O projeto miño/minho: balanço de quatro anos de trabalhos arqueológicos

2020

Abstract

Associação dos Arqueólogos Portugueses e CITCEM Lisboa, 2020 O conteúdo dos artigos é da inteira responsabilidade dos autores. Sendo assim a As sociação dos Arqueólogos Portugueses declina qualquer responsabilidade por eventuais equívocos ou questões de ordem ética e legal.

2020 – Estado da Questão Coordenação editorial: José Morais Arnaud, César Neves e Andrea Martins Design gráfico: Flatland Design AAP – ISBN: 978-972-9451-89-8 CITCEM – ISBN: 978-989-8970-25-1 Associação dos Arqueólogos Portugueses e CITCEM Lisboa, 2020 O conteúdo dos artigos é da inteira responsabilidade dos autores. Sendo assim a As­sociação dos Arqueólogos Portugueses declina qualquer responsabilidade por eventuais equívocos ou questões de ordem ética e legal. Desenho de capa: Planta do castro de Monte Mozinho (Museu Municipal de Penafiel). Apoio: Índice 15 Prefácio José Morais Arnaud 1. Historiografia e Teoria 17 Território, comunidade, memória e emoção: a contribuição da história da arqueologia (algumas primeiras e breves reflexões) Ana Cristina Martins 25 Como descolonizar a arqueologia portuguesa? Rui Gomes Coelho 41 Arqueologia e Modernidade: uma revisitação pessoal e breve de alguns aspetos da obra homónima de Julian Thomas de 2004 Vítor Oliveira Jorge 57 Dados para a História das Mulheres na Arqueologia portuguesa, dos finais do século XIX aos inícios do século XX: números, nomes e tabelas Filipa Dimas / Mariana Diniz 73 Retractos da arqueologia portuguesa na imprensa: (in)visibilidades no feminino Catarina Costeira / Elsa Luís 85 Arqueologia e Arqueólogos no Norte de Portugal Jacinta Bugalhão 101 Vieira Guimarães (1864-1939) e a arqueologia em Tomar: uma abordagem sobre o território e as gentes João Amendoeira Peixoto / Ana Cristina Martins Os memoráveis? A arqueologia algarvia na imprensa nacional e regional na presente 115 centúria (2001-2019): características, visões do(s) passado(s) e a arqueologia enquanto marca Frederico Agosto / João Silva 129 A Evolução da Arqueologia Urbana e a Valorização Patrimonial no Barlavento Algarvio: Os casos de Portimão e Silves Artur Mateus / Diogo Varandas / Rafael Boavida 2. Gestão, Valorização e Salvaguarda do Património 145 O Caderno Reivindicativo e as condições de trabalho em Arqueologia Miguel Rocha / Liliana Matias Carvalho / Regis Barbosa / Mauro Correia / Sara Simões / Jacinta Bugalhão / Sara Brito / Liliana Veríssimo Carvalho / Richard Peace / Pedro Peça / Cézer Santos 155 Os Estudos de Impacte Patrimonial como elemento para uma estratégia sustentável de minimização de impactes no âmbito de reconversões agrícolas Tiago do Pereiro 165 Salvaguarda de Património arqueológico em operações florestais: gestão e sensibilização Filipa Bragança / Gertrudes Zambujo / Sandra Lourenço / Belém Paiva / Carlos Banha / Frederico Tatá Regala / Helena Moura / Jacinta Bugalhão / João Marques / José Correia / Pedro Faria / Samuel Melro 179 Os valores do Património: uma investigação sobre os Sítios Pré-históricos de Arte Rupestre do Vale do Rio Côa e de Siega Verde José Paulo Francisco 189 Conjugando recursos arqueológicos e naturais para potenciar as visitas ao Geoparque Litoral de Viana do Castelo (Noroeste de Portugal) Hugo A. Sampaio / Ana M.S. Bettencourt / Susana Marinho / Ricardo Carvalhido 203 Áreas de Potencial Arqueológico na Região do Médio Tejo: Modelo Espacial Preditivo Rita Ferreira Anastácio / Ana Filipa Martins / Luiz Oosterbeek 223 Património Arqueológico e Gestão Territorial: O contributo da Arqueologia para a revisão do PDM de Avis Ana Cristina Ribeiro 237 A coleção arqueológica do extinto Museu Municipal do Porto – Origens, Percursos e Estudos Sónia Couto 251 Valpaços – uma nova carta arqueológica Pedro Pereira / Maria de Fátima Casares Machado 263 Arqueologia na Cidade de Peniche Adriano Constantino / Luís Rendeiro 273 Arqueologia Urbana: a cidade de Lagos como caso de Estudo Cátia Neto 285 Estratégias de promoção do património cultural subaquático nos Açores. O caso da ilha do Faial José Luís Neto / José Bettencourt / Luís Borges / Pedro Parreira 297 Carta Arqueológica da Cidade Velha: Uma primeira abordagem Jaylson Monteiro / Nireide Tavares / Sara da Veiga / Claudino Ramos / Edson Brito / Carlos Carvalho / Francisco Moreira / Adalberto Tavares 311 Antropologia Virtual: novas metodologias para a análise morfológica e funcional Ricardo Miguel Godinho / Célia Gonçalves 3. Didáctica da Arqueologia 327 Como os projetos de Arqueologia podem contribuir para uma comunidade culturalmente mais consciente Alexandra Figueiredo / Claúdio Monteiro / Adolfo Silveira / Ricardo Lopes 337 Educação Patrimonial – Um cidadão esclarecido é um cidadão ativo! Ana Paula Almeida 351 A aproximação da Arqueologia à sala de aula: um caso de estudo no 3º ciclo do Ensino Básico Luís Serrão Gil Arqueologia 3.0 – Pensar e comunicar a Arqueologia para um futuro sustentável 363 Mónica Rolo 377 “Conversa de Arqueólogos” – Divulgar a Arqueologia em tempos de Pandemia Diogo Teixeira Dias 389 Escola Profissional de Arqueologia: desafios e oportunidades Susana Nunes / Dulcineia Pinto / Júlia Silva / Ana Mascarenhas 399 Os Museus de Arqueologia e os Jovens: a oferta educativa para o público adolescente Beatriz Correia Barata / Leonor Medeiros 411 O museu universitário como mediador entre a ciência e a sociedade: o exemplo da secção de arqueologia no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) Rita Gaspar 421 Museu de Lanifícios: Real Fábrica de Panos. Atividades no âmbito da Arqueologia Beatriz Correia Barata / Rita Salvado 427 Arqueologia Pública e o caso da localidade da Mata (Torres Novas) Cláudia Manso / Ana Rita Ferreira / Cristiana Ferreira / Vanessa Cardoso Antunes 431 Do sítio arqueológico ao museu: um percurso (também) didático Lídia Fernandes 447 Estão todos convidados para a Festa! E para dançar também… O projecto do Serviço Educativo do Museu Arqueológico do Carmo na 5ª Edição da Festa da Arqueologia Rita Pires dos Santos 459 O “Clã de Carenque”, um projeto didático de arqueologia Eduardo Gonzalez Rocha 469 Mediação cultural: peixe que puxa carroça nas Ruínas Romanas de Troia Inês Vaz Pinto / Ana Patrícia Magalhães / Patrícia Brum / Filipa Santos 481 Didática Arqueológica, experiências do Projeto Mértola Vila Museu Maria de Fátima Palma / Clara Rodrigues / Susana Gómez / Lígia Rafael 4. Arte Rupestre 497 Os inventários de arte rupestre em Portugal Mila Simões de Abreu 513 O projeto FIRST-ART – conservação, documentação e gestão das primeiras manifestações de arte rupestre no Sudoeste da Península Ibérica: as grutas do Escoural e Maltravieso Sara Garcês / Hipólito Collado / José Julio García Arranz / Luiz Oosterbeek / António Carlos Silva / Pierluigi Rosina / Hugo Gomes / Anabela Borralheiro Pereira / George Nash / Esmeralda Gomes / Nelson Almeida / Carlos Carpetudo 523 Trabalhos de documentação de arte paleolítica realizados no âmbito do projeto PalæoCôa André Tomás Santos / António Fernando Barbosa / Luís Luís / Marcelo Silvestre / Thierry Aubry 537 Imagens fantasmagóricas, silhuetas elusivas: as figuras humanas na arte do Paleolítico Superior da região do Côa Mário Reis 551 Os motivos zoomórficos representados nas placas de tear de Vila Nova de São Pedro (Azambuja, Portugal) Andrea Martins / César Neves / José M. Arnaud / Mariana Diniz 571 Arte Rupestre do Monte de Góios (Lanhelas, Caminha). Síntese dos resultados dos trabalhos efectuados em 2007-2009 Mário Varela Gomes 599 Gravuras rupestres de barquiformes no Monte de S. Romão, Guimarães, Noroeste de Portugal Daniela Cardoso 613 Círculos segmentados gravados na Bacia do Rio Lima (Noroeste de Portugal): contributos para o seu estudo Diogo Marinho / Ana M.S. Bettencourt / Hugo Aluai Sampaio 631 Equídeos gravados no curso inferior do Rio Mouro, Monção (NW Portugal). Análise preliminar Coutinho, L.M. / Bettencourt, A.M.S / Sampaio, Hugo A.S 645 Paletas na Arte Rupestre do Noroeste de Portugal. Inventário preliminar Bruna Sousa Afonso / Ana M. S. Bettencourt / Hugo A. Sampaio 5. Pré-História 661 O projeto Miño/Minho: balanço de quatro anos de trabalhos arqueológicos Sérgio Monteiro-Rodrigues / João Pedro Cunha‑Ribeiro / Eduardo Méndez‑Quintas / Carlos Ferreira / Pedro Xavier / José Meireles / Alberto Gomes / Manuel Santonja / Alfredo Pérez‑González 677 A ocupação paleolítica da margem esquerda do Baixo Minho: a indústria lítica do sítio de Pedreiras 2 (Monção, Portugal) e a sua integração no contexto regional Carlos Ferreira / João Pedro Cunha-Ribeiro / Sérgio Monteiro-Rodrigues / Eduardo Méndez-Quintas / Pedro Xavier / José Meireles / Alberto Gomes / Manuel Santonja / Alfredo Pérez-González 693 O sítio acheulense do Plistocénico médio da Gruta da Aroeira Joan Daura / Montserrat Sanz / Filipa Rodrigues / Pedro Souto / João Zilhão 703 As sociedades neandertais no Barlavento algarvio: modelos preditivos com recurso aos SIG Daniela Maio 715 A utilização de quartzo durante o Paleolítico Superior no território dos vales dos rios Vouga e Côa Cristina Gameiro / Thierry Aubry / Bárbara Costa / Sérgio Gomes / Luís Luís / Carmen Manzano / André Tomás Santos 733 Uma perspetiva diacrónica da ocupação do concheiro do Cabeço da Amoreira (Muge, Portugal) a partir da tecnologia lítica Joana Belmiro / João Cascalheira / Célia Gonçalves 745 Novos dados sobre a Pré-história Antiga no concelho de Palmela. A intervenção arqueológica no sítio do Poceirão I Michelle Teixeira Santos 757 Problemas em torno de Datas Absolutas Pré-Históricas no Norte do Alentejo Jorge de Oliveira 771 Povoamento pré-histórico nas áreas montanhosas do NO de Portugal: o Abrigo 1 de Vale de Cerdeira Pedro Xavier / José Meireles / Carlos Alves 783 Apreciação do povoamento do Neolítico Inicial na Baixa Bacia do Douro. A Lavra I (Serra da Aboboreira) como caso de estudo Maria de Jesus Sanches 797 O Processo de Neolitização na Plataforma do Mondego: os dados do Sector C do Outeiro dos Castelos de Beijós (Carregal do Sal) João Carlos de Senna-Martinez / José Manuel Quintã Ventura / Andreia Carvalho / Cíntia Maurício 823 Novos trabalhos na Lapa da Bugalheira (Almonda, Torres Novas) Filipa Rodrigues / Pedro Souto / Artur Ferreira / Alexandre Varanda / Luís Gomes / Helena Gomes / João Zilhão 837 A pedra polida e afeiçoada do sítio do Neolítico médio da Moita do Ourives (Benavente, Portugal) César Neves 857 Casal do Outeiro (Encarnação, Mafra): novos contributos para o conhecimento do povoamento do Neolítico final na Península de Lisboa. Cátia Delicado / Carlos Maneira e Costa / Marta Miranda / Ana Catarina Sousa 873 Stresse infantil, morbilidade e mortalidade no sítio arqueológico do Neolítico Final/ Calcolítico (4º e 3º milénio a.C.) do Monte do Carrascal 2 (Ferreira do Alentejo, Beja) Liliana Matias de Carvalho / Sofia N. Wasterlain Come together: O Conjunto Megalítico das Motas (Monção, Viana do Castelo) e as 885 expressões Campaniformes do Alto Minho Ana Catarina Basílio / Rui Ramos 899 Trabalhos arqueológicos no sítio Calcolítico da Pedreira do Poio Carla Magalhães / João Muralha / Mário Reis / António Batarda Fernandes 913 O sítio arqueológico de Castanheiro do Vento. Da arquitectura do sítio à arquitectura de um território João Muralha Cardoso 925 Estudo zooarqueológico das faunas do Calcolítico final de Vila Nova de São Pedro (Azambuja, Portugal): Campanhas de 2017 e 2018 Cleia Detry / Ana Catarina Francisco / Mariana Diniz / Andrea Martins / César Neves / José Morais Arnaud 943 As faunas depositadas no Museu Arqueológico do Carmo provenientes de Vila Nova de São Pedro (Azambuja): as campanhas de 1937 a 1967 Ana Catarina Francisco / Cleia Detry / César Neves / Andrea Martins / Mariana Diniz / José Morais Arnaud 959 Análise funcional de material lítico em sílex do castro de Vila Nova de S. Pedro (Azambuja, Portugal): uma primeira abordagem Rafael Lima 971 O recinto da Folha do Ouro 1 (Serpa) no contexto dos recintos de fossos calcolíticos alentejanos António Carlos Valera / Tiago do Pereiro / Pedro Valério / António M. Monge Soares 6. Proto-História 987 Produção de sal marinho na Idade do Bronze do noroeste Português. Alguns dados para uma reflexão Ana M. S. Bettencourt / Sara Luz / Nuno Oliveira / Pedro P. Simões / Maria Isabel C. Alves / Emílio Abad-Vidal 1001 A estátua-menir do Pedrão ou de São Bartolomeu do Mar (Esposende, noroeste de Portugal) no contexto arqueológico da fachada costeira de entre os rios Neiva e Cávado Ana M. S. Bettencourt / Manuel Santos-Estévez / Pedro Pimenta Simões / Luís Gonçalves 1015 O Castro do Muro (Vandoma/Baltar, Paredes) – notas para uma biografia de ocupação da Idade do Bronze à Idade Média Maria Antónia D. Silva / Ana M. S. Bettencourt / António Manuel S. P. Silva / Natália Félix 1031 Do Bronze Final à Idade Média – continuidades e hiatos na ocupação de Povoados em Oliveira de Azeméis João Tiago Tavares / Adriaan de Man 1041 As faunas do final da Idade do Bronze no Sul de Portugal: leituras desde o Outeiro do Circo (Beja) Nelson J. Almeida / Íris Dias / Cleia Detry / Eduardo Porfírio / Miguel Serra 1055 A Espada do Monte das Oliveiras (Serpa) – uma arma do Bronze Pleno do Sudoeste Rui M. G. Monge Soares / Pedro Valério / Mariana Nabais / António M. Monge Soares 1065 São Julião da Branca (Albergaria-a-Velha) - Investigação e valorização de um povoado do Bronze Final António Manuel S. P. Silva / Paulo A. P. Lemos / Sara Almeida e Silva / Edite Martins de Sá 1083 Do castro de S. João ao Mosteiro de Santa Clara: notícia de uma intervenção arqueológica, em Vila do Conde Rui Pinheiro 1095 O castro de Ovil (Espinho), um quarto de século de investigação – resultados e questões em aberto Jorge Fernando Salvador / António Manuel S. P. Silva 1111 O Castro de Salreu (Estarreja), um povoado proto-histórico no litoral do Entre Douro e Vouga Sara Almeida e Silva / António Manuel S. P. Silva / Paulo A. P. Lemos / Edite Martins de Sá 1127 Castro de Nossa Senhora das Necessidades (Sernancelhe): uma primeira análise artefactual Telma Susana O. Ribeiro 1141 A cividade de Bagunte. O estado atual da investigação Pedro Brochado de Almeida 1153 Zoomorfos na cerâmica da Idade do Ferro no NW Peninsular: inventário, cronologias e significado Nuno Oliveira / Cristina Seoane 1163 Vasos gregos em Portugal: diferentes maneiras de contar a história do intercâmbio cultural na Idade do Ferro Daniela Ferreira 1175 Os exotica da necrópole da Idade do Ferro do Olival do Senhor dos Mártires (Alcácer do Sal) no seu contexto regional Francisco B. Gomes 7. Antiguidade Clássica e Tardia 1191 O uso de madeira como combustível no sítio da Quinta de Crestelos (Baixo Sabor): da Idade do Ferro à Romanização Filipe Vaz / João Tereso / Sérgio Simões Pereira / José Sastre / Javier Larrazabal Galarza / Susana Cosme / José António Pereira / Israel Espi 1207 Cultivos de Época Romana no Baixo Sabor: continuidade em tempos de mudança? João Pedro Tereso / Sérgio Simões Pereira / Filipe Santos / Luís Seabra / Filipe Vaz 1221 A casa romana na Hispânia: aplicação dos modelos itálicos nas províncias ibéricas Fernanda Magalhães / Diego Machado / Manuela Martins 1235 As pinturas murais romanas da Rua General Sousa Machado, n.