Religiosa de Portugal, tomo [2], coord. de AZEVEDO, Carlos Moreira – Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 233. 36 Para uma visão sobre os bens e rendimentos das ordens religiosas, veja-se: SOUSA, Fernando de – O Rendimento das Ordens Religiosas nos Finais do Antigo Regime, in «Revista de História Económica e Social», n.º 7, Lisboa: Sá da Costa Editora, 1981, pp. 1-27. Também deixa referência a entrada «Bens» por PEREIRA, Fernando Jasmins – in Dicionário da História da Igreja em Portugal, 2.º volume, direcção de 34 339 HENRIQUE RODRIGUES naturalidade; uns mantiveram-se na área do convento,37 devido da falta de casa para os acolher e, por terem sido espoliados,38 limitaram-se à mendicidade39 no sítio onde viviam,40 outros optaram pelo ensino da catequese e das primeiras letras na própria habitação,41 ou à leccionação em colégios particulares, sendo poucos os egressos acolhidos no ensino oficial. As listas nominais de «Egressos Prestacionados Residentes no Districto» de Viana do Castelo e as relações de religiosos, além de outras fontes, permitem-nos saber quem recebeu uma prestação, de onde vieram, a que ordens religiosas pertenciam e ainda conhecer os perfis etários e sócio-profissionais. Nesta parte do texto, apresentaremos os ANDRADE, António Alberto Banha de – Lisboa: Editorial Resistência, 1983, pp. 692-754. Relativamente a prerrogativas e isenções da Igreja e dos eclesiásticos, como grupos privilegiados, ver ESPANHA, António Manuel – As vésperas do Leviathan, Instituições e Poder Político, Portugal- século XVII, Coimbra: Almedina, 1994, pp. 324-343. 37 Vários indivíduos, naturais de outras localidades, optaram por continuar em Viana do Castelo, tendo acabado os dias neste burgo. Uns permaneceram por motivos profissionais, como a leccionação em escolas públicas, outros por opção e mesmo por razões afectivas à terra onde se encontravam em 1834, mas, um bom número decidiu-se pelo regresso à paróquia de origem, sendo acolhidos por familiares. 38 Alguns indivíduos até os hábitos perderam, sublinha COSTA, Pe. Avelino de Jesus da – O Culto de S. Bento na Terra de Valdevez (subsídios para uma monografia do concelho). Arcos de Valdevez: Edição do Autor, 1984, p. 79. O Decreto de 5 de Agosto de 1833 determinava que os desertores das paróquias, capelas, conventos, mosteiros e outros espaços, depois da aclamação de D. Maria II, pondo-se ao lado de D. Miguel, considerados traidores, perderiam todos os bens, e os conventos ou mosteiros, onde se instalassem estes miguelistas, seriam fechados. BRAGA, Paulo Drumond – Igreja, Igrejas e Culto, in Nova História de Portugal, Portugal e a Instauração do Liberalismo, volume IX, coord. de MARQUES, A. H. OliveiraLisboa: Editorial Presença, 2002, pp. 312-313. 39 MARTINS, Oliveira – Portugal Contemporâneo, vol. 2, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1979, p. 20. A morosidade em obterem uma pensão, ou mesmo a teimosia em não quererem jurar a Carta, levou estes agentes da Igreja para a mendicidade, ficando na miséria. A fome impunha o recurso aos agiotas, que pagavam 1$500 ou 1$600 réis por título de 7$200 (papéis de crédito emitidos pelo tesouro) e pouco mais de 3$000 pelos de 12$000, sublinha ALMEIDA, Fortunato- História da Igreja em Portugal, Vol. III, o.c., p. 53. 40 Os religiosos, ao assistirem à nacionalização dos bens da própria comunidade, com a extinção das respectivas congregações, ficaram à mercê de uma pensão a que tinham de se habilitar e, muitos deles, além de verem destruído o modus vivendi, foram afastados da leccionação, por estarem afectos ao governo de D. Miguel, ficando sem recursos à mercê da caridade. Um exemplo destes foi Frei José de São Tomé, natural de Valença, que só aceitou a pensão quando já não possuía «um cruzado novo para mandar concertar os cothurnos», como nos relata um historiador coevo. CALDAS, José- Os Humildes. Porto: Livraria Chardron, 1900, p. 5-17. Este egresso, natural de Cerdal, Valença, e seu irmão, Alexandre da Expectação, fizeram os estudos das primeiras letras em Paredes de Coura, por não haver mestre na sua terra. 41 O ensino ocorria frequentemente na casa do professor, mesmo quando se tratava de docentes nos primeiros anos da fundação do Liceu de Viana do Castelo. Outro exemplo encontrámo-lo entre as muitas classes de professores particulares, como foi ilustrado por: CALDAS, José – Os Humildes. o.c., pp. 79-107. Dos documentos que compulsámos, no Arquivo do ex-Governo Civil de Viana (A.G.C.), merece destaque o «Relatorio [da administração do concelho...] Caminha, 7 d’Agosto de 1862.» (A.G.C.), pasta 183, maço 31, por nele estar bem explícito que os frades regressados à terra natal dedicaram-se ao múnus do ensino, por vezes gratuitamente em casa, alfabetizando familiares, filhos de amigos e mesmo vizinhos que desejavam adquirir instrução. 340 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS perfis dos frades radicados no distrito de Viana do Castelo o estatuto cultural, a formação académica e níveis etários. Formação académica dos frades A acção educadora da Igreja opera-se a partir da cerimónia principal, a Celebração da Eucaristia, presidida pelo Livro, a Bíblia, e privilegia a excelência do meio oral.42 O ministro de Deus, o sacerdote, é o maior difusor da cultura escrita, especialmente nas áreas de elevados índices de analfabetismo. Nos conventos ou mosteiros, mais do que noutros espaços rurais ou urbanos, a comunidade de religiosos possuía bibliotecas,43 fazia uso do livro44 e constituía núcleos onde se ensinava45 desde a catequese à leitura, escrita e contabilidade.46 Estas escolas existiram em Viana e noutras terras onde estavam sediados os regulares, algumas delas com responsabilidades ao nível dos estudos superiores para o clero,47 porque se ministrava Teologia,48 RetóriGÓMEZ, Antonio Castillo – «In Nomine Patris». Libro e Iglesia en el Mundo Rural a Finales del Siglo XV. Notas para su Estudo, in SAÉZ, Carlos; GÓMEZ-PANTOJA, Joaquín – (Editores) Las diferentes Historias de Letrados y analfabetos. Alcalá de Henares: Universidad de Alcalá, 1994, p. 89. 43 RAMOS, Luís A. de Oliveira – Os benditinos e a Cultura: Ressonâncias da Ilustração, in «Revista da Faculdade de Letras, História», II série, Vol. I, Porto: Faculdade de Letras, 1984, pp. 168-173; SANTOS, Eugénio dos- O Oratório no Norte de Portugal, Contribuição para o Estudo da História Religiosa e Social, Porto: Instituto de Investigação Científica/Centro de História da Universidade do Porto, 1982, pp. 318-322. Veja-se ainda CARDOSO, António M. de Barros – Ler na Livraria de Frei Francisco de São Luís Saraiva. Ponte de Lima: Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1995. Uma prova em como estes membros da Igreja continuaram a cultivar a leitura, ou pelo menos coabitavam com o livro, pode ser vista através dos testamentos deixados, como é o exemplo de Frei António do Carmo Caldas, beneditino vindo de Rendufe para Viana, deixou a «livraria constante de cento e setenta volumes (...) aos Irmãos Monges Benditinos» para quando regressassem, depositando tais livros nas mãos do Reitor do Seminário. Cf. A.D.V., Livro de Testamento, n.º 48, folha 19v. Além deste exemplo, muitos outros frades levaram os livros dos conventos, como aconteceu recentemente com a oferta de vários milhares de tomos cedidos pelo Prof. Doutor Avelino Costa ao Seminário do Carmo de Viana do Castelo, obras que tinham sido pertença desta comunidade, conforme as informações colhidas junto do responsável pela Congregação. 44 RAMOS, Luís A. de Oliveira – Os benditinos e a Cultura: Ressonâncias da Ilustração, o.c., p. 166. 45 A devoção da Igreja pelo livro fez desenvolver uma cultura literária no Ocidente, de forma que «Igreja e cultura intelectual rimaram sempre» diz Armindo de Sousa ao tratar das elites que envolvem a escola e o ensino, além dos vários tipos de escolas existentes desde a Idade Média. SOUSA, Armindo de – Realizações, in História de Portugal, segundo volume, direcção de MATTOSO, José - Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 532-546. 46 Sobre o ensino na Arquidiocese de Braga no século XVII, ver SOARES, António Franquelim Sampaio Neiva – A Arquidiocese de Braga no século XVII, Sociedade e Mentalidades pelas Visitações Pastorais, (1550-1700), Braga: Edição do Autor, 1997, pp. 579-588. 47 A Teologia Moral era ensinada em Viana desde o século XVII. Em 1722, havia no convento do Carmo trinta estudantes. A comunidade religiosa, em 1821, era formada por duas dúzias, dos quais dezanove tinham funções sacerdotais. JESUS, P. David do C. de- A Reforma Teresiana em Portugal. Lisboa: s.e., 1962, p. 48. 48 Para uma visão sobre os estudos teológicos, ver PEREIRA, José Esteves – Teologia e Apologética em Portugal na Segunda metade do século XVIII, in «Congresso de História no IV Centenário do Seminário de Évora» Actas, vol I. Évora: Instituto Superior de Teologia/Seminário Maior de Évora, 1994, pp. 133-139. 42 341 HENRIQUE RODRIGUES ca e Lógica.49 Este era o potencial de cultura religiosa50 e de saberes, onde as habilitações51 de cada frade representam as capacidades individuais para a difusão das letras. A informação relativa à instrução dos monges foi dada a conhecer, juntamente com os indicadores de conduta moral, para que as autoridades pudessem aceder ao maior número de qualidades/capacidades destes agentes culturais e proporcionar-lhes uma actividade sócio-profissional adequada, o que lhes permitiria uma ocupação condigna, ao serem recuperados para a área educativa. Muitos figuram como sendo habilitados para o magistério das primeiras letras,52 outros com capacidade para o ensino secundário e, ainda, para funções religiosas, como pastores de paróquias ou mesmo na qualidade de capelães.53 O estudo da implantação geográfica destes agentes54 permite-nos uma imagem de conjunto, o que faremos tendo em conta cada um dos dez espaços municipais. Residiam, em 1841, no concelho dos Arcos de Valdevez, ex-conventuais com um perfil cultural e de instrução bem aquilatado. Tinham refluído das mais diversificadas paragens como: Coimbra, Tibães,55 Lisboa, Ponte de Lima, Santa Maria do Bouro, Guimarães, Vila Real, S. Pedro d’Águias de Lamego, Guimarães, Évora, Coimbra, Braga, Como exemplo do ensino da filosofia e da teologia dos oratorianos, onde se analisam ao pormenor nomes de alunos, matérias, métodos de ensino, cursos e professores, veja-se SANTOS, Eugénio dos – O Oratório no Norte de Portugal, Contribuição para o Estudo da História Religiosa e Social. Porto: Instituto de Investigação Científica/Centro de História da Universidade do Porto, 1982, pp. 286-318. 50 As prerrogativas que as ordens religiosas detinham, além de terem uma grande responsabilidade nesta área, conferiam-lhes um «espírito de impunidade (que) chocava frontalmente com a mentalidade liberal», por isso, não é de admirar «que os frades sejam tão orgulhoso e tão altaneiros» escrevia José Pecchio, um viajante estrangeiro. BRAGA, Paulo Drumond – Igreja, Igrejas e Culto, o.c., pp. 326-327. 51 Para uma visão sobre o clero em geral, circunscrita ao arciprestado de Ponte de Lima, veja-se: SOARES, Franquelim Neiva – A Sociedade Pontelimense na Primeira Metade do Século XIX, o Inquérito do Arciprestado de 1845-1846, in «Arquivo de Ponte de Lima», vol. III, vol. V, vol. VI, vol. VII. Ponte de Lima: Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1982, 1984, 1985, 1986. 52 São vários os casos de frades que tiveram como ocupação o ensino oficial, como aconteceu a Frei Francisco Rainha dos Anjos, que substitui, em Ponte de Lima, António José Ferreira, professor suspenso em 1835. O Padre Joaquim Leite da Cunha Vasconcelos, egresso, auferia um rendimento nesta qualidade e como complemento da leccionação, pois fora colocado a dar aulas em Chafé, Cf. RODRIGUES, Henrique – Emigração e Alfabetização, O Alto-Minho e a miragem do Brasil. Viana do Castelo: Governo Civil de Viana do Castelo, 1995, pp. 210-212, onde se anotam as respectivas fontes. 53 Entre muitos exemplos, destacamos Frei Agostinho da Conceição «egresso da ordem do patriarcha Sam Francisco da Conceição, actual capelão das religiosas Ursulinas» Cf. A.D.V., Livro de Testamentos n.º 43, fol.53-55v; Manuel do Carmo, capelão de Santana foi classificado como homem de descomunal cultura, matemático, cosmógrafo e teólogo poderosíssimo, com domínio perfeito do grego e do latim, ensinou teologia dogmática em Vila Real, CALDAS, José – Os Humildes, o.c., pp. 13-14. 54 Para um conhecimento da distribuição geográfica e origem social do clero secular na região, antes do século XIX, ver: SOUSA, Fernando Alberto Pereira de – O Clero a Norte do Douro em Finais de Setecentos, policopiado, Porto: Faculdade de Letras, 1979. 55 Não cabendo nesta abordagem a problemática em que se enquadra cada uma das ordens religiosas, não podemos deixar de fazer menção, à ordem de São Bento e, relativamente a Tibães, ao trabalho de OLIVEIRA, Aurélio de Araújo – A Abadia de Tibães 1630/80-1813, Propriedade, Exploração e Produção no Vale do Cávado Durante a Antigo Regime, 2 volumes policopiados, Porto: Faculdade de Letras, 1979. 49 342 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS entre outras terras.56 A lista desta autarquia (Arcos) apresenta conventuais identificados como detentores de «alguma instrução», outros qualificados com a nota de “excelente” e mesmo alguns sacerdotes formados com os estudos de Teologia, Filosofia, Dogmática e Moral. Salientamos Frei Francisco Loreto Melo, ex-mestre na ordem e «lente na Universidade» de Coimbra. Falamos de um beneditino, Doutor em Teologia, que, em 1841, tinha 64 anos de idade.57 Neste mesmo ano, o professor das primeiras letras da freguesia de Vale, concelho de Arcos de Valdevez, era Francisco José Nunes,58 regular proveniente de Santa Maria do Mosteiró, com 22 anos à data da exclaustração. A descrição das faculdades intelectuais, as quais proporcionavam o desempenho de uma actividade profissional, revela um quadro onde doze indivíduos reuniam condições para ministrar o ensino;59 dez foram mencionados com qualidades para dedicarem a vida ao serviço da Igreja, quer como párocos, quer nas funções de «capelão de regimento ou de navio». Outros, ou não apresentam qualquer anotação, ou foram rotulados como incapacitados,60 Alguns indivíduos, como Frei Francisco de Nossa Senhora do Rosário e Luís de Nossa Senhora da Luz, dois franciscanos responsáveis pelo ensino das primeiras letras,61 o primeiro «muito instruído» e o segundo com um menor nível de “habilitações”, foram suspensos da actividade docente, sendo substituídos por professores laicos, Continua por fazer o estudo da distribuição geográfica dos egressos para oitocentos, não obstante tenha havido trabalhos de síntese demográfica, como é exemplo o artigo de: FONSECA, Fernando Taveira – Demografia Eclesiástica, II, do século XVI aos inícios do século XX, in Dicionário de História Religiosa de Portugal, tomo [2], coord. AZEVEDO, Carlos Moreira – Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, pp. 47-58. 57 Indicado como doente e velho, este frade recebia 12$000 réis mensais, em 1841. 58 Cf. A.G.C., Rellação dos Egressos residentes no Concelho dos Arcos de Val de Vez e Soajo, 13 de Dezembro de 1841. Por este documento sabemos que «há neste concelho alguns outros que não estão prestacionados», como prova de que os números apresentados não revelam a totalidade destas migrações e, naturalmente, segundo o decreto do “mata-frades”, de 28 de Maio de 1834, teriam um perfil político que os não abonaria para auferirem a prestação respectiva, por não se identificarem com os ideais implantados com o Liberalismo. 59 Destacamos, entre estes, Frei Francisco do Sacramento, de nome civil Francisco António Pereira, a residir em Aguiã, tinha 38 anos quando regressou à terra natal. 60 Um exemplo encontra-se na pessoa de Frei Francisco do Loreto, já referido, com 64 anos em 1841, «inhabil por doente e velho», mas com «excelente capacidade», este lente na Universidade de Coimbra. Cf. Relação dos Egressos rezidentes no concelho dos Arcos de Valdevez e Soajo, datado de 17 de Dezembro de 1841. Também Luís Estalisnau Saraiva, beneditino que se encontrava em Carvoeiro em 1834, com a idade de 77 anos foi indicado como «impossibilitado» e reunia «boa moral e instrução» em 13 de Dezembro de 1841. Ver a relação elaborada pelo administrador de Ponte de Lima. Esta figura, irmão do Cardeal Saraiva, regressou a Arcozelo e, como refere Oliveira Ramos, era possuidor de «alguns livros» que estão indicados na biblioteca de Frei Francisco de São Luís Saraiva. Cf. CARDOSO, António M. de Barros – Ler na Livraria de Frei Francisco de São Luís Saraiva, Ponte de Lima: Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1995, p. 9. 61 Para uma visão sobre as escolas conventuais e outras instituições de cultura religiosa, ver SOUSA, Armindo – Memoráveis realizações in História de Portugal, segundo volume, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, pp. 533-540. Em Viana da Foz do Lima, havia escolas conventuais, onde se aprendia humanidades, nos conventos de Santo António e de São Francisco, além do ensino ministrado pelos mestres do Carmo, onde eram formados os candidatos ao ensino universitário. CALDAS, José – Os Humildes, o.c., pp. 34-35. 56 343 HENRIQUE RODRIGUES em 2 de Junho de 1834.62 Ambos os sacerdotes tinham talento e aptidão científica-pedagógica para a docência no ensino secundário. O concelho dos Arcos acolheu religiosos com elevado nível de cultura, onde emergem as capacidades intelectuais, e estavam bem preparados para a difusão das letras.63 Na ausência de uma profissão proporcionada pelo estado, devem ter-se dedicado à catequese e ao ensino doméstico, como aconteceu noutras paróquias. Os monges arrolados em Caminha foram todos identificados como “padres”. Não sabemos se tal classificação reconhece que os religiosos tinham sido ordenados com o Sacramento ou se entre eles havia “irmãos” leigos. Dos casos aqui examinados, só nos é possível sublinhar, além de ex-frades com o registo de «encomendados», Manuel Jesus Marinho da Cunha64 na qualidade de professor Latim e Latinidade na sede da autarquia.65 O jovem José do Bom Sucesso Guerreiro cursava em Lisboa.66 Não deve ser muito ousado inferirmos que a família deste colegial possuía condições económicas para suportar os estudos na capital e que aquele, responsável pela cadeira de latim, reunia qualidades atinentes ao bom perfil “académico” para o desempenho do respectivo múnus. Importante e digno de nota é a confirmação de que, neste município, os religiosos tiveram um papel activo no processo de instrução,67 onde alguns bem competentes davam aulas graciosamente a filhos de vizinhos, parentes, amigos e compadres,68 actividade Professores desde 1819, leccionavam na vila dos Arcos de Valdevez. Cf. RODRIGUES, Henrique – Emigração e Alfabetização, O Alto-Minho. o.c., p. 210. 63 Desconhecemos o percurso de muitos destes egressos quanto ao desempenho de funções em estabelecimentos de ensino, mas, podemos destacar vários no exercício da actividade docente, como mestres de escolas privadas, ou como professores no ensino estatal. Para exemplo temos Frei Francisco Rainha dos Anjos, frade leigo natural de Melgaço. Outro caso idêntico aconteceu ao Padre Joaquim Leite da Cunha Vasconcelos, frade beneditino de São Romão de Neiva, cujo nome conventual era Frei Joaquim do Salvador Leite Cf. RODRIGUES, Henrique – Emigração e Alfabetização, o.c., pp. 206-212; A.G.C. maço 1.12.6.12, «Relação de todos os egressos residentes em Ponte de Lima....», 6 de Agosto de 1835. 64 Frei Manuel de Jesus, natural de Fontoura, Valença, conhecido por «padre-mestre de Caminha», ensinou latim na sua cela até ao cabo da vida. Cf. CALDAS, José – Os Humildes, o.c., pp. 61-62. 65 Por ser «professor de latim nesta villa», não aufere prestação. Cf. A.G.C., «Relação nominal dos egressos existentes neste concelho (...) de Caminha, 28 de Agosto de 1841.» 66 A referência a este estudante surge com a data de 28 de Agosto de 1841, quando tinha 25 anos. Auferia a verba por Viana e encontrava-se em gozo de férias na freguesia de Vilar de Mouros. Um novo rol regista-o a receber por Lisboa, em 20 de Novembro do mesmo ano. 67 Em Caminha o ensino das primeiras letras tinha sido entregue aos Franciscanos (religiosos da Conceição) desde 1778. O docente responsável pela difusão da leitura e escrita, em 1818, era Frei João da Família Sagrada, como menciona FERNANDES, Rogério – Os Caminhos do ABC, o.c., p. 427. 68 Supunha-se que estes eclesiásticos, depois de saírem dos mosteiros, teriam dedicado parte do tempo ao magistério, todavia, não se encontravam provas de tais factos, além dos frades arrolados na qualidade de professores particulares e públicos em várias localidades do Alto-Minho na década de sessenta. Ora, as autoridades do município de Caminha testemunham que «Há neste concelho (...) alguns eclesiasticos de probidade que gratuitamente ensinao alguns alunnos filhos de seus vizinhos, parentes e amigos e compadres». Estas palavras mostram-nos as capacidades dos egressos, sendo reconhecidos como bons professores que, depois acolhidos em casas de familiares, dedicavam a maior parte do tempo ao ensino na esfera privada 62 344 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS desempenhada como meio de ocupação do tempo de que dispunham, através da qual difundiam as letras, preparando a juventude com habilitações. A área de Vila Nova de Cerveira acolheu mais de duas dezenas de novos agentes da cultura letrada, dos quais cerca de metade tinham alcançado os «estudos maiores», com frequência de Filosofia e Teologia e foram, oficialmente, reconhecidos como possuidores de boas aptidões para a docência. Estes frades são provenientes dos mais diversos pontos geográficos, como: Porto, Lisboa, Braga, Coimbra, Crato e de vários conventos existentes no próprio distrito de Viana do Minho. Só encontrámos alusão a um «irmão leigo», que auferia 5$400 réis mensais.69 O Administrador de Melgaço elaborou um rol para este concelho e para o de Castro Laboreiro. São parcimoniosas as informações relativas às habilitações literárias, pois só aparecem seis com nota de «capacidade moral e instrução». Para os restantes apenas ficou averbada a «capacidade moral». Todos tinham o estatuto de «leigos», irmãos sem o curso de teologia e o Sacramento respectivo, o que levou o Administrador a classificálos sem referências à instrução nem habilitações para o ensino ou outra qualquer actividade no domínio da comunicação pela palavra. Não é fácil, com tais elementos, emoldurar o quadro de competências académicas, a partir dos conteúdos destes documentos e concretamente em relação a um município com um território muito definhado, pois Valadares ainda existia como espaço concelhio, tendo sido integrado nas autarquias de Monção e de Melgaço, no ano de 1855. Nas freguesias de Penso e Alvaredo, duas localidades administradas por Valadares, foram arrolados três indivíduos rotulados com o grau de instrução suficiente e medíocre, empobrecendo o referido cenário, quando cotejado com o quadro formado pelos restantes colegas de outras localidades do distrito de Viana do Castelo. O espaço geográfico de Monção, como aconteceu ao de Melgaço, também foi ampliado com paróquias do extinto concelho de Valadares. Vários monges, dos que se fixaram neste município, possuíam boas referências académicas, enquanto outros foram indicados como sendo portadores de uma «instrução medíocre», eram irmãos leigos, o que mostra, relativamente a tais religiosos, que tinham os rudimentos da cultura do abecedário, considerados insuficientes para a assunção de actividades lectivas ou ocupação de lugares na administração municipal. Mas é de sublinhar o refluxo de quadros com prestígio. Alguns tinham exercido funções destacáveis nas casas e congregações a que estavam vinculados. Ilustramos com a pessoa de Francisco Castro, secretário-geral e mestre na própria ordem de Cister, onde «regeu Teologia e Moral».70 Quando foi obrigae de carácter “doméstico”. A.G.C., pasta 183, maço 31, «relatorio [da administração do concelho...] Caminha, 7 d’Agosto de 1862.» 70 A «Relação dos Egressos residentes no concelho de Monsão», datada de 23 de Novembro de 1841, aponta este Presbítero, de 58 anos a idade, como tendo vindo de Alcobaça e anota, nas observações, que fora «Mestre e Secretário-Geral da Ordem.» Uma outra “Relação”, elaborada em 3 de Setembro do mesmo ano, faz menção ao Padre Francisco José Nunes, que viveu na aldeia da Lapela e encontrava-se a leccionar na freguesia de Vale, Arcos de Valdevez. Trata-se de um professor de quem fizemos citação. 345 HENRIQUE RODRIGUES do a deixar o habitáculo religioso, encontrava-se no mosteiro de Alcobaça e fixou-se, aos 51 anos de idade, no vale do rio Minho. Paredes de Coura apresenta um quadro onde cerca de metade dos conventuais não detêm estudos maiores, se admitirmos que, dos vinte elementos nomeados, só metade deles foram classificados como detentores de «instrução». Resulta um panorama, para este espaço geográfico, onde os monges não foram classificados pelas autoridades como potenciais difusores do abecedário. O número de sacerdotes a residir nesta área era muito elevado e bastava para uma boa cobertura geográfica. As aldeias de Insalde, Formariz, Cossourado e Ferreira, além da própria vila de Paredes de Coura, tinham acolhido dois ou mais eclesiásticos, número bastante para ministrarem o ensino da leitura e escrita.71 Todavia, não devemos inferir que os restantes indivíduos fossem pessoas desprovidas de conhecimentos letrados. Tinham, certamente, competências mínimas para assunção de responsabilidades em funções que exigiam a transferência de saberes veiculados pela escrita, adquiridos nos vários centros religiosos em que viveram. Ao serem integrados nestes locais, partilharam os conhecimentos com os seus conterrâneos, responsabilizando-se pela alfabetização dos jovens, quando se fixaram nestas paróquias. Ponte de Lima é a área mais beneficiada, se considerarmos a presença de muitos egressos prestacionados com capacidades para o múnus das letras, alguns dos quais conseguiram ocupação no ensino.72 Entre este corpo de eclesiásticos, encontram-se sacerdotes com uma formação superior,73 havendo pregadores que cultivavam o magistério do púlpito e professores de teologia, tudo personalidades com um perfil intelectual assinalável.74 Veja-se a lista elaborada em 1842, A.G.C., «Rellação dos egressos residentes no concelho de Coura, (...) 20 de Janeiro de 1842.» No rol feito em Setembro de 1841 temos dois que não são padres, o que significa, para os restantes dezoito, que todos eles foram ordenados sacerdotes com capacidades de difundirem o religioso e ministrarem os Sacramentos, além da catequese e outros ensinamentos. 72 Ver, sobre o professorado no Alto-Minho, pago pelos cofres do estado, em 1835, RODRIGUES, Henrique – Emigração e Alfabetização, o.c., pp. 210-212. 73 São escassos os trabalhos sobre egressos. Através do inquérito ao arciprestado de Ponte de Lima é possível observar o panorama da Igreja e analisar a componente relativa aos agentes do religioso, como fez SOARES, Franquelim Neiva – A Sociedade Pontelimense na Primeira Metade do Século XIX, o inquérito do Arciprestado de 1845-1846, in «Arquivo de Ponte de Lima», Vol. III. Ponte de Lima: Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1982, 249-250. As conclusões que Franquelim SOARES retira, em relação ao nível dos estudos dos frades, comparativamente ao restante clero, é de que aqueles detinham melhores indicadores, porque dispunham de colégios para os confrades e mesmo facilidades de intercâmbio internacional, de que resultava boa formação académica. 74 Entre os frades, destacamos o padre Francisco Rainha dos Anjos, natural de «São Paio, Termo de Melgaço», professor das primeiras letras, e o padre João Bento de Medeiros, natural da Ilha Terceira, « (...) em 1826 veio para Portugal frequentar os estudos em Coimbra, onde estudou por algum tempo, (...) Em Braga, onde por opposições que fez às cadeiras de Fylosofia e de Theologia, para patente de lente, ensinou Theologia até à extinção das ordens regulares.» Cf. A.G.C., «Relação de todos os egressos residentes no concelho de Ponte de Lima, comarca da mesma vila, com declaração de suas idades e que já se achão empregados e em que qualidade.» Provedoria de Ponte de Lima, 6 de Agosto de 1835. 