º 51, Chaves José Carvalho 1243 Trás do Castelo (Vale de Mir, Pegarinhos, Alijó) – Uma exploração agrícola romana do Douro Tony Silvino / Pedro Pereira 1255 A sequência de ocupação no quadrante sudeste de Bracara Augusta: as transformações de uma unidade doméstica Lara Fernandes / Manuela Martins 1263 Os Mosaicos com decoração geométrica e geométrico-vegetalista dos sítios arqueológicos da área do Conuentus Bracaraugustanus. Novas abordagens quanto à conservação, restauro, decoração e datação Maria de Fátima Abraços / Licínia Wrench 1277 “Casa Romana” do Castro de São Domingos (Cristelos, Lousada): Escavação, Estudo e Musealização Paulo André de P. Lemos 1291 A arqueobotânica no Castro de Guifões (Matosinhos, Noroeste de Portugal): O primeiro estudo carpológico Luís Seabra / Andreia Arezes / Catarina Magalhães / José Varela / João Pedro Tereso 1305 Um Horreum Augustano na Foz do Douro (Monte do Castelo de Gaia, Vila Nova de Gaia) Rui Ramos 1311 Ponderais romanos na Lusitânia: padrões, formas, materiais e contextos de utilização Diego Barrios Rodríguez 1323 Um almofariz centro-itálico na foz do Mondego Marco Penajoia 1335 Estruturas romanas de Carnide – Lisboa Luísa Batalha / Mário Monteiro / Guilherme Cardoso 1347 O contexto funerário do sector da “necrópole NO” da Rua das Portas de S. Antão (Lisboa): o espaço, os artefactos, os indivíduos e a sua interconectividade na interpretação do passado Sílvia Loja, José Carlos Quaresma, Nelson Cabaço, Marina Lourenço, Sílvia Casimiro, Rodrigo Banha da Silva, Francisca Alves-Cardoso 1361 Povoamento em época Romana na Amadora – resultados de um projeto pluridisciplinar Gisela Encarnação / Vanessa Dias 1371 A Arquitectura Residencial em Mirobriga (Santiago do Cacém): contributo a partir de um estudo de caso Filipe Sousa / Catarina Felício 1385 O fim do ciclo. Saneamento e gestão de resíduos nos edifícios termais de Mirobriga (Santiago do Cacém) Catarina Felício / Filipe Sousa 1399 Balsa, Topografia e Urbanismo de uma Cidade Portuária Vítor Silva Dias / João Pedro Bernardes / Celso Candeias / Cristina Tété Garcia 1413 No Largo das Mouras Velhas em Faro (2017): novas evidências da necrópole norte de Ossonoba e da sua ocupação medieval Ricardo Costeira da Silva / Paulo Botelho / Fernando Santos / Liliana Nunes 1429 Instrumentos de pesca recuperados numa fábrica de salga em Ossonoba (Faro) Inês Rasteiro / Ricardo Costeira da Silva / Paulo Botelho 1439 A Necrópole Romana do Eirô, Duas Igrejas (Penafiel): intervenção arqueológica de 2016 Laura Sousa / Teresa Soeiro 1457 Ritual, descarte ou afetividade? A presença de Canis lupus familiaris na Necrópole Noroeste de Olisipo (Lisboa) Beatriz Calapez Santos / Sofia Simões Pereira / Rodrigo Banha da Silva / Sílvia Casimiro / Cleia Detry / Francisca Alves Cardoso 1467 Dinâmicas económicas em Bracara na Antiguidade Tardia Diego Machado / Manuela Martins / Fernanda Magalhães / Natália Botica 1479 Cerâmicas e Vidros da Antiguidade Tardia do Edifício sob a Igreja do Bom Jesus (Vila Nova de Gaia) Joaquim Filipe Ramos 1493 Novos contributos para a topografia histórica de Mértola no período romano e na Antiguidade Tardia Virgílio Lopes 8. Época Medieval 1511 Cerâmicas islâmicas no Garb setentrional “português”: algumas evidências e incógnitas Constança dos Santos / Helena Catarino / Susana Gómez / Maria José Gonçalves / Isabel Inácio / Gonçalo Lopes / Jacinta Bugalhão / Sandra Cavaco / Jaquelina Covaneiro / Isabel Cristina Fernandes / Ana Sofia Gomes 1525 Contributo para o conhecimento da cosmética islâmica, em Silves, durante a Idade Média Rosa Varela Gomes 1537 Yábura e o seu território – uma análise histórico‑arqueológica de Évora entre os séculos VIII‑XII José Rui Santos 1547 A encosta sul do Castelo de Palmela – resultados preliminares da escavação arqueológica Luís Filipe Pereira / Michelle Teixeira Santos 1559 A igreja de São Lourenço (Mouraria, Lisboa): um conjunto de silos e de cerâmica medieval islâmica Andreia Filipa Moreira Rodrigues 1571 O registo material de movimentações populacionais no Médio Tejo, durante os séculos XII-XIII. Dois casos de “sunken featured buildings”, nos concelhos de Cartaxo e Torres Novas Marco Liberato / Helena Santos / Nuno Santos 1585 O nordeste transmontano nos alvores da Idade média. Notas para reflexão Ana Maria da Costa Oliveira 1601 Sepulturas escavadas na rocha do Norte de Portugal e do Vale do Douro: primeiros resultados do Projecto SER-NPVD Mário Jorge Barroca / César Guedes / Andreia Arezes / Ana Maria Oliveira 1619 “Portucalem Castrum Novum” entre o Mediterrâneo e o Atlântico: o estudo dos materiais cerâmicos alto-medievais do arqueossítio da rua de D. Hugo, nº. 5 (Porto) João Luís Veloso 1627 A Alta Idade Média na fronteira de Lafões: notas preliminares sobre a Arqueologia no Concelho de Vouzela Manuel Luís Real / Catarina Tente 1641 Um conjunto cerâmico medieval fora de portas: um breve testemunho aveirense Susana Temudo 1651 Os Lóios do Porto: uma perspetiva integrada no panorama funerário da Baixa Idade Média à Época Moderna em meios urbanos em Portugal Ana Lema Seabra 1659 O Caminho Português Interior de Santiago como eixo viário na Idade Média Pedro Azevedo 1665 Morfologia Urbana: Um exercício em torno do Castelo de Ourém André Donas-Botto / Jaqueline Pereira 1677 Intervenção arqueológica na Rua Marquês de Pombal/Largo do Espírito Santo (Bucelas, Loures) Florbela Estêvão / Nathalie Antunes-Ferreira / Dário Ramos Neves / Inês Lisboa 1691 O Cemitério Medieval do Poço do Borratém e a espacialidade funerária na cidade de Lisboa Inês Belém / Vanessa Filipe / Vasco Noronha Vieira / Sónia Ferro / Rodrigo Banha da Silva 1705 Um Espaço Funerário Conventual do séc. XV em Lisboa: o caso do Convento de São Domingos da Cidade Sérgio Pedroso / Sílvia Casimiro / Rodrigo Banha da Silva / Francisca Alves Cardoso 9. Época Moderna e Contemporânea 1721 Arqueologia Moderna em Portugal: algumas reflexões críticas em torno da quantificação de conjuntos cerâmicos e suas inferências históricas e antropológicas Rodrigo Banha da Silva / André Bargão / Sara da Cruz Ferreira 1733 Faianças de dois contextos entre os finais do século XVI e XVIII do Palácio dos Condes de Penafiel, Lisboa Martim Lopes / Tomás Mesquita 1747 Um perfil de consumo do século XVIII na foz do Tejo: O caso do Mercado da Ribeira, Lisboa Sara da Cruz Ferreira / Rodrigo Banha da Silva / André Bargão 1761 Os Cachimbos dos Séculos XVII e XVIII do Palácio Mesquitela e Convento dos Inglesinhos (Lisboa) Inês Simão / Marina Pinto / João Pimenta / Sara da Cruz Ferreira / André Bargão / Rodrigo Banha da Silva 1775 «Tomar os fumos da erua que chamão em Portugal erua sancta». Estudo de Cachimbos provenientes da Rua do Terreiro