71 346 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS Constatámos que um grande número de religiosos eram portadores de boas «aptidões e moral», não tendo sido feitas outras referências que nos possibilitem retratá-los no contexto de “habilitações”, com as quais poderiam desenvolver uma boa actividade pastoral e assegurar a formação académica e educação dos monges mais jovens. À data da feitura da relação de egressos alguns não tinham ocupação.75 Dos trinta e sete religiosos arrolados, onze não eram provenientes de conventos ou mosteiros do Alto-Minho, o que mostra, da parte dos limianos, uma distribuição pelas várias casas das congregações existentes no próprio distrito, quando os regulares foram extintos. Valença albergou um bom grupo de egressos. Fixaram-se nesta zona trinta e quatro indivíduos, vindos das mais variadas paragens. O administrador do concelho, José Caetano Dias, optou por classificar os professos aqui residentes com expressões definidoras de três grupos: os instruídos, os pouco instruídos e os de instrução sofrível. Assinalou, ainda, para outros, as habilitações mais distintas, quando tinham cursado Filosofia, Teologia, Moral e Dogmática. Com tais informações, podemos asseverar que o quadro, em que se inserem os perfis «científicos» destes portadores de uma enriquecida cultura escrita, é dominado pelos que foram escalonados no patamar de «instrução sofrível». Poderá significar que estamos perante homens do Alto-Minho que adquiriram ao mesmo tempo um padrão elevado de conhecimentos? Há quatro provenientes do convento de São Francisco do Monte, em Viana do Minho, os quais estavam formados em Teologia, Filosofia e Dogmática. Mais assinalável é a concentração destes frades em onze freguesias, o que pode ter originado maiores oportunidades de escolarização/alfabetização neste espaço onde o rio Minho serve de fronteira entre Portugal e a Galiza. São parcas as referências directas ao magistério do ensino primário por conta própria. Temos indicação que Frei Francisco de Maria, irmão leigo, de quem ignoramos o nome secular, «ocupa-se no ensino primário», na freguesia de Cerdal, localidade que, em 1835, tinha como professor oficial António José Garcia. O desconhecimento da identificação civil deste grupo de monásticos só nos autoriza a dizer que os egressos vão ser responsáveis pela luta contra o analfabetismo, colorindo esta área com bons indicadores de alfabetização, ao difundirem a catequese e o abecedário, numa expressão, como agentes activos da disseminação do escrito,76 através do ensino doméstico, à semelhança do que foi anunciado em Caminha, pelas respectivas autoridades. Além da lista anunciada para este município, veja-se, A.G.C., «Relação dos egressos residentes no concelho de Ponte de Lima, actualmente desempregados (...) Administração do concelho de Ponte de Lima, 11 de Dezembro de 1841.» Este conjunto de 25 padres, alguns deles encomendados nas aldeias onde se encontravam, foi a mola impulsionadora da instrução de carácter doméstico, como confirmou o Administrador do concelho de Caminha. 76 Os mestres particulares recebiam em casa os discípulos, especialmente nas terras onde o sacerdote tinha um papel muito activo. No meio urbano encontramos o padre Severino Zamit, da família com o mesmo apelido, um filho ilegítimo e fora enviado a formar-se no seminário. Ao fixar-se em Viana do Castelo, a reputação de bom professor de latim, mestre de todos os estilos, realçando-se a forma literária do seu discurso, fizeram dele um dos grandes docentes do ensino particular. Leccionava na própria casa, fazendo-o mesmo quando era velho e estava paralisado no leito. O rigor e a disciplina deste agente do ensino eram exem- 75 347 HENRIQUE RODRIGUES Face a Ponte da Barca, conhecemos, somente, os nomes e os locais de morada destes prestacionados, por isso nada se pode apontar em relação ao nível académico de tais frades.77 O cruzamento de vários róis autoriza-nos a sublinhar a existência de alguns habilitados para o magistério, como é o exemplo de Francisco d’Assunção Sousa, a residir na vila da Barca, em 1841, e a leccionar nas primeiras letras, na freguesia de Crasto no ano de 1858.78 O município de Viana apresenta-nos seis irmãos leigos, apontados como potenciais agentes do ensino primário estatal,79 além de dois sem diplomas de estudos. A classificação, elaborada pelo administrador deste município, divulga outros quatro com «pouca instrução». Tais observações correspondem a indivíduos sem formação em Teologia, Moral, Filosofia e Dogmática, mas todos eles foram dados como portadores de habilitações para o múnus da leccionação por conta dos cofres do estado. A maioria destes “expulsos”, fixados na vila de Viana do Minho,80 são homens cujas competências, ao nível da instrução, aparecem no patamar superior, sacerdotes com elevado grau de doutrinação,81 pois reuniam as melhores condições para difusão do escrito e para a luta contra a iliteracia. Perfis etários A migração destes membros da Igreja provocou uma modificação nos hábitos de quem estava sob as regras de vivência em comunidade.82 Com a alteração demográfica plares, com um horário das 7 às 11 da manhã e das 16 às 19 horas, no Verão, ensinava durante sete horas diárias. No Inverno, as actividades iam das 8 às 12 horas, enquanto o turno seguinte começava às 14 e terminava às 16 horas. CALDAS, José – Os Humildes, o.c., pp. 81-97. 77 Embora se trate de uma «Relaçam dos Egressos prestacionados rezidentes neste concelho (...) de Ponte da Barca, 28 de Agosto de 1841», indica o nome dos frades e o livro em que estão registados os vencimentos, além das freguesias de fixação. É de crer que outras listagens tenham chegado ao Governo Civil de Viana do Castelo e que, provavelmente, ainda possam existir entre a documentação que se encontra por inventariar, pois outros concelhos fizeram chegar listas mais completas e com datas posteriores. Por estes documentos mais uma vez podemos inferir que a “rede de egressos” teria uma outra dimensão, formada por aqueles que não recebiam ou não reuniam as condições impostas pelo decreto de Joaquim d’Aguiar, tendo sido excluídos da “pensão”, como aconteceu no Alentejo. Cf. REMA, Henrique Pinto – A Ordem Franciscana no Alentejo, in «Congresso de História no IV Centenário do Seminário de Évora, Actas,» vol. I. Évora: Instituto Superior de Teologia/Seminário de Évora, 1994, pp. 369. 78 RODRIGUES, Henrique- Emigração e Alfabetização, o.c., p. 210. 79 Cf. A.G.C., «Relação de todos os egressos residentes no concelho de Viana do Minho (...) 17 de Dezembro de 1841.» 80 A identificação deste burgo como cidade de Viana do Castelo ocorre a partir de 20 de Janeiro de 1848, por isso a nossa referência a Viana do Minho, porque nesta data, sendo sede de distrito, tinha o estatuto de vila. 81 São vários os que foram indicados como reunindo condições para o exercício no ensino secundário, todos com habilitações ao nível da Teologia, frades cursados ao mais elevado grau, que receberam ensinamentos em Coimbra e tinham sido «mestres em teologia» Cf. A.G.C., «Relação de todos os egressos residentes no concelho de Viana do Minho (...) 17 de Dezembro de 1841.» Ver também CALDAS, José – Os Humildes, o.c., onde nos traça o perfil científico de alguns frades a residir em Viana. 82 As alterações foram incisivas e introduziram um novo quadro de relações entre a Igreja e o Estado, ao ponto de os sacerdotes acabarem por se aproximarem do funcionalismo público, pagos pelo Estado para o desempenho de funções de apoio à paróquia, aparecendo a nova imagem do padre cidadão, fruto do Libera348 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS religiosa, aumenta a oferta de agentes culturais, educativos e para a catequese, proporcionando novos serviços à sociedade, de acordo com as capacidades de cada monge, por vezes em pleno desemprego,83 à espera de uma esmola ou habilitando-se à prestação do estado. O retorno de várias centenas de frades à casa paterna ou de parentes,84 uns idosos, outros mais novos, aumenta a rede de eclesiásticos e promove novas dinâmicas entre a clerezia. Os níveis etários mostram-nos três grandes grupos. O mais jovem, com menos de trinta anos, reúne cerca de 39%, num universo de 228 homens de quem ficou arrolada a idade em anos, entre os quais havia meia centena de indivíduos na casa dos vinte e cinco anos. Estes actores da cultura religiosa têm uma marca jovem na pirâmide, o que confere um certo rejuvenescimento à rede clerical. Os mais idosos, onde enquadrámos quem passou a fasquia dos cinquenta, rubricam números correspondentes a 32%, com um total de setenta conventuais. Situados entre ambas as faixas, há um cômputo de sessenta e seis egressos com idades compreendidas entre as trinta e seis e as cinquenta primaveras, cujos grupos etários de cinco anos se harmonizam entre si, pois todos apontam para valores cujos quantitativos são inferiores a vinte frades. Os conventuais de quem foi registada a idade são representados pelos mais jovens85 e contam com uma boa presença de outros bastante idosos, se considerarmos os padrões de longevidade na época.86 Com estes elementos, fizemos um exercício de projecção regressiva e obtivemos a data aproximada do ano de nascimento. Os nascidos na última década de setecentos, à data da exclaustração, eram adultos com idades compreendidas entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco. Estes têm a lismo, semelhante ao funcionário executivo sustentado pelas côngruas, a quem competia, entre outras funções, a tarefa de recenseamento militar e o registo paroquial. NETO, Vítor – O Estado, a Igreja e a Sociedade em Portugal (1832-1911. Lisboa: Imprensa Nacional da Casa da Moeda, 1998, p. 57. 83 A.G.C., «Relação dos egressos residentes no concelho de Ponte de Lima, actualmente desempregados (...) Administração do concelho de Ponte de Lima, 11 de Dezembro de 1841.» doc. s.n. Também João Manuel Afonso, de 41 anos em 1834, identificado por Frei José do Coração do Menino Jesus, Carmelitas Descalços em Viana Castelo, foi registado como desempregado. Frei Pedro das Neves, baptizado como Pedro Correia, Religiosos Conceição Viana, em 1841 estava sem ocupação. A.G.C., «Relação de todos os egressos prestacionados existentes neste concelho, com declaração das freguesias em que residem (...) Vianna 25 de Setembro de 1841», doc. s.n. 84 O P. José Sá Abreu Coutinho Ribeira, natural de Vitorino das Donas, tinha vindo do mosteiro Cisterciense de Águias Lamego, residia em São João da Ribeira na casa de seu irmão João Malheiro, onde se encontra «desempregado» A.G.C., «Relação dos egressos residentes no concelho de Ponte de Lima, actualmente desempregados (...) Administração do concelho de Ponte de Lima, 11 de Dezembro de 1841.» doc. s.n. 85 No Alentejo assistimos, também, à presença da juventude entre os Franciscanos, cujas idades ficam entre os dezoito e os sessenta e um anos. Ver: REMA, Henrique Pinto – A Ordem Franciscana no Alentejo, o.c., pp. 361-388. 86 Sobre mortalidade no século XIX ver: RODRIGUES, Teresa – Nascer e Morrer na Lisboa Oitocentista. Migrações, Mortalidade e Desenvolvimento. Lisboa: Edições Cosmos, 1995; FEIJÓ, Rui G; MARTINS, Hermínio e CABRAL, João de Pina – A Morte no Portugal Contemporâneo. Lisboa: Querco, 1985. 349 HENRIQUE RODRIGUES menor representação quantitativa. Os agentes da cultura religiosa, com idades na casa dos vinte, em 1834, ou seja, nascidos no conturbado período das invasões gálicas, mostram boa preparação académica, pois foram indicados como tendo «bastante instrução.» O segundo grande bloco é formado pelos baptizados entre 1755 e 1780. Através destes valores, apercebemo-nos da existência de um clima favorável ao ingresso nas ordens e às quais D. Maria I entregou o ónus da leccionação,87 ou seja, os religiosos da Conceição/Franciscanos, Oratorianos e de Cister, perante esta conjuntura, “abriram” portas a quem desejava professar nas suas fileiras, considerando o número de regulares nascidos neste período, que perfazem um total superior a meia centena, os quais apresentam indicadores de vetustez à data da publicação da lei que os pôs fora dos mosteiros. Os mais jovens, enquadrados no nível etário dos vinte e cinco à data da exclaustração, gozavam do estatuto de «coristas». Estes tinham nascido num contexto político-militar bem demarcado, a “fuga da Corte” para o Rio de Janeiro e as invasões francesas. A expressão muito atrofiada de rapazes na base da pirâmide pode revelar as dificuldades emergentes da conjuntura sócio-política, com destaque para a guerra civil, pois deveríamos assistir à presença de um grupo mais expressivo entre os menores de vinte anos de idade, se a Igreja não fosse alvo do regalismo.88 Em jeito de Síntese Os monges e frades prestacionados e fixados no distrito de Viana do Castelo revelam um perfil onde se destacam valores humanos, a formação académica e a riqueza dos saberes. Entre eles há quem tenha atingido o topo da pirâmide da ilustração e dos conhecimentos, tendo obtido o estatuto de lentes universitários. A boa preparação proporcionou o acesso ao múnus da leccionação em vários níveis Após a morte do Rei, em 1777, a filha, D. Maria I, além de aposentar compulsivamente os professores de Grego, Retórica e Filosofia de Viana da Foz do Lima, entregou aos religiosos da Conceição ou franciscanos e aos oratorianos que tinham casas, mosteiros ou conventos nesta área geográfica, obrigando os professores aí existentes a deslocarem-se para outras localidades e aumentou de sete para vinte e dois o número de mestres das primeiras letras e de oito para onze o total de professores de Gramática Latina. Cf. RODRIGUES, Henrique – Escola e família no Alto-Minho, séculos XVIII-XIX, separata de «Memoria», Vol. 2, Ano 2. Viana do Castelo: Instituto Católico, 1995, p. 9. Ver, ainda: NEVES, Pedro Almiro – A Escolarização dos Saberes Elementares em Portugal nos Finais do Antigo Regime, (1772-1822). Maia: Instituto Superior da Maia, 1996; FERNANDES, Rogério – Os Caminhos do ABC, Sociedade Portuguesa e Ensino das Primeiras Letras. Porto: Porto Editora, 1994; GOMES, Joaquim Ferreira – O Marquês de Pombal e as Reformas do Ensino, 2.ª Edição. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989; ADÃO, Áurea – Estado Absoluto e Ensino das Primeiras Letras, as Aulas Régias (1772-1794). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997. 88 Tivemos oportunidade de fazer uma pequena reflexão sobre esta matéria em RODRIGUES, HenriqueAlunos Examinados no Liceu Nacional de Viana do Castelo em 1861 para Ingresso no Seminário de Braga, Reflexos do Regalismo, Separata de «Actas do Congresso de História no IV Centenário do Seminário de Évora, vol. II, Évora: 1994. 87 350 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS de ensino oficial; outros deram aulas em estabelecimentos privados ou em espaços domésticos. Quem detinha competências, mas apoiou a causa absolutista, foi suspenso das funções lectivas. O refluxo destes quadros proporcionou uma mais-valia cultural para o distrito de Viana, cujos frutos são visíveis através da análise à rede de escolas privadas e do elevado índice de alfabetização no século XIX.89 A presença de duas dezenas de religiosos detentores de habilitações ao nível dos estudos de Teologia, Filosofia, Moral e Dogmática permite inferir que tais personalidades eram cientificamente muito respeitadas,90 motivo pelo qual tinham sido nomeados para o exercício de funções de “mestres” nas respectivas ordens e conventos91 antes da extinção das mesmas casas. Cerca de 50% foram referenciados como portadores de habilitações dignas de registo, cuja craveira, dentro das bitolas em questão, é de nível “médio”. Reconhecidos como pessoas instruídas, distinguem-se trinta e seis membros, posicionados no topo da hierarquia dos saberes, ao serem etiquetados como muito instruídos, excelentes, ou detentores de bastante instrução. São menos de dúzia e meia, aqueles de quem os administradores dos concelhos disseram tratar-se de frades com poucas competências relativas aos saberes que a instrução eclesiástica facultava, entre os quais se encontram alguns “irmãos”. O patamar ao nível da formação, que emerge das “relações de egressos”, construído entre os de boa, bastante ou muita instrução, retrata mais de catorze por cento destes homens ligados à vida religiosa. Os que aparecem catalogados com alguma, pouca instrução ou sofrível apontam para os 7,4%. Valor mais elevado encontra-se entre os cursados em Teologia, Filosofia e as disciplinas de Dogmática e Moral, que assomam os 10,5%. O número dos que foram inscritos a meio da tabela, ou seja, os frades instruídos, apresentam valores mais expressivos, como já anotámos. As propostas de emprego para estes membros da Igreja foram múltiplas: Estavam apontados para o ofício de professor das primeiras letras, quase sempre, egressos classificados como «pouca instrução.» Cremos que estes monges não tinham atingido o nível cultural dos que foram indigitados para o ensino secundário, que detêm um elevado grau de instrução/conhecimentos. Outros tinham frequentado o curso de Filosofia, ou eram estudantes de Retórica, e receberam a indicação de que possuíam «alguma instrucção», Para uma interpretação da alfabetização no século XIX, ver: RAMOS, Rui – Culturas de Alfabetização e culturas do analfabetismo em Portugal: uma introdução à História da Alfabetização no Portugal contemporâneo, in «Análise Social», 3.ª série, vol. XXIV, (103-104) Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 1990, p.1118-1119; REIS, Jaime – O Analfabetismo em Portugal no século XIX: uma interpretação, in O Atraso Económico Português 1850-1930. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1993, pp. 227-253. 90 De novo, remetemos para a vénia, a propósito de vários agentes da humildade e da cultura religiosa, feita a estes religiosos por CALDAS, José – Os Humildes, o.c. 91 Alinhamos aqui, a título de exemplo, o perfil de Frei Francisco de S. Luís, homem de vasta cultura e amigo do saber e da instrução, como o identificou RAMOS, Luís A. de Oliveira – Inéditos do Cardeal Saraiva, (Historiografia Monástica), Separata da Revista Bracara Augusta, tomo XXX- fasc. 69. Braga: 1976, p 12. 89 351 HENRIQUE RODRIGUES o que nos faz pensar na existência de múltiplos escalonamentos, que se apresentavam de acordo com os perfis que os vários administradores usaram para elaborar as relações nominais do respectivo município. A avaliação destes perfis deve ter sido construída a partir de uma bitola, cujos conhecimentos base teriam sido nivelados pelos saberes que um eclesiástico adquiria e, desta forma, aqueles que aparecem registados como possuindo poucas habilitações foram submetidos a um padrão de apreciação cultural muito elevado, ou os respectivos “júris de avaliação” eram por demais exigentes quanto à instrução dos cenobitas. Os egressos reuniam as condições ideais para a difusão da cultura escrita e da escolarização, quando o analfabetismo era muito elevado. Em síntese, acabaram por assumir um papel de relevância ao nível da alfabetização, no século XIX, quando regressaram às aldeias onde nasceram, passando a coabitar com a população das respectivas paróquias e a ensinar o que de melhor sabiam, quer ao nível da catequese, quer na arte de ler e escrever e contar. Notas finais Começámos por sintetizar o período de crescimento de Cister no espaço do actual distrito de Viana do Castelo, recorrendo a estudos de pública forma e às transcrições do livro de datas de Fiães. Aqui analisámos as doações ao mosteiro, por área geográfica e anos, assim como fizemos o estudo das compras de bens, tendo representado graficamente estas variáveis. Podemos dizer que o perfil destes primeiros abades patenteia a imagem implantação de Cister no Noroeste de Portugal e Sul da Galiza, através da aquisição de imóveis no Vale do Minho. Os cistercienses ganharam espaço e influência nesta região mercê do sistema de doações de bens de membros da Igreja, das elites e de particulares. A crise do século XIV, que o Cartulário permite ver através da quebra de doações, mas também porque deixa de haver registos neste livro de datas, deve ter afectado o mosteiro. O perfil do D. Abade dedicado, empreendedor e empenhado no engrandecimento do mosteiro é visível nesta fase. A entrega destas unidades religiosas a comendatários acaba por destruir o património, que era arrendado e mesmo desbaratado, arruinando estas casas, como foi Ermelo e Cister, cuja imagem, descrita nos anos trinte de quinhentos, é desoladora. Aqui voltamos a centrar a atenção nos três últimos abades perpétuos, vindos das terras de Alcobaça, Cós. Começámos com Frei João, que teve o mérito de recuperar parte do imóvel. Mas depressa fez como os seus antecessores, que tiveram filhos a quem deram terras. Frei João acolhe o sobrinho Diogo e este, por sua vez, traz mais três, que vieram viver à custa dos bens do couto de Fiães. O mosteiro ia passando pelas mãos destes familiares, sendo entregue a Frei Bernardo, que teve dois filhos e que se arrogaram herdeiros do pai, que renuncia à abadia em 1600. O perfil dos abades perpétuos é transversal a outras casas; se pertenciam à congregação, não deixavam de exercer o nepotismo, favorecendo o interesse pessoal e da família, quer fossem filhos ou fossem parentes, deixando a comunidade religiosa na miséria. 352 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS Com a criação da Congregação independente em Portugal, em 1567, o modelo de gestão por eleição entre os cistercienses, por períodos de três anos, só chegou a Fiães no trânsito da centúria, tendo sido eleito o primeiro abade trienal para este mosteiro em 1601. Os perfis destes frades podem ser traçados a partir da obra deixada e da eleição para outras casas. Neste modelo de rotatividade, são quase nulas as reeleições, embora alguns tenham sido escolhidos para estarem à frente de várias casas, assim como para Abade Geral, em Alcobaça. Eram, certamente, eleitos pelas capacidades de liderança e gestão. Também anotamos a presença de indivíduos naturais do Alto Minho nesta lista. Estes frades, por estarem sob escrutínio de toda a comunidade e serem avaliados no fim do mandato, devem ter feito o melhor por Cister, até à implantação definitiva do Liberalismo. Fizemos uma abordagem aos frades prestacionados, que se espalharam pelo distrito, e concluímos que os perfis etários incluíam jovens, indivíduos de meia-idade e outros mais idosos. Entre eles emerge uma elite intelectual, homens com competências para a leccionação de todos os níveis de ensino e para o exercício de actividades religiosas, mas também havia frades sem o Sacramento. De muitos conventos e casas vieram várias centenas de egressos para o Alto Minho, aumentando a demografia religiosa, o que permitiu novas dinâmicas de educação e escolarização. Importa fecharmos esta síntese com os elementos recolhidos sobre os cistercienses que se fixaram em cinco concelhos. São onze pessoas que tinham entre trinta e dois e oitenta e dois anos de idade; o mais novo esteve em Coimbra e o mais velho em Fiães. Vindos de São Pedro das Águias, Santa Maria de Bouro, Fiães, Coimbra e Alcobaça, fixaram-se nos municípios de Arcos de Valdevez, Monção, Paredes de Coura, Ponte de Lima e Viana do Minho. Nenhum foi arrolado no concelho de Melgaço e dois de Fiães foram para Viana e Ponte de Lima. Dos restantes colegas deste mosteiro, nada sabemos por estas fontes, por não terem requerido o subsídio, por isso não constam nestes róis. O perfil deste grupo regressado ao distrito de Viana resume-se ao seguinte: Gonçalo Correia Pimenta Castro, vindo do mosteiro de Fiães, tinha sessenta anos de idade; na ordem chamava-se Frei Gonçalo de Santa Rita e fixou-se em Viana. O Padre José Sá Abreu Coutinho, natural de Vitorino das Donas, residia em São João da Ribeira, Ponte de Lima, em casa do irmão João Malheiro, tinha sessenta e quatro anos e estava desempregado; estava em São Pedro das Águias do bispado de Lamego e foi indicado como bom para Cónego de alguma sé. Francisco Castro foi Mestre e Secretário-Geral da congregação, tinha cinquenta e um anos, quando veio de Alcobaça para Monção, e foi indicado para reger a cadeira de Teologia. Sobre Fiães, José Marques refere que, em 1834, o monge José da Trindade92 estava em casa da família a receber uma pensão, enquanto José António Oliveira indica, para a mesma data, a ausência de Frei Gonçalo Pereira com licença dada pelo superior.93 Este 92 93 MARQUES, José- O Mosteiro de Fiães, o.c., p. 65. OLIVEIRA, José António – “Liberalismo ou Absolutismo?...”, o.c., p 106. 353 HENRIQUE RODRIGUES investigador ainda aponta Frei António de Azevedo, juntamente com Frei António de Abreu, perfazendo três monges, neste mosteiro. Na lista de egressos prestacionados, onde identificámos, sempre que possível, o nome do “século”, constam: António Abreu, natural de Feitosa e Gonçalo Correia Pimenta de Castro, de Viana; não temos referência à prestação de António de Azevedo nem de José da Trindade ou a Gonçalo Pereira. Importa realçar que a diferença entre os nossos dados e os restantes nomes apontados anteriormente apenas nos faz prova do requerimento ao subsídio, por um lado, por outro é importante sublinhar a existência de dois nomes, o de baptismo e o nome da ordem (clausura). Um exemplo: Frei Gonçalo de Santa Rita corresponde a Frei Gonçalo Correia Pimenta de Castro; outro caso é o de Agostinho de Carvalho, carmelita descalço, no mosteiro de Rendufe, fixado em Viana, na clausura adoptou o nome de Frei Agostinho de Jesus e depois da extinção agregou os apelidos, ficando registado como Padre Agostinho de Jesus de Carvalho. A terminar, podemos dizer que as diferenças nas listagens pode dever-se ao facto de nem todos terem requerido o subsídio que a lei previa, por terem tomado a causa do Absolutismo. QUADRO I 354 PERFIS DE ABADES PERPÉTUOS, ABADES TRIENAIS E FRADES REGRESSADOS AO ALTO MINHO APÓS A EXTINÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS 355 HENRIQUE RODRIGUES QUADRO II Bibliografia notada ADÃO, Áurea- Estado Absoluto e Ensino das Primeiras Letras, as Aulas Régias (1772-1794). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997. ALMEIDA, Fortunato- História da Igreja em Portugal. Porto/Lisboa: Livraria Civilização-Editora, 1970. 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Así se recuerda en una publicación benedictina de 1615, refiriéndose a este cenobio: “A esta casa la tuvieron impetrada diferentes abades comendatarios con que descayó de su grandeza y de la puntualidad y observancia de la santa Regla...”1 Pronto surgieron intentos de reforma para recuperar las esencias de la orden, como el de Martín de Vargas, que consiguió del papa Martín V la emisión del privilegio “Pía supplicum vata” por el que le faculta a la erección de nuevos establecimientos para asentar la reforma cisterciense, y que en 1427, con la fundación del monasterio de Montesión, inicia la Congregación de Castilla o la “Observancia regular de San Bernardo” que con grandes dificultades acabó extendiéndose por la Corona de Castilla. En el siglo XV, los problemas que encontraban muchos monasterios para administrar y cobrar las rentas de los lugares más alejados, seguramente provocados por las presiones de caballeros locales que se entrometían y apoderaban de las rentas y vasallos, como reconocen los monjes de Moreruela en 1434: “a cabsa de algunos caballeros poderosos comarcanos de los dichos lugares e tierra, ellos no pueden gosar de los dichos lugares e tierra e vasallos e fueros e pechos e rentas e derechos”2, les llevaron a ponerse * Instituto de Estudios Zamoranos “Florián de Ocampo” 1 2 YEPES, Antonio de: Coronica General de la Orden de San Benito. Tomo V. Valladolid 1615, pág. 207. Archivo Histórico de la Nobleza, Osuna. Caja 462, doc. 10-15. Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 361-381 361 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ bajo el amparo de ciertos nobles, que les protegieran de estos abusos, aunque no descarto que esos mismos nobles fueran los que ejercieran esas intromisiones. En nuestro caso, el monasterio de Moreruela busca el amparo de la nueva nobleza que se estaba consolidando en la comarca, como era la familia Pimentel. A cambio de esta protección, los condes de Benavente consiguen ampliar su señorío. Según la citada Coronica General de la Orden de San Benito... en 1430 era abad Pedro que fue privado de su dignidad y puesto en su lugar Fernando de Alcácer, fraile de la misma orden, por los visitadores generales de la Orden. Fray Pedro fue repuesto por un breve del papa Eugenio IV en febrero de 1437 pero falleció en noviembre, y entonces volvió a ser elegido fray Fernando de Alcácer. Posiblemente estos conflictos conventuales estuvieran en relación con la permuta coetánea, que tramita el convento con el Conde de Benavente, de ciertos lugares que poseía el monasterio en la comarca zamorana de Carballeda a cambio de rentas dinerarias. En marzo del 1434 figurando como abad Fernando del Alcácer, junto con todo el convento, permutan con el conde don Rodrigo Pimentel una serie de lugares de Carballeda que poseían desde el siglo XII: los lugares de la tierra de Ferreras de Abajo, Nuez, las dehesas y granja de Santa Cruz, Cional, Folgoso, Figueruela y otros lugares y granjas despoblados, con todos sus vasallos, señorío y rentas, (se reservan ciertas heredades en Ferreras que habían sido dadas a la mesa conventual y las colmenas que poseían en estos lugares), a cambio de rentas monetarias más seguras y de más fácil cobro, como son 15.000 mrs que por juro de heredad tenía el conde situados en alcabalas del vino de la ciudad de Zamora, y por la explotación de la barca de Bretocino con la promesa de no poner por parte del conde ni del concejo de Benavente otra barca en el río Esla, desde Milles de la Polvorosa hasta el cañal del Carrizal. Además con el compromiso por parte del conde de que los monjes puedan administrar y reparar las aceñas, batanes, presa y cañal del Hoyo, que ya eran propiedad del monasterio, y permitir pastar a las caballerías de los que vienen a moler o a tratar los paños y poder vender libremente el pescado que capturaban sin pagar parte ninguna al concejo de Benavente. Todo ello les aseguraba una buena renta anual fácilmente recaudable por estar muy cerca del monasterio. La comunidad, formada por Fernando del Alcázar, abad, y los monjes, Pedro de Riego, prior, Alfonso Ramos, soprior, Esteban de Ferreras, cillerero, Juan de Toro, Alfonso de Villafáfila, cantor, Simón de Benavente, enfermero, Juan de Benavente, Pedro de Villalpando, pitancero, Juan de Riego, socantor, Pedro de Manganeses, Juan de Sitrama, sacristán, Juan de Vega, fray Lope y Luis de Zamora, se reunió en el capítulo en varias ocasiones para tratar la conveniencia del acuerdo entre el abad y el conde y consideraron que era provechoso para el monasterio. Los tramites, incluyendo la bula papal, duraron dos años y en 1436 se llevaron a cabo las formalidades de la permuta. En ese tiempo habían cambiado los cargos conventuales siendo prior Esteban de Ferreras, soprior, Alonso de Villafáfila, cillerero Juan de Vega y sacristán Alonso de 362 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO Osma, y se mencionan nuevos monjes Diego de Castrocalbón, Juan de San Pedro y Juan de San Pelayo.3 Todavía en 1437 seguía ejerciendo el abad Fernando del Alcázar cuando se firma un: “Contrato de fuero e censo que el reverendo padre abad de mº de Moreruela fizo a un judío de unas casas que están ençima de la Costanilla e que agora poseen los fijos de Minaya” y tenía a Francisco de Cubillos como mayordomo4. La buena relación del abad con el Conde de Benavente o bien las presiones que éste pudiera ejercer, llevaron a concederle en encomienda la merindad de la abadía y de los lugares de la Granja y Requejo, según recuerda Juan Orejas, arrendatario de las aceñas del monasterio en 14915: “se acuerda del abad don Fernando que puede aver 50 años más o menos, e que deste tiempo e abad se acuerda que el dicho monasterio e vasallos dél están en encomienda de la casa de Benavente e señores della... e ponen merinos en la dicha abadía”. Lo que nos remonta a la década de los 40, pues según la Coronica General de la Orden de San Benito, tomo V, antes citada, don Fernando era monje del Císter y su abadiazgo duró hasta su muerte en 1448. En 1449 el papa Nicolás V encomendó al cardenal Juan de Carvajal el monasterio de Moreruela y la disfrutó hasta su muerte en 1469. Fue legado papal en las cortes de Austria, Bohemia, Hungría y Alemania6. En la documentación monástica se conserva el foro viejo del lugar de Sagos (Salamanca) desde 1465, y ese año figura “el cardenal de Santangelo, Juan de Carvajal, administrador perpetuo del monasterio de Moreruela, de Fusyllos y de la diócesis de Plasencia”, y en el capítulo de Moreruela se reúnen unos pocos monjes: “Antº Ferrández de Béjar, probisor del monasterio e lugarteniente del abad, fray Diego Serrano, prior, fray Juan, soprior, fray Juan el Romo, fray Andrés de Villamañán, enfermero, fray Martín de Castrotoral, e fray Rodrigo, monjes de misa del monasterio”, dándonos una idea de los pocos monjes que vivirían en el convento7. No tenemos constancia de visitas de los abades comendatarios a sus monasterios, pues para administrar la vida monástica solían nombrar a personas de su confianza, aunque una escritura de trueque de unas tierras entre los monasterios de Montamarta y Moreruela realizada en noviembre de 1452 está “signada de Alonso de Mansilla, notario Todo lo referente a la permuta de bienes con el Conde de Benavente en Archivo Histórico de la Nobleza (A.N.), Osuna. C.462, Doc.10-15. 4 Archivo Histórico Nacional (A.H.N.), Clero. Caja 8236. 5 A.N. Osuna. C.462, Doc. 43. 6 GRANJA ALONSO, Manuel de la – Estudio Histórico, Artístico, Religioso, Agrícola y Humano del Real Monasterio de Santa María de Moreruela. Zamora, 1990. 7 A.H.N. Clero, Leg. 8236. 3 363 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ del cardenal” lo que puede indicar una presencia del mismo en el monasterio8. Sí constan algunas gestiones realizadas ante el papa por el cardenal Carvajal en defensa del patrimonio de Moreruela en el reino de Portugal, que comisiona al obispo de Braga para tratar el asunto. Estas posesiones se perdieron definitivamente durante la guerra de Sucesión de Castilla y pasaron en encomienda a la Orden de Cristo9. A la muerte de Juan de Carvajal, Paulo II nombró encomendero al cardenal Albi pero no pudo disfrutarlo porque enseguida fue designado como abad Francisco de Santillana, obispo de Osma, por Sixto IV a petición del rey Enrique IV10. Francisco de Santillana, obispo de Osma y abad de Moreruela, residente en la corte romana, donde actuaba de embajador de la corona de Castilla, es detenido por mandato del Papa por irregularidades en el manejo de las rentas, dando orden de confiscárselas todas. La reina Isabel, apoyada en esta orden, en 1479 suspende el pago de las rentas de Moreruela a “don Francisco de Santillana obispo de Osma y abad de la dicha abadía de Moreruela”. La reina manda al prior y monjes del monasterio que las rentas queden embargadas y que no reciban a nadie por abad sin su licencia y especial mandado11. En 1481 los negociadores entre Fernando el Católico y Sixto IV llegaron al acuerdo de que Pedro González de Mendoza sustituiría a Santillana en el obispado de Osma y que las abadías de Moreruela, Párraces y Poblet quedarían libres para poderlas incluir en la reforma. Pero el monasterio de Moreruela sería excluido antes del acuerdo definitivo que se firmó en 1482, por el que a Santillana se le propone para la diócesis de Córdoba, renunciando a Moreruela, que sería entregada al cardenal Mendoza, aunque Santillana murió poco después12. La concesión del obispado de Osma y de la abadía de Moreruela al cardenal Mendoza tuvo lugar el 8 de julio de 148213. El autor de las uniones dice, según Manrique: ”Ex scripturis monasterii de Moreruela constat ultimum Abbatem Commendatarium illius fuisse Cardinalem Archiepiscopum Toletanum D.D. Petrum de Mendoza, per Bullam Sixti IV expeditam anno Incarnationis Domini M CCCC. LXXXII, & fecisse cessionem Abbatiae in fauorem Fratris Franciscum de Seuilla, anno M. CCCC. XCIV, & ipsum Fratrem Franciscum de Seuilla fuisse primum Abbatem triennalem Obseruantiae dicti Monasterij, vt eius traditio habet”14. Seguramente los reyes desde los primeros momentos de la concesión de esta abadía al Cardenal de España tuvieran intención de integrarla cuanto antes en la Observancia, A.H.N. Códices y Cartularios Libro 1184. GRANJA ALONSO, M. – op. cit. pag.149. 10 VENTURA, Concha María; GARCÍA DE ACILU, José María – “Renacerás de las llamas: Moreruela” in Cisterciun 235. Año 2004. Pág.307. 11 Archivo General de Simancas (A.G.S.). Registro General del Sello (R.G.S.), Leg.147909,138. 12 SUÁREZ FERNÁNDEZ, Luis - Los Reyes Católicos el Tiempo de la Guerra de Granada. Madrid, 1989. 13 FERNÁNDEZ COLLADO, Ángel – Historia de la iglesia en España Edad Moderna. Toledo, 2007. 14 HERRERO SALAS, Fernando – Actas Capitulares del Císter en el Monasterio de Palazuelos (1554-1817) I parte: Estudio Introductorio. Valencia, 2006 8 9 364 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO como se deduce de las negociaciones antes mencionadas, y dada su voluntad de reformar los monasterios de sus reinos, y principalmente los del Císter, como manifiestan en una carta fechada en Toledo el 7 de Junio de 1480, que dirigen a sus oficiales en Castilla, para que presten todo su favor a la Orden del Cister para visitar y reformar sus monasterios. Y como reiteran en el mandamiento por el que hacen efectivo el inicio de la integración de Moreruela en la Observancia: “e por quanto nos procuramos y deseamos con toda afeçión que en nuestros tiempos todos los monesterios de nuestros reinos sean reformados y resplandesca en ellos la observançia regular y respeto de la syngular devoçion que tenemos a la orden de Sant Bernardo de que somos espeçialmente patronos e protectores porque todos los monesterios de la dicha horden fueron fundados y hedificados e dotados por los reyes de gloriosa memoria, nuestros progenytores e por otras justas causas que a ello nos mueven, tovimoslo por bien”. Pero los trámites demoraron la integración, que sí se iba produciendo en otros monasterios como Sacramenia, 1481, Valdeiglesias y La Espina en 1485 con graves altercados, y Sandoval 1486. La dedicación del cardenal Mendoza a sus muchos cargos eclesiásticos y políticos en la corte de los Reyes Católicos le obliga a delegar la administración de la abadía de Moreruela en personas de su confianza. Así conocemos los poderes que otorgan en 1486 a dos de sus capellanes, Lope Docampo y Alfonso González de Madrid, revocando los que habían tenido hasta entonces Diego de Zamora, ya difunto y Pedro de Frías, su capellán15. Son poderes muy amplios para recaudar todas sus rentas de pan, vino, dinero o ganado de los renteros; para poder arrendar y aforar sus posesiones quitándoselas a los que les reportaran poco beneficio y arrendándolas de nuevo; para apremiar al prior y monjes que viven en el monasterio a que lo hagan limpia y honestamente, según la regla, incluso para encarcelarlos o trasladarlos a otros monasterios si no lo hiciesen; para visitar a las monjas del convento de Santa Colomba, dependiente de Moreruela; y para administrar justicia y recabar las rentas feudales de los vasallos del monasterio. Durante todo el periodo en el que suceden los abades comendatarios, la merindad de la abadía y de sus lugares y el cobro de ciertas rentas anejas al cargo y de las alcabalas y pechos reales habían estado en manos de la casa de los condes de Benavente y así lo recuerdan diversos testigos, vecinos de la Granja, en 1491. Declaran que el conde don Alonso, su viuda la condesa doña María de Quiñones, y su hijo el conde don Rodrigo II nombraban los merinos que se ocupaban del mantenimiento del orden y de la aplicación de la justicia, y en el desempeño de sus cargos cobraban rentas, reclutaban peones, recorrían los montes para prendar ganados forasteros y podían dejar nombrados lugartenientes: “en 15 GRANJA ALONSO Manuel – op.cit. pág. 152. 365 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ tiempo del conde don Alfonso tenía la Granja en encomienda y llevaba frutos e rentas della... e un merino que se llamava Juan Bravo sacó peones de dicho lugar para defensión de la casa de Benavente y otras guerras, ... puede aver çinquenta años”. Pero surgieron conflictos entre los merinos y los provisores del monasterio que eran los encargados del ejercicio de la jurisdicción abacial. Siendo Francisco de Cisneros, merino por el conde don Rodrigo, y Gonzalo de Zamora, provisor del monasterio por el cardenal don Pedro González de Mendoza, estos conflictos se agravaron, pues el provisor acusaba al merino de cometer agravios y sinrazones a los vecinos de los lugares, y de quebrar parte de una presa de aceña, y el merino decía que provisor y sus criados abusaban de los vasallos, matándoles vacas o entrando en sus casas para forzar a sus mujeres. En 8 de marzo de 1491 en Granja de Moreruela se juntan Pedro de Losada, vecino y regidor de Benavente, en nombre del Conde de Benavente, y Diego de Segovia, vecino de esa ciudad, en nombre del Cardenal de España, en presencia del escribano Gonzalo de Beas, para informarse de los agravios y determinar en justicia. Conocemos el nombre del prior del convento, Fray Fco de Santa Marta, y fray Sancho soprior16. Todavía muchos años después, algunos testigos viejos declaran en un pleito del año 1528: “ conosçió ser abad del monasterio de Santa María de Moreruela a don Pedro González de Mendoza, que tenía un soprior, y era merino de la Granja de Moreruela un Valderrábano, de Faramontanos, que lo abía puesto en la abadía por merino el dicho don Pedro [Pimentel], que deçía que tenía la encomienda por el conde viejo, su hermano”; “...cuando el monasterio de Moreruela era encomienda del Conde de Benavente, don Pedro y otros por su mandado prendaban a los provisores e monjes e a sus azedores e mayordomos e los llevaban presos a Villafáfila e a Távara e a otras partes”17. Encaja más que esto hubiera ocurrido bajo el abadiazgo de Santillana que bajo el del cardenal, pues los testimonios son muy tardíos, si bien en el recuerdo se mantenían los abusos qua había sometido el conde y su hermano a los monjes y vasallos de Moreruela. Posiblemente los anteriores abades comendatarios se conformarían con asegurarse la percepción regular de las cuantiosas rentas de la abadía mediante la entrega de muchas de sus propiedades a fueros perpetuos o vitalicios, y delegaran sus competencias señoriales en el Conde de Benavente. Mientras tanto los Reyes Católicos seguían con sus gestiones ante los papas Inocencio VIII y Alejandro VI para extender la reforma a todos los monasterios de sus reinos. Tal era el desconcierto de los cistercienses que el abad Pedro de Clairvaux viene a Castilla en 1491, celebra una asamblea de abades en Valladolid y visita los monasterios, entre ellos el de Moreruela y su filial de Santa Colomba en septiembre de ese año. 16 17 A.N. Osuna, C.462, Doc.43. Archivo de la Real Chancillería de Valladolid (A.R.Ch.V.). Pleitos Civiles. Ceballos f. C. 506-1. 366 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO Como dice Granja en la obra citada: “cada abadía que se ganaba para ésta [la Observancia] era una auténtica conquista, pues implicaba transformar la vida de los monjes, compensar económica y políticamente a la Curia Romana y a esto había que añadir la reconstrucción de la hacienda y de los edificios de los cenobios arruinados de tan mala administración”. Por fin en 29 de julio de 149418 los reyes desde Segovia se dirigen al corregidor de Zamora anunciando que el cardenal Mendoza había renunciado a la abadía de Moreruela, “por serviçio de Dios y descargo de su conçiençia”, aunque seguramente sería por el deseo de los reyes de que el monasterio zamorano pasara a integrarse en la Congregación de Castilla, “en favor del devocto padre fray Françisco de Sevilla, monje profeso de la orden de Sant Bernardo, para que el dicho monesterio agora e de aquy adelante sea reformado e reduzido a la observançia regular, debaxo de la obediençia del padre abad reformador de los monesterios de Sant Bernardo que están reformados y en observançia en estos nuestros reinos e señorios”. Como el cardenal tenía la abadía “por tytulo e encomienda por conçesion apostolica”, fue necesaria la emisión de una bula papal y “de todo lo qual se hiso e fulmyno un proceso en forma por çierto jues”, que según los trámites que eso conllevaría bien pudo haberse iniciado unos años antes. Esta bula y el proceso serían mostrados al corregidor de Zamora por el general reformador y por fray Francisco de Sevilla, nuevo abad de Moreruela, junto con el mandamiento de los reyes para que procediera a su cumplimiento. La integración en la Congregación de Castilla no debía de ser fácil pues conocemos los conflictos a que dio lugar la reforma del monasterio de Valbuena unos años antes, por lo que el nuevo abad y el reformador le hacen patente a los reyes estas dificultades: “se temen e reçelan que por algunas personas eclesiasticas y seglares de no buena yntençion les podria ser ympedida e embargada la posesion de dicho monesterio e abadia e de las otras cosas a ella devydas e pertenesçientes, e otro sy por la maliçia de los tiempos e por no aver estado la dicha casa hasta aqui reformada, algunos grandes y caballeros y otras personas se han entrado e apoderado en algunos lugares e vasallos e juridiçiones e en otras posesyones e rentas y pechos e derechos e bienes muebles e ornamentos, caliçes e otras cosas devydas e pertenesçientes al dicho monesterio, e lo ocupan e detienen todo injustamente por fuerça y contra su voluntad syn causa ni tytulo alguno, e sy algunos tytulos tienen, que aquellos no fueron ni son legytimos ni conformes a derecho en gran cargo y peligro de sus animas y en escandalo de los fieles cristianos”. Por lo que solicitan al corregidor que sobre todo ello les haga cumplimiento de justicia. Los reyes mandan al corregidor de Zamora que vaya al monasterio y a otras partes, si fuera necesario, y dé la posesión de la abadía a Francisco de Sevilla, nuevo abad, en lo alto y en lo bajo, en lo espiritual y en lo temporal, y en todos sus lugares, 18 A.G.S. R.G.S., Leg. 149407, 96. 367 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ vasallos y jurisdicción y en todas sus rentas, y una vez tomada la posesión lo defienda y ampare en la misma, obligando en primer lugar a los monjes y a los vasallos a obedecer al nuevo abad: “e fagades al prior e monjes e a los otros religiosos e a todos los vasallos del dicho monesterio que den e exiban e fagan dar e exibir al dicho reformador y abad toda aquella obediençia y reberençia que como a su abad le es devida e pertenesçiente, fasyendole acodir en mandando e conpeliendo a todos los vasallos e renteros, colonos, censuarios e ynquilinos e arrendadores del dicho monesterio”. Los religiosos, acostumbrados a la relajación de la disciplina monástica durante muchos años, serían reacios a la introducción de novedades en su forma de vida, por eso el mandato de los reyes les compele a que acepten las nuevas normas a las que les obliga la reforma: “e para que agora e de aquy adelante ayan de estar e esten en comunidad segun e como en las ordenanças e contituçiones e definyçiones de la dicha horden mandan e disponen, e no consyntiendo ny dando lugar a personas algunas muevan escandalos ny ruidos... proçediendo otro sy contra qualesquyer religosos del dicho monesterio e convento que fueren apostatas e no obedeçieren al dicho reformador y abad ny cumplieren sus mandamientos”. El otro obstáculo serían los seglares que disfrutaban parte de las rentas del monasterio, por arrendamientos antiguos o por intromisión en las mismas, por lo que encargan al corregidor que se ocupe de su restitución: “otro sy en cuanto a los bienes muebles e rayses e hornamentos calizes, cruzes, e otros atavíos del dicho monesterio, e en quanto a los vasallos, heredamientos, rentas e otras cosas que están ocupadas e mal enajenadas del dicho monesterio, confiando de vos que soys tal persona que guardareis nuestro servicio y el derecho a las partes por la presente vos lo encomendamos e cometemos a vos todo”. Además de ejecutar el mandamiento de la integración de la Observancia de Castilla, los reyes lo nombran juez para determinar las causas y pleitos que se susciten por ello, sin más dilación, sólo con la verdad sabida, dándole poder cumplido para el efecto19. Pero las resistencias de algunos personajes poderosos a ser desposeídos de alguno de los bienes o vasallos del monasterio que tendrían en su poder bien por cesión del cardenal, bien por apropiación, provoca que el convento se dirija de nuevo a los reyes en busca de amparo: “sepades que frey Sancho de Vitoria en nombre e como procurador del abad, prior e monjes e convento del monasterio de nuestra señora Santa María de Moreruela de la orden 19 A.G.S. R.G.S., Leg. 149407, 96. 368 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO de Sant Bernardo que es en la diócesis de Çamora , nos dijo que el dicho monasterio es reformado en observancia, el qual fue fundado por el emperador don Alfonso e que les dio e otorgó por privilegio especial que nunca pueda ser [dado] en encomienda el dicho monasterio ni los vasallos e rentas dél salvo a rey o reyna... e qua agora reçela que algunos cavalleros e otras personas, contra el dicho previllegio e contra las leyes destos nuestros reynos, se quieren entremeter en tomar los vasallos e rentas del dicho monasterio en encomienda”. En 8 de noviembre de ese año, poco más de tres meses después del mandamiento de integración, los reyes dirigen una carta general a los infantes, duques, prelados, condes, marqueses, ricos hombres, maestres de las órdenes militares, oidores del consejo, jueces, y a todo el reino para que ningún caballero pueda tener en encomienda bienes de abadengo, según estaba mandado en la ley de Juan I, dada en Cortes de Guadalajara de 1390, y para que se cumpla lo especificado en el privilegio concedido “por el emperador don Alfonso” en la fundación del monasterio de Moreruela. Algunos de estos caballeros poderosos que se habrían apropiado de vasallos o rentas del monasterio eran según vimos antes los condes de Benavente y otros miembros de la familia Pimentel. Parece que los mandamientos reales sirvieron para que los poderosos no se entrometieran en las propiedades del monasterio. Quedaba ahora recuperar las rentas que le debían los vasallos, algunas de las cuales con el paso de los años y el descontrol de la administración de la hacienda monástica se habían ido perdiendo. La documentación manejada se refiere a los conflictos de rentas y jurisdiccionales con sus vasallos, pero de la vida monástica carecemos de noticias. Los religiosos serían reacios a la introducción de novedades en su forma de vida, por eso, en el mandamiento de integración en la observancia los reyes, les compelen a que acepten las nuevas normas a las que les obligaba la reforma: “e para que agora e de aquy adelante ayan de estar e estén en comunidad según e como en las ordenanças e contituçiones e definyçiones de la dicha horden mandan e disponen, e no consyntiendo ny dando lugar a personas algunas muevan escándalos ny ruidos ...proçediendo otro sy contra qualesquyer religosos del dicho monesterio e convento que fueren apóstatas e no obedeçieren al dicho reformador y abad ny cumplieren sus mandamientos”. La posesión en nombre de la Observancia de Castilla fue tomada el 5 de agosto de ese año y fray Francisco de Sevilla fue electo abad trienal, aunque falleció en abril de 149620. En 1496 se había llevado a cabo la reforma y elegido como nuevo abad a fray Clemente de Medina, y la comunidad ya estaba organizada según la nuevas reglas de la observancia; al año siguiente forman el capítulo, además de él, otros 23 monjes: Martín 20 YEPES, op. cit. 369 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ de Agreda, prior, Fabián de León, maestro de novicios, Adrián de Segura, cillerero, Pedro Gamarra, Alonso de Medina, Bernardo de Tamariz, Gabriel de Toledo, Juan de Requejo, Benito de Ocampo, Fernando de Baltanás, Andrés de Riego, Juan de Soria, Pedro de Soria, Pablo de Cadahalso, Pedro de San Martín, cantor, Mateo de Segovia, Roberto de Villafranca, Roberto de Toledo, Bautista de Gormaz, Luis de Sevilla, Alfonso de Fuentelcarnero, Pedro de Toro, Juan de Fuentes, cuyos apellidos denotan una procedencia variopinta, alguna bastante alejada del monasterio, en contraste con la comunidad de principios del siglo XV, cuando la mayoría de los monjes tienen apellidos que denotan una procedencia de lugares cercanos al monasterio. La presencia de un maestro de novicios indica la existencia de nuevas vocaciones que van a asegurar el futuro de la comunidad21. En 1499 es electo Miguel de San Pelayo y reelegido en 1502, pero falleció en 1504 y acabó el trienio siendo abad fray Lorenzo de Peñafiel, hijo de Valparaiso. La comunidad prosperaba y estaba compuesta, al menos, por 24 monjes: Juan Delgado, prior, Juan de Horñena, Pedro Quixada, cillerero, Pedro de Illescas, decano, Juan de Requejo, cantor, Antón de Burgos, Fernando de Baltanás, maestro de novicios, Sebastián de Huerta, Alonso de Toledo, Francisco de Paderes, Vicente de Estrada, procurador y bolsero, Andrés de Almorox, Blas de Roa.., Ignacio, Francisco de Valdeiglesias, Juan de Ureña, García de Villamayor, Benito de Sobrado, Cristóbal de la Bóveda, Fernando de Benavente, Alonso de Saguena, Pablo de Cadahalso, Mancio de Villagª, Froilán Osorno, monjes profesos. Durante su abadiazgo se produjo un conflicto sobre la elección de abadesa del convento femenino de Santa Colomba de la Dueñas, por la intervención del abad de Moreruela en la elección de otra abadesa. Este convento era filiación de Moreruela o al menos tenía dependencia jurisdiccional del mismo. Durante la encomienda del Cardenal de España había tenido lugar en Santa Colomba un grave conflicto entre la abadesa y otra monja por la elección y la posesión de las rentas de la abadía, pero no hay constancia de intervención ninguna de Moreruela en esa ocasión22. Después de la muerte de la abadesa María de Robles en 1500, las monjas eligieron otra abadesa, y “por no se aver fecho conforme a las defyniçiones de la dicha horden”, el abad de Palazuelos, que no estaba integrado en la Observancia de Castilla, con poder del abad de Poblet “reformador e visytador general en los nuestros reynos en lo tocante a la dicha horden del Cistel, ansi de hombres como de mujeres”, destituyó a la elegida y mandó que se eligiera otra, que fue doña María Jaramillo, a la que puso en posesión del convento. Después el abad de Moreruela, aduciendo corresponderle a él la elección y seguramente con intención de integrar el monasterio en la reforma, “con el favor de algunas personas legas despojo por fuerza y contra su voluntad a la dicha abadesa del dicho cargo, disyendo que le perteneçia a el la dicha eleçion, y puso por abadesa a doña María de Mezquita, natural de la dicha villa de Benavente, lo qual dis que se 21 22 Archivo Histórico Nacional (A.H.N.) Clero. Caja 8237. A.R.Ch.V. Registro Ejecutorias. C. 9, 22. 370 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO procuro por parte de los parientes de la dicha abadesa por tener al dicho monasterio de su mano...por los parientes de la dicha doña Maria de Mezquita y por otras personas que tienen el dicho monasterio profanado y encastillado”. Los reyes mandan al bachiller Esteban Fernández de Almagro que vaya al monasterio “y lo desencastilledes e fagades desencastillar e echades fuera las personas que lo tovyeren encastillado” para que las partes puedan hacer sus autos libremente23. No sabemos como acabaría el pleito pero el monasterio de Santa Colomba se acabó integrando en la Observancia y dependiendo jurisdiccionalmente de Moreruela. En el capítulo general del Cister celebrado en Valparaiso en 1504 acordaron crear un estudio de gramática en Moreruela, mandando que cada monasterio de la orden envíe un religioso a este estudio24. Fray Lorenzo de Peñafiel fue reelegido abad en 1505 y 1508, y fue dos veces General de la Observancia. Menos referencias he obtenido de los abades del periodo de regencia de Fernando, en 1511 fue elegido fray Hernando de Baltanás y en 1514 Froilán de Salazar, que llegó a ser General de la Observancia de Castilla en tiempo de las Comunidades. Al poco de morir el rey Católico, en 1517 es elegido Juan de la Parra25. Para albergar la comunidad pronto se iniciaron las reformas del viejo monasterio y se realizaron obras nuevas, así se declara en 1509: “muchas obras que dicho monasterio e ellos en su nombre han hecho y hacen cada dia así en reparos como en obras hechas e que hacen de nuevo”26 Para ello se precisa mucho dinero, por lo que una de las primeras actuaciones después de consolidada la comunidad fue la de reorganizar la economía del monasterio, recuperando las rentas enegenadas o mal arrendadas. La política anterior había sido la de entregar las propiedades a foro a largos plazos o perpetuos. Ahora tratan de sanear estas rentas por lo que para el efecto conceden al prior y al cillerero poder para recaudar, recibir rentas, apear posesiones. La recaudación de las rentas devengadas desde el año 1494 por parte del nuevo abad provoca varios pleitos con los arrendatarios de las rentas del monasterio en tiempos del cardenal, que reclaman el cumplimiento de sus contratos, que no habían vencido. Por la documentación de Simancas, conocemos los que tienen con Luis Núñez Coronel, vecino de Zamora. Se trata de un influyente judío converso que desde tiempo atrás se dedicaba a los arrendamientos de rentas reales y eclesiásticas. En 1497 se dirige a la corte diciendo que él tomo a cargo la cobranza de las rentas de la abadía de Moreruela por el cardenal de España desde el año 1491 y que después de que el monasterio se A.G.S. R.G.S. Leg. 150008, 454. FARTOS MARTÍNEZ, M. et alii -La Filosofía española en Castilla y León.Valladolid, 1997. 25 YEPES, Coronica... 26 Archivo Municipal de Benavente, Fondo de la casa del cervato Rodríguez, Sig. 11.1. Citado por CASQUERO FERNANDEZ José Andrés: “El Monasterio de Santa María de Moreruela en la Época Moderna”, in LARREZ IZQUIERDO, Hortensia, coord., Moreruela, un Monasterio en la Historia del Cister. Valladolid, 2008, pp. 144-165. 23 24 371 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ reformó, el convento había ganado una carta de comisión real para que el corregidor de Zamora pudiera conocer sobre los pleitos que pudieran surgir del cobro de sus rentas. El corregidor, a pedimiento del monasterio, embargó todas las rentas de pan y maravedíes y otras cosas que el año 1494 estaban a cargo de cobrar por los subarrendatarios, Francisco de Anaya y Martín Cornejo, los cuales compraron pan y otras cosas, a cuenta de las rentas que esperaban recaudar, y prestaron a personas y concejos y muchos de ellos tenían firmados contratos que ahora no querían pagar. Estando pendiendo la reclamación ante el dicho corregidor, que parece que no acababa de sentenciar,”el abad y convento viendo que no avían justicia ny cosa alguna de las que le pedían” pusieron otra demanda ante la jurisdicción eclesiástica, en este caso el provisor de la diócesis de Zamora, que no había querido remitirla al corregidor, que era el juez competente para el caso. Los reyes el 30 de mayo le mandan al provisor que no conozca el pleito y que remita la causa ante el corregidor27. En agosto del 98 todavía continuaba el pleito y Luis Núñez Coronel pide a la corte una compulsoria para que los escribanos de los lugares de la abadía de Moreruela le den copias de las escrituras de contratos, firmados ante ellos, porque algunas personas le debían cantidades correspondientes a las rentas que aquel tenía arrendadas del cardenal de España en los referidos lugares y, posiblemente a instancias de los monjes, se negaban a darle las copias que demostraban su derecho. Por eso desde la Corte mandan que si alguna razón tenían para no entregárselas, que la expongan ante el Condestable y el Consejo28. Los arrendatarios se seguían negando a entregar las rentas atrasadas, inducidos por los monjes, seguramente con promesas de renovación de los contratos, aunque la pretensión era recuperar cuanto antes y con mejores condiciones para el convento los ingresos, por lo que el converso demanda amparo a la corte, desde donde emiten una incitativa para que las justicias de Zamora, León, sus obispados y demás localidades resuelvan cuanto antes los pleitos “porque tuvo arrendada del Cardenal de España la abadía de Moreruela, de la Orden del Císter, con sus lugares y rentas, y algunos concejos y personas particulares le deben29 muchas cantidades, que no le quieren pagar, apoyados por el abad, después de que la abadía había sido reducida a observancia” 30. Dentro de esta política de reforma administrativa del monasterio, los monjes quieren asegurarse rentas saneadas y en 1497 aforan perpetuamente a don Enrique Enríquez de Guzmán, comendador de Castrotorafe, todo lo que pertenecía al monasterio en los términos despoblados de Castilcabrero y Oterino, por 40 cargas de pan anuales, con un R.G.S., Leg. 149705,184 y R.G.S., Leg. 149706, 307. R.G.S., Leg.149808, 243-8. 29 “en el lugar de la Granja Pero Benito e Pedro de Escobar sesenta cargas de pan, e Juan Miguel e la de Pº Mayoral e sus fiadores doscientas cargas de pan e 28.000 mrs en dineros e tresyentas veynte cabezas de ganado, e Pº Nyeto vº de Riego y su yerno 70 cargas de pan e Pero Aguado? .. e Juan Lozano, vºs de Pajares çiento e veynte cargas de pan, e Juan Hurtado, de Villafafilla, 50 cargas de pan que le fueron prestadas ...” 30 R.G.S., Leg.149808,242. 27 28 372 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO cobro más seguro, aunque fuera menor, que el que podían recibir de varios pequeños renteros. También hicieron cesión de algunas propiedades más alejadas del monasterio: “Tuvo también el dicho monasterio de Moreruela un Priorato extramuros de la ciudad de Sevilla ... en el año de mill y quatrocientos y noventa y nueve, fray don Miguel de San Pelayo abad desta casa, juntamente con todo su convento pareciendoles algún inconveniente , el estar tan lexos, para poder acudir a las cosas de su gobierno, hicieron dél renunciación y donación en manos del Abad de San Bernardo de Toledo y convento para que ellos gobernasen”31. Posiblemente este priorato tan distante de Moreruela no le reportara al monasterio renta ninguna, dado que por esos años había sido ocupado por particulares y convertido parte de sus edificios en un mesón y otra parte en casa de mancebía: “dis que ha fecho de la mitad del un mesón, e de la otra mitad una casa de mugeres de malvivir”32. Pero no sólo se trataba de reorganizar las rentas para sanear la economía de la abadía, además los nuevos monjes intentaron restaurar los antiguas prestaciones feudales sobre sus vasallos de Granja de Moreruela y del lugar de Requejo, pequeña aldea situada enfrente del monasterio del otro lado del Esla, incluso añadiéndoles nuevas imposiciones. Por lo que pronto surgieron los conflictos entre los vasallos y el abad. Ante la corte se presenta en 1498 Juan de la Parra, vecino de Requejo, en nombre de todo el concejo, quejándose de las muchas fuerzas y agravios y sinrazones que el monasterio y convento de Moreruela: “les fasen después que fuese reformado y reducido en observançia quebrantándoles los usos, tenyendo jurado de se los guardar, ocupándoles sus términos, pastos, prados y abrevaderos y otras cosas pertenesçientes al conçejo de dicho lugar, alçandoles asymismo los fueros y ponyendoles nuevas serventías, más de las que devían, paçiéndoles con sus ganados sus pastos cotos que siempre guardaron, queriendo destruir a sus partes y despoblar el dicho lugar”. 1 – Les había prohibido pastar con sus ganados mayores una dehesa, llevándoles algunos bueyes al monasterio en prenda “y que hallaríamos siempre los vºs de dicho lugar dis que comieron una dehesa que se dise del abad que es término del dicho logar con sus bueyes e vacas e yeguas e ganados bacunos bravos lo qual agora dis que les quita e prenda y tiene en su monasterio bueys prendados; 2 – Prohibición de pescar en el río Esla: “y dis que los vecinos del dicho lugar pescaban en el río de Esla que pasa por los términos del dicho logar y dis que se lo quitan todo y lo arriendan a otros”; 3 – Prohibición de cortar leña en los montes y en tierras de labor, como lo hacían desde siempre para obtener recursos adicionales con su venta: 31 32 YEPES, Coronica... Tomo V. A.G.S. R.G.S. Leg. 150108, 207-1. 373 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ “e les quitan los montes que no son dehesados con que no corten en ellos y les mandan que la leña y çepas que rozan en las tierras que labran que lo dejen en las tales tierras e dis que después ellos mismos vienen por ello y se los llevan a su monasterio no consintiendo que se aproveche lo qual siempre se había hecho llevandolo a vender a donde querían para sus nesçesidades”; 4 – Subida de las cantidades anuales que pagaban por sus casas al monasterio: “e dis que les alçan los fueros de las casas en que biben de antes desde tiempo inmemorial los solyan pagar e dis que les tienen prendados por los dichas demasyas”; 5 – Obligación de prestarles sus bueyes de labor con sus aparejos al monasterio, que los emplean en sus trabajos y trasportes: “e dis que de más de les dar e pagar las sementeras acostumbradas a dicho monasterio devenles tomar por fuerça sus bueys y jugos y cornales y en los tiempos de la trylla como en otros tiempos e dis que los envian a la çibdad de çamora e a otras partes donde les plase syn les dar por ello cosa alguna e aun dis que despues que se an aprovechado dellos les toman los cornales y se pierden”; 6 – Introdución de los ganados ovejunos del monasterio en los pastos de Requejo incluso en los prados acotados “e dis que meten su ganado obejuno entren en los prados cotos consegyles que tienen para sus bueys los quales siempre los han guardado y çerrado desde Santa María de las Candelas hasta San Juan”; 7 – Y además de los abusos, los menosprecian e insultan “e dis que los amenguan e ynjurian llamándolos vyllanos e borrachynes e bellacos e otras palabras ynjuriosas” Achacan a los monjes reformados la intención de despoblar el lugar o al menos de expulsar a sus actuales pobladores para poder arrendar el término por dinero sin el obstáculo de los vasallos: “E dis que con tantos malos tratamientos no hosan estar e bibir en sus casas e dis que muchos dellos andan fuydos e avsentes del dicho logar por themor... e seria forzado de yermar e despoblar el dicho logar e nos suplico e pidio por merçed que sobre ello proveyesemos e les diesemos un jues para que atento y conforme a la Ley de Toledo que fabla de la restytuçion de los terminos e sobre las otras cosas susodichas e nos ovimoslo por bien”. El 23 de junio del 98 los reyes se dirigen al corregidor de Zamora, Gonzalo Fernádez de Roenes “e fiando de vos os mandamos que luego veades los susodicho e vades al dicho logar de Requejo e otras qualesquiera partes...” para que acudan a Requejo y se encargue de determinar y juzgar33. 33 Lo anterior en R.G.S. Leg.149806, 23. 374 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO Mucha prisa no se debió de dar el corregidor porque tienen que volver a pedir que actúe34: Prórroga a peticion del concejo de Requejo para que el doctor de Roenes, corregidor de Zamora, termine la pesquisa que se le había encomendado anteriormente en el pleito que trataba con el monasterio de Moreruela Pronto también surgen conflictos con los vecinos de la Granja, primero con los hidalgos, como es Pedro de Carvajal, “hidalgo de padre e abuelo”, al que los vecinos pecheros, seguramente inducidos por los monjes, no le quieren reconocer sus privilegios de hidalguía y le habían prendado y multado porque les había movido un pleito “no le quieren guardar su eseçión e libertad e les levanto un pleito y le pusieron pena de 2000 mrs que no lo siguiese y sin oile le han condenado”. Además el abad y monjes le habían reclamado las heredades del monasterio que llevaría en renta o foro y por no hacerlo, seguramente amparado en viejos contratos de fuero perpetuo (por el apellido tal vez relacionado con el cardenal Carbajal, que había tenido la abadía en encomienda a mediados de la centuria), y lo habían metido preso en las cárceles del monasterio y le habían tomado sus bienes “dis quel abad, prior, monjes e convento le tomaron 30 ovejas e las juntaron con las otras suyas y porque él no les ha querido dar ciertas heredades, le prendieron y le pusieron en el çepo en la cárçel, e que no estando él en su casa fueron e le desquyçiaron sus puertas e le tomaron una saya de su muger e çiertos cabeçales e çierta ropa e toda quanta fasyenda tenya lo qual no le han querido ny quieren bolver” Por lo que reclama a la justicia real35. Desde la corte se manda en octubre de 1498 al nuevo corregidor de Zamora que guarde la carta que se había dado al doctor Roenes, su antecesor, ya fallecido, por la que se le encomendaba la solución del debate sobre agravios que trataban tanto el concejo del lugar de Requejo, como Pedro de Caravajal, vecino de Granja, con el monasterio de Moreruela36. Si en un principio los vecinos pecheros de la Granja estaban al margen de los abusos de los monjes, pronto son víctimas de los mismos y se tienen que dirigir a la corte reclamando la protección real porque “se temen del prior y frailes del monasterio de Moreruela. Les fasen muchos agravios e sinrazones y los prenden y los maltratan... que les deis el seguro”. Los reyes emiten el 7 de octubre de 1500 una carta de seguro para los vecinos dela Granja de Moreruela: “los rescybimos en nuestra guarda y seguro e señorio e amparo e defendimiento real a los vezinos e moradores del dicho lugar e cada uno dellos e a su mugeres e fijos e cryados e a sus bueys e ganados e los aseguramos de vos el dicho pryor e frayles e convento e de vrs escuderos e famyliares e panyaguados del dicho monasterio, para que los no firays, ni mateys, ny prendeis, ni ocupeis, ni tomeis sus bueys”37. R.G.S. Leg.149808, 51. R.G.S. Leg. 149809, 217. 36 R.G.S. Leg. 149810, 304. 37 R.G.S. Leg. 150010, 233, 1500-10-7. 34 35 375 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ Los vecinos de la Granja presentan en la corte una relación con los agravios que les hacen los monjes: 1 – Imposición de los cargos de justicia y regimiento: “Estando en posesion el qº de poner dos alcaldes, uno el concejo en nombre de los reyes, el abad del monasterio ponía otro, y todos los oficiales el concejo, agora el dicho abad e frayles e convento e frayadría no consienten dejar al dicho concejo poner el dicho alcalde y oficales” 2 – Ocupación de sus términos “asimismo les toman y ocupan sus terminos y prados y no les dan lugar a que vendimien sus viñas” 3 – Imposición de nuevos tributos “e que les fasen otros muchos agravios poniendoles nuevas serventias”. En 8 de octubre de 1500 los reyes dan comisión al bachiller Pedro de la Corte para que haga información acerca de estos agravios, ocupación de términos y otras injusticias que el abad y frailes del monasterio de Moreruela cometen contra los vecinos de Granja de Moreruela y le mandan que vaya en persona hasta el lugar de la Granja y averigüe el particular: “y quanto pan solian llevar de penas a los vºs y quanto se avia acresentado, e que terminos han tomado”38 . Veinte días después le prorrogan al bachiller de la Corte su comisión para finalizar la pesquisa sobre los agravios que el abad de Moreruela comete contra los vecinos de la villa de la Granja de Moreruela, entre otros el entrometimiento en la jurisdicción real, mediante no dejar al concejo elegir alcalde39. A la vez que los vecinos de la Granja piden justicia real ante los abusos de los monjes, siguen los de Requejo sin haber resuelto su propio pleito y vuelven a solicitar ante la corte que los amparen, manifestando claramente las intenciones del convento de conseguir que se vayan del pueblo: “Que el dicho avad y monjes han tentado e procurado de despoblar el dicho lugar y hechar a los dichos sus partes de sus casas y fasyendas por tener yermo el lugar e arrendar a yerba el termino, y quita a sus partes que no puedan pacer con sus bacas y yeguas en una dehesa del conçejo e les quitan que no corten legna en sus propios montes y por la mucha fuerza y vyolencia les quyere quitar prohibir e vedar que no pesquen en su rio”. Como ya en años anteriores habían solicitado que el consejo real administrara justicia, pero el corregidor de Zamora no lo había hecho: “y se quejaron al nrº consejo que mandaron al dotor Roenes, corregidor de Zamora, que hyciera información de todo ellos, e el dicho avad e convento llevaron a los dichos sus partes onze vacas las cuales hasta ahora están perdidas, el dicho dotor Roenes no entendió en el dicho proçeso e el dicho avad y conventuales no han restituido las dichas vacas”, 38 39 R.G.S. Leg. 150010, 247, 1500-10-8. R.G.S. Leg. 150010, 116, 2, 1500-10-30. 376 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO por lo cual los monjes no cesaban en los agravios: “y que todavia tientan de les faser los dichos agravios”; por lo que nuevamente “le piden cumpimiento de justicia”. Desde el Consejo Real nombran por comisionado al bachiller de la Corte el 30 de octubre de 1500, para que vaya en persona a Requejo y vea y se informe directamente y envíe por escrito al consejo la información sobre los agravios que el abad y monjes del monasterio de Moreruela cometen contra los vecinos del lugar de Requejo, apropiándose de un monte y dehesa del concejo40. El pleito con los vecinos de Granja sigue adelante y los frailes habían introducido en los términos del pueblo diversos ganados ovejunos para pastar, unos por dinero y otros de balde, amenazándoles con que dejaran el pleito, y el argumento de los vecinos es el mismo que los de Requejo: que la intención del monasterio es procurar despoblar los lugares para poder disponer de ellos libremente: “el prior y frayles ...nuevamente han metido más de seis o syete mil cabeças de ganago a herbajar en sus terminos de los de por dineros y de los de balde, disiendo que a cabsa desto dejaran el dicho pleyto porque sus ganados pastasen e que a no ser que ellos se obliguen a pagar al dicho monasterio lo que aquellos pagaban de ervaje ...e que sy asy pasara seria forçado despoblar el dicho lugare se yr a bebir e morar a otras partes”. Ante la súplica de los vecinos: “nos suplicaron que le fisiesemos justiçia”, desde la corte se manda al mismo bachiller de la Corte como comisionado unos días más tarde para que oiga las partes y que mientras el pleito esté pendiente “los frailes no innoven cosa alguna y si por la información hallara que los frayles han acostumbrado a meter ganados por dineros o sin ellos que obligase al conçejo a pagar el precio por el que han arrendado la yerba.41 Aparte de la primera tanda de agravios que el abad y monjes les habían hecho a los vecinos de la Granja, la presentación de la demanda ante la corte hace que la presión sobre los mismos se incremente: “el jueves que pasó, con poco temor de dios y de la justicia, dis que han metydo gente armada de Sant Cebrián e Castrotorafe e se han llevado de noche por mandado de los dichos avad e monjes fasta ciento çincuenta ovejas y como las llevaron de noche no saben donde están, e que demás desto envían a llamar a los vesinos del dicho lugar enviandoles mandamientos, con penas de dos mil mrs para los prender en el dicho monasterio e muchos de los más vesinos del dicho lugar por temor de los susodicho no osan dormir ni duermen en sus casas y se retraen y estan de noche en la yglesia a causa que no haya muertes ni escándalos”. Desde la corte se vuelve a dar nueva comisión al bachiller Andrés de la Corte para que determine sobre los agravios y robos de ganado que los vecinos de San Cebrián de 40 41 R.G.S. Leg. 150010, 277 R.G.S. Leg. 150011, 248. 377 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ Castrotorafe han cometido contra los de Granja de Moreruela, a instancias del abad y monjes del monasterio de Santa María de Moreruela42. Estas presiones provocan graves divisiones entre los propios vecinos, algunos de ellos ganados para su causa por los monjes, que se traducen en agresiones, sobre todo entre el alcalde elegido por el concejo y el que había puesto el abad: “El viernes pasado que se contaron 10 días, [o sea al día siguiente del robo de las ovejas] siendo alcalde por nos [la justicia real] en el dicho lugar Juan Guerra, con poco temor de nuestra justiçia y de los mandamientos y penas puestas que el dicho parte adversa [Esteban García, alcalde puesto por el abad] no usase el dicho ofiçio en nombre del monasterio ni trajese la vara, y por mandado del conçejo, el nuestro alcalde fue a prender a la parte adversa porque traía la dicha vara y usaba del dicho oficio, tomó una ballesta y la armó y le tiró una saeta que casi lo matara, ...y que el hijo de la parte adversa, Juan Esteban, le tiró una lanza y le dio en el hombro ... e asimismo Mateo Castro vino con una ballesta a mandamiento y favor de la parte adversa los quales todos lo quisieron matar lo qual farían si no fuera porque algunos favoreciendo nuetra justiçia le ayudaron a prender a la parte adversa y le tiene en la carçel pública del dicho lugar preso”. Ante el cariz que tomaba el conflicto se amplian los poderes al bachiller Andrés de la Corte para que determine en la querella criminal presentada por Juan Guerra, alcalde y vecino de la Granja de Moreruela, contra Esteban García, vecino del dicho lugar, que lleva vara de alcalde en nombre del monasterio de Santa María de Moreruela43. Antes de la llegada del comisionado, el alcalde Juan Guerra realizó la pesquisa de lo sucedido, prendió a varias personas y las llevó presas a la cárcel real de Valladolid, donde todavía estaban presos en febrero, por lo que los reyes dan comisión a los alcaldes de Casa y Corte para que determinen la causa44. Ante estos conflictos entre el monasterio y los vecinos de la Granja y de Requejo, que se alargaban y resultarían costosos para la hacienda conventual, parece que los monjes intentaron llegar a algún tipo de acuerdo, seguramente ante una instancia eclesiástica, como el provisor de la diócesis de Zamora, con ciertas penas a la parte que no lo cumpliera, que se aplicarían para la cámara papal, pero todo ello sin licencia real por lo que, ante el menoscabo de la jurisdicción real, desde la Real Chancillería se emplaza al concejo y a varios vecinos de Requejo: “A vos Juan de la Guerrra, alcalde del logar de Granja de Moreruela e a Juan Carbajo e a Antón Mayoral, regidores del dicho lugar, e a Pedro Arroyo, procurador del mismo, e a Luis de Valer, e Andrés de la Parra , e Juan de Benavente, vesinos del lugar de Requejo”. para que se presenten ante el Consejo Real a dar cuenta de por qué han comprometido ante otra instancia un pleito pendiente entre el monasterio y la jurisdicción de dicho R.G.S. Leg. 150012, 245. R.G.S. Leg. 150012, 314. 44 R.G.S. Leg. 150102, 368. 42 43 378 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO lugar, por causa de ciertas imposiciones en penas contra la parte que no lo cumpliere, aplicándolas al Santo Padre y otras personas, sin tener para ello licencia real45. La sentencia que había pronuncido el juez comisionado, Andrés de la Corte, no la conocemos en detalle, pero fue contraria al monasterio, por ello recurrieron en grado de apelación y agravio ante la Chancillería Real, cuyos jueces emplazan de nuevo al concejo de la Granja para que se presenten y aleguen lo que consideren que puede servirles en el pleito46. Como los pleitos seguían pendientes y los gastos eran crecidos los monjes, obligados por la falta de dinero “por quanto por ahora ellos ni el dicho monasterio no tienen ni pueden tener dineros para seguir los dichos pleitos con los dichos vecinos de la Granja así por estar gastando en muchas obras que dicho monasterio e ellos en su nombre han hecho y hacen cada dia así en reparos como en obras hechas e que hacen de nuevo como en otros muchos gastos como por sí los años estériles como en muchas limosnas que han hecho e hacen cada día a los pobres que a el vienen con el hambre que ha sido estos años pasados”47 llegan a un concierto con los vecinos de la Granja en 1509 dándoles a fuero perpetuo sus términos, divididos en quiñones, por 7.600 mrs de renta anual “e mas seis carneros”. Además llevaban una “yhera de bueis que hera una huebra para trabajar un dia a cada vecino de la Granxa y de Requexo y otra yhera de çinco carros de leña”, Tales acuerdos con los vecinos se mantuvieron vigentes durante casi sesenta años48. En 1502 los monjes, en medio de los conflictos con sus vasallos, ya debía de tener una buena cabaña de ganado ovejuno que pastaba en sus términos, y que periódicamente llevaban a salgar a la Fuente Salgada, de Villarrín. Desde antiguo existía un conflicto entre el monasterio y el concejo de Villafáfila por los pastos del término de La Tabla, que pertenecía a Moreruela pero en el que los vecinos de Villafáfila llevaban pastando desde tiempo inmemorial alegando que pertenecía a su jurisdicción concejil49. Ese año el convento presentó una demanda ante Pedro González de Almenara, vicario general del obispado de Zamora, y juez conservador apostólico del monasterio contra tres vecinos de Villafáfila, acusádoles de robo de ganado, cuando en realidad había sido una prenda de ganado por pasar por un pago de jurisdicción discutida. A pesar de las protestas de jurisdicción, el juez eclesiastico siguió con el proceso y los condenó a devolver los carneros tomados y a las costas. Aunque recurrieron ante la Real Chancillería de Valladolid, volvieron a ser condenados a restituir al convento su ganado. R.G.S. Leg. 150101, 207. R.G.S. Leg. 150107, 527. 47 Archivo Municipal de Benavente, Fondo de la casa del cervato Rodríguez, Sig. 11.1. Citado por CASQUERO FERNANDEZ José Andrés: “El Monasterio de Santa María de Moreruela en la Época Moderna”, in LARREZ IZQUIERDO, Hortensia, coord., Moreruela, un Monasterio en la Historia del Cister. Valladolid, 2008, pp. 144-165. 48 A.R.Ch.V. Registro de Ejecutorias C. 1293-25 49 RODRÍGUEZ, Elías- “El Monasterio de Moreruela y el Concejo de Villafáfila: historia de un conflicto secular”, in Anuario del I.E.Z.F.O. n.º 19, pp. 277-322. 45 46 379 ELÍAS RODRÍGUEZ RODRÍGUEZ Esta sentencia les permitió recuperar la jurisdicción de la Tabla y mantener la comunidad de pastos, de la que posiblemente se habían visto privados durante los últimos años de abadía comendataria50. Todos estos esfuerzos y gastos empleados en la reorganización de la hacienda del cenobio y recuperación de rentas, permitieron al monasterio iniciar una etapa de esplendor y alcanzar gran fama en todo el reino durante los siglos XVI y XVII, como recogen ya en el cambio de siglo “Es este sagrado conuento de la congregación de España, de los más estimados della y de los que más hijos principales ha dado a la Religión” Coronica Vol 5 año 1615. FUENTES DOCUMENTALES Archivo Histórico Nacional (A.H.N.) Clero. Caja 8236. Clero. Leg. 8236. Clero. Caja 8237. Códices y Cartularios. Libro 1184. Archivo Histórico de la Nobleza (A.N.): Osuna. Caja 462. Archivo General de Simancas (A.G.S.); Registro General del Sello (R.G.S.): Leg. 147909,138. Leg. 149407,96. Leg. 149407,96. Leg. 149705,184. Leg. 149706, 307. Leg.149806,23. Leg.149808,51. Leg.149808,242. Leg.149808, 243-8. Leg. 149809,217. Leg. 149810,304. Leg 150008, 454. Leg. 150010,233. Leg. 150010,247. Leg. 150010,116-2. Leg. 150010,277. Leg. 150011,248. Leg. 150012,245. 50 A.R.Ch.V. Registro de Ejecutorias C. 198-44. 380 MORERUELA EN LA ÉPOCA DE LOS REYES CATÓLICOS: RENACIMIENTO DE UN MONASTERIO Leg. 150012,314. Leg. 150101,207. Leg. 150102,368. Leg. 150107,527. Leg 150108, 207-1. Archivo de la Real Chancillería de Valladolid (A.R.Ch.V.): Pleitos Civiles. Ceballos f. C. 506 -1. Registro de Ejecutorias C. 1293-25. C. 198-44. C. 9, 22. Archivo Municipal de Benavente: Fondo de la casa del cervato Rodríguez, Sig. 11.1. BIBLIOGRAFÍA CASQUERO FERNANDEZ José Andrés: “El Monasterio de Santa María de Moreruela en la Época Moderna”, in LARREN IZQUIERDO, Hortensia, coord., Moreruela, un Monasterio en la Historia del Cister. Valladolid, 2008. FARTOS MARTÍNEZ, M. et alii -La Filosofía española en Castilla y León.Valladolid, 1997. FERNÁNDEZ COLLADO, Ángel - Historia de la iglesia en España Edad Moderna. Toledo, 2007. GRANJA ALONSO, Manuel de la – Estudio Histórico, Artístico, Religioso, Agrícola y Humano del Real Monasterio de Santa María de Moreruela. Zamora, 1990. HERRERO SALAS, Fernando – Actas Capitulares del Císter en el Monasterio de Palazuelos (1554–1817) I parte: Estudio Introductorio. Valencia, 2006. RODRÍGUEZ, Elías- “El Monasterio de Moreruela y el Concejo de Villafáfila: historia de un conflicto secular”, in Anuario del I.E.Z.F.O. nº 19, pp. 277-322. SUÁREZ FERNÁNDEZ, Luis - Los Reyes Católicos el Tiempo de la Guerra de Granada. Madrid, 1989. VENTURA, Concha María; GARCÍA DE ACILU, José María – “Renacerás de las llamas: Moreruela” in Cisterciun 235. Año 2004. Pág.307. YEPES, Antonio de: Coronica General de la Orden de San Benito. Tomo V. Valladolid 1615. 381 382 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBÉ DE MORIMOND AVEC LA PÉNINSULE IBÉRIQUE AU MOYEN ÂGE BENOIT ROUZEAU* Introduction L’abbaye de Morimond, située dans l’ancien diocèse de Langres, a été selon la tradition cistercienne fondée en 1115, la même année que Clairvaux. C’est plus vraisemblablement vers 1117-1118 que le monastère bassignot fut fondé si l’on en croit les travaux de Michel Parisse1. Les vestiges laissés par la quatrième fille de Cîteaux sont sans rapport avec son importance dans l’ordre cistercien. Le site est très largement détruit après la Révolution mais il conserve les restes en élévation de l’abbatiale consacrée en 1253. Elle possède un chevet plat et des dimensions impressionnantes d’environ 80 m de long qui a influencé la construction de plusieurs édifices en Europe centrale. Le monastère est détruit durant la guerre de Trente Ans entre 1618 et 1648. Les abbés et les moines vont reconstruire un ensemble architectural de tout premier plan. A la Révolution, le site est rapidement démantelé et ne reste en élévation que l’entrée de l’abbatiale et la bibliothèque la surmontant. Sous la prairie un vaste ensemble de bâtiments correspondant à l’hôtellerie est mis au jour entre 20032017 (deux fois 35 m x 11 m). Ce bâtiment daté du milieu du XIIe siècle accueillit des laïcs et des religieux en grand nombre dans le Bassigny (fig. 1). C’est l’identification de cette fonction qui m’a alors entraîné sur les pas des abbés de Morimond dans leurs déplacements au cœur de la chrétienté2. * Docteur en histoire. Chercheur associé au LAMOP, UMR 8589,Université de Paris 1 1 PARISSE (M.), « La formation de la branche de Morimond », in Unanimité et diversité cistercienne. Filiations-Réseaux-Relectures du XIIe au XVIIe siècle, Actes du quatrième colloque international du C.E.R.C.O.R., Dijon, 23-25 septembre 1998, publication de l’Université de Saint-Etienne, 2000, p. 87-102. J’adresse mes remerciements à Philippe Josserand et Luis Filipe Simoes Dias de Oliveira pour l’aide qu’ils m’ont apportée. 2 ROUZEAU (B.) Le patrimoine hydraulique et industriel de l’abbaye de Morimond : énergie et matériaux Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 383-419 383 BENOIT ROUZEAU Fig. 1 : les vestiges de l’hôtellerie de l’abbaye de Morimond (Luc Thomas). Comment comprendre l’orientation que prend la filiation de l’abbaye de Morimond vers la péninsule ibérique alors qu’avec un premier abbé de langue allemande, Arnold et puis une succession de filles fondées dans l’Est de la France actuelle l’abbaye se développe d’abord dans le monde germanique ? D’autant plus qu’en 1138 arrive un nouvel abbé d’origine germanique, Otton de Freising, oncle de l’empereur Frédéric Barberousse dont il écrira une vita. Dans sa contribution en 1998 lors du congrès du CERCOR, René Locatelli montrait le succès rapide de l’ordre cistercien au XIIe et XIIIe siècle avec une expansion fulgurante du nombre de monastères qui atteint presque 700 unités3. Morimond devient, du fait de son importante filiation, à partir du milieu du XIIe siècle, sous l’abbatiat de Lambert, abbé de Cîteaux et ancien abbé de Morimond, la 4e fille de Cîteaux avec rang d’abbé entre la fondation et la guerre de Trente Ans, d’après les sources écrites et archéologiques, mémoire de doctorat de l’Université de Paris 1 sous la direction de Paul Benoit et Michel Parisse, novembre 2008, 3 vol. et ROUZEAU (B.), « Les voyages de l’abbé de Morimond au Moyen Âge », Les cahiers de Léoncel, 2013, p. 4-30. Pour les aspects archéologiques voir ROUZEAU (B.), Morimond, Archéologie d’une abbaye cistercienne (XIIe-XVIIIe siècles), PUN, édulor, 2019, 293 p., à paraître. 