do Trigo, Lisboa Miguel Martins de Sousa / José Pedro Henriques / Vanessa Galiza Filipe 1787 Cachimbos de Barro Caulínitico da Sé da Cidade Velha (República de Cabo Verde) Rodrigo Banha da Silva / João Pimenta / Clementino Amaro 1801 Algumas considerações sobre espólio não cerâmico recuperado no Largo de Jesus (Lisboa) Carlos Boavida 1815 Adereços de vidro, dos séculos XVI-XVIII, procedentes do antigo Convento de Santana de Lisboa (anéis, braceletes e contas) Joana Gonçalves / Rosa Varela Gomes / Mário Varela Gomes 1837 Da ostentação, luxo e poder à simplicidade do uso quotidiano: arqueologia e simbologia de joias e adornos da Idade Moderna Portuguesa Jéssica Iglésias 1849 Os amuletos em Portugal – dos objetos às superstições: o coral vermelho Alexandra Vieira 1865 Cerâmicas de Vila Franca de Xira nos séculos XV e XVI Eva Pires 1879 «Não passa por teu o que me pertence». Marcas de individualização associadas a faianças do Convento de Nossa Senhora de Aracoeli, Alcácer do Sal Catarina Parreira / Íris Fragoso / Miguel Martins de Sousa 1891 Cerâmica de Leiria: alguns focos de produção Jaqueline Pereira / André Donas-Botto 1901 Os Fornos na Rua da Biquinha, em Óbidos Hugo Silva / Filipe Oliveira 1909 A casa de Pêro Fernandes, contador dos contos de D. Manuel I: o sítio arqueológico da Silha do Alferes, Seixal (século XVI) Mariana Nunes Ferreira 1921 O Alto da Vigia (Sintra) e a vigilância e defesa da costa Alexandre Gonçalves / Sandra Santos 1937 O contexto da torre sineira da Igreja de Santa Maria de Loures Paulo Calaveira / Martim Lopes 1949 A Necrópole do Hospital Militar do Castelo de São Jorge e as práticas funerárias na Lisboa de Época Moderna Susana Henriques / Liliana Matias de Carvalho / Ana Amarante / Sofia N. Wasterlain 1963 SAND – Sarilhos Grandes Entre dois Mundos: o adro da Igreja e a Paleobiologia dos ossos humanos recuperados Paula Alves Pereira / Roger Lee Jesus / Bruno M. Magalhães 1975 Expansão urbana da vila de Cascais no século XVII e XVIII: a intervenção arqueológica na Rua da Vitória nº 15 a 17 Tiago Pereira / Vanessa Filipe 1987 Novos dados para o conhecimento do Urbanismo de Faro em época Moderna Ana Rosa 1995 Um exemplo de Arqueologia Urbana em Alcoutim: o Antigo Edifício dos CTT Marco Fernandes / Marta Dias / Alexandra Gradim / Virgílio Lopes / Susana Gómez Martínez 2007 Palácio dos Ferrazes (Rua das Flores/Rua da Vitória, Porto): a cocheira de Domingos Oliveira Maia Francisco Raimundo 2021 As muitas vidas de um edifício urbano: História, Arqueologia e Antropologia no antigo Recreatório Paroquial de Penafiel Helena Bernardo / Jorge Sampaio / Marta Borges 2035 O convento de Nossa Senhora da Esperança de Ponta Delgada: o contributo da arqueologia para o conhecimento de um monumento identitário João Gonçalves Araújo / N’Zinga Oliveira 2047 Arqueologia na ilha do Corvo… em busca da capela de Nossa Senhora do Rosário Tânia Manuel Casimiro / José Luís Neto / Luís Borges / Pedro Parreira 2059 Perdidos à vista da Costa. Trabalhos arqueológicos subaquáticos na Barra do Tejo Jorge Freire / José Bettencourt / Augusto Salgado 2071 Arqueologia marítima em Cabo Verde: enquadramento e primeiros resultados do projecto CONCHA José Bettencourt / Adilson Dias / Carlos Lima / Christelle Chouzenoux / Cristóvão Fonseca / Dúnia Pereira / Gonçalo Lopes / Inês Coelho / Jaylson Monteiro / José Lima / Maria Eugénia Alves / Patrícia Carvalho / Tiago Silva 2085 Trabalhos arqueológicos na Cidade Velha (Ribeira Grande de Santiago, Cabo Verde): reflexões sobre um projecto de investigação e divulgação patrimonial André Teixeira / Jaylson Monteiro / Mariana Mateus / Nireide Tavares / Cristovão Fonseca / Gonçalo C. Lopes / Joana Bento Torres / Dúnia Pereira / André Bargão / Aurélie Mayer / Bruno Zélie / Carlos Lima / Christelle Chouzenoux / Inês Henriques / Inês Pinto Coelho / José Lima / Patrícia Carvalho / Tiago Silva 2103 A antiga fortificação de Quelba / Khor Kalba (E.A.U.). Resultados de quatro campanhas de escavações, problemáticas e perspectivas futuras Rui Carita / Rosa Varela Gomes / Mário Varela Gomes / Kamyar Kamyad 2123 Colónias para homens novos: arqueologia da colonização agrária fascista no noroeste ibérico Xurxo Ayán Vila / José Mª. Señorán Martín DOI: https://doi.org/10.21747/978-989-8970-25-1/arqa49 o projeto miño/minho: balanço de quatro anos de trabalhos arqueológicos Sérgio Monteiro-Rodrigues1, João Pedro Cunha‑Ribeiro2, Eduardo Méndez‑Quintas3, Carlos Ferreira4, Pedro Xavier5, José Meireles6, Alberto Gomes7, Manuel Santonja8, Alfredo Pérez‑González9 RESUMO Apresentam-se os resultados mais significativos do projeto Miño/Minho, após quatro anos de trabalhos de campo (2016-2019). Os principais sítios intervencionados – Pedreiras 2 e Bela, Monção, e Carvalhas (loci 1, 2, 3 e 4), Melgaço –, associados a depósitos fluviais do rio Minho ou a formações deles derivadas, forneceram indústrias líticas talhadas, genericamente enquadráveis no tecno-complexo Acheulense. Tendo em conta ou- tros dados obtidos na região, mais especificamente na margem direita do rio Minho (Galiza), estas indústrias datarão de diferentes momentos dentro do Pleistocénico médio. Palavras-chave: Acheulense, Rio Minho, Monção, Melgaço. ABSTRACT The most significant results of the Miño-Minho project after four years of fieldwork (2016-2019) are presented. The main sites – Pedreiras 2 and Bela, Monção, and Carvalhas (loci 1, 2, 3 and 4), Melgaço –, associated with fluvial deposits of the Minho River or with formations derived from them, provided lithic assemblages that can be connected with the Acheulean techno-complex. Taking into account data obtained in the region, more specifically on the right bank of the Minho River (Galicia), these assemblages may date from different mo- ments within the Middle Pleistocene. Keywords: Acheulean, Minho River, Monção, Melgaço. 1. INTRODUÇÃO guês como na Galiza, embora a ritmos bastante dife- renciados (Cunha‑Ribeiro & alii, 2017). Os trabalhos de investigação sobre os terraços do rio No novo milénio, as investigações na região pros- Minho e sobre as indústrias líticas a eles associadas seguiram, sendo de destacar dois projetos indepen- remontam aos finais do século XIX, desenvolvendo­ dentes entre si, com objetivos e áreas de intervenção ‑se ao longo do século XX tanto no território portu- distintos. O primeiro projeto – no quadro de uma 1. Faculdade de Letras, Universidade do Porto; Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” (CITCEM); [email protected] 2. Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa; Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ); Lab2pt; [email protected] 3. Grupo de Estudos de Arqueoloxía, Antigüidade e Territorio (GEAAT), University of Vigo, Campus As Lagoas, 32004 Ourense, Spain; [email protected] 4. Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa; [email protected] 5. UMinho; Lab2pt; [email protected] 6. UMinho; Lab2pt; [email protected] 7. Faculdade de Letras, Universidade do Porto; Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Territorio (CEGOT); [email protected] 8. Centro Nacional de Investigacion sobre la Evolucion Humana (CENIEH), Burgos; [email protected]. 9. IDEA, Instituto de Evolución en África, Covarrubias 36, 28010 Madrid; [email protected] 661 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão tese de doutoramento defendida em 2013 na Uni- Budiño (Aguirre, 1964; Butzer, 1967; Vidal Encinas, versidade de Wageningen, Holanda – centrou-se na 1982a, 1982b; Texier, 1984; Texier & alii, 1981; Giles análise do controlo exercido pela tectónica na evolu- Pacheco & alii, 2000; Méndez-Quintas, 2007, 2008; ção do sistema de terraços fluviais, de origem glacio- Méndez-Quintas & alii, 2019b), como também se -eustática, do Baixo Minho (Viveen, 2013; Viveen procedeu ao estudo de novas jazidas, que determi- & alii, 2013a, 2013b, 2014). Realizado em ambas as naram a realização de sondagens e de escavações, margens do rio, este estudo permitiu identificar 10 nalguns casos com resultados excecionais. Foi o níveis de terraço, dispostos em escadaria a partir da caso de O Cabrón, no concelho de Arbo, onde foi atual planície aluvial, tendo as respetivas interpre- possível reconhecer materiais líticos talhados asso- tações conduzido à realização de um registo carto- ciáveis ao tecno-complexo Acheulense, com uma gráfico das várias formações sedimentares (Viveen datação mínima de 119.000 anos (Méndez-Quintas & alii, 2013a). A combinação de datações obtidas por & alii, 2018c). Na jazida de Porto Maior, no concelho OSL e por isótopos cosmogénicos (10Be) em depó- de As Neves, identificaram-se quatro distintos ní- sitos da margem esquerda do rio Minho, a jusan- veis de ocupação acheulense, datados de 300.0000 te de Valença (Viveen & alii, 2012), confirmaram o a 200.000 anos, destacando-se a descoberta num alargado período de tempo em que terá decorrido a desses níveis, em posição primária, de uma inusita- formação dos terraços fluviais, considerando-se os da concentração de bifaces, machados de mão e trie- mais elevados anteriores à transição do Pleistocéni- dros, com morfologias e dimensões que encontram co Inferior para o Pleistocénico Médio (>780 Ka), e paralelo apenas em contextos africanos (Méndez- distribuindo-se os restantes entre o início do Pleis- -Quintas & alii, 2018) (Figura 1). tocénico Médio e o Pleistocénico Superior. Os projetos de W. Viveen e de E. Méndez-Quintas A par do trabalho de W. Viveen, exclusivamente de foram por nós assumidos como o ponto de partida âmbito geomorfológico, desenvolveu­‑se, na margem para a realização do nosso próprio projeto, que de- direita do Minho, um outro programa de investigação nominámos Miño/Minho. De momento, os traba- centrado no estudo geoarqueológico das ocupações lhos daqueles investigadores reúnem a informação paleolíticas aí existentes (Méndez­‑Quintas, 2017; mais atualizada sobre os terraços fluviais do Baixo Méndez­‑Quintas & alii, 2019a; Méndez­‑Quintas & Minho e sobre as indústrias líticas acheulenses a alii, 2020a). Com ele pretendeu­‑se (e pretende­‑se eles associadas. ainda) dar continuidade aos projetos pontuais inicia- dos nos anos oitenta e nos finais da década de noventa 2. O PROJETO DE INVESTIGAÇÃO (Cunha­‑Ribeiro & alii, 2017), seguindo­‑se agora uma MIÑO/MINHO perspetiva mais atualizada e com forte cariz interdis- ciplinar, fruto de avanços técnicos e metodológicos, O projecto Miño/Minho – Os primeiros habitantes que procurou também integrar a realidade arqueoló- do Baixo Minho. Estudo das ocupações pleistocéni- gica regional no âmbito mais alargado da Península cas da região, submetido em 2015 à Direção Geral do Ibérica (Méndez­‑Quintas & alii, 2019a, 2020a; 2020b; Património Cultural como Projeto de Investigação Demuro & alii, 2020). Plurianual de Arqueologia (PIPA), teve como prin- A existência ou não de uma ocupação anterior ao cipal objetivo, como se referiu, dar continuidade aos Pleistocénico Médio e a caracterização das indústrias trabalhos levados a cabo nos últimos anos na Gali- acheulenses localmente representadas, tanto no que za, no setor do Baixo Minho (Cunha-Ribeiro & alii, diz respeito à sua “origem” como ao seu devir, foram 2017), conduzidos por Eduardo Méndez-Quintas, algumas das problemáticas que E. Méndez-Quintas Manuel Santonja Gómez e Alfredo Pérez González almejou esclarecer. Para o efeito privilegiou o estu- (Méndez-Quintas, 2017; Méndez-Quintas & alii, do de sítios e de materiais líticos que se encontravam 2018, 2019a, 2019c; Méndez-Quintas & alii, 2020a). associados a contextos estratigráficos bem definidos, O projecto Miño/Minho pretende, assim, estudar os promovendo concomitantemente o estudo desses mais antigos vestígios da presença humana na área mesmos contextos, em geral correspondentes a ter- do curso final do rio Minho, entre a confluência com raços fluviais ou a depósitos deles derivados. Neste o rio Trancoso, na sua margem esquerda, e a foz, 75 sentido, não só se recuperaram os trabalhos ante- km a jusante. Os referidos vestígios, corresponden- riormente realizados na jazida de As Gándaras de do a indústrias líticas de idade paleolítica, surgem 662 conservados em formações sedimentares pleisto- leção exumada, tanto em termos tecno-tipológicos, cénicas, nomeadamente em terraços fluviais, que se como em termos cronológico-culturais. desenvolvem ao longo de ambas as margens do rio Terminada a intervenção inicial, e ainda em 2016, (Cunha Ribeiro & alii, 2017) (Figura 2). optou-se por dirigir a atenção para um outro pon- Os diversos trabalhos arqueológicos realizados en- to mais a oeste – que foi denominado Pedreiras 2 – tre 2016 e 2019 – que incluíram prospeções e esca- onde um derrube do talude de um caminho de terra vações – permitem uma primeira caraterização do batida havia exposto alguns artefactos líticos asso- Paleolítico Inferior do Baixo Minho, nomeadamen- ciáveis ao tecno-complexo Acheulense, nomeada- te da margem portuguesa, até há pouco tempo co- mente um biface de grandes dimensões, sobre sei- nhecido apenas através de pequenos conjuntos arte- xo rolado de quartzito (Figura 4). A sua descoberta factuais provenientes de contextos algo imprecisos ocorreu quando um dos autores (Alberto Gomes) (Cunha-Ribeiro & alii, 2017, 2018; Méndez-Quintas procedia a um dos vários reconhecimentos geomor- & alii, 2020b). fológicos da área em torno das jazidas de Pedreiras. No sentido de compreender o contexto estratigrá- 2.1. Concelho de Monção: os sítios de Pedreiras 1, fico dos referidos artefactos procedeu-se não só à Pedreiras 2 e Bela limpeza da vegetação na totalidade do talude, como também à sua verticalização e posterior registo de- Pedreiras 1 e Pedreiras 2 talhado. Estes trabalhos permitiram a recolha de Em 2016 e 2017, os trabalhos arqueológicos efetua- mais material lítico, que, entretanto, se verificou dos em Monção concentraram-se na área da União estar associado exclusivamente a depósitos coluvio- de Freguesias de Messegães, Valadares e Sá, mais nares canalizados, que se embutiam em sedimentos precisamente junto à povoação de Bemposta, inci- arenosos finos de origem fluvial (possivelmente dindo nas jazidas de Pedreiras 1 e Pedreiras 2. de inundação) (Figura 4). Tal situação aconselhou A importância arqueológica de Pedreiras 1 foi assi- a abertura de uma sondagem na parte superior do nalada por um arqueólogo amador de nacionalidade talude (sondagem 1), visando-se dois objetivos: espanhola, Manuel Ledo, que relatou ter ali identi- verificar o desenvolvimento em profundidade dos ficado diversos artefactos líticos talhados, aquando depósitos coluvionares e