3 LOCATELLI (R.), « Les cisterciens et l’espace français », in COTTIER (dir.), Unanimité et diversité cistercienne. Filiations-Réseaux-Relectures du XIIe au XVIIe siècle, Actes du quatrième colloque international du C.E.R.C.O.R., Dijon, 23-25 septembre 1998, publication de l’Université de Saint-Etienne, 2000, p. 51-85. 384 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE père et de nombreuses obligations incombant à sa charge4. En effet, dès le milieu du XIIe siècle, la filiation de Morimond apparaît comme la seconde de l’ordre derrière celle de Clairvaux. Ce phénomène se renforce encore jusqu’en 1250, où l’abbaye du Bassigny gère une filiation de 165 monastères, 339 dépendent alors de Clairvaux et 70 de l’abbaye de Cîteaux. En 1300 l’étude du père Dimier sur sa descendance indiquait une filiation de 213 monastères5. C’est sous l’abbatiat de Gaucher que Morimond connaît sa période la plus faste en fondant 13 abbayes-filles (sur 27 au XIIe siècle) : Ebrach en 1127, Theuley en 1131, Clairefontaine en 1132, Villers-Bettnach, Bithaine et Altenberg en 1133, Morimundo en 1134, Beaupré et Heiligenkreuz en 1135, Aiguebelle, Berdoues, L’Escale-Dieu et Bonnefont en 1137. C’est donc à partir de cette époque que le tropisme du sud concerne Morimond. Ces trois abbayes vont être la base avancée de la pénétration espagnole. C’est le groupe fondé par les filles de Morimond de part et d’autre des Pyrénées d’une vingtaine de maisons qui ici cristallise notre propos. On retrouvera entreautre, Santa-Fe, Rueda et Veruela en Aragon, et Fitero, et Oliva en Navarre. La Castille concentrera le plus grand nombre de monastères dans la filiation de Morimond, soit dix maisons dont San Pedro de Gumiel, Rioseco6, Fig. 2 : la filiation de Morimond dans le sud de la France et dans la Péninsule Sacramenia, Huerta ibérique (d’après Hubert Flammarion et Ansèlme Dimier). et Valbuena. Plus loin on retrouve Calatrava la vieja et Calatrava la Nueva et l’ordre d’Alcantara en Extramadure. Au Portugal, Avis est placé dans la dépendance de Morimond et l’Ordre du Christ est approuvé par le pape Jean XVII en 1319. Il prend la suite des templiers à PARISSE (M.), « Morimond européenne : de l’Ebre à l’Elbe » C.H.M. n° 196-199, 1er et 2e semestre 1994, p. 1-15. ; et PARISSE (M.), « La formation de la branche de Morimond », op. cit. 5 DIMIER (Dom M. A.), « Morimond et son empire », M.S.A.H.L., 1959, t. 5, p. 45-80. 6 Voi le cartulaire en ligne [http://pares.mcu.es/ParesBusquedas20/catalogo/show/2609694] 4 385 BENOIT ROUZEAU Tomar. Il est placé sous la règle de Calatrava dans la filiation de Morimond, sous la dépendance d’Alcobaça (figure 2 : la filiation de Morimond dans le sud de la France et dans la Péninsule ibérique)7. Ce groupe comprend aussi les ordres militaires de la péninsule ibérique qui sont affiliés à Morimond à partir de 1187 (dont Calatrava)8. Selon l’enquête de Maur Cocheril, reprise par Adeline Ruquoi, 28 monastères dépendent de Morimond, contre 48 à Clairvaux et 8 à Cîteaux9. Ces relations sont à remettre dans le contexte de la Reconquista dont le cadre est la Péininsule ibérique entre les années 1080 et 1492. Ces voyages sont imposés par le fonctionnement même de l’ordre cistercien. Les sources normatives dressent la liste des obligations des abbés cisterciens envers leurs abbayes filles. La charte de Charité d’Etienne Harding dès 1119 traite en premier lieu de la visite de l’abbé du « nouveau monastère » à ses abbayes filles et souligne l’obligation d’une visite annuelle. Il a aussi la possibilité de se faire remplacer par un autre abbé. Il est rappelé que le visiteur ne doit ajouter foi aux déclarations qu’après une enquête sérieuse. Il doit observer si les décisions anciennes sont appliquées. Il intervient quand l’abbaye est trop endettée. Il peut aller jusqu’à déposer ou destituer les abbés et les officiers. Il peut relever de l’obligation d’hospitalité si les revenus de l’abbaye sont trop faibles ou renvoyer des novices, trop jeunes et/ou trop nombreux, et doit veiller à l’observation des statuta10. Ces sources indiquent aussi que le visiteur peut également être sanctionné par le chapitre pour des abus comme des dépenses excessives, de la corruption et le fait de n’avoir pas visité. Un arrangement intervient en 1226, où l’abbépère visite lui-même tous les trois ans sa fille éloignée, et y envoie un moine les autres années. L’abbé-père assure la gestion de l’abbaye fille durant la vacance abbatiale. C’est lui qui convoque les abbés dans les maisons pour que, avec les moines, ils décident d’un GRELOIS (A.), « L’implantation cistercienne de part et d’autre des Pyrénées : quelques remarques préliminaires », dans FERRAN (L.), Association Histoire et Archéologie au Pays d’Aubazine, Espace et territoire au Moyen Âge. Hommage à Bernadette Barrière, Bordeaux : Ausonius/Fédération Aquitania, 2012, p. 51-62 ; BERMAN (C.-H.), « Origins of the filiation of Morimond in southern France. Redating foundation charters for Gimont (Gers), Villelongue (Aude), Berdoues (Gers), l’Escaldieu (HautesPyrénées), and Bonnefont en Comminges (Haute Garonne) », Cîteaux, 1990, t. 4, fascicule 3-4, p. 256-277. 8 Pour les aspects uniquement liés aux ordres militaires voir JOSSERAND (Ph.), “D’un couvent à l’autre : l’abbaye de Morimond et les ordres militaires hispaniques de la filiation cistercienne au Moyen-Âge” dans VIARD (G.), L’abbaye cistercienne de Morimond, histoire et rayonnement, Actes du colloque de Langres, 2003, Langres 2005, p. 335-353., JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir dans la Péninsule ibérique les ordres militaires dans le royaume de Castille 1252-1369, Casa de Velazquez, Madrid, 2004, 912 p. DIAS de OLIVEIRA (L.-P.), « Em torno da normativa de Calatrava : Umas Definiçoes inéditas de finais do seculo XIII » in Cister e as Ordens militaras na idade media, José ALBUQUERQUE-CARREIRAS (J.) de AYALAMARTINEZ (C.), (eds.), p. 105. 9 RUQUOI (A.), « Les cisterciens et la Péninsule ibérique », dans Unanimité et diversité cisterciennes, Saint-Etienne, CERCOR, Publications de l’université, 2000, p. 487-523., p. 3. ; COCHERIL (M.), Études sur le monachisme en Espagne et au Portugal, collection portugaise sous le patronage de I’Institut Français au Portugal, Paris-Lisbonne, 1966, 445 p. 10 MANH (J.-B), L’Ordre cistercien et son gouvernement des origines au milieu du XIIIe siècle (1098-1265), Paris, de Brocard, nouvelle éd., 1982, 320 p. 7 386 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE nouvel abbé sous sa présidence. Ces visites imposées confortent les réseaux cisterciens, familiaux, politiques et amicaux. Elles permettent tout à la fois, une réaffirmation des liens de la communauté, une surveillance des hommes mais aussi des territoires. Les idées circulent lors de ces voyages comme les livres qui suivent l’abbé. Ces solidarités pourront être mis en œuvre à la demande des puissants, souverain pontife et/ou roi, ordre cistercien. Il existe des traces tangibles de ces voyages, Un bon exemple est fourni par le manuscrit latin n° 11384 provenant de Pontigny. C’est un recueil de lettres-types destiné à l’usage des cisterciens, daté du XIIIe siècle et qui contient cent-cinquante exemples de lettres « type »11. Ces lettres renseignent sur les nombreux voyages effectués par les moines et les abbés. Ces derniers semblent très souvent en voyage, si bien que lorsqu’ils souhaitent se rencontrer, il faut d’abord chercher à savoir quand et où pourra se dérouler l’entrevue. Les abbés cisterciens sont donc contraints de beaucoup voyager. Quelles sont les traces des voyages de l’abbé de Morimond vers la Péninsule ibérique ? L’abbé de Morimond a joué au côté des trois autres filles de Cîteaux un rôle considérable qui l’a amené à se déplacer souvent. La source principale pour étudier ses déplacements est les statuts de l’Ordre (Tableau 1). Ces statuts sont écrits chaque année au mois de septembre lors du chapitre général qui se tient à Cîteaux, où tous les abbés de l’ordre sont censés se rendre. L’édition de ces statuts par Canivez laisse apparaître que cinq cent quatre-vingt-trois statuts concernent l’abbaye de Morimond, leur réédition pour le XIIe siècle par Chrysogonus Wadell laisse apparaître le poids de Morimond. Le volet ibérique concerne 75 statuts soit environ 14 % de ceux concernant Morimond. Tableau 1 : les statuta concernant l'abbaye de Morimond. Les statuts ne sont pas néanmoins la seule source concernant les voyages de l’abbé de Morimond. Le livre de l’abbé Dubois qui retrace l’histoire de l’abbaye en comprend une vingtaine de mentions, tout comme certaines chartes. Les archives espagnoles des ordres militaires fournissent aussi de précieux renseignements, comme le bullaire de Calatrava et d’Alcantara par exemple12. L’étude des fonds archivistiques haut-marnais, principalement le bullaire13 et la liasse des ordres militaires donnent une foule de renseignements14. Le recensement et l’édition de l’ensemble de la documentation du XIIe siècle encore existante a été réalisé dans l’ouvrage d’Hubert Flammarion en 201415. BENOIT (J.-L.), « Aspects de la vie quotidienne à Pontigny au XIIIe siècle », in Actes du colloque des Bernardins, juin 2009, p. 103-128. 12 ORTEGA y COTES (I-J), ALVAREZ de BAQUEDANO (J.-F.), ORTEGA ZUNIGA y ARANDA (P.), Bullarium Ordinis Militiae Calatrava per annorum seriem nonnullis, Madrid, 1761, 872 p. 13 ADHM, 8H2 et 8H3. 14 ADHM 8H5 15 FLAMMARION (H.), Recueil des chartes de l’abbaye de Morimond au XIIe siècle, BREPOLS, ARTEM, 2014, 558 p. 11 387 BENOIT ROUZEAU Deux inventaires sur papier établis au XVIIe siècle, celui réalisé en 1628 et celui fait sous l’abbatiat de Dom Henry Duchêne (1683-1728) porte un titre qui montre encore à cette époque l’attachement à la Péninsule ibérique : « Inventaire des titres qui justifient que l’Abbaye de Morimond est le chef supérieur immédiat, visiteur et réformateur des ordres, milice , maîtrise de Calatrava, Alcantara, Montesa, Avis et Christ es royaume Espagne et Portugal et que même il a droit de nommer au grand prieuré de Calatrava dont les originaux sont dans les archives de l’abbaye de Morimond au diocèse de Langres ». Ces deux inventaires dressent une liste des définitions établies par les abbés de Morimond pour les ordres militaires, mais mentionnent aussi leurs visites. De même le père Cocheril a travaillé sur un manuscrit de 1737 conservé à la bibliothèque de Port-duSalut16. Ce manuscrit copie une version plus ancienne d’un mémoire intitulé : « Mémoire extrait des archives et du se-crétariat de l’abbaye de Morimond con-cernans les ordres militaires dont le Rme abbé est père et supérieur immédiat »17. Une série de copies d’actes et de résumés concernant la Péninsule ibérique est conservée de dans le fonds 8H5 (fig 3. : Extrait du fond 8H5 ADHM). Les traces de scellement dans les actes sont aussi une manière de repérer les déplacements. Si des actes sont scellés alors que l’abbé de Morimond séjourne, dans une abbaye, on ne manquera pas de lui demander d’apposer son sceau. Le travail d’enquête est long, il faut rechercher les fonds édités du XIIe à la fin du XVe siècle, ce travail n’est que partiellement réalisé en fonction de la documentation éditée disponible18. A titre d’exemple, les 542 documents d’époque médiévale concernant Veruela, Fig.3 : Extrait du fond 8H5 ADHM petite fille de Morimond, ne comportent 16 COCHERIL (M.), op. cit., p. 378. Il indique que ce manuscrit de 21,5 x 33,5 cm fait par un moine de Morimond n’est pas encore côté. Il le désigne sous le nom de « codex Morimond ». 17 COCHERIL (M.), op. cit., p. 378. 18 MONTER de ALBIAC (Ch.), Collection diplomatica del monasterio de Fitero (1140-1210), 1979, 630 p. ; HERRERO-SALAS (F.), Collection diplomatica del monasterio de Santa Maria de Palazuelos XIe-XVe, 2002, 527 p. ; HERRERO-SALAS (F.), Collection diplomatica del monasterio Valbuena del Duero XIeXVe, 2016, 440 p. ; MUNITAZ-LOINAZ (J. A.), Libro bercero del monasterio de santa maria de Oliva : colection documental (1132-1500), 1984, 127 p. 388 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE aucune trace de scellement, selon les renseignements que m’a donné Rodrigues Lajusicia qui a édité ces documents19. Le fond conserve juste deux bulles pontificales de Clément IV en 1265 et de Benoit XII en 1335 qui mentionnent l’abbé de Morimond lors de concession générale de droits à l’ordre cistercien. C’est donc une enquête de longue haleine loin d’être terminée. 1 – Au XIIe siècle l’impulsion de l’abbé Lambert et du Chapitre général. Selon Alexis Grélois, la présence de l’abbé de l’Escale-Dieu à Morimond en 1150, ainsi que d’autres arguments tendent à légitimer le voyage de Gautier en 1136 dans le sud de la France et peut-être en Espagne. Sa présence est attestée dans les fonds des abbayes fondées en 1137, à savoir, Aiguebelle, Bonnefont, Berdoues et l’Escale-Dieu, premières traces d’un déplacement vers le sud20. Des chartes le mentionnent à Berdoues en 1142, sans doute pour légitimer le rattachement à Morimond d’après ce que dit Constance Berman21. Le rang obtenu par Morimond au moment où l’abbé Lambert devient abbé de Cîteaux trouve un écho dans les bulles de protection accordées par les papes : entre 1178 et 1238 où sept privilèges pontificaux dressent entre-autre la liste des abbayes-filles issues de Morimond22. Procédé assez unique dans l’ordre si l’on excepte Savigny23. Dans la bulle de 1198, on observe dans la liste des filles, les trois abbayes au nord des Pyrénées, SaintPierre de Gumiel et la maison de Calatrava24. Les dates de fondation de ces abbayes ont pu évoluer dans le temps, Alexis Grélois nuançant certaines des conclusions de Constance Berman25. Il indique qu’elles sont assez difficiles à fixer, au vue des sources disponibles. Les premiers temps de ces monastères sont caractérisés par une phase d’errance, classique dans le renouveau érémitique de la fin du XIe et du début du XIIe siècle26. Si en 1186, le pape Alexandre III place les ordres militaires dans la mouvance cistercienne, c’est véritablement 1187 qui marque les débuts d’une relation importante entre les abbés de Morimond et la Péninsule ibérique, avec l’affiliation de l’ordre de RODRIGUEZ-LAJUSTICIA (F-S), « Documentos del siglo XIV del monasterio de Santa Maria de Veruela no recogidos en su coleccion diplomatica », in TVRIASO XXIII, 2017, p. 161-194. Ainsi que les documents complémentaire dans sa thèse sur Veruela soutenue en 2007. 20 GRELOIS (A.), « L’implantation cistercienne … », op. cit., p. 59. 21 CAZAURAN (abbé J.-M.), Cartulaire de l’abbaye de Berdoues, La haye, Martinus, Nyhoff, Paris, A. Picard et fils, 1905, 876 p. mentione la présence de l’abbé de Morimond dans les chartes 82, 126, 268 et 350. BERMAN (C.), « La filiation de Morimond dans le sud de la France », in L’abbaye cistercienne de Morimond VIARD (G.°, (Dir.), 2005, p. 322. 22 FLAMMARION (H.) (2014), op. cit. 23 FLAMMARION (H.) (2014), op. cit. p. 317-322. 24 ADHM 8H2. 25 GRELOIS (A.), « L’implantation cistercienne … », op. cit., p. 51-62 ; BERMAN (C.-H.), « Origins of the filiation of Morimond …», op. cit. 26 GRELOIS (A.), « L’implantation cistercienne … », op. cit., p. 56. 19 389 BENOIT ROUZEAU Calatrava à la quatrième fille de Cîteaux27. On le sait par ailleurs, dès cette époque, l’abbé voyage beaucoup. En 1190, pour régler la question d’un chanoine de Laon qui a voulu devenir moine de Morimond et puis est retourné au statut de clerc séculier, c’est le prieur qui s’en occuppe. Il traite par courrier le problème en indiquant « notre abbé est parti dans une région lointaine en emportant son sceau avec lui »28. Il faut attendre la fin du XIIe siècle avec la conservation des statuts de l’ordre pour voir apparaître les premiers signes tangibles des déplacements des abbés. En 1191 ; l’abbé de Morimond, doit enquêter sur la résignation avec tumulte de l’abbé de Sacramenia. Quatre statuts de l’année 1194 semblent indiquer que l’abbé de Morimond, Pierre, a pris la route du sud du royaume de France. Il doit faire appliquer une décision de l’abbé de Clairvaux à propos d’une querelle entre Grandselve et Gimont. Il est aussi commis pour des excès à l’abbaye de L’Escale-Dieu (900 km). Avec l’abbé de Boulbonne, ils doivent examiner une demande du roi d’Aragon et faire un rapport au chapitre suivant. Cette même année, le chapitre général décide de punir sévèrement les abbés qui ne viendront pas au chapitre général et il confie l’annonce de la décision à l’abbé de Morimond Pierre pour la Provence, la Gascogne et l’Espagne. En 1194, l’affiliation de San Pedro de Gumiel par Alphonse VIII de Castille à Morimond renforce encore l’attraction de la Péninsule ibérique dans les voyages de l’abbé de Morimond. Pierre est à Tolède dès le 24 novembre pour recevoir ce monastère des mains du roi Castillan. Benoît Chauvin indique que la formule « vobis dompno Guidoni Marimondensi [sic] abbati » indique sa présence sur place29. Dès le 26 janvier 1195, Guy Ier est à Calatrava (1650 km de Morimond) où il édicte un règlement destiné à régler les relations entre l’abbé de Gumiel, le maître de Caltrava et les chevaliers30. Nous faisons notre l’hypothèse de Benoit Chauvin, qu’au cours du même voyage il est de passage au monastère d’Huerta pour recevoir le renoncement de l’abbesse de Tulebras et sa tutelle sur les abbayes de Perales, Canas et Gradefes et leur soumission à celle de Las Huelgas. Il créait une réunion annuelle (chapitre, le jour de la saint Martin, où toutes les abbesses des royaumes de Castille et de Leon devraient se réunir31. ORTEGA y COTES (I-J), ALVAREZ de BAQUEDANO (J.-F.), ORTEGA ZUNIGA y ARANDA (P.), Bullarium Ordinis Militiae Calatrava per annorum seriem nonnullis, Madrid, 1761, p. 20-21. 28 FLAMMARION 2014, op. cit. 29 CHAUVIN (B.), « Les abbés de Morimond… », op. cit., p. 382. ; Archivo historico nacional, Gumiel, R– 1. ; a) Manrique, Annales, t. 3 (voir n. 8), p. 283–284. – b) Julio Gonzales, El reino de Castilla en la epoca de Alfonso VIII, t. 3, Madrid 1960, p. 117–118, n° 628. 30 Indic. D. Archivo historico nacional, Ordenes militares, Registro … de la orden de Calatrava, t. 1, fol. 133. Copie (1644). ; a) Derek W. Lomax, Algunos estatutos primitivos de la orden de Calatrava, dans Hispania 31 (1961), p. 491–492. ; DIAS de OLIVERA (L.-P.), op. cit., p. 106. Nuance cette assertion, pensant plus à l’abbé de San Pedro de Gumiel. 31 CHAUVIN (B.), « Les abbés de Morimond… », op. cit., p. 383. ; A. Arch. mun. Burgos, H, leg. 20, no 772., a) Manrique, Annales, t. 3 (voir n. 8), p. 340–341. – b) Jose Manuel Lizoain Garrido, Documentacion del monasterio de Las Huelgas de Burgos, t. 1 (1116–1230), Burgos 1985, p. 84–85, no 48; BAURY (G.), Les religieuses de Castille. Patronage aristocratique et ordre cistercien, XIIe-XIIIe siècles, PUR 2012, 332 p. 27 390 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE En 1197, Wicelon dont l’abbatiat est bien attesté par la documentation écrite est chargé de rechercher la vérité à Fitero32 Deux ans plus tard, Il redresse l’abbé d’Oliva coupable d’avoir retenu un de ses moines, Martin, contre l’avis de son abbé-père, celui de Morimond33. En 1199, une bulle du pape Innocent III mentionnant l’abbé Wicelon de Morimond et celui de Salvaterra, rappelle les règles édictées pour la milice34. Il s’agit de la prière du vêtement et de la nourriture. La même année le chapitre commet les abbés de Morimond et de la Ferté pour régler une querelle entre l’abbaye de La Crète et sa fille espagnole Matallana 35 (Fig. 4 : la filiation directe de Morimond dans la bulle d’Inoncent III) Fig. 4 : la filiation directe de Morimond dans la bulle d’Inoncent III 2 – Des voyages qui semblent plus fréquents au XIIIe siècle Les abbés du début du XIIIe siècle continuent à jouer un rôle important dans la gestion de l’ordre, dans les visites de leur filiation. Ils ont souvent été des abbés de la filiation avant de devenir abbé de Morimond. Ils répondent régulièrement aux sollicitations des papes et des empereurs. La péninsule ibérique prend progressivement de l’importance dans les voyages surtout en cette période de forte Reconquista avec l’affiliation à Morimond du deuxième ordre militaire, Alcantara en 121336. Pour l’abbé Wicelon (1198-1203), certains doutes subsistent dans la formulation sur la présence effective de l’abbé lors de nomination pour des visites lointaines. Il est nommé en 1202 et 1203 pour corriger les abbés de l’Escale-Dieu et Sacramenia et régler leur litige. Rien ne dit qu’il s’y rendit et s’il en profita pour passer dans la Péninsule CANIVEZ (J.-M.), 1197, (septembre), § 42, Cîteaux. CANIVEZ (J.-M.), 1199, (septembre), § 14, Cîteaux. 34 Bullaire calatrava, p. 30-31. ; DIAS de OLIVERA (L.-P.), op. cit., p. 107. 35 CANIVEZ (J.-M.), 1199, (septembre), § 66, Cîteaux., D’après Hubert Flammarion, il s’agit probablement de la même affaire que celle de 1197 (1197/17, Waddell p. 387), à propos de laquelle l’abbé de La Crête avait contredit nimis irreverenter une lettre de l’abbé de Cîteaux et avait été sanctionné. 36 RUQUOI (A.), « Les cisterciens et la Péninsule ibérique », …, op. cit., p. 487-523. ; O’Callaghan, «The Affiliation of the Order of Calatrava with the Order of Citeaux», p. 48-49 ; Lomax, « Algunos estatutos primitivos de la orden de Calatrava », p. 488; Ayala Martínez, « Órdenes militares castellano-leonesas y benedictismo cisterciense », p. 545-546. ; DIAS de OLIVERA (L.-P.), op. cit., p. 108. 32 33 391 BENOIT ROUZEAU ibérique37. Il doit aussi réprimer l’abbé de Rioseco qui n’est pas venu au chapitre général et a refusé l’hospitalité à des envoyés38. Le prieur de Valbuena après avoir refusé l’accès aux envoyés de l’abbé de Cîteaux est même condamné à faire le voyage en sens inverse jusqu’à Morimond en 120239. L’abbé suivant, Heidenreich semble édicter des définitions pour l’ordre militaire de Calatrava en 1205, 1210 ou 1211, mais il n’est pas sûr qu’il fut présent les trois fois dans la Péninsule40. Néanmoins, en 1205, son déplacement fait suite à une demande du pape pour appeler à la générosité pour la milice41. En 1209, le chapitre général qui doit répondre à une nouvelle demande des frères de Calatrava commet l’abbé de Cîteaux et celui de Morimond pour y répondre42. Il leur est concéder de rester derrière le chœur et de porter le scapulaire quand ils sont dans l’abbaye. Cela poussa sans doute Heindenrich à entreprendre le voyage de Calatrava en 1210 pour transposer toutes ces réflexions dans des nouveaux statuts de la milice43. L’abbé doit se rendre en Aragon en 1207, pour enquêter sur la fondation de nouvelles abbayes par celles de Veruela et celle de Piedra et faire rapport au chapitre suivant44. Il doit enquêter sur le déplacement du monastère de Rioseco45. Pour Benoit Chauvin l’emploi du terme « considerare » ne permet pas de trancher sur un réel déplacement. Alors qu’Heindenreich part en Espagne à la forteresse de Calatrava où il laissera des définitions, le pape Innocent III lui confie une nouvelle mission. Le 10 décembre 1210, il le charge de juger les religieuses de Huelgas avec les évêques de Palencia et de Burgos pour des questions de juridiction spirituelle 46. Une source unique indique que Léopold VI, duc d’Autriche, qui l’a rencontré à Wurtzbourg, le retrouve vraisemblablement à Las Navas de Tolosa en 1212. Cette référence est reprise par Nicolaï Bern, Nous suivons Benoit Chauvin quand il ne retient pas sa présence à las Navas de Tolosa faute de preuvres suffisantes pour l’instant47. CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1202, &8 et 1203 &11, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p. 191. CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1202, &17, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p 391. 39 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1202, &27, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p. 391. 40 ADHM, 8H5. 41 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1205, &52, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p. 398. 42 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1209, &47, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p. 398. 43 Il existe un débat sur cette l’année de cette visite de l’abbé de Morimond (appelé Guy) voir pour cela, LOMAX (D.), « Algunos estatutos primitivos de la orden de Calatrava », op. cit., p. 486-487; MATOS (R.A.), « As Regras da Ordem Militar de Avis e a ordem de Cister», Congresso Internacional sobre San Bernardo e o Cister en Galicia e Portugal. Actas, Ourense, 1992, vol. I, p. 608-610 ; MARTINEZ (A.), « Órdenes militares castellano-leonesas y benedictismo cisterciense », op. cit., p. 546. ; DIAS de OLIVERA (L.-P.), op. cit., p. 109. 44 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1202, &32 et 56, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p. 395. 45 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1207, &53, Indic CHAUVIN (B.), op. cit., p. 395. 46 RUQUOI (A.), « Les cisterciens et la Péninsule ibérique », …, op. cit., p. 487-523., p. 20, 47 NICOLAÏ (B.), « Morimond et l’architecture cistercienne en Allemagne », Bulletin monumental, 1993, t. CLI, p. 181-197. ; CHAUVIN (B.), « Les abbés de Morimond … », op. cit., p. 399. 37 38 392 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE En 1208, un moine de Orta doit aller à Morimond car il s’est conduit de manière inconvenante à l’égard d’un convers. C’est à plus de 800 km. En 1213, Morimond est commis car les moines de Oliva ont attaché leur abbé48. Ce dernier doit aussi intervenir à Turcisa49. Au XIIIe siècle Calatrava se fait l’écho de la reconquête en adressant des lettres au chapitre général comme une propagande de son action, cela se revérifie vers 1230 lors de la conquête de la région de Marton et de l’aide que la milice apporta à l’infant dans cette œuvre50. On ne sait s’ils adressèrent directement des lettres à l’abbé de Morimond. Cette pratique est déjà attestée lors de la bataille de las Navas de Tolosa sous le règne d’Alphonse VIII51. En 1233, les disputes entre Morimond et San-Pedro-de-Gumiel liées à Calatrava repartent. Les abbés de Valbuena et de Sacramenia doivent régler la question alors que l’abbé de Morimond est lui nommé pour résoudre une exaction faite par la milice de Calatrava52. Les voyages dans la Péninsule ibérique semblent plus réguliers, après le déplacement de 1235-1236 où l’abbé de San-Pedro de Gumiel renonce à nommer le prieur de Calatrava. Cela doit permettre de régler la brouille entre les deux abbés qui date de 1233 au moins, mais qui s’est renforcée en 123553. Une bulle de Grégoire X confirme que le roi de Castille autorise l’abbé de Morimond à corriger Calatrava et Gumiel54. A défaut de voyager, l’abbé de Morimond et les maîtres de Calatrava s’écrivent. Un seul document à notre connaissance témoigne de ses relations épistolaires qui devaient être nourries, il est daté de février 1237. Conservé dans le recueil inventaire des titres de l’abbaye écrit à la fin du Moyen Age et conservé à la Bibliothèque de Bourbonne-lesBains, il n’en reste plus qu’une copie partielle de quelques lignes où il est indiqué : « Frère M., maître de Calatrava, remercie l’abbaye de Morimond pour la visite des abbés de Berdoues, Valbuena, Oliva, et Veruela et frère V., moine de Morimond, qui ont visité et réformé dans la paix et la concorde le monastère de Calatrava qui est fille de Morimond » (figure 5) 55. CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1213, &19. CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1213, &52. 50 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 142. 51 LOMAX (D.), « La conquista de Andalucia a través de la histographia europea de la epoca », p. 38-39. 52 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1233, &59 et 61. 53 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1235, &27. 54 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1235, &37 ; Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit., p. 68. 55 L’original perdu et la copie partielle est dans “cartulaire” de Morimond, (1476-1480), Bibl. mun. Bourbonneles-Bains, ms. 1, p. 231, n° CC XXVI, ROUZEAU (2008). «CC XXVI, Fr. M. magister Calatrava et conventus ejus loci reddit nobis gratiarum actiones pro eo quod per coabbtes nostros de Berdonis, de Valle bona, de Oliva et de Verola et per fratrem V. monachorum nostrorum auctoritate nostra domum calatravae visitantes inter ipsos pacem et concordiam reformaverant confessi sunt quod se esse filios Morimundi nec matrem aliam habere in ceterum. Datum anno domini M CC XXXVII, XII […] februarii ». 48 49 393 BENOIT ROUZEAU Fig. 5 : extrait du cartulaire de Bourbonne-les-Bains En 1238, le 22 août, l’abbé de Calatrava et l’abbé d’Alcobaça visitent Avis au Portugal, sans l’intervention de l’abbé de Morimond56. Depuis le Bassigny, l’abbé Conon se rend en Espagne en 1241 pour aller réformer Calatrava57. Il semble y retourner en 1245 et en 125558. En 1245 sans doute par l’entremise de l’abbé de Morimond et de ses réseaux de filiation, le duc de Pologne réclama au Chapitre général qu’on lui envoya des troupes pour protéger la frontière est de son royaume, peut-être en pensant à la milice de Calatrava59. A partir de 1247, l’abbé de Morimond obtient de pouvoir déléguer la visite des filles de Calatrava au prieur de Calatrava60. Dès l’année suivante, il est chargé de régler une question liée à la fréquence des chapitres61. Le chapitre général ordonne en 1249 que les frères de Calatrava soient confiés au prieur et sous prieur de la maison nommés par l’abbé de Morimond62. Les statuts de 1249 n’indiquent pas un déplacement de l’abbé mais plutôt un remplacement par les abbés de San-Pedro de Gumiel et de Valbuena. La difficulté à ramener les frères de Calatrava à la raison poussa sans doute à un voyage dès 125063. Dans les décennies 1240 et 1250, la monarchie et ses relais monastiques contestent les prérogatives de Morimond, sans succès64. L’abbé est commis pour régler le problème entre Alcantara, Calatrava et des grands d’Espagne au sujet de droits de pâturage65. La question de la subordination des moines de la milice au prieur fut d’actualité jusqu’au chapitre de 125166. En 1255, avec l’accord d’Alphonse X, l’abbé de San-Pedro-de-Gumiel Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit. ADHM 8H5. 58 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1245, &52. 59 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 616 et CANIVEZ (J._M.), statuta, 1245, &38, II, p. 296-297 : « Negotium pro quo petunt duces polonie de mittendo ad partes suas conventum de Calatravia committitur abbati Morimundi in plenaria potesta ». 60 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1247, &13. 61 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1248, &8. 62 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1249, &5. 63 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1249, &52. 64 DIAS de OLIVERA (L.-P.), op. cit., p. 111. 65 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1250, &18. 66 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1251, &59. 56 57 394 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE intervient pour rompre la filiation de Morimond et de Calatrava. La même année le chapitre général à Cîteaux, réaffirme les droits de Morimond67. L’objectif d’Alphonse X est de tenter de placer un de ses proches, Pedro Canez, déjà à la tête d’Alcantara depuis 20 ans, à la tête de Calatrava dans le but de regrouper les milices bernardines sous sa férule68. Sa lettre au chapitre général n’y changea rien. En effet, le chapitre chargea les abbés de Valbuena et de Budejo d’enquêter pour connaître l’avis des filles de Calatrava et à la suite de cette mission le roi de Castille dû abandonner son projet69. La bulle d’Alexandre IV de janvier 1256 rappelle les conditions canoniques de l’élection du maître de Calatrava au grand maître et à l’abbé de Morimond en confirmant ses droits70. Tentative de la couronne espagnole pour en faire un ordre national à sa main, l’affaire se poursuit jusqu’en 1260 où l’abbé de Morimond obtient une excommunication des partisans d’Alphonse X71. En effet, il semble que le roi de Castille a obtenu des chevaliers qu’ils lui remettent des places fortes72. L’affaire ne se règle vraiment qu’après la mort de Pedro Yanès mais elle entérine l’intervention de la monarchie dans les ordres militaires de la dépendance de Morimond. En ce milieu du XIIIe siècle, les liens entre Morimond et le sud de la France restent solides en témoigne la présence de frère Laurent, moine de Morimond, à Berdoues. En effet, il est témoin lors de la signature d’un acte à l’abbaye sur une transaction réalisée avec les frères de l’Hôpital de Serregrand en 125173. En 1267, l’abbé de Morimond écrit au roi d’Espagne pour récupérer de l’argent pour l’ordre74. Il est commissionné pour sa filiation au nord des Pyrénées et doit instituer un prieur à Calatrava75. La multiplication des missions dans le même espace laisse à penser que l’abbé a pu prendre la direction du sud après le chapitre. En 1270, sans se déplacer en Espagne, un statut rappelle les lettres écrites par l’abbé de Morimond qui doivent servir de modèle pour écrire au maître de Calatrava et au roi d‘Espagne76. En 1271 il doit aller régler un problème à l’abbaye de Veruela avec une de ses voisines77. Entre deux interventions de l’abbé de Morimond, Alphonse X, malgré le refus de la papauté obtient de l’ordre cistercien et de son chapitre la création d’une congrégation nationale « Santa Maria de Espagna » intégrée à l’ordre sur le mode de Calatrava et CANIVEZ (J.-M.), Statuta capitulorum generalium ordinis cisterciencis T II, p. 411, indic. JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 528. 68 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 527. 69 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 529, CANIVEZ (J.-M .), Statuta capitulorum generalium ordinis cisterciencis, T II, p. 406. 70 ADHM 8H5 71 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 529, CANIVEZ (J.-M.), statuta, T II, p. 406. 72 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 529, CANIVEZ (J._M.), statuta, T II, p. 468. 73 CAZAURAN (abbé J.-M.), Cartulaire de l’abbaye de Berdoues, op. cit., p. 846. 74 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1267, &55. 75 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1267, &7, 23 et 24. 76 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1270, &74. 77 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1271, &46. 67 395 BENOIT ROUZEAU placée dans la filiation de Gransèlve78. Le 23 janvier 1273, il publie la lettre de l’abbé de Cîteaux lui annonçant la nouvelle.79 Le 17 janvier 1274, le pape Gégoire X confirme les statuts du chapitre général de l’ordre de Calatrava sur l’institution du prieur dans la milice80. En 1275, l’abbé de Morimond fait interdire par le pape Grégoire X les modifications vestimentaires voulue par la milice de Calatrava portant sur la suppression du port du scapulaire81. Les cisterciens souhaitent défendre la modestie du vêtement des frères. En 1272, Jean [Ier] est à Calatrava82. Il y serait retourné en 1283 et aurait donné des définitions, mais Philippe Josserand juge cette dernière assertion douteuse83. La fin du XIIIe siècle marque aussi le début des nominations pour une région couvrant une ou plusieurs provinces ecclésiastiques. En 1290, au sujet de l’affaire de Silvacane, Dominique, abbé de Morimond doit redresser toutes les abbayes des provinces d’Aix, d’Arles, et de Narbonnaise qui sont touchées par l’excommunication du dimanche avec abstinence de vin le jour suivant84. En 1297, l’abbé de Morimond doit corriger et punir les moines de l’abbaye de Saint-Sauveur en Navarre. S’y est-il rendu ?85 En définitive les abbés interviennent pour encadrer l’évolution des milices chevaleresques, mais aussi dans le cadre du développement de l’ordre cistercien sur certains sites et dans leur filiation ibérique. 3 – La guerre civile dans la Péninsule ibérique écarte pour un temps, les abbés de Morimond au XIVe siècle. Au XIVe siècle, la géographie des voyages évolue peu, mais la raréfaction des statuts laisse de grandes périodes de vide où sans nul doute les abbés de Morimond ont continué à voyager, mais quel abbé, la liste étant double à cause du grand schisme. Les abbés prennent en compte l’évolution des ordres militaires vers des valeurs plus chevaleresques, nobiliaires et moins monastiques. Dans la société, des critiques apparaissent sur critique l’engagement des ordres militaires qui s’investissent plus au profit de la couronne de Castille que des intérêts de la chrétienté86. En février 1301, l’abbé de Morimond reconnaît comme maître de Calatrava Garcia Lopes de Padilla. Les tuteurs de Ferdinand IV se rangent à sa décision, mais dès l’été avec l’entremise de l’abbé de San-Pedro-de-Gumiel qui dit agir au nom de l’abbé de JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 622. JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 622. 80 Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit., p. 136. 81 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 196 BC, p. 137-138. 82 ADHM, 8H5. 83 JOSSERAND (Ph.) « D’un couvent l’autre… », op. cit., p. 344. 84 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1290, &12. 85 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1291, &14. 86 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 177. 78 79 396 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE Morimond, il est déposé. Un autre candidat est élu mais devant l’opposition de l’ordre cistercien, il se démet en février 1302 et Garcia Lopez de Padilla retrouve sa place87. En 1303, l’abbé de Morimond coupe définitivement le lien entre San-Pedro-de-Gumiel et Calatrava. Il supprime définitivement le pouvoir de visite et de correction de l’abbé de Gumiel qui avaient entraîné des conflits entre les deux abbayes tout au long du XIIIe siècle88. Durant son abbatiat, Guillaume [Ier] visite les ordres militaires et particulièrement Calatrava Il s’y trouve une première fois en 130489. En 1306, le 24 juin, il dote le couvent d’Alcantara d’une série de définitions qui comprend 43 articles90. Lors de son séjour dans le monastère, il permet à ce dernier de mener des opérations militaires sur d’autres fronts que celui de la Reconquista91. La vie des frères est faite de violence et les statuts de 1306 et 1336 indiquent que les frères doivent rédiger un testament et un inventaire des biens avant de partir à la guerre pour éviter que l’on aliène des biens de l’ordre en cas de décès92. Ce même abbé semble vouloir lancer un programme de visite tous les trois ans mais le dossier reste encore à travailler si l’on en croit L. P. de Oliveira93. Guillaume retourne en Espagne en 1307 accompagné des abbés de Berdoues et de L’Escale-Dieu où il redonne des définitions94. Il est aussi responsable d’enquêter sur les charges qui pèsent sur le maître de Calatrava envoyées au Chapitre général de Cîteaux95. On retrouve dans les constitutions édictées par l’abbé la volonté de défendre une tenue correcte pour les chevaliers de la milice en rapport avec leur engagement monastique96. Les statuts cisterciens témoignent d’une évolution durant tout le XIVe siècle, avec l’interdiction de matériaux nobles ou de couleurs dans le vêtement97. La papauté valide cette évolution, freinée un temps par les abbés de Morimond, à la fin du siècle. En 1392, JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 533. [http://amigos25julio.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1800:huellas-memorablesdel-monasterio-de-san-pedro-de-gumiel-de-izan&catid=71:documentos-estudios-&Itemid=125], et LOMAX (D.), « Algunos estatutos primitivos de la Orden de Calatrava » en Hispania 21, 1961, p. 483-494. 89 JOSSERAND (PH.), « Pour une étude systématique de la documentation statutaire des Ordres Militaires: Deux manuscrits des «definiciones» Inédites d’Alcántara de1306 », dans l’Espagne médiévale n° 20, 1997, p. 327. 90 BONIFACIO PALACIOS (M.), Coleccion diplomatica…, op. cit., p. 284-288. ; JOSSERAND (PH.), « Pour une étude systématique … », op. cit ., p. 327. 91 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 237, et BONIFACIO-PALACIOS (M.) (éd.), Collection diplomatica medieval de la orden de Alcantara, t. I, p. 288, n° 434. 92 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 295. 93 DIAS de OLIVERA (L.-P.), op. cit., p. 122. 94 JOSSERAND (Ph.), « Pour une étude systématique… », op. cit., p. 327. 95 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 534. 96 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., reprend l’idée dans contenue dans les statuts de Calatrava de 1325 et 1336 publié par O’Callagan « The earliest definiciones of the ordre of Calatrava », p. 272 et 280 et ID The sapnish Military order of Calatrava and its affiliates, Londres, 1975, VII. 97 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 197. 87 88 397 BENOIT ROUZEAU Clément VII autorise les chevaliers à utiliser des vêtements de lin et cinq ans plus tard Benoit XIII leur permet d’abandonner définitivement le scapulaire des origines98. Le 23 avril 1307, le pape Clément V intervient à la demande de l’abbé de Morimond auprès du roi Ferdinand IV de Castille au sujet des frères de Calatrava toujours fugitifs à la suite de l’affaire qui a débutée en 130199. En 1311, il écrit aux frères de Calatrava pour qu’ils réforment leur conduite afin de faire cesser les bruits répandus contre eux en méditant l’exemple du Temple. On critiquerait leur manque d’ardeur dans la reconquête100. L’abbé leur demande : « de revenir à leur observance originelle »101. La visite d’Alcantara en 1318 se fait sans l’abbé de Morimond et elle est tumultueuse, car le maître de Calatrava intervient avec la volonté d’exercer plus de droits que ceux prescrits dans l’accord de 1218 et ratifiés par le roi Alfonso IX de Castille. Il semble que la visite ait été faite par trois autorités : les abbés de Valparaíso et Valdeiglesias, de l’ordre cistercien, et García López, maître de Calatrava. La révocation du maître d’Alcántara Ruy Vázquez est confirmée et l’élection de Pérez Suero comme maître a été validée. Plusieurs chroniques relatent cet événement sous des jours différents, quoi qu’il en soit, il apparaît que l’abbé de Morimond est intervenu à différents moments de l’affaire, pour différents protagonistes, en déléguant des enquêteurs, en demandant à des personnes de se soumettre à des résultats d’élection et en confirmant le grand maître d’Alcantara, Suero Pérez.102 D’autres sources confirment que l’abbé de Morimond ne fait pas toujours le voyage comme en témoigne la délégation obtenue par l’abbé Jean de Palazuelos le 18 octobre 1325. Elle fait suite à la viste de l’abbé de Morimond à Calatrava où il donne des définitions au monastère qui ne peut recevoir des frères des autres ordres militaires sans l’accord de leur supérieur103. Le successeur de l’abbé Gautier [II] est en 1328 à Calatrava104. En 1337, Alphonse X, le roi d’Espagne enjoint les villes de tenir des troupes pour la visite que projette l’abbé de Morimond et le maître de Calatrava, Juan Muniez del Prado, pour la destitution du maitre d’Alcantara, Ruy Perez105. La présence de Renaud à Calatrava est attestée en 1336. Il donne au monastère de Calatrava une série de définitions comme l’y autorise son pouvoir de correction106. Certains JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 198. Bullarium de Calatrava, p. 160. 100 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 55 et note 114, p. 67. et p. 70 101 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 67. 102 CORRAL-VAL (L.), La filiación cisterciense de la Orden del Pereiro-Alcántara desde sus orígenes hasta el siglo XVI, LUIS CORRAL VAL, Doctor en Historia Medieval, (Univ. Complutense), p. 1227-1247, p.14, [http://www.dip-badajoz.es/cultura/ceex/reex_digital/reex_LXIV/2008/T.%20LXIV%20n.%203% 202008%20sept.-dic/RV001974.pdf. 103 PALACIOS MARTIN (B.) (éd.), Collection diplomatica medieval de la orden de Alcantara, t. I, p. 369, n° 516. 104 ADHM 8H5. 105 PALACIOS MARTIN (B.) (éd.), Collection diplomatica medieval de la orden de Alcantara, t. I. 106 ADHM, 8H5. 98 99 398 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE éléments signalés par Philippe Josserand indiquent à partir de ce moment-là, un relâchement dans la discipline. L’abbé de Rueda, deux ans plus tard, impose aux frères d’Alcaniz trois jours de pénitence supplémentaires pour faute légère En effet, il semble qu’ils n’aient pas respecté les définitions de l’abbé de Morimond édictées deux ans plus tôt107. Si la diminution des violences physiques semble la règle avec la disparition progressive de la flagellation en plein chapitre, les sanctions restent lourdes pour les frères de la milice aux tournant des XIIIe et XIVe siècle en privant un membre de son cheval, de ses armes et de sa commanderie s’il en possède une108. C’est ce que fait un nouvel abbé de Morimond en 1344 à Calatrava et Alcantara. En 1337, le maître d’Alcantara Rodrigo Pérez renonce à sa dignité. Gonzalo Martinez a été élu comme nouveau maître, selon le certificat de démission et d’élection qui a été conservé exclusivement dans le dossier de l’ordre de Calatrava. Le procès-verbal indique que la visite a été faite par le maître de Calatrava et l’abbé de San Isidro109. Comme dans la visite de 1318, le chroniqueur Torres y Tapia nie que le visiteur était le maître de Calatrava, puisque en fait la visite a été effectuée exclusivement par l’abbé de Morimond, qui était le visiteur ordinaire de l’ordre d’Alcantara. Le maître de Calatrava, selon sa version intéressée, l’a seulement accompagné pour l’aider, nouvelle preuve de déplacement dans la péninsule ibérique110. Quelques années plus tard, le même chroniqueur, Torres et Tapia indique la visite de l’abbé Guillaume II de Morimond à l’ordre d’Alcántara au cours de l’été 1344111. Cette référence est confirmée par Maur. Cocheril qui s’appuie sur d’autres textes qui ne citent pas directement Guillaume de Morimond. Il précise qu’il était à Alcántara en juin 1344. Comme le suggère O ´Callaghan, l’abbé de Morimond à cette époque n’est pas cité directement par Torres112. En 1346 l’abbé Renaud II commande à Guillaume, moine de Morimond, de visiter Calatrava. Les textes de ces visites n’apparaissent pas, comme celle faite en 1346 par l’abbé de San Pedro de Gumiel113. Selon l’un des index du fichier d’Alcantara conservé dans le fichier Nacional historique, seule une brève mention fait référence à frère Gonzalo, abbé de San Pedro de Gumiel, qui a agi comme commissaire de l’abbé de Morimond. Mais sur la marge de droite et avec une encre distincte il est précisé que cette visite n’a pas été effectuée par la commission de l’abbé de Morimond114. La visite de 1370 reste sujette à caution115. En 1383, Jean [II] de Levécourt donne des définitions et précise des règlements pendant sa visite du monastère de Calatrava, JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 210. JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 211. 109 CORRAL-VAL (L.), La filiación cisterciense…, op. cit., p. 15. 110 CORRAL-VAL (L.), La filiación cisterciense …, op. cit., p. 15. 111 Sa référence est confirmée par une référence d’un des index du fichier déturit d’Alcantara, détenu aux Archives historiques nationales. 112 CORRAL-VAL (L.), La filiación cisterciense …, op. cit., p. 15. 113 CORRAL-VAL (L.), La filiación cisterciense …, op. cit., p. 16. 114 CORRAL-VAL (L.), La filiación cisterciense …, op. cit., p. 16. 115 ADHM, 8H5. 107 108 399 BENOIT ROUZEAU après plus de 30 ans d’absence des abbés en Péninsule ibérique, absence due au Grand schisme et aux troubles intérieurs, la guerre civile dure en castille jusqu’en 1369 au moins116. Face aux prétentions de la monarchie castillane, ces recommandations sont reprises dans une bulle de Clément VII la même année Trois titres sont particulièrement intéressants : le titre 9 confirme que c’est le prélat de Morimond qui visite Calatrava et pas l’abbé de Fitero dont l’abbaye est une fille de l’escale-Dieu. Le titre 12 indique qu’en l’absence de Morimond, l’abbé de l’escale-Dieu visitera Calatrava. Le titre 14 rappelle la place du maître et que c’est l’abbé de Morimond qui nomme le prieur117. Sans forcément reprendre le chemin de la Péninsule, en 1385, l’abbé de Morimond concède aux moines de Calatrava et d’Alcantara le fait de pouvoir léguer la moitié de leurs biens meubles. Cette décision est relayée dans un acte du 1er mai118. Jean [III] de Martigny se rend de nouveau à Calatrava dès le début de son abbatiat en 1393, il dresse le procès-verbal de la visite de la maison. En 1395, à la suite d’une enquête sur l’état des maisons en Espagne dont le chapitre charge l’abbé de Caler et le prieur de Boulbonne119, il commet l’abbé de Morimond pour trois ans pour visiter et réformer toutes les abbayes de Castille et du Portugal, grande mission réformatrice de l’ordre cistercien en Péninsule ibérique120. A l’extrême fin du siècle, en 1399, le Chapitre général commet de nouveau l’abbé de Morimond pour réformer tous les monastères de langue occitane et ceux du royaume d’Espagne, la grande réforme précédente ayant sans doute eu un succès limité121. Sans que l’on en ait la preuve ces nomminations sont sans doute à rapporter au prestige de l’abbé de Morimond dans ces territoires, il y fait de fréquents voyages et est en relation avec les puissants des différentes couronnes. 4 – Dynamisme des voyages des abbés au XVe siècle Le XVe siècle offre le plus de statuta qui permettent à la fois de préciser la géographie des voyages mais aussi la raison précise du déplacement de l’abbé. On peut dès lors suivre l’abbé de Morimond quasiment étape par étape lors de certaines de ces périgrinations. Comme au XIVe siècle, on note une tendance du Chapitre général à déléguer des pouvoirs de visite pour plusieurs années comme en 1402 où il concède à l’abbé de Morimond le soin de réformer pour trois ans les monastères de sa filiation. Les visites des abbés de Morimond sont assez régulières en Péninsule ibérique, en Aquitaine, et en JOSSERAND (Ph.), « d’un couvent à l’autre… », op. cit. p. 348. Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit., p. 218-222. 118 PALACIOS MARTIN (B.) (éd.), Collection diplomatica medieval de la orden de Alcantara, t. I, p. 494495, n° 715. ; et La filiación cisterciense de la Orden del Pereiro-Alcántara desde sus orígenes hasta el siglo XVI. LUIS CORRAL VAL, Doctor en Historia Medieval, (Univ. Complutense). 119 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1394. 120 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1395, &5. 121 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1399, &23. 116 117 400 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE Provence. Les abbés vont voir progressivement se renforcer les tentatives de contrôle des monarchies castillane et portugaise sur les ordres militaires. Les déplacements en Péninsule ibérique et les réformes régionales Comme au siècle précédent, les abbés de Morimond se sont déplacés dans la Péninsule ibérique, à la fois parce qu’ils sont abbés pères de certaines abbayes, à la fois parce qu’ils disposent de la juridiction sur les ordres militaires, et à la fois par une volonté de l’ordre cistercien et de la papauté de réformer les monastères espagnols. En 1403 l’abbé de Morimond serait à Calatrava. En 1410 c’est Jean de Bulgnéville moine de Morimond, professeur en théologie qui est mandaté pour visiter les ordres militaires comme l’indique un statut de 1412122. En 1413, l’abbé de Morimond est remplacé pour la visite d’Alcantara par un moine de Poblet, Bartholomé Escuter, envoyé en mission pour réformer les ordres militaires de Santiago, Alcantara et Calatrava par le pape Benoit XIII le 15 août depuis Peniscola123. Ce moine est actif à Alcantara le 1er octobre124. En 1417 une nouvelle mission réformatrice est confiée à l’abbé de Morimond125. Trois statuts de 1431 semblent indiquer que l’abbé de Morimond a pu prendre le chemin de la Péninsule, comme cela est courant, une mission de réformation générale, associés à deux autres abbés126. En 1434, l’abbé de Morimond est nommé de nouveau pour une mission générale en Espagne127. Il doit aller en Aragon pour voir si l’abbé de Valbuena a été juste ou injuste dans la déposition de l’abbé de Fontfroide128. De la même manière, une mission particulière lui enjoint de corriger un abbé, associé à celui de Veruela129. D’après le fond de l’abbaye de Palazuelos, l’abbé de Morimond serait intervenu dès 1440 pour remplacer l’abbé de L’Espinasse qui négociait avec Martin Vargas qui avait le soutien de la monarchie pour créer une congrégation130. En 1441 comme en 1443 un statut indique que l’abbé de Morimond doit réformer tous les monastères de la nation espagnole131. L’abbé doit à CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1412, &59. PALACIOS MARTIN (B.) (éd.), Collection diplomatica medieval de la orden de Alcantara, t. I, p. 548, n° 789. 124 PALACIOS MARTIN (B.) (éd.), Collection diplomatica medieval de la orden de Alcantara, t. I, p. 548, n° 790. 125 RUQUOI (A.), « Les cisterciens et la Péninsule ibérique », …, op. cit., p. 487-523., p. 27., CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1417, &2. 126 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1431, &35 et 39. 127 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1434, &39. 128 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1434, &60. 129 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1434, &36. 130 HERRERO-SALAS (F.), Collection diplomatica del monasterio de Santa Maria de Palazuelos XIe-XVe, 2002, p. 326, Acte n° 231, CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1441, p. 507 et 511. 131 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1441, &34, et 1443, &45. 122 123 401 BENOIT ROUZEAU cette occasion passer en Aragon par l’abbaye de Valbuena pour interroger l’abbé au sujet de sa déposition de l’abbé de Fontfroide, il doit aussi séquestrer les biens temporels de Martin Vargas, affaire en cours de 1440/41132. C’est ce que fait dès son entrée en charge Jean VI de Plaisance en 1444. Un statut rappelle la situation particulièrement critique de la Péninsule ibérique. Devant la multiplication des rebellions et des inobédiences, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour la visite et la réforme de nombreux espaces à savoir, les royaumes de Castille, Léon, Aragon, Portugal et Navarre, de même que, dans les provinces ecclesiastiques d’Occitanie, de Toulouse, de Narbonne, d’Aix, d’Arles, de Vienne, de Lyon, de Bourges, de Tours et de Bordeaux. L’instance cistercienne nomme comme députés frère Pierre Turbionis, ancien abbé de Valbuena et sœur Béatrice abbesse du monastère d’Eula. A l’occasion de ce voyage, il établit des statuts de la maison de Calatrava. Plusieurs statuts de 1445 confirment une série de décisions prises par l’abbé de Morimond Jean [VI] à l’occasion de son déplacement en Péninsule ibérique. Ces statuts indiquent qu’il est passé par la Provence, le Languedoc et la Gascogne pour se rendre dans la Péninsule ibérique. L’affaire traitée par l’abbé de Morimond au sujet de la résignation de frère Vesiani, ancien abbé de Bonnefont, la provision comme nouvel abbé de Bonnefont de frère Antoine Solers, ou bien encore la provision de frère Bérenger Borgarelli moine profès de Valmagne, à la dignité d’abbé de Sénanque le 23 septembre 1444 en sont des exemples probant. Lors de ce voyage, il a aussi excommunié les abbés d’Aiguebelle et de Valsainte133. En 1445, Il s’est fait assigner 150 florins d’Aragon au monastère d’Orta pour réformer les monastères de Castille, il est accompagné pour cette mission d’un moine d’Oliva. Il dépose l’abbé de Fitero et l’excommunie à l’abbaye d’Oliva. Il le fait emprisonner jusqu’au prochain chapitre car il a molesté l’abbé d’Oliva134. En 1455, sans trace tangible de déplacement pour l’abbé, le chapitre général rappelle que c’est l’abbé de Morimond qui nomme le prieur et le sous prieur de Calatrava135. En 1458, l’abbé de Morimond se voit confier une mission générale de réformation de tous les monastères de la Péninsule ibérique pour s’opposer à leur indépendance devant la multiplication des obédiences et des congrégations136. En 1459, le 26 juillet, le pape Pie II depuis Mantoue confirme à l’abbé de Morimond, Jean, le droit de visite et de réforme sur Alcantara, Montessa, ainsi que Avis, le Christ, maisons héritières du temple dans les royaumes de Valence et du Portugal, avec le même pouvoir que ce qu’il a sur le maître de Calatrava 137. Il est de nouveau nommé par le chapitre pour une réforme générale de la HERRERO-SALAS (F.), Collection diplomatica del monasterio de Santa Maria de Palazuelos XIe-XVe, 2002, p. 335, Acte n° 244. Cette affaire trouve un écho au chapitre général juqu’en 1145 où l’on demande à l’abbé de L’Espinasse d’aller arrêter cet abbé excommunié. 133 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1444, &37. 134 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1445, &33, 37, 38, 40, 79 et 80. 135 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1449, &84. 136 RUQUOI (A.), « Les cisterciens et la Péninsule ibérique », …, op. cit., p. 487-523., p. 28, CANIVEZ (J.M.), statuta, 1458, &30. 137 Colección diplomática médiéval de la orden de Alcántara (1157-1494), 2 vol., 2000-2003, dir. 132 402 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE Péninsule ibérique138. La même année, il a réuni trois abbayes de moniales, du fait du faible nombre de religieuses et de leur pauvreté à l’abbaye de Sainte-Croix en Catalogne, signe tangible du voyage, comme sa nouvelle nomination à la réforme générale, sans doute non effectuée en 1458139. En 1460, l’abbé du Bassigny est de nouveau nommé pour la réforme des maisons castillanes par le chapitre qui confirme à l’abbé de Morimond ses missions dans la péninsule, à savoir dissolution, et réunion de monastères140. En 1461 il aurait revisité les ordres militaires141. En 1462, sa nomination pour la réforme en Espagne n’est pas suivie d’un voyage car cette année-là, il confirme des abbés allemands de sa filiation et scelle un acte à Heiligenkreutz142. Le 12 août 1467, Don Fernant de Gusman, maître de l’ordre de Calatrava demande confirmation à l’abbé de Morimond d’un décret pris en chapitre à Calatrava, selon lequel les frères peuvent disposer de leurs meubles pendant leur vie143. En 1468, Guillaume II de Mège lors de son passage à Calatrava donne des définitions qui confirment que les maîtres doivent rendre hommage aux rois de Castille. Cela rend compte ici de l’évolution des relations entre les maîtres et les rois de Castille qui se sont progressivement imposés comme des relais au service du prince144. Cette pratique tardive ne doit pas selon Philippe Josserand être transposée plusieurs siècles auparavant. Ce modèle n’est valable que pour la fin du Moyen-Age. Lors de cette visite, Guillaume II délègue la visite d’Alcantara au Grand maître de Calatrava. Cette référence est conservée dans une définition, en compagnie d’Avis et de Montesa mais il n’y a pas de preuve documentaire145. En 1469, de nouveau nommé pour la réforme générale en Espagne, Aragon, Navarre et Catalogne, l’abbé est emprisonné plusieurs jours en Aragon lors de son déplacement146. L’assertion selon laquelle frère Guillaume est, en 1480, le dernier abbé de Morimond qui visite Calatrava est encore à confirmer. En 1482, Antoine de Bosredon confirme une BONIFACIO PALACIOS (M.), acte n° 1038, Publi Zapater, cister lilitante, p. 501, copie les parties les plus importantes de la bulle selon la traduction de Enriquez dans le ménologe cisterciens, Cit : Torres, Cronica, II, p. 622. ; Archivio Segredto Vayticano, Reg. Vat. 501, fol. 329 v°-330 r° ; Indiqué : JOSSERAND (Ph.), D’un couvent à l’autre …, p. 351-352. ; Indiqué : Ortega I., J. A. de Baquedano, P. de Ortega-Zuniga y Aranda, Bullarium ordinis miliae de Calatrava, p. 258-259. ; Indiqué : Gallia t. IV, p. 815. ; Indiqué : Dubois, Histoire…, 2e éd., p. 345. Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit., p. 258-259. 138 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1459, &42. 139 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1459, &96. 140 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1460, &41, 63 et 64. 141 ADHM 8H5. 142 CANIVEZ (J.-M.), statuta, 1462, &32. 143 Si l’original est perdu ce titre sst conservé sur une copie en papier du XVIIe siècle en espagnol, Arch. dép. Haute-Marne, 8H5, pièce 1, une analyse existe dans l’inventaire papier réalisé fin XVIIe, à l’époque de dom Henri Duchêne, Arch. dép. Haute-Marne, 8H5, pièce 5. 144 JOSSERAND (Ph.), Eglise et pouvoir, op. cit., p. 563, cité dans O’CALLAGHAN (J.), « Definicones of the ordre of Calatrava edicted by abbot William II of Morimond », p. 258. 145 La filiación cisterciense de la Orden del Pereiro-Alcántara desde sus orígenes hasta el siglo XVI. LUIS CORRAL VAL, Doctor en Historia Medieval, (Univ. Complutense). 146 Statuta 1469, 12-16 septembre, § 29 et 40, Cîteaux. 403 BENOIT ROUZEAU dernière fois l’élection d’un grand maître, Gaspard Lopez de Padilla. Si en 1494, le pape Alexandre VI confirme les droits de visite et de réforme de l’abbé de Morimond, il ne semble pas que cela soit suivi des faits. Le contexte à changé la Reconquista s’est terminée en 1492. Après le décès du dernier prieur français désigné par Morimond en 1552, le monastère fut obligé sous Philippe II en 1569 de reconnaître sa nomination par le roi d’Espagne. Conclusion Les abbés de Morimond ont donc jusqu’à l’extrême fin du Moyen Age beaucoup voyagé, dans la Péninsule ibérique qui est séparée de plusieurs centaines de kilomètre de leur monastère (Tableau 2). Les déplacements prennent de l’ampleur à partir de 1187 et l’affiliation de Calatrava et par la suite avec l’agrégation des autres ordres militaires à l’abbaye de Morimond. Mais résumé les déplacements des abbés de Morimond à leur relation aux ordres militaires serait un raccourci de l’histoire. Ils ont joué un rôle de premier plan pour des implantations de sites ou leur déplacement jusqu’au début du XIIIe siècle. Moins présents en Espagne au milieu du XIVe siècle du fait des troubles intérieurs Ils sont intervenus pour réformer des monastères de moniales jusqu’au milieu du XVe siècle, pour les dissoudre ou les réunir. Sur l’ensemble de la période, Ils sont intervenus pour confirmer ou corriger des abbés, à la suite de leurs élections, suivant en cela leurs obligations d’abbé père ou de chef de filiation d’une vingtaine de monastères dans la péninsule. Le prélat de Morimond fut un agent inlassable de l’ordre pour maintenir l’unité des cisterciens, et son autorité sur sa filiation, mais malgré toute l’action, l’entremise, les relations et les déplacements des abbés, ils ne purent empêcher la mise en place de la congrégation de Castille au cours du XVe siècle. Ils se firent aussi les agents de la papauté pour appuyer les réformes. Même quand les abbés de ne voyagent pas ils suivent les affaires de la Péninsule ibérique en restant en relation épistolaire avec des personnes de cet espace de la Requonquista ou en y envoyant des délégués, moines de Morimond, abbés du sud de la France ou des royaumes ibériques. A l’époque moderne alors que depuis Charles Quint la monarchie dirige complètement les ordres militaires, les abbés de Morimond gardent le contact et le lien entre Calatrava et Morimond n’est pas rompu. Le pape Clément VII rappelle, dans une bulle du 3 juin 1524, aux hommes de la milice qu’ils doivent réciter l’office divin à la manière dont ils l’ont reçu de l’abbé de Morimond147. De même, en 1535, Edme de Pichange confirme que les frères de Calatrava peuvent posséder des biens148. Morimond conservera dans ses armoiries la croix rouge de Calatrava, leur titulature sera toujours associée aux ordres 147 148 Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit., p. 327-328. Bullarium Ordinis Militiae Calatrava, op. cit., p. 379-380. 404 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE militaires et c’est sans doute à l’occasion d’un procès au XVIIe siècle pour être rétablis dans leurs droits que les originaux concernant les relations avec Calatrava furent perdus, preuve de l’influence qu’a joué l’espace cistercien ibérique dans l’affirmation du pouvoir de l’abbé de Morimond au sein de l’ordre cistercien. Les premières conclusions de cette enquête sont tributaires de l’édition des actes des monastères espagnols jusqu’au XVe siècle, le travail n’en est donc qu’à ces débuts. 405 BENOIT ROUZEAU Tableau 2 : les déplacements des abbés de Morimond dans le sud de la France et dans la Péninsule ibérique. 406 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE Bibliographie sommaire BAURY (G.), Les religieuses de Castille. 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ROUZEAU (B.), « Les voyages de l’abbé de Morimond au Moyen Âge », Les cahiers de Léoncel, 2013, p. 4-30. RUQUOI (A.), « Les cisterciens et la Péninsule ibérique », dans Unanimité et diversité cisterciennes, CERCOR, Publications de l’université, Saint-Etienne, 2000, p. 487-523. 408 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE Pièces justificatives Les statuta concernants les déplacements des abbés de Morimond dans le sud du Royaume de France et dans la Péninsule ibérique. 1 (1158-1201), (septembre), collection de Vauclair § 131 Le Chapitre général punit un abbé coupable d’avoir inhumé dans son abbaye des hommes tués à la guerre149. 2 1199, (septembre), § 66, Cîteaux. Le Chapitre général décide de surseoir au chapitre suivant la plainte déposée par l’abbé de La Crête contre Matallana (son abbaye-fille), et de confier aux abbés de La Ferté et de Morimond le soin de rechercher la vérité150 3 1199, (septembre), § 14, Cîteaux. Le Chapitre Général déclare l’abbé d’Oliva coupable d’avoir retenu un de ses moines contre l’avis de son abbé-père, celui de Morimond151. 4 1202, 12-16 septembre, §8, Cîteaux. Le Chapitre général confie à l’abbé de Morimond d’aller interroger et de corriger les abbés de Sacramenia et de l’Escale-Dieu. 5 1202, 12-16 septembre, §27, Cîteaux. Le Chapitre général punit le prieur de l’abbaye de Valbuena, à se présenter à Cîteaux, puis à Morimond. Il doit se présenter au chapitre pour demander grâce. L’abbé de Huerta lui annoncera. 6 1203, 12-16 septembre, §11, Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour régler l’affaire entre les abbayes de l’Escale-Dieu et de Sacramenia. 7 Collection des statuts dite « de Vauclair » (Laon, Bibliothèque municipale, ms. 471), datée de 1158-1201 par Ch. Waddell. Ce dernier met ce statut en relation avec la reconquista espagnole et le développement des ordres militaires, en particulier l’ordre de Calatrava, (WADDELL, p. 667), FLAMMARION (H.), 2014, n° 262. 150 (WADDELL (CH.), p. 444, FLAMMARION (H.), 2014, n° 253). 151 (WADDELL (CH.), p. 426, FLAMMARION (H.), 2014, n° 248) L’abbé-père de l’abbé d’Oliva est celui de L’Escale-Dieu, lequel s’est tourné vers son propre abbé-père, celui de Morimond. 149 409 BENOIT ROUZEAU 1203, 12-16 septembre, §22, Cîteaux. Le Chapitre général commet les abbayes de Morimond, Boulbonne et Belleperche pour enquêter auprès de l’abbé de Monsalud, fille de l’Escale-Dieu, et auprès des moines de l’Escale-Dieu. 8 1207, 12-16 septembre, §21, Cîteaux. Le Chapitre général condamne l’abbé de l’Escale Dieu qui lors de la visite de ses filles a récupéré 52 besans et des chevaux, a une pénitence et à restituer les biens. L’abbé de Morimond est commis pour le punir en cas de faute plus grave encore. 9 1207, 12-16 septembre, §53, Cîteaux. Querelle au sujet de l’abbaye de Rio-Seco (Vieille Castille) qui s’est déplacée sans avoir l’accord du Chapitre général qui commet l’abbé de Morimond pour étudier le nouveau lieu et juger du plus utile aux moines. 10 1207, 12-16 septembre, §56, Cîteaux. Querelle entre l’abbé de Morimond et celui de Piedra (Aragon) au sujet de la construction de l’abbaye. Le Chapitre général commet les abbés de Clairvaux et Morimond pour régler l’affaire. 11 1208, 12-16 septembre, §20, Cîteaux. Un moine de Berdoue qui s’est tenu d’une manière inconvenante à l’égard d’un convers de Orta doit aller à Morimond et être puni. 12 1208, 12-16 septembre, §44, Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond à l’abbaye de Tela pour enquêter sur les négligences de l’abbé et le corriger152. 13 1209, 12-16 septembre, §47, Cîteaux. A la demande des frères de Calatrava ont commet les abbés de Cîteaux et de Morimond. Il leur est concédé de rester derrière le chœur, dans le presbyterium, dans l’infirmerie ou dans tout autre lieu séparé et de porter capuche quand ils sont dans l’abbaye. 152 Indiqué : MAHN (J.B.), op. cit., p. 210. 410 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE 14 1213, 12-16 septembre, §19, Cîteaux. Au sujet des moines du monastère de La Oliva qui dit-on, ont attaché leur abbé, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond. 15 1213, 12-16 septembre, §26, Cîteaux. Au sujet de l’abbé de Valbuena dont on dit qu’il se tenait grossièrement pendant sa visite, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour enquêter et corriger son comportement. 16 1213, 12-16 septembre, §52, Cîteaux. Au sujet des novices de Tuscia sur lesquels le pape a écrit, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond. 17 1221, 12-16 septembre, §33, Cîteaux. Le Chapitre général mandate les abbés de Clairvaux et de Morimond pour corriger les abbés de Saint-Jean-de-Tarruca et de Horta. 18 1233, 12-16 septembre, §59, Cîteaux. Pour une affaire entre l’abbé de Morimond et celui de San-Pedro de Gumiel (Espagne), le Chapitre général commet les abbés de Valbuena (Espagne) et de Sacramenia (Espagne)153. 19 1233, 12-16 septembre, §61, Cîteaux. Suite à une exaction des frères de Calatrava, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour faire cesser les exactions. 20 1235, 12-16 septembre, §27, Cîteaux. Les définiteurs constatent que l’abbé de San-Pedro de Gumiel renonce à la question sur la visite de la maison des frères de Calatrava qu’elle disait de droit lui appartenir, et qui appartient à Morimond abbaye mère. Correspond sans doute au titre de l’inventaire papier conservé à Chaumont. 1234, le Chapitre général se prononce sur la querelle entre l’abbaye de Morimond et celle de San-Pedro de Gumiel au sujet de la dépendance de Calatrava. Il confirme l’affiliation à Morimond et demande que San-Pedro de Gumiel abandonne ses prétentions. Analyse : Inventaire papier XVIIe siècle, Arch. dép. Haute-Marne, 8H5, pièce 5. A rapprocher du satut n° 27 de 1235. 153 411 BENOIT ROUZEAU 21 1235, 12-16 septembre, §28, Cîteaux. L’abbé de Boulbonne (Haute-Garonne), qui n’a pas obtempéré à une demande de l’abbé de Morimond sera puni. 22 1245, 12-16 septembre, §38 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond au sujet de l’affaire des ducs de Pologne qui veulent envoyer l’ordre de Calatrava dans leurs terres. 23 1245, 12-16 septembre, §52 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond au sujet des ordres militaires. 24 1247, 12-16 septembre, § 13 Cîteaux. L’abbé de Morimond est autorisé à déléguer la visite des abbayes fille de Calatrava au prieur de Calatrava. 25 1248, 12-16 septembre, § 8 Cîteaux. Suite à la définition adoptée l’année précédente, la désignation du prieur et du maître de Calatrava doivent être différés de quatre ans, et comme de nombreuses difficultés entravent ce règlement, le prieur et le maître de Calatrava différé le chapitre de quatre ans. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour régler le différent. 26 1249, 12-16 septembre, § 5 Cîteaux. Le Chapitre général ordonne que le maître et les frères de Calatrava, soient confiés au prieur et au sous prieur de Calatrava, et de même aux frères promus et à promouvoir par l’abbé de Morimond, et pour ceux qui succéderont au prieur. 27 1249, 12-16 septembre, § 33 Cîteaux. Les visiteurs allant de Morimond en Espagne doivent demander aux frères de Calatrava, de payer les péages à l’abbé de Saint-Jean-de-Tarruca et apaiser l’affaire. Ils doivent en référer au prochain Chapitre général. 28 1249, 12-16 septembre, § 52 Cîteaux. L’évêque Pierre Garcès de l’abbaye cistercienne de Sainte Marie d’Albarrazino annonce au Chapitre général que les moines de Calatrava qui dirigent la maison 412 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE n’obéissent plus au Chapitre général. Même l’abbé de Morimond ne peut les absoudre. Le Chapitre général commet les abbés de San-Pedro de Gumiel (Espagne) et Valbuena (Espagne) pour régler le problème. 29 1250, 12-16 septembre, § 18 Cîteaux. Querelle entre les frères de Calatrava et d’autres abbés d’Espagne au sujet des transferts d’animaux et de porcs dans le domaine d’Alcantara, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour régler le problème154. 30 1251, 12-16 septembre, § 59 Cîteaux. La commission faite l’année précédente par l’abbé de Morimond au sujet du prieur et du maître de Calatrava est reconduite cette année par le Chapitre général. 31 1255, 12-16 septembre, § 6 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond au sujet du monastère de Calatrava. 32 1267, 12-16 septembre, § 7 Cîteaux. Au sujet de l’affaire de Calatrava entre le pape, le Chapitre et Clairvaux, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour que dans la maison de Calatrava il institue un prieur qui pourra entendre et dispenser les frères de Calatrava. 33 1267, 12-16 septembre, § 23 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Franquevaux pour l’abbé de L’Escale-Dieu et d’autres abbés. Ils doivent avant Pâques régler les sommes dues à l’abbé de Morimond. 34 1267, 12-16 septembre, § 24 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond au sujet de l’abbé de la BénissonDieu que l’abbé de Bonnefont diffame régulièrement. 35 1267, 12-16 septembre, § 55 Cîteaux. Le Chapitre général autorise l’abbé de Morimond à écrire au roi d’Aragon au sujet Indic. La filiación cisterciense de la Orden del Pereiro-Alcántara desde sus orígenes hasta el siglo XVI. LUIS CORRAL VAL, Univ. Complutense. 154 413 BENOIT ROUZEAU d’une somme d’argent due par le roi. Pour cette affaire le Chapitre général commet aussi l’abbé de Populeto (Espagne). 36 1270, 12-16 septembre, § 74 Cîteaux. Au sujet des affaires de la maison de Calatrava, on doit écrire au roi d’Espagne et au maître de Calatrava en suivant ce qu’a dit l’abbé de Morimond dans ces lettres précédentes. 37 1271, 12-16 septembre, § 46 Cîteaux. Le Chapitre général commet les abbés de Morimond et de Bardonis pour régler la querelle entre les abbés de Verruella et de Cambronio. 38 1290, 12-16 septembre, § 12 Cîteaux. Au sujet de l’affaire de Sylvacane, l’abbé père Morimond doit redresser toutes les abbayes des provinces d’Aix, d’Arles, de Narbonnaise qui sont touchées par l’excommunication du dimanche avec abstinence de vin le jour suivant. 39 1291, 12-16 septembre, § 15 Cîteaux. Pour l’affaire de l’abbé de Grandselve, le Chapitre Général a commis l’abbé de Morimond, pour qu’il fasse et ordonne ce qui lui semblera être de l’intérêt de Dieu et l’Ordre. 40 1297, 12-16 septembre, § 14 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour corriger et punir les moines de l’abbaye de Saint-Sauveur (Navarre). 41 1395, 12-16 septembre, § 5 Cîteaux. Le Chapitre général commet pour trois ans l’abbé de Morimond pour visiter et réformer toutes les abbayes de Castille et du Portugal. 42 1399, 12-16 septembre, § 23 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour réformer tous les monastères de langue occitane et ceux du royaume d’Espagne. 414 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE 43 1412, 12-16 septembre, § 59 Cîteaux. Suite au Chapitre général de 1410 et aux recommandations faites à l’abbé de Gimont, les ordres militaires de Calatrava, Montesa et du Christ seront visités et réformés par Jean de Bulgnéville, moine de Morimond, professeur en théologie avec l’accord de la papauté. 44 1417, 12-16 septembre, § 2 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour la réforme de tous les monastères de sa filiation dans les royaumes de Castille, Aragon, Portugal et Navarre, ainsi que dans les provinces de langue occitane. 45 1431, 12-16 septembre, § 35 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour la réforme dans le royaume et les domaines de Castille et de toute la langue occitane. 46 1431, 12-16 septembre, § 39 Cîteaux. Le Chapitre général commet les abbés de Morimond, de Fontaine-Jean et de Morerola pour réformer tous les monastères de Castille et des provinces de langue occitane. 47 1434, 12-16 septembre, § 36 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond et de Verruela au sujet de l’abbé de Populeto, frère Bérenger. 48 1434, 12-16 septembre, § 39 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour la réforme de tous les monastères espagnols. 49 1434, 12-16 septembre, § 60 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond, professeur en théologie pour aller en Aragon, voir si l’abbé de Valbuena fut juste ou injuste au sujet de la déposition de l’abbé de Fontfroide. 415 BENOIT ROUZEAU 50 1435, 12-16 septembre, § 9 Cîteaux. L’abbé de Gimont est commissionné par l’abbé de Morimond pour visiter le monastère de Berdoues au sujet de la déposition de Bertrand d’Artigue, prieur, et frère Jean de Gasena, moine, faite par Arnold, abbé de l’Escale-Dieu. 51 1441, 12-16 septembre, § 34 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour réformer et visiter tous les monastères du royaume d’Espagne. 52 1443, 12-16 septembre, § 43 Cîteaux. Le Chapitre général commet les abbés de Morimond et de Veruella au sujet de la sentence de l’abbé de Populeto contre frère Béranger Vich de l’abbaye de Vallis Dignae. 53 1443, 12-16 septembre, § 45 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour réformer tous les monastères de la nation espagnole. 54 1443, 12-16 septembre, § 65 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour que lors de son voyage en Aragon, il s’informe pour savoir si l’abbaye de Valbuena a été juste lors de sa déposition de l’abbé de Fontfroide. 55 1444, 12-16 septembre, § 37 Cîteaux. Devant la multiplication des rebellions et des inobédiences, le Chapitre général commet l’abbé de Morimond pour la visite et la réforme dans les royaumes de Castille, Léon, Aragon, Portugal et Navarre, de même que, dans les provinces d’Auxitanie, de Toulouse, de Narbonne, d’Aquensi, d’Arles, de Vienne, de Lion de Bourges, de Tours et de Bordeaux, avec comme députés frère Pierre Turbionis ancien abbé de Valbuena et sœur Béatrice abbesse du monastère d’Eula. 56 1445, 12-16 septembre, § 33 Cîteaux. Le Chapitre général confirme et approuve l’affaire traitée par l’abbé de Morimond au sujet de la résignation de frère Vesiani, ancien abbé de Bonnefont et la provision comme nouvel abbé de Bonnefont de frère Antoine Solers. 416 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE 57 1445, 12-16 septembre, § 37 Cîteaux. Provision de frère Bérenger Borgarelli moine profès de Valmagne à la dignité d’abbé de Sénanque, le 23 septembre 1444 par l’abbé de Morimond. 58 1445, 12-16 septembre, § 38 Cîteaux. Sentence rendue par l’abbé de Morimond au monastère d’Oliva contre frère Jean abbé de Fitero, confirmé en Chapitre général. Il est excommunié, déposé et emprisonné jusqu’au prochain Chapitre car il a molesté l’abbé d’Olivia. Le Chapitre commet les abbés de Sancta-Fe et de Petra pour étudier la question. 59 1445, 12-16 septembre, § 40 Cîteaux. Le pape Eugène IV fait de l’abbé de Morimond et de frère Ferrandum de Fonte de l’abbaye d’Oliva un visiteur pour toute l’Espagne. 60 1445, 12-16 septembre, § 79 Cîteaux. L’abbé de Cîteaux et le Chapitre général commettent l’abbé de Morimond pour la visite et les définitions de la milice de Calatrava. 61 1445, 12-16 septembre, § 80 Cîteaux. L’abbé de Morimond au monastère de Orta se fait assigner 150 florins d’Aragon pour la réforme des monastères de Castille. 62 1449, 12-16 septembre, § 84 Cîteaux. Le Chapitre général confirme une ancienne définition, à savoir que le maître et les frères de Calatrava, le prieur et le sous prieur sont promus par l’abbé de Morimond, sous peine d’excommunication pour les autres frères. 63 1455, 12-16 septembre, § 20 Cîteaux. Le Chapitre général commet l’abbé de Morimond au sujet des ordres militaires d’Espagne et du Portugal. 64 1458, 12-16 septembre, § 30 Cîteaux. Le chapitre général commet l’abbé de Morimond, professeur en théologie, pour visiter et réformer tous les monastères d’Espagne, ceux de langue occitane et gasconne. 417 BENOIT ROUZEAU 65 1459, 12-16 septembre, § 42 Cîteaux. Le chapitre général commet l’abbé de Morimond professeur en théologie pour la visite et la réforme des monastères de l’ordre du royaume de Castille, de Léon, d’Aragon, de Valence, du Portugal et de Navarre, mais aussi ceux des provinces d’Aquitaine et de Gascogne, ceux de langue occitane et de la province de Dauphiné, de même il doit visiter tous les monastères de sa filiation en Allemagne. 66 1459, 12-16 septembre, § 96, Cîteaux. L’abbé de Morimond, du fait de la pauvreté de l’abbaye de moniales de Bonrepos, l’incorpore à l’abbaye de Sainte-Croix en Catalogne. 67 1460, 12-16 septembre, § 41 Cîteaux. Le chapitre général commet l’abbé de Morimond professeur en théologie pour la visite et la réforme des monastères de l’ordre du royaume de Castille, de Léon, d’Aragon, de Valence, du Portugal et de Navarre, mais aussi ceux des provinces d’Aquitaine et de Gascogne, ceux de langue occitane et de la province de Dauphiné, de même il doit visiter tous les monastères de sa filiation en Allemagne. 68 1460, 12-16 septembre, § 49 Cîteaux. Le chapitre général accorde aux monastères de Boulbonne et Calercio parce qu'ils se sont disputés au sujet de la réunion de leurs monastères, selon le compromis suivant : l’union est dissoute par le pontife et le frère Maurice Pelaboti du monastère de Fontfroide reste sous l’autorité du chapitre général à Calercio. L’abbé de Morimond est chargé de régler les détails de cette affaire. 69 1460, 12-16 septembre, § 63 Cîteaux. Le chapitre général commet l’abbé de Morimond au sujet de la dissolution du monastère de moniales de Bonrepos et de son union avec le monastère de Sainte-Croix155. 70 1460, 12-16 septembre, § 64 Cîteaux. Le chapitre général constatant la ruine des monastères de moniales de Valle Sancta et de Valle Dora, qui ne comporte plus qu’une abbesse et trois moniales, commet l’abbé 155 Voir supra 1459, §96. 418 LES VOYAGES ET LES RELATIONS DE L’ABBE DE MORIMOND AVEC LA PENINSULE IBERIQUE AU MOYEN AGE de Morimond pour réaliser l’union de ces deux monastères avec celui de Populeto, dans le respect du droit de l’abbé de Cîteaux, abbé père de ces deux monastères. 71 1462, 12-16 septembre, § 32, Cîteaux. Le Chapitre général mande l’abbé de Morimond, nanti des clausules ajoutées par l’abbé de Cîteaux, pour visiter et réformer tous les monastères dans les royaumes et les terres de Hongrie, de Bohème, et de Pologne et dans toutes les provinces germaines et en Espagne, en Aragon, en Navarre et en Catalogne, dans toute sa filiation. 72 1465, 12-16 septembre, § 4, Cîteaux. Le chapitre général mande l’abbé de Morimond pour la visite et la remise en ordre des monastères des deux sexes dans les royaumes et terres de Hongrie, Pologne, provinces et nations germaniques, de même qu’en Espagne, Aragon, Navarre et Catalogne et où que ce soit. 73 1469, 12-16 septembre, § 29, Cîteaux. Le chapitre général commet l’abbé de Morimond pour la visite et la réforme de tous les monastères de Hongrie, de Bohème et de Pologne, ainsi que toutes les provinces des nations de Germanie et en Espagne, en Aragon, en Navarre et en Catalogne. 74 1469, 12-16 septembre, § 40, Cîteaux. L’abbé de Morimond est capturé quelques jours près de Valence en Espagne. 75 1469, 12-16 septembre, § 87, Cîteaux. Le chapitre général suffisamment informé des abus fait par l’abbé de Populetti au monastère de moniales de la bienheureuse Marie de Casuis mandate l’abbesse de Santa-Fe commissaire de l’abbé de Morimond au monastère de Casuis pour démettre le procureur et nommer à sa place Guillaume de la Bruna. 76 1470, 12-16 septembre, § 19, Cîteaux. Le denier jour de novembre 1469, le jour de l’obit de sœur Isabelle de Gayan du monastère de Casuis, l’abbesse est destituée. Le jour d’après l’abbé du monastère de Santa-Fe mande l’abbé de Morimond, son abbé père pour organiser et observer les élections canoniques au monastère de Casuis. 419 420 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL CARLOS GUARDADO DA SILVA* Introdução A partir da década de 80 do século XX, em Portugal, os arquivos pessoais têm vindo a adquirir um crescente interesse por parte dos investigadores, seja no contexto da história, da antropologia e da sociologia, seja no contexto da literatura e da cultura, seja ainda no contexto da arquivística ou da ciência da informação. Um lugar cada vez mais central, sendo-lhes reconhecido o seu valor, não apenas em termos patrimoniais, mas sobretudo para a investigação, na senda do que acontecia no panorama internacional, designadamente, em Inglaterra, nos Estados Unidos, no Canadá, em França e no Brasil. Este interesse crescente deve-se, em grande parte, ao também crescente interesse da história da vida privada, que nem sempre tem sido, porém, acompanhado de reflexão teórica, grandemente ausente dos arquivos pessoais, cuja importância não é consensualmente reconhecida. Na verdade, a própria tradição arquivística considerava, até há pouco tempo, apenas a documentação de caráter administrativo, excluindo a de caráter pessoal e biblioteconómico. A título de exemplo, refira-se o Manual de arranjo e descrição de arquivos, dos arquivistas holandeses Muller, Feith e Fruin, publicado em 1898, com a primeira edição portuguesa em 1960 (Brasil), para quem os documentos relacionados com os arquivos pessoais se restringem às atividades de negócio1. Mas foi o reconhecimento deste seu valor, que justificou a sua recolha e a sua conservação nas inúmeras instituições memorizadoras (arquivos, bibliotecas e museus), en- * Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa. Professor Auxiliar com Agregação, diretor do mestrado em Ciências da Documentação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
[email protected]MULLER, Samuel; FEITH, Joseph A.; FRUIN, Robert – Manual de arranjo e descrição de arquivos, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Ministério da Justiça, Arquivo Nacional, 1973, p. 19. 1 Cister. José Albuquerque Carreiras, António Valério Maduro e Rui Rasquilho (coords.), Alcobaça, 2019, Tomo II, 421-434 421 CARLOS GUARDADO DA SILVA quanto fontes de informação identitária e como parte da memória de uma sociedade, a evidence of us, como bem notara a investigadora australiana, Sue Mckemmish, em Evidence of me2. Por arquivo pessoal, entendemos ‘um conjunto de documentos produzidos, ou recebidos, e mantidos por uma pessoa física ao longo de sua vida e em decorrência de suas atividades e função social’3. Este é um estudo, que podemos enquadrar no âmbito do património cultural e, mais especificamente, do património arquivístico4 do mosteiro alcobacence. Um estudo de natureza qualitativa, assente na revisão da literatura e na análise documental do ‘arquivo pessoal’ Frei Bernardo de Brito, assim identificado na Biblioteca Nacional de Portugal. Um estudo que tem como objetivo proceder à sua identificação e caraterização, e, discutindo o seu contexto e lugar, a partir do estudo do seu conteúdo, assim como da sua história custodial e arquivística, propor a sua eventual reorganização e reidentificação. Ou seja, responder à seguinte questão de investigação: a unidade informacional reunida na Biblioteca Nacional de Portugal, sob o grupo arquivos pessoais, com a designação Frei Bernardo de Brito é, de facto, um arquivo pessoal? Os arquivos pessoais Apesar de serem arquivos, a maioria dos cerca de 3.500 inventariados5, encontra-se depositada em bibliotecas, em razão de alguns terem sido considerados literários, classificação que tem sido sujeita a larga crítica, por autores da Ciência da Informação6, posição que corroboramos, uma vez que o seu valor e o seu interesse ultrapassam largamente o contexto da literatura. Epíteto de arquivo “literário”, que remonta a uma ideia romântica que considera interligada a criação artística e a biografia. Assim se entendem diversas práticas de aquisição de arquivos na área da literatura7. MCKEMMISH, Sue – “Evidence of Me”, in The Australian Library Journal, 45-3, 1996, p. 181, DOI: 10.1080/00049670.1996.10755757. 3 OLIVEIRA, Lucia Maria Velloso de – Descrição e pesquisa. reflexões em torno dos arquivos pessoais, Rio de Janeiro, Móbile, 2012, p. 33. 4 Decreto-lei 16/93. 5 PEREIRA, Zélia Maria Cruz - O universo dos arquivos pessoais. características, usos e valorização, Évora, Universidade de Évora, 2017, Vol. 1. 6 SILVA, Armando Malheiro da – “Arquivos familiares e pessoais: Bases científicas para aplicação do modelo sistémico e interactivo”, in Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património, I Série, vol. III, 2004, p. 62, nota 25. RUBIO VILLARÓ, Cristian – Archivos Literarios en Barcelona y su Área Metropolitana. Guía de Fondos Personales de Escritores en Centros Públicos, Barcelona, Universitat Autónoma de Barcelona, Escola Superior d’Arxivística i Gestió de Documents, Treball de recerca del Màster d’Arxivística i Gestió de Documents, 2013, p. 13. 7 DOUGLAS, Jennifer; MACNEIL, Heather – “Arranging the Self: Literary and Archival Perspectives on Writers’ Archives”, in Archivaria, 67, 2009, p. 28. 2 422 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL Foi esta opção que levou à recolha de muitos arquivos pessoais na Biblioteca Nacional de Portugal, tendo Braz de Oliveira sido um dos principais defensores dos arquivos de escritores8. Depois com a criação da Área de Espólios, de que é herdeiro o Arquivo da Cultura Portuguesa Contemporânea, com enfoque numa arquivística de tipo literário. A instituição detentora do maior número de arquivos pessoais (assim identificados apesar de muitos serem familiares) é a Biblioteca Nacional de Portugal9. De qualquer modo, a sua ação na recolha de arquivos pessoais traduz uma consciência cívica de preservação patrimonial, designadamente de um tipo de arquivos tradicionalmente relegado para a periferia. Na Biblioteca Nacional de Portugal encontra-se o arquivo pessoal ‘Frei Bernardo de Brito’, objeto do nosso estudo. Frei Bernardo de Brito Bernardo era filho de Pedro Cardoso de Andrade, capitão do exército, e de Maria de Brito Andrade, parecendo o primeiro sobrenome da mãe explicar o seu. Nasceu em Almeida, em 20 de agosto de 1569, segundo Barbosa Machado, autor que nos fornece alguns elementos biográficos de Bernardo de Brito, para além de Fortunato de São Boaventura e do próprio biografado, este nos manuscritos do 2º e 4º livros10. Na sua juventude, visitou Itália, onde desenvolveu os seus estudos humanísticos e das línguas italiana, francesa, grega e hebraica. Mais certa é a data da sua entrada no mosteiro cisterciense de Santa Maria de Alcobaça, precisamente no ano de 1583. Dois anos depois, em janeiro de 1585, entrou no noviciado. Passado este período, foi enviado para o Colégio do Espírito Santo, em Coimbra, em janeiro de 1593, com o objetivo de prosseguir os estudos em Teologia, tendo obtido o Doutoramento em 1606. Entre a idade de 22 e 25 anos, escreveu a sua história de Portugal, em três partes: Monarchia Gentilica, Monarchia Gotica ou Sarracenica e Monarchia Catholica. “A primeira parte abrangeria os acontecimentos da Lusitânia desde a criação até à vinda de Cristo; a segunda ocupar-se-ia da sua continuação até ao conde D. Henrique; a terceira, finalmente, continuaria a narração até Filipe II”11. Desta obra monumental, escreveu Frei Fortunato de São Boaventura, guarda-se a primeira e a terceira partes nos manuscritos de Alcobaça12. OLIVEIRA, António Braz de – “Arquivística literária: haec subtilis ars inveniendi”, in Cadernos BAD, 2, 1992, p. 109. 9 PEREIRA, Zélia Maria Cruz – Op. cit., p. 293. 10 Estes e outros dados biográficos de Frei Bernardo de Brito foram recolhidos, sobretudo, em REGO, A. da Silva – “Introdução”, in BRITO, Bernardo de, Monarquia Lusitana I. Reimp. da ed. fac-similada de 1973. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, pp. XI-XVI. 11 IDEM – Ibidem, p. XIII. 12 ANSELMO, António Joaquim – Inventário dos códices alcobacenses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1932, t. III, pp. 189-194. 8 423 CARLOS GUARDADO DA SILVA Alterou o título da obra para Monarquia Lusitana, e continuou a trabalhar na revisão da mesma, tendo terminado a primeira parte em 9 de março de 1596, a qual publicou no ano seguinte. Na sequência da mesma publicação, Filipe II atribuiu-lhe o título de cronista-geral13. A segunda parte seria publicada em 160914. Com o falecimento do cronista-mor do Reino, Francisco de Andrade, Bernardo de Brito foi nomeado para este mesmo cargo, por carta régia de Filipe III (D. Filipe II de Portugal), de 12 de julho de 1614, com o ordenado de 100$ réis e uma pensão anual de 117 cruzados, imposta nas rendas do bispado de Leiria15, confirmada por breve do Papa Paulo V, de 19 de janeiro de 1615. Faleceu em Almeida, na sua terra, quando de regresso de uma viagem a Madrid, em 27 de fevereiro de 1617, tendo sido sepultado no mosteiro cisterciense de Santa Maria de Aguiar. Os restos mortais seriam transladados para o mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, em 1649, por ordem de Frei Luís de Sousa, então o Geral da Ordem de São Bernardo. O (Pseudo)arquivo pessoal de Frei Bernardo de Brito O Guia dos Fundos da Biblioteca Nacional16 identifica o arquivo pessoal de Frei Bernardo de Brito, monge da Ordem de Cister, apresentando, a seguinte descrição: “apontamentos relativos à Monarquia Lusitana. Documentação integrada na Biblioteca Nacional após a extinção das Ordens religiosas”. Por arquivo pessoal, entendemos, como referimos anteriormente, a informação produzida, gerida e acumulada por um indivíduo, ao longo da sua vida, no decurso dos seus papéis e funções sociais. Nesta medida, o arquivo pessoal representa, grosso modo, os registos do papel do seu titular na sociedade: a vida do seu titular, as suas redes de relacionamento pessoal e profissional, as suas obras, assim como a sua própria intimidade17. A unidade informacional reunida na Biblioteca Nacional de Portugal, sob o grupo arquivos pessoais, com a designação Frei Bernardo de Brito é, de facto, um arquivo pessoal? Ou é o resultado do comportamento de um bibliotecário daquela instituição, cujo conjunto resultou da reunião de documentos em torno do seu autor e não do seu produtor, sendo aquele o elemento agregador de uma unidade artificial que, com alguma imaginação, ocultou, ainda que de forma involuntária, o contexto orgânico-funcional REGO, A. da Silva – Op. cit., p. XIV. IDEM – Ibidem, p. XXV. IDEM – Introdução, in BRITO, Bernardo de, Monarquia Lusitana II, reimp. da ed. fac-similada de 1973, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. XI. 15 ANTT – Chancelaria de D. Filipe II, Liv. 20, p. 231. 16 MARTINS, Lígia de Azevedo, [et al.], int. e org. – Guia preliminar dos fundos de arquivo da Biblioteca Nacional, Lisboa, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1994, p. 217. 17 BELLOTTO, Heloísa Liberalli – “Arquivos pessoais em face da teoria arquivística tradicional: Debate com Terry Cook, in Arquivo. Estudos e reflexões, Belo Horizonte, UFMG, 2014, p. 107. 13 14 424 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL ‘original’? Não integraria na sua origem o arquivo ou a biblioteca18 do mosteiro de Santa Maria de Alcobaça? O que constitui, na verdade, o arquivo pessoal ‘Frei Bernardo de Brito’ na Biblioteca Nacional de Portugal? São apenas oito documentos manuscritos (sete identificados no Guia), não datados, entre os quais duas cartas, constituindo os restantes seis documentos “Apontamentos relativos à Monarquia Lusitana”: 1. Carta de Frei Bernardo de Brito a D. Francisco Manuel, conde de Atalaia [s.d.]; 2. “Prologo em que se responde a certas duvidas, que se podião pôr no discurso desta obra” (fl.1-5), seguindo-se “Tavoada dos capítulos que vão nesta obra” (fl.5-6v.); 3. “Livro 25 da Monarquia Lusitana”, com excerto para o cap. 1 (1 fl.); 4. “Notas para a elaboração da Monarquia Lusitana” (1 fl.); 5. “Monarquia Lusitana, parte 8.ª – Liv. 1.º, [excerto do] Cap. 4º” (1 fl.), encontrandose escrito no verso do folio “Titolo – 1320 Del elRey D. Pedro, o justizoso 1.º”; 6. “Autores que devo ver pera a historia da Monarchia Lusitana, ha de começar no anno de 1325” (1 fl.); 7. “1320 Del El Rey D. Pedro, o Justiçozo (Monarquia Lusitana, parte 8., Liv. 1º, cap. 1.º, 1320)” [9 fl. , tendo no fl. 9, em baixo, o início do cap. 6.º - “Primeiros anos da meninice e creação do infante D. Pedro”]; 8. Carta de D. Maurício, padre do Mosteiro da Serra de Villa Nova do Porto, da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, para Frei Bernardo de Brito, intitulada “Lembrança pera ver o illustrissimo padre, o douto Frei Bernardo de Britto, religioso de Cister”, em que critica o autor da Monarquia Lusitana pelo facto de o remetente não ter visto na referida obra a fundação do mosteiro de Villa Boa do Bispo em Riba Douro (3 fl.). Na verdade, vigorava então, nas centúrias de quinhentos e seiscentos, a ideia defendida pelo jurista genovês Baldassarre Bonifacio, em De archivis liber singularis, o primeiro tratado de Arquivística, dado à estampa em 1632. Para Bonifácio, na tradição de Santo Isidoro de Sevilha19, o arquivo, tal como a biblioteca, era o lugar onde os documentos eram produzidos e guardados para a prossecução da própria atividade por uma autoridade. Cada um, per se, estabelecia uma relação de lugar, documentos, atividade e autoridade, em que os documentos mais não eram do que uma extensão do próprio lugar, aceção que permanecera até ao século XIX, momento em que aquela relação foi quebrada. Apesar de o uso da palavra archivum se ter alargado a partir do século XV, surgia a par e com o mesmo significado dos termos tabularium, scrinium e bibliotheca. A este propósito, Cf. SILVA, Margareth da – O arquivo e o lugar. a custódia arquivística como responsabilidade pela proteção aos arquivos, São Paulo, Universidade de São Paulo, 2015, p. 58. 19 SEVILHA, Isidoro de – Etymologiarum, XX, 9.2, OROZ RETA, Jose; Marcos Casquero, Manuel-A., texto latino, versión española y notas. Etimologías. Ed. Bilingüe, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2004, pp. 1344-1345. 18 425 CARLOS GUARDADO DA SILVA Na Biblioteca Nacional de Portugal, também se encontra o manuscrito da Terceira parte da Monarchia Lusitana, composta por Frey Bernardo de Brito, monge da Ordem de Cyster, professo no Real Mosteiro de Alcobaça, que narra a história portuguesa desde o conde D. Henrique “te o famoso Rey dom Ioão da boa memoria…”, terminado em 1593, quando o seu autor tinha cerca de 25 anos. Acrescente-se ainda que, pela cronologia dos acontecimentos, os referidos “Apontamentos relativos à Monarquia Lusitana” suportariam certamente a Terceira parte da Monarchia Lusitana (…), cujo manuscrito se encontra, como referimos, na Biblioteca Nacional de Portugal (Alc. 226). Na verdade, os códices manuscritos, que constituem exemplares das partes primeira a terceira da Monarchia Lusitana (Alc. 224, 225, 226 e 22720), da autoria de Frei Bernardo de Brito, pertenciam ao mosteiro cisterciense de Santa Maria de Alcobaça, e integram, hoje, a Coleção Códices Alcobacences da Biblioteca Nacional. Todavia, os manuscritos incorporados no ‘arquivo pessoal’ Frei Bernardo de Brito fazem parte do processo de criação das referidas obras, uma vez que documentam, também, algumas das fontes (de autoridade) do cronista, de que são exempla, para além de Laymundo Ortega (Antiquitatibus Lusitanorum) e muitos outros21, os presentes nas Notas para a elaboração da Monarquia Lusitana [nº 4, em anexo]: Beroso Babilónico, Plínio – “Historia Natural”, Capsela, Eusebio Cesariense, Frei Heitor Pinto, Josefo, S. Jeronimo [1 fol.], Fr. António da Purificação e Fr. Bernardino [da Silva(?), sobrinho de Frei Bernardo de Brito e também monge alcobacence]. Referências onomásticas e bibliográficas em que Bernardo de Brito fundamenta a sua escrita. Não se trata aqui de avaliar o seu conteúdo, mas tão somente o vínculo dos documentos ao seu natural produtor de modo a podermos aferir da adequação da classificação de arquivo pessoal Frei Bernardo de Brito à unidade de informação reunida sob esta designação na Biblioteca Nacional de Lisboa. Conclusão O intitulado arquivo pessoal Bernardo de Brito, na Biblioteca Nacional de Portugal, detentor de oito documentos manuscritos, é uma construção artificial, provavelmente da segunda década do século XX, sem critério, que resulta da ação de um bibliotecário e da Biblioteca Nacional. Ou, de outro modo, ainda que não desejável e dificilmente defensável, a sua criação seguiu um critério temático, o de arquivo literário, elegendo o autor/produtor como elemento agregador. Porém, tendo seguido este critério, outros doDisponíveis, respetivamente, em http://purl.pt/24324, http://purl.pt/24325, http://purl.pt/24326 e http:// purl.pt/24327. [Consult. em 10 set. 2018]. 21 Independentemente da polémica acerca da existência desses manuscritos no mosteiro alcobacence. A este propósito, veja-se ANSELMO, António – Os códices alcobacences da Biblioteca Nacional I Codices portugueses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1926, p. 13. 20 426 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL cumentos da produção de Frei Bernardo de Brito foram deixados na Coleção de Códices Alcobacences, igualmente sob custódia da Biblioteca Nacional de Portugal. Na verdade, esses documentos, diferentemente do que defendia António Braz de Oliveira acerca dos manuscritos e documentos de outra natureza que integravam os arquivos pessoais, não “espelham o pulsar da oficina de escrita própria de cada criador (mostrando a génese e o devir de cada obra), [nem] ora desvendam o especioso percurso de que foi feito o impulso, sucesso ou insucesso, de muitas intervenções singulares e movimentos colectivos (literários, artísticos, cívicos, etc.),”22 e por que não dizer historiográficos. Ou seja, para que os documentos possam continuar, com o seu vínculo, a ser uma evidência do próprio lugar, deveriam encontrar-se no/a Arquivo/Scriptorium/Biblioteca do mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, onde se encontrariam os códices da coleção alcobacence23 e, de modo particular, aqueles que mantêm uma relação com estes oito manuscritos, designadamente os originais da Monarquia Lusitana, obra maior da historiografia alcobacense. Pela Cronologia e respetivos conteúdos, aqueles oito documentos são antetextos da Terceira parte da Monarchia Lusitana, composta por Frey Bernardo de Brito, monge da Ordem de Cyster, professo no Real Mosteiro de Alcobaça. Encontrando-se no arquivo, pessoal ou da canónica, teriam de manter o vínculo entre si, o que não se evidencia. Encontrando-se na biblioteca, também esta deveria ter integrado os oito referidos documentos, pois todos fazem parte do mesmo processo de criação (arquivístico). Retomando a questão de partida - a unidade informacional reunida na Biblioteca Nacional de Portugal, sob o grupo arquivos pessoais, com a designação Frei Bernardo de Brito é, de facto, um arquivo pessoal? – Não. Não pelo facto de ser um arquivo fragmentado, como são todos os arquivos pessoais, mas pelo facto de os demais documentos produzidos por Frei Bernardo de Brito se encontrarem integrados na coleção de Códices Alcobacences, lugar onde estes oito documentos deveriam permanecer. De outro modo, não se entende por que razão as distintas obras do cronista não se encontram, de igual modo, no ‘seu’ arquivo pessoal. Mas, este certamente não existiria no contexto da comunidade monástica dos monges brancos alcobacences, mesmo tratando-se de um cronista-mor do reino, o fundador da historiografia alcobacence. OLIVEIRA, Antonio Braz de – “Arquivística literária em perspectiva”, in Leituras. Revista da Biblioteca Nacional. Arquivística literária e crítica textual, S. 3, 5, out. 1999-abr. 2000, p. 8. IDEM, coord. – Contributo para um levantamento nacional de espólios literários, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2000, p. 9. 23 Inventário dos Códices Alcobacenses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1930-78. 22 427 CARLOS GUARDADO DA SILVA Referências bibliográficas Fontes ANTT – Chancelaria de D. Filipe II, Liv. 20, p. 231. Biblioteca Nacional de Portugal. Arquivos Privados – Família e Pessoais. BRITO, Bernardo de, O. Cist., Coleções em Organização, cx. 31. 7 docs. Século XVIII. Obras de referência ANSELMO, António Joaquim - Inventário dos códices alcobacenses, Lisboa, Biblioteca Nacional, [1930-1932]. 3 tomos. OLIVEIRA, António Braz de, coord., Contributo para um levantamento nacional de espólios literários, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2000. MARTINS, Lígia de Azevedo, [et al.], int. e org. – Guia preliminar dos fundos de arquivo da Biblioteca Nacional, Lisboa, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1994. Estudos ANSELMO, António – Os códices alcobacences da Biblioteca Nacional I Codices portugueses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1926. BARATA, Paulo J. S. – Os livros e o Liberalismo. da livraria conventual à biblioteca pública. uma alteração de paradigma, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2003. BELLOTTO, Heloísa Liberalli – “Arquivos pessoais em face da teoria arquivística tradicional: Debate com Terry Cook, in Arquivo. Estudos e reflexões, Belo Horizonte, UFMG, 2014, pp. 107-114. 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PEREIRA, Zélia Maria Cruz - O universo dos arquivos pessoais. características, usos e valorização, Évora, Universidade de Évora, 2018, Vol. 1. REGO, A. da Silva – Introdução, in BRITO, Bernardo de, Monarquia Lusitana I, reimp. da ed. fac-similada de 1973, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, pp. XI-XVI. REGO, A. da Silva – Introdução, in BRITO, Bernardo de, Monarquia Lusitana II, reimp. da ed. fac-similada de 1973, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, pp. XI-XVI. RUBIO VILLARÓ, Cristian – Archivos Literarios en Barcelona y su Área Metropolitana. Guía de Fondos Personales de Escritores en Centros Públicos, Barcelona, Universitat Autónoma 428 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL de Barcelona, Escola Superior d’Arxivística i Gestió de Documents, Treball de recerca del Màster d’Arxivística i Gestió de Documents, 2013. SEVILHA, Isidoro de - Etymologiarum, XX, 9.2, in OROZ RETA, Jose; Marcos Casquero, ManuelA., texto latino, versión española y notas, Etimologías, ed. Bilingüe, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2004, pp. 1344-1345. SILVA, Armando Malheiro da – “Arquivos familiares e pessoais: Bases científicas para aplicação do modelo sistémico e interactivo”, in Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património, I Série, vol. III, 2004, pp. 55-84. SILVA, Margareth da – O arquivo e o lugar. A custódia arquivística como responsabilidade pela proteção aos arquivos, São Paulo, Universidade de São Paulo, 2015. 429 CARLOS GUARDADO DA SILVA ANEXO24 “Apontamentos relativos à Monarquia Lusitana” 1 Ao Illustrissimo Senhor Dom Francisco Manoel, conde da Atallaya/Frei Bernardo de Brito, frade da Ordem de São Bernardo D.S.P. Se como a condição de V. S. S e’ como a condição de V. S., Illustrissimo Senhor he conforme com a de Deus em fazer mm sem receber serviços o he também em aceitar vontades por justa satisfação deles asas desculpado fica meu atrevimento, pois se o foy grande aparecer com tão piquena empresa diante de quem mereceo tanto a grandeza da vontade fica suprindo esta falta. Esta receba V. S. em penhor do que pretendo, te chegar tempo em que com serviços mais ymportantes desculpe, o que este condena. De V. S. Mínimo capelão e orador Frey Bernardo de Brito. [fl. 1v.] [em branco] 2 [fl. 2] Prologo em que se responde a certas duvidas que se podião pôr no discurso desta obra. He tão notavel a falta de autores neste reino de Portugal, que escrevam as cousas delle e tanta a multidão dos que notão faltas em alguns que deseijão tirar a luz cousas antigas, que daqui cuido eu ter nacido num sepulchro de nobrezas enterradas em profundo esquecimento. E tão entregues a elle que peza lhe dar algua vida, e he necessaria industria mais que humana ou aventurar-se hum homem ao tempo magico en sua historia, e por fantástica a figura que resucita porque sendo tão pouco conhecida pelos muitos anos que viveo ausente de nossos olhos cuidamos quando a chegamos a ver se algum portentoso monstro traçado na imaginação do historiador como outra chimera comporta das partes que lhe querião dar os sonhos das portas antigas. 24 Biblioteca Nacional de Portugal : Arquivos Privados – Família e Pessoais. BRITO, Bernardo de, O. Cist.. Coleções em Organização, cx. 31. 7 docs. Século XVIII. 430 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL E temor de semelhantes censuras me tem sempre o animo tão suspensso, que não assento a penna pera escrever sem dar mil voltas ao pensamento, buscando nelle modos de me livrar de lingoas portuguesas, das quais como natural que fala com naturais, posso dizer que são nesta materia mais que insufriveis porque quanto menos fazem, tanto mais censurão, julgando os trabalhos alheios, pella ociosidade do seu juízo, sem tacantos conta aos muitos que passa quem compõem algua obra, que mais piquena que seja, e quantos se deve a quem com sua diligencia da vida imortal as façanhas de seos naturais e poem nos olhos do mundo as obras virtuosas que fizeram. E não cuido eu nace em nos esta falta, tanto de envejar escriptores como as obras que nas suas eternizão das quais envejosos aqueles que as tais não fizeram por não parecerem nas faltas ao lume da gloria alheia / [fl. 2v.] [historiador] [fl. 3-5] [fim do prologo] [fl. 5] Tavoada dos capítulos que vão nesta obra Capº primeiro Do alto nacimento de Dom João Manoel, Bispo da Goarda, e de seus verdadeiros progenitores. Capº segundo Das armas e brasão dos… fl. 6v. Capitulo decimo sexto De Dom Francisco Manoel… 3 Livro 25 da Monarquia Lusitana Cap. 1 A Divina Providencia, que do principio sem principio da eternidade havia escolhido os portugueses pera levarem as boas novas do… [1 fl.] 4 [Notas para a elaboração da Monarquia Lusitana] [1 fl.] Beroso Plínio – Historia Natural Liv. 7, cap. 37, p. 116 – Capsela 53 Eusebio Cesariense Fr. Heitor Pinto Josefo S. Jeronimo [1 fol.] Fr. Antonio da Purificação Fr. Bernardino 431 CARLOS GUARDADO DA SILVA 5 Monarquia Lusitana parte 8.ª – Liv. 1º [excerto do] Cap. 4º 1320 Para o filho insofrível, o esperar fora pera elRey insensibilidade o permitir com a porfia se intentava a oposição, como o alimento era indigesto aumentava a cruesa dos ânimos de sorte que com as armas nas mãos sahirão este anno a Campanha a impaciencia e a desconfiança com tal fervor que se rompião os vínculos da natureza e se atropelavão os foros da politica. Era a cidade de Coimbra e seus arrabaldes a parte do reyno em que se levantava maiores lavaredas o fogo da discordia… [fl. 1] [fl. 1v.] Títolo – 1320 Del elRey D. Pedro, o justizoso 1º O filho, a S. Alnselmo arcebispo de Cantuaria concedeo as voses de chanceler mor, ordenando-lhe os dias e os ditos de sua Conceição Immaculada pera que a mandasse celebrar como decretada pela Raynha da Gloria. Ao Abbade S. Ruberto deu o titulo de valido […] 6 Na dominga do Rosario Autores que devo ver pera a historia da Monarchia Lusitana ha de começar no anno de 1325: Era de 1364 ate o anno de 1358, Era de 1396. Rei D. Affonso 4 Curiosidade – criação do mundo martirilogio 5299 + 1367 ano 6566 e com notas de inicio e fim dos reinados de D. Afonso IV, D. Pedro, D. Fernando [1 fl.] 7 1320 Del El Rey D. Pedro, o Justiçozo (Monarquia Lusitana, parte 8ª, Liv. 1º, cap. 1º, 1320) Escuresceo a lus da resão como a Antiguidade fugio do sol que escondera seos raios por não ver a cruesa de Abreu. [Falta o 2.º fl.] [9 fl. , tendo na fl. 9, em baixo, o início do cap. 6º - “Primeiros anos da meninice e creação do infante D. Pedro”. 432 O (PSEUDO)ARQUIVO PESSOAL DE FREI BERNARDO DE BRITO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL 8 [1 bínio + 1 fl.] Lembrança pera ver o illustrissimo padre, o douto Frei Bernardo de Britto, religioso de Cister “No mosteiro de Villa Boa do Bispo, em Riba de Douro, de conegos regulares de nosso padre Santo Augustinho dos novos que Sua Magestade ElRei Phelippe 2º largou a Congregação, de Santa Cruz de Coimbra, esta hua sepultura na porta da claustra do dito mosteiro que entra pera o cruzeiro da igreija, cujo letreiro he o seguinte fielmente tresladado: M.LX Obijt Donnus Monion Veaegas prioli, qui dicitur gaseus, et filijs eius, Egeas Monis, et Gomes Monis, requiescant in pace, Amen. Dentro na igreja do dito mosteiro, entrando polla porta principal a mão direita esta na parede pintado hum bispo dizendo missa que o estão matando huns mouros, e logo em outra parte o estão enterrando huns religiosos, e debaixo desta pintura quasi junto da terra esta hua sepultura em que estão os ossos do bispo D. Sisnando, irmão de Moninho Viegas, os quais mandou, segundo dizem, tresladar D. Manoel d’Azevedo, filho que foi do bispo do Porto D. João, e pai de D. Luis, comendata-(fl. 1v.)rio da Villa Boa do Bispo e de Sam João d’Alpendorada, pera o dito mosteiro de Villa Boa, de sua hermida contigua chamada do Salvador, que esta em hum monte menos de mea legoa pera a parte do nacente, já derribada onde há vestígios de muitas casas e muitas sepulturas ao redor da hermida. Nesta hermida ficou a sepultura muitos anos em que estava sepultado, e aqui disse foi martirizado, estando dizendo missas, e hum lavrador vizinho, avera 60 annos desviando o sepulcro pera lhe servir do comer dos porquos, o tirou da hermida derribada e o pos em hum carro com duas juntas dos bois, e caminhando pera casa encontrou outro lavrador, e perguntou-lhe pera que levava aquella pedra, dizendo que pera porquos, subitamente lhe quebrara as rodas e carro no cume do monte donde já parece o mosteiro, aporfiando o lavrador buscou novo carro, lhe tornou logo a quebrar sem os bois se poderem mover do luguar, cuidando que era por fraquesa dos bois, buscou outras duas juntas e carro ferrado feituo tudo se lhes fez em mil pedaços. Cessou de sua porfia, e teve o sepulcro naquele lugar ate este nosso tempo, em que o Balthesar Rodrigues, vigário do dito mosteiro, e Miguel Santos, cónego dos antigos pidiram (e a Miguel d’Almeida Come da Faria) pera trazerem o sepulcro com dous boys fraquos (fl. 2) que operaram em Deus de o trazerem, e assim foi, oje esta o sepulcro encostado a torre dos sinos do dito mosteiro. Tem o povo fe neste santo pera maleites et indimonindades e dizem os conegos que já curou alguas. Donde fica claro aqui neste mosteiro estão enterrado Monion Viegas et seus filhos Egas Monis et Gomes Monis, o seu irmão Dom Sisnando, bispo que foi do Porto, et parece que deste santos e chama o mosteiro Villa do Bispo, porque elle, o seu irmão, o fazerião, et nelle se recolherão e o seu irmão Moninho Viegas, que dispois de cansado da 433 CARLOS GUARDADO DA SILVA milícia tomaria o habito nelle, et o fariam prior do mosteiro como diz na sepultura, como fez o diantado nestas partes por el Rei D. Afonso 6º Paio Guterres da Silva depois de reedificar Tibaens professou nelle et foi prior, et Nuno Alvares Pereira no Carmo em Lixboa em tempo de El Rei D. João 1º. Em a hermida de Nossa Senhora, a velha, que esta contigua ao mosteiro, estão três sepulturas mais modernas, posto que a hermida sea antiquissimma, et nella fundada o morguado dos Peixotos antigos. Da parte do Evangelho, estão duas; a primeira entrãodo polla porta da hermida diz assim: Aqui jaz Junio Giraldes, vassalo que foi delRei D. Fernando, et corregedor dentre D’Ouro e Minho, et passou (fl. 2v.) XXX dias de janeiro, Era MCCCCXIX anos. Na mesma parte da hermida, junto ao arquo, esta outra: Aqui jaz Dom Niculao Martins, prior que foi de Villaboa do Bispo, et passou XXV dias de novembro, Era de MªCCCLXXXbj Este tem hum vulto de pedra vestido como bispo com mitra e baquo. Da parte da epistola esta outra. este momento he de Dom Salvado, prior deste mosteiro, o qual era dos Milhaços et dos Peixois. [fl. solto] Mosteiro da Serra de Villa Nova do Porto, da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, procurador geral de todos os mosteiros dantre Douro e Minho, critico que na Monarquia não vira a fundação do mosteiro de Villa Boa do Bispo em Riba d’Ouro. P.e Dom Mauricio, que assina, servo de V. “Et tendo lido todas as obras de V. P. a que sam muito afeiçoado, fui dar na 2.ª parte da Sua Monarchia, Lib. 7 e 23 onde achei tudo o que buscava com muito gosto, mas por outra parte fiquei triste por me parecer que nam vio V. P. este mosteiro com os olhos, nem a sepultura de Monio Viegas, pois não diz no livro onde foi enterrado elle com os filhos, porque se ouvira dissera maravilhas do santo mártir, ahi mando tudo o que na verdade há nesta casa. 434 435 436