avaliar a sua real extensão, da abertura da variante à EN 202, que liga Monção nomeadamente para o lado sul da jazida. a Melgaço. Segundo M. Ledo, parte dos artefactos Relativamente ao primeiro objetivo, a sondagem líticos surgiram no talude que ladeia a norte a refe- revelou a existência, a cerca de 2 m de profundida- rida variante. de, de uma camada cascalhenta – matriz-suportada, Em função desta informação – mais tarde sustenta- composta por areias grosseiras, seixos rolados de da pela descoberta de um biface e de um núcleo na quartzito e de quartzo e blocos de granito – à qual se área em questão por um dos membros do projeto associava a indústria lítica das Pedreiras 2 (Figura 4). Minho/Miño (J. P. Cunha Ribeiro) – procedeu-se, Embora em posição secundária, o estado físico dos em 2016, à abertura de uma sondagem de 2 m2 na artefactos líticos, essencialmente com arestas vivas, parte superior do talude com o objectivo de aferir sugere um transporte de curta distância, possivel- a real importância arqueológica do local. No entan- mente de uma zona próxima de cota ligeiramente to, a sondagem viria a ser rapidamente abandonada mais alta, em fluxos de muito baixa energia. Os tra- porque depois da remoção do delgado solo vegetal balhos realizados em 2017 – que consistiram, essen- logo se atingiu o substrato granítico. Os trabalhos cialmente, na abertura de mais sondagens na parte voltaram-se, então, para a limpeza e regularização superior do talude (Figura 4) – mostraram que os de um pequeno corte que ladeia um caminho, um artefactos tendiam a concentrar-se numa área rela- pouco mais para poente, onde era visível um depó- tivamente restrita, o que corrobora a hipótese de se sito com seixos rolados de quartzito e quartzo. Estas estar perante uma coleção homogénea. acções permitiram constatar que se estava peran- Relativamente ao segundo objetivo, as intervenções te uma formação coluvionar, com pouca possança de 2017 permitiram constatar que as coluviões se cir- (Figura 3), muito pobre do ponto de vista arqueo- cunscreviam às imediações do talude, não se conhe- lógico. De facto, nas Pedreiras 1 não foi recolhido cendo ainda com rigor nem o desenvolvimento nem qualquer artefacto suscetível de diagnosticar a co- a orientação dos canais que estas originam (Figura 4). 663 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão No que concerne especificamente aos materiais exu- de jazida sugerem que as ocupações humanas da mados (200 peças), em excelente estado físico, os re- área terão ocorrido numa zona arenosa, ribeirinha, sultados obtidos permitem registar a presença de uma sujeita quer à dinâmica fluvial, quer a processos de indústria enquadrável no tecno-complexo Acheu- erosão na vertente (Figura 6). O baixo, ou quase lense, associada ao predomínio de cadeias operató- nulo, grau de rolamento dos artefactos líticos indicia rias de debitagem relativamente expeditas e simples. algum transporte, todavia de curta distância. Alter- Com efeito, paralelamente à presença de produtos nativamente, este ligeiro rolamento das peças po- configurados característicos deste tecno-complexo derá decorrer do facto de elas se encontrarem num (bifaces e machados de mão), provavelmente intro- meio arenoso que seria periodicamente remexido duzidos no local já em fase de uso, documenta-se pelas águas do Minho, criando-se assim condições a existência de um conjunto principal constituído favoráveis à sua abrasão. por produtos de debitagem relativamente expedi- A presença de bifaces entre os artefactos recolhidos tos, elaborados maioritariamente a partir da explo- na jazida de Bela permite relacioná­‑los com o tecno­ ração de seixos rolados de quartzito (Ferreira & alii, ‑complexo Acheulense. Ao contrário do que sucede neste volume). nos loci 2 e 3 das Carvalhas, Melgaço (vide infra) e em Em suma, o valor da indústria lítica de Pedreiras 2, alguns sítios da Galiza, nomeadamente Porto Maior em sintonia com a realidade documentada nas ja- (na margem direita do Minho, praticamente em fren- zidas do Baixo Minho, com uma cadeia operatória te à jazida de Bela) (Méndez­‑Quintas, 2017; Méndez­ com uma composição análoga à documentada nas ‑Quintas & alii, 2018), estes bifaces apresentam di- jazidas da margem direita, e ainda noutros conjun- mensões bastante reduzidas, aproximando­‑se assim tos acheulenses peninsulares (Ferreira & alii, neste dos exumados no locus 1 das Carvalhas (vide infra). volume), expressa-se pelo facto de se estar perante Tendo sido alvo apenas de uma intervenção pon- a primeira estação arqueológica Acheulense na área tual, a jazida de Bela carece ainda de mais investiga- do Concelho de Monção, onde até há poucos anos se ção, que será levada a cabo assim que possível. conheciam apenas artefactos líticos isolados. 2.2. Concelho de Melgaço: os sítios das Carvalhas Bela e Monte Crasto Com o objectivo de aprofundar os conhecimentos sobre a evolução geomorfológica do setor do rio Carvalhas Minho compreendido entre Monção e Melgaço, No concelho de Melgaço, os trabalhos até ago- realizou-se, em abril de 2018, uma saída de cam- ra realizados no âmbito do projeto Miño/Minho po que visou essencialmente o reconhecimento de concentraram­‑se essencialmente na Veiga de Re- alguns terraços fluviais assinalados na cartografia moães, mais precisamente na denominada jazida geológica. Durante os trabalhos levados a cabo na de Carvalhas. Esta jazida foi por nós identificada em freguesia de Bela, a cerca de 5 Km a leste de Monção, 2014, no decurso de prospeções arqueológicas leva- detetaram-se algumas peças talhadas num talude das a cabo na área envolvente às Termas de Melga- subjacente à EN 202. Após a sua limpeza sumária, ço, onde Abel Viana, ainda na primeira metade do verificou-se que o material arqueológico era abun- século XX, havia assinalado a presença de materiais dante, pelo que se decidiu proceder à realização de líticos talhados, que associou ao Paleolítico (Cunha- sondagens de diagnóstico na área, o que veio a acon- -Ribeiro & alii,, 2017). A identificação de materiais tecer em maio de 2019 (Figura 5). similares na superfície de alguns terrenos e em acu- Apesar de duas das sondagens se revelarem esté- mulações de seixos que servem para delimitar pro- reis do ponto de vista arqueológico (mas ainda as- priedades corroboraram as informações que nos sim com dados importantes para o entendimento foram dadas por colegas espanhóis que, em 2010, da morfogénese do sítio), noutras duas foi possível haviam visitado o local durante trabalhos de surriba verificar a associação de artefactos líticos a um de- numa das vinhas da área. Logo em 2014 confirmou- pósito constituído por sedimento arenoso fino de -se a associação dos materiais líticos a terraços flu- origem fluvial e por material mais grosseiro, essen- viais do rio Minho, o que motivou a realização dos cialmente granítico, proveniente da vertente loca- trabalhos geoarqueólogicos subsequentes (Cunha- lizada a sul da área intervencionada. Tais condições -Ribeiro & alii, 2017). 664 A jazida das Carvalhas abrange uma área consi- vam sob a forma de pequenas relíquias, tendo, no derável, que inclui os loci 1, 2, 3 e 4. Nestes loci foi passado, deslizado em direção ao canal. De facto, as possível detetar distintos conjuntos artefactuais, de peças talhadas recolhidas em contexto de vertente cronologia paleolítica, integrados em contextos se- não possuem boleamento das arestas. No entanto, dimentares diversificados (Figura 7). esta característica física, ainda que pouco acentuada, observa-se no material que surge nos depósitos flu- Locus 1 viais, tendo sido adquirida após a sua deposição no Apesar de extremamente antropizado – nomeada- paleocanal do Minho. mente devido a trabalhos agrícolas e à abertura de Do ponto de vista cronológico-cultural, a indústria uma vala, em tempos históricos, para drenagem de lítica dos loci 2 e 3 das Carvalhas é enquadrável no terrenos – o locus 1 conservou, nas depressões de tecno-complexo Acheulense, sendo de destacar a um patamar granítico que ladeia um paleocanal do presença de bifaces e de machados de mão de grande rio Minho (Figura 7), um depósito fluvial, que em- dimensão, produzidos a partir de seixos rolados de bala material lítico talhado com alguma abundância. quartzito (Figura 9). Tendo em conta as suas características sedimento- genéticas, trata-se, muito provavelmente, de um Locus 4 depósito de inundação acumulado em ambientes O locus 4, localizado junto à entrada da Quinta da de baixa energia (Figura 8), numa etapa em que o Veiga (Figura 7), foi identificado em 2014, aquan- paleocanal estaria já colmatado e o rio Minho ainda do de uma breve visita ao local. Nessa altura, por acima do seu leito atual. casualidade, detetou-se um biface semi-enterrado A coleção de artefactos líticos exumada no locus 1 num caminho que conduz ao rio Minho, junto do inclui bifaces, que se caracterizam pelas suas redu- qual se observou também um pequeno talude que zidas dimensões (Figura 8), e um número muito cortava o rebordo de um terraço fluvial (Figura 10). expressivo de produtos de debitagem, alguns dos Aquando do início dos trabalhos de campo nas quais retocados. As arestas vivas das peças e a sua Carvalhas, já no âmbito do projeto Miño/Minho concentração numa área relativamente restrita cor- (2016), identificaram-se nesse mesmo talude mais robora a hipótese de se estar perante uma coleção alguns artefactos líticos, nomeadamente um biface que sofreu pouco transporte. e um machado de mão. Em função destas desco- bertas, decidiu-se, em 2017, proceder à abertura de Loci 2 e 3 uma sondagem na superfície do terraço (Figura 10). Os loci 2 e 3 abrangem uma faixa que se estende, apro- Não obstante as reduzidas dimensões da sondagem ximadamente, desde o sopé do Monte Prado até ao (4 m2) e toda uma série de outros contratempos patamar granítico onde se localiza o locus 1 (Figuras que impediram a sua escavação integral, foi possí- 7 e 9). Com recurso a meios mecânicos, abriu-se, no vel recolher um pequena coleção de objetos líticos, local, uma vala com cerca de 14 m de comprimen- enquadráveis no tecno-complexo Acheulense. Tais to, que permitiu identificar um possante depósito objetos, com vestígios de rolamento muito ténues fluvial (> 4 m de espessura), que colmata um antigo e alguma eolização, surgem exclusivamente nos ní- canal (ou paleomeandro?) do rio Minho, cuja base veis arenosos da parte superior do terraço fluvial. se implanta a cerca de 10-15 m acima do leito atual. Trabalhos arqueológicos posteriores permitiram No extremo da vala, junto à base do Monte Prado, reconhecer o revolvimento do setor sul do terraço, detetou-se uma interestratificação de sedimentos resultante da exploração mineira outrora aí desen- fluviais e sedimentos provenientes da vertente, que volvida. Os vestígios desta última atividade, teste- indicam a ocorrência de fluxos de detritos, de tipo munhados pela presença de pequenas conheiras, debris flow, possivelmente controlados por fatores não eliminam, porém, o potencial arqueológico do de ordem climática. locus 4 junto do talude inicialmente intervenciona- Muito embora o material lítico talhado ocorra tanto do, onde se tentará ainda desenvolver uma pequena no depósito fluvial como nos depósitos de verten- escavação em área, que permita não só aumentar o te, sugere-se, provisoriamente, que ele será prove- número de artefactos líticos, como também melhor niente de antigos depósitos existentes na base da compreender os processos de formação do contexto encosta do Monte Prado, onde ainda hoje se conser- geoarqueológico aí preservado. 665 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão Monte Crasto processamento laboratorial no âmbito de um pro- No concelho de Melgaço assinala-se ainda a exis- jeto de datações para jazidas pleistocénicas ibéri- tência de uma outra jazida acheulense, localizada na cas. Os resultados entretanto obtidos (a publicar) vertente meridional do Monte Crasto, na freguesia corroboram a idade pleistocénica dos depósitos que de Penso, a uma altitude absoluta próxima dos 230 embalam o material lítico talhado, não se afastando m. Os respetivos materiais líticos talhados foram ali das datas conhecidas noutras áreas da região (De- recolhidos por um particular aquando de trabalhos muro et alii, 2020; Méndez-Quintas 2017, Méndez- de revolvimento do subsolo para a criação de uma -Quintas & alii, 2020a). pequena área de lazer. No sentido de se detetar o depósito arqueológico, 4. CONCLUSÕES abriram-se com meios mecânicos diversas valas em vários pontos estratégicos, não se conseguindo, to- Num balanço preliminar dos trabalhos realizados davia, identificar qualquer formação antiga com a entre 2016 e 2019 no âmbito do projeto Miño/Mi- qual os materiais líticos se pudessem relacionar (Fi- nho, pode afirmar-se que os dados coligidos teste- gura 11). De facto, nas referidas valas, que atingiram munham a inegável importância arqueológica da sempre o substrato granítico, observaram-se unica- margem esquerda do Baixo Minho para o estudo mente depósitos arenosos, de textura grosseira, nos do Paleolítico peninsular, justificando plenamente quais se desenvolve um solo orgânico, de cor negra, o objetivo originalmente delineado de se vir a de- muito pouco evoluído, com cerca de 1 m de espessu- senvolver tal estudo associando de forma integrada ra. Na periferia da área, os depósitos revelam claras ambas as margens do rio. perturbações de origem antrópica, havendo mesmo Mesmo se os resultados obtidos têm levado a uma re- pontos com aterros recentes. programação dos trabalhos, concentrando-se esfor- As peças líticas do Monte Crasto incluem produtos ços nas intervenções desenvolvidas nalgumas jazi- configurados e diversos produtos de talhe em pro- das localizadas numa pequena área repartida entre porções relativamente equilibradas, mesmo não os concelhos de Melgaço e de Monção, o número de descartando a possibilidade de na sua recolha ter jazidas já identificadas e as problemáticas a elas as- existido alguma seleção dos objetos mais expressi- sociadas permitem reformular de forma inovadora vos. O conjunto revela ainda uma manifesta homo- o nosso conhecimento sobre o Paleolítico da região, geneidade, tanto pelas matérias-primas utilizadas, sendo também certo que o estudo das coleções de como pelas arestas muito boleadas de todas as pe- materiais líticos talhados entretanto recolhidos, e ças. Tal facto não deixa de ser curioso dada a inexis- que se encontra já a ser desenvolvido, não deixará de tência de qualquer linha de água nas imediações do reforçar tal situação. sítio arqueológico. Perante esta situação, importa Os materiais reunidos encontram-se associados continuar a desenvolver trabalhos no local no senti- tanto a contextos fluviais (de fundo de canal e ní- do de se poder vir a determinar as reais condições de veis de inundação), como a depósitos coluvionares, jazida destes artefactos líticos talhados, associáveis revelando a presença do homem paleolítico em dis- à presença do homem paleolítico numa posição to- tintas posições na topografia do vale. Por outro lado, pográfica do vale até agora desconhecida na área do as indústrias líticas, genericamente associáveis ao projeto Miño/Minho. tecno-complexo Acheulense, permitem vislumbrar a presença de alguns produtos configurados de gran- 3. DATAÇÕES ABSOLUTAS NO ÂMBITO des dimensões, elaborados quer a partir de grandes DO PROJETO MIÑO/MINHO lascas, quer a partir de grandes seixos rolados, a par de outros conjuntos com materiais configurados de No decurso das intervenções em Monção e em Mel- menor volumetria, nos quais os produtos de debita- gaço recolheram-se, nas várias jazidas arqueológicas gem apresentam uma maior representatividade. (Pedreira 2, Bela e Carvalhas), diversas amostras de Urge, portanto, dar continuidade a este projeto, quer sedimentos com o objetivo de realizar datações por num quadro forçosamente interdisciplinar, quer OSL. Tais amostras foram extraídas por Lee Arnold numa necessária colaboração transfronteiriça, visan- e Martina Demuro, da Universidade de Adelaide, do uma melhor caracterização das indústrias líticas Austrália, tendo sido eles os responsáveis pelo seu localmente representadas, apurando o seu enqua- 666 dramento cronológico e procurando a modelização MÉNDEZ‑QUINTAS, E. (2017) – Caracterización y varia- da evolução da paisagem do vale, com o estudo da bilidad tecnomorfológica de las industrias achelenses de la história da formação da bacia hidrográfica do rio Mi- Cuenca Baja del Río Miño (NO de la Península Ibérica). Tesis Doctoral, Universidad de Burgos, Escuela Interuniversita- nho, desde as suas etapas mais antigas até à formação ria de Posgrado en Evolucion Humana, CENIEH, Universi- da rede hidrográfica atual. dad de Alcalá, Universidad de Oviedo, p. 628. MÉNDEZ-QUINTAS, E.; SANTONJA, M.; PÉREZ- BIBLIOGRAFIA -GONZÁLEZ, A.; ARNOLD, L. J.; CUNHA-RIBEIRO, J. 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Figura 1 – Biface de grandes dimensões da jazida de Porto Maior, As Neves (Galiza). 668 Figura 2 – Delimitação aproximada da área abrangida pelo Projeto Miño/Minho. Triângulos: principais jazidas paleolíticas intervencionadas, quer no âmbito do projeto Miño/Minho, quer no âmbito de outros projetos desenvolvidos na Galiza. Figura 3 – Jazida de Predreiras 1, Monção. Corte regularizado durante os trabalhos de campo de 2016. Descrição estratigráfica sumária: UE1 – Solo orgânico recente enterrado por um nível de aterro; UE2 – Depósito silto-arenoso, maciço, de cor alaran- jada, possivelmente de origem eólica, com um número muito reduzido de artefactos líticos talhados; UE3 – Depósito rico em seixos rolados de quartzito e quartzo e com clastos angulosos de granito, matriz-suportados, sem qualquer estruturação sedimentar, no qual se encontrou a maior parte da indústria lítica talhada; UE4 – Alterite granítica parcialmente remobilizada e com evidências de bioturbação. 669 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão Figura 4 – Jazida de Pedreiras 2, Monção. A – Talude onde se identificou o biface (foto D) que conduziu à descoberta da estação arqueológica. Descrição estratigráfica sumária: UE1, UE2, UE3 – Depósitos fluviais arenosos com estratificação horizontal, arqueologicamente estéreis (cota da base: 35 m acima do leito atual do rio Minho); UE4, UE5, UE6 – Depósitos coluvionares em canais que se entrecortam; UE7 – Solo atual. B – Plataforma sobre o talude, intervencionada em 2016 (sondagem 1) e 2017. C – Sequência estratigráfica observada na área da sondagem 1: UE1 – Solo atual; UE2 e UE3 – Depósito silto-arenoso, possi- velmente eólico; UE4 – Depósito coluvionar onde surge o material lítico talhado; UE5 – Depósito fluvial arenoso, correspon- dente à UE2 do talude. 670 Figura 5 – Sítio de Bela, Monção. A – Talude subjacente à EN 202, limpo em 2018; B – Bifaces recolhidos no local durante a limpeza do talude; C – Implantação das sondagens sobre o terraço fluvial, em 2019. 671 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão Figura 6 – Sítio de Bela, Monção. A – O quadrado branco assinala o talude da EN 202 limpo em 2018 e a área intervenciona- da em 2019. B – Estratigrafia observada numa das sondagens. Descrição sumária: UE1 – Solo atual (afetado pelos trabalhos agrícolas); UE2 – Depósito silto-arenoso aluvionar; UE3 – Depósito coluvionar; UE4 – Depósito coluvionar claramente rela- cionado com o desmantelamento da vertente localizada a sul; UE5 – Depósito areno-siltoso constituído por areias fluviais e material de vertente, que embala artefactos líticos talhado: UE6 – Areias finas fluviais, na base das quais aparecem pontual- mente seixos rolados de quartzito. Este material, que assenta no substrato granítico, faz parte da cobertura sedimentar do terraço do Minho implantado a cerca de 25 m acima do curso atual. 672 Figura 7 – Vista aérea para SW da jazida das Carvalhas, Melgaço, indicando-se os diversos loci intervencionados e um paleo- canal do rio Minho. 673 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão Figura 8 – Locus 1 durante a campanha de escavação de 2017. O material lítico associa-se a um depósito de origem fluvial, que se conserva apenas nas depressões do bedrock granítico. Trata-se de um depósito com matriz arenosa fina, de cor alaranjada, mui- to concrecionado, que embala pequenos seixos rolados de quartzito, bem imbricados. A superfície granítica que lhe subjaz, implantada a cerca de 20 m acima do curso atual do Minho, apresenta vestígios de erosão fluvial, nomeadamente polimento. 674 Figura 9 – Localização dos loci 2 e 3 da jazida das Carvalhas. A – Posição dos loci no paleocanal do rio Minho, assinalando-se os fluxos de vertente no sentido do canal, a partir do sopé do Monte do Prado. B – Interestratificação de sedimentos fluviais (conglomeráticos, clasto-suportados) e sedimentos de vertente (conglomeráticos, matriz-suportados, ricos em fragmentos angulosos de granito) numa sondagem aberta em 2016. C – Bifaces recolhidos no depósito fluvial, na zona de interestratifica- ção. D – Biface de grandes dimensões recolhido no depósito fluvial. Observe-se o ténue boleamento das arestas. 675 Arqueologia em Portugal / 2020 – Estado da Questão Figura 10 – Locus 4 das Carvalhas. A – Talude junto ao caminho que conduz ao rio Minho, onde se observam sedimen- tos que fazem parte de um terraço fluvial implantado à cota de 20 m acima do leito atual do rio. B – Biface encontrado em 2014, que permitiu a identificação do sítio arqueológico. C – Sedimento arenoso que embala o material lítico talha- do (níveis superiores), observado na sondagem realizada em 2017. Figura 11 – Monte Crasto, Penso. Abertura de valas com recurso a meios mecânicos e exemplar de biface pertencente à coleção recolhida no local (pelo Sr. José Cardoso, de Penso). 676 Apoio:

References